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24
Mar22

Como a fuga de cérebros em meio à diáspora brasileira afeta o Brasil e sua economia?

Talis Andrade

Cientistas se preparam para sequenciar amostras da variante Ômicron do SARS-CoV-2, no Centro de Pesquisa Ndlovu, em Elandsdoorn, na África do Sul, no dia 8 de dezembro de 2021 - Sputnik Brasil, 1920, 17.03.2022AP Photo / Jerome Delay

por Sputnik
 
Nunca na história desse país houve tantos brasileiros morando no exterior. Segundo dados do Itamaraty divulgados em setembro do ano passado, o número de expatriados cresceu 35% entre 2010 e 2020, passando de 3,1 milhões para 4,2 milhões. A Sputnik explica por que isso preocupa tanto as principais associações científicas do país.
 
Embora seja uma população variada em busca de condições de vida melhores, o que mais preocupa os especialistas ouvidos pela Sputnik Brasil é a fuga de cérebros.
 
Isso porque a redução nos investimentos nacionais na tecnologia e na ciência é um entrave para profissionais extremamente qualificados — e uma oportunidade para alçar voos internacionais.
 
Estimativas do professor Eduardo Picanço Cruz, da Universidade Federal Fluminense, apontam que 51% dos brasileiros que moram na Alemanha, por exemplo, têm ao menos uma graduação; na França, o percentual de residentes brasileiros graduados chega a 76%.
 

Bolsas congeladas

 

A perda de um contingente extremamente qualificado de pessoas está relacionada também ao baixo investimento em educação. O cenário se agravou com a economia em dificuldades, o que levou muitos estudantes e especialistas a trabalhar e pesquisar em outros países.
 
Um dos reflexos mais nítidos dessa situação diz respeito às bolsas de mestrado e doutorado que estão congeladas há quase dez anos. Para recuperarem o poder aquisitivo de 2013, seria necessário um reajuste de 66% nos valores — algo que, ante as políticas educacionais do governo de Jair Bolsonaro (PL), não está previsto para ocorrer a curto ou médio prazo.
 
A vontade de trabalhar no exterior cresceu nas classes mais abastadas. Um levantamento da consultoria Hayman-Woodward, especializada em mobilidade global, aponta que, de março a agosto de 2021, houve um aumento de 62% de brasileiros de classe AB com nível superior indo para os Estados Unidos. Uma evasão de mão de obra ultraespecializada de brasileiros, segundo disse Leonardo Freitas, CEO da consultoria, ao jornal Valor Econômico.
 

Impacto da fuga de cérebros

 

Mas qual é a dimensão dessa diáspora de brasileiros altamente qualificados mundo afora?
 
Em conversa com a Sputnik Brasil, Renato Janine Ribeiro, ex-ministro da Educação e atual presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), aponta uma complexa cadeia de desdobramentosquando profissionais altamente qualificados deixam o país em busca de condições melhores de trabalho e de vida.
 

O impacto é significativo. Porque junto com a fuga de cérebros vem a perda de muitos equipamentos que a gente tem. Por exemplo, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, que fica no Vale do Paraíba. O INPE tem 70% dos seus pesquisadores com direito à aposentadoria. Não se aposentam porque querem continuar a trabalhar, mas se o fizerem, praticamente fecha o INPE. Lá há um setor de lançamento de foguetes, que está praticamente parado. Está praticamente sem gente, então você passa a uma série de problemas que não são só o da fuga de cérebros", avaliou ele.

Ao mesmo tempo, Ribeiro acrescenta que as universidades acabam ficando ociosas, com muitas vagas.
 
 
Cientista em laboratório do Instituto de Física da USP, São Carlos, SP, Brasil, 30 de agosto de 2021 - Sputnik Brasil, 1920, 16.03.2022
Cientista em laboratório do Instituto de Física da USP, São Carlos, SP, Brasil, 30 de agosto de 2021© REUTERS / Carla Carniel
 
 
"Os professores que se aposentam não estão sendo substituídos, ou a pessoa não se aposenta para não deixar a área dela descoberta. Então você tem a formação de gente muito nova, qualificada, mas essas pessoas formadas não estão tendo espaço para render tudo o que elas aprenderam, o que elas estudaram, o que elas pesquisaram. Esse é o grande problema", aponta o ex-ministro.
 
E, na hora em que o estudioso deve retribuir todo esse conhecimento adquirido para a sociedade, o governo impõe um corte de verbas.
 

Em seguida, você tem a falta de recursos para contratar pessoas, falta de recursos para equipamentos, falta de recursos para ampliar o sistema universitário brasileiro, e isso fica muito claro quando o ministro Paulo Guedes reclama que estão se formando engenheiros demais no Brasil. E diz: 'engenheiro andando no Uber é sinal que tem engenheiro demais'. Ele está totalmente errado, porque não é que tem engenheiro demais. É que a economia está fraca. Se a economia estivesse boa, a economia estaria colocando todo esse pessoal que se forma no mercado de trabalho. Porque cada vez que você tem um avanço econômico no Brasil, você sente falta de mão de obra qualificada. Aconteceu várias vezes e vai voltar a acontecer se continuarem as coisas assim", criticou o presidente da SBPC.

 

Pesquisador do ICB-USP manipula amostras de sangue contaminado pelo vírus da zika. - Sputnik Brasil, 1920, 16.03.2022

Pesquisador do ICB-USP manipula amostras de sangue contaminado pelo vírus da zika. © Folhapress / Diego Padgurschi
 
 
 

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