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07
Mar21

Covid-19: Paraguai vive noite de fúria entre polícia e manifestantes que querem a renúncia do presidente

Talis Andrade

Um manifestante perto de uma barricada em chamas durante a noite de violentos protestos em Assunção, capital do Paraguai. Em 6 de março de 2021.

Um manifestante perto de uma barricada em chamas durante a noite de violentos protestos em Assunção, capital do Paraguai. Em 6 de março de 2021. REUTERS - CESAR OLMEDO

 

Paraguai tem 3.256 mortos e 164 mil casos de Covid-19

 

por Márcio Resende
 

O protesto em frente ao Congresso era para ser pacífico, mas os enfrentamentos transformaram o centro da capital Assunção numa zona de guerra com um morto, vários feridos e um rastro de estragos materiais. A polícia ergueu um lenço branco de rendição. Um grupo de manifestantes passou a noite em vigília para exigir a renúncia do presidente Mario Abdo por má administração sanitária. A oposição avalia pedir a destituição do presidente.

A multidão atendeu a convocação que circulou pelas redes sociais para uma manifestação pacífica em frente ao Congresso que demonstrasse a insatisfação com a falta de uma política sanitária do governo, mas, depois de duas horas, começou o confronto entre os manifestantes e os agentes de segurança.

Os manifestantes gritavam "Fora Marito", em referência ao apelido do presidente paraguaio, Mario Abdo Benítez, o Marito. O protesto avançou contra a formação em linha da polícia que funcionava como uma barreira de proteção ao Palácio Legislativo. Os agentes reagiram para dispersar os que forçavam a passagem. A partir desse ponto, a região se tornou uma praça de guerra.

A polícia disparava jatos d'água, balas de borracha e bombas de gás lacrimogêneo. Os manifestantes respondiam com pedras. Durante horas, houve correria e perseguição pelo centro de Assunção. Carros, lojas e edifícios públicos foram parcialmente destruídos.

 

A Central de Polícia foi atacada por manifestantes encapuzados que improvisaram barricadas para enfrentar as forças de segurança. A essa altura, os protestos também aconteciam em frente ao Palácio do Governo, onde os manifestantes gritaram palavras de ordem contra o presidente.

Noite de fúria

O delegado Silvino Leguizamón pediu um cessar fogo. Um grupo de policiais levantou um lenço branco e pediu trégua. Os manifestantes estavam em maior número. A polícia tinha perdido vários agentes feridos e tinha ficado sem balas de borracha.

Na negociação entre o delegado e manifestantes, ficou acertado que o protesto continuaria, mas de forma pacífica como no começo. Entoando o hino nacional paraguaio, os manifestantes retornaram ao Parlamento, onde disseram que continuariam até o presidente renunciar.

"Faço um pedido a toda a população em convulsão pelo fim da violência. Peço aos meios de comunicação que transmitam paz. Peço a Polícia Nacional que pare de disparar balas de borracha. E peço aos jovens que parem de atirar pedras", clamou o arcebispo de Assunção, Edmundo Valenzuela.

Até a madrugada, do lado dos manifestantes, o saldo parcial era de um homem de 32 anos morto por uma facada no coração e, pelo menos, 18 feridos com balas de borracha e intoxicação provocada pelo gás lacrimogêneo. Do lado da polícia, foram 11 feridos por traumatismos, a maioria de crânio, devido às pedras lançadas.

O ministro do Interior, Arnaldo Giuzzio, afirmou que a violência foi provocada por infiltrados na manifestação e transmitiu uma mensagem de calma por parte do presidente Mario Abdo.

As lideranças do Partido Liberal, principal partido opositor, vão se reunir neste sábado (6) para definir se pedirá a destituição do presidente por mau desempenho de funções durante a pandemia.

Renúncia do ministro da Saúde

Ciente da pressão social e do protesto que se anunciava pelas redes sociais, durante a tarde, o presidente Mario Abdo pediu a renúncia do ministro da Saúde Pública, Julio Mazzoleni, uma renúncia que o próprio Senado já tinha pedido na quinta-feira ao classificar o ministro como "negligente, improvisado e inoperante".

Durante a semana, o sindicato de enfermeiros, com o apoio de parentes dos pacientes de Covid-19, denunciou a falta de medicamentos e de material médico. "É um momento no qual se faz absolutamente necessário que os paraguaios fiquem unidos para combater a pandemia. Tomara que esta decisão sirva para unir o país", disse Mazzoleni ao anunciar a sua renúncia.

A saída do ministro, no entanto, não foi suficiente para acalmar a indignação popular com a falta de resposta do governo diante do aumento de casos, do colapso de hospitais e da ausência de vacinas.

Até agora, o governo paraguaio só obteve 4 mil doses da Sputnik V. Neste sábado, chegarão 20 mil doses da CoronaVac doadas pelo governo do Chile.

Com sete milhões de habitantes, o Paraguai tem 3.256 mortos e 164 mil casos de Covid-19 e um sistema de saúde precário que não responde a atual quantidade diária de doentes.

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