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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

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O CORRESPONDENTE

18
Set18

Choque de realidade

Talis Andrade

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por Pedro J. Bondaczuk

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Muitos escritores de hoje carecem de um choque de realidade. Precisam deixar seus confortáveis gabinetes de trabalho e sair para as ruas, praças e avenidas, onde a vida, de fato, acontece.


Têm que subir os morros, visitar favelas, mocambos e alagados e conhecer como parte considerável da população, e não apenas brasileira, mas mundial, vive neste início de século XXI. Embora cantado e decantado, em verso e prosa, por pseudoprofetas futuristas, num passado (não tão remoto assim) como uma era de maravilhas, este período atual, em linhas gerais não é, no aspecto social, nada, nada melhor do que seu antecessor. É bastante provável, até, que tenha se deteriorado ainda mais.


Sempre quando se toca nesse tema, o referente às carências de quase quatro bilhões de pessoas, ou seja, de dois terços da humanidade, logo vêm os “patrulheiros” do politicamente correto apontar seu dedo acusador, dizendo que quem tem essa ousadia está recorrendo à “apelação”. Estaria? Claro que não!


As melhores obras literárias de todos os tempos tiveram, como “pano de fundo”, a miséria. O que dizer, por exemplo, dessa obra-prima de Vítor Hugo, que é o romance “Os miseráveis”? Ou de “Notre Dame de Paris”, traduzida, entre nós, como “O corcunda de Notre Dame”? Ou dos contos de Máximo Gorki, retratando uma Rússia pós-revolucionária, miserável e sofrida, que batalhava por justiça social?


Aliás, um dos melhores contos que já li desse autor foi “A mãe”, em que ele retrata, de forma cruamente realista, as dificuldades de uma jovem adolescente, que vive num miserável cortiço, despreparada para a maternidade precoce, e que luta, como pode, para assegurar a sobrevivência do filho paralítico. Este é tão dependente dela, que traz os pés em carne viva, mordidos por ratos, os quais não tem força para espantar e impedir que lhe causem danos como este.


Há casos em que protagonistas se transformam em narradores. Em que personagens, sem abrirem mão de seus papéis, invadem nosso domínio e assumem a condição de escritores, para relatar, em toda a sua crueza, a miséria que lhes é corriqueira.


Carolina Maria de Jesus foi uma dessas pessoas. Dizem que seu livro, “Quarto de despejo”, publicado no início dos anos 60, é, até hoje, o maior best-seller brasileiro de todos os tempos, informação que não posso comprovar ou desmentir, por não contar com dados precisos a respeito.


Mas esse diário de uma catadora de papéis, semianalfabeta, negra, pobre e favelada, vendeu milhões de exemplares, foi traduzido para diversas línguas, deu projeção nacional e internacional à autora e fez com que, temporariamente, tivesse uma vida melhor. Mas, cruelmente, ela foi devolvida, em pouco tempo, à sua hedionda realidade e findou por morrer na miséria, a mesma com a qual conviveu a vida toda. O que foi feito com o fantástico lucro gerado por seu livro? Ninguém sabe e ninguém viu.


Tenho em mãos um poema, que me foi enviado, em 2007, pela jornalista Diana Lima, escrito por Sílvio Luiz Monteiro de Oliveira, que compartilho com você, prezado leitor. E o que ele tem de diferente? Tem lá suas imperfeições técnicas, sem dúvida. Pode nem ser um primor de versificação (não pretendo entrar nesse mérito). Mas traz algo que nós, escritores, perseguimos incansavelmente e nem sempre conseguimos: o selo da autenticidade. Porquanto, foi escrito por um morador de rua, um dos milhões de “homeless” (forma chique de caracterizar os sem-teto), espalhados pelo mundo afora.


Notem o grau de informação e de consciência da realidade mundial dessa vítima do mais terrível dos “apartheids”, o social, que possivelmente nem esteja mais viva, talvez consumida por alguma doença simples, que costuma ceifar organismos judiados e enfraquecidos como o seu.


O genocídio do mundo


A humanidade está com planos
Em ações coordenadas por diretores
Muitos mortos! Em poucos anos!
O porquê?... Destas inspirações dos escritores?
As mortes de coletividades são reportagens
Noventa e duas mil pessoas! Tibet
Oitenta e oito mil pessoas! Índia
Cem mil pessoas! Iraque
A humanidade perde pessoas de renome
Flora e fauna e o patrimônio histórico
Da humanidade sendo destruídos
Mas! As mãos artesanais continuam
Esta é a visão para os escritores realistas
No realismo seus escritores observam
Esta conduta humana, qual é a inspiração:
Revolta, extremismo, omissão ou negligência
Com todos estes fenômenos, os escritores
Escrevem suas poesias com reflexão ou inspiração
Sua vida está em situação de risco
Sua poesia torna-se eletromagnética
Inspiração ou reflexão se tornam poesias
Quem lê? Sua emoção é a paixão
Irradiada ao seu semelhante
Esta paixão sentida, sem amor ou ódio.

 

Estou, pois, certo ou não estou? Boa parte dos nossos escritores precisa ou não, urgentemente, de um demorado “banho de realidade”? Claro que sim! Só assim talvez esses privilegiados “homens de letra” deixem de lado as tantas e tantas histórias de vampiros, lobisomens, chupa-cabras e outras abobrinhas mais e tratem, finalmente, do que está bem debaixo dos seus narizes, mas que teimam em não enxergar.

 

 

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