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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

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13
Mai20

“Brasil, o outro foco americano da pandemia de coronavírus, está em perigo”, diz La Croix

Talis Andrade

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O jornal La Croix traz duas paginas analisando a crise do coronavírus no Brasil e afirma: “O Brasil é o outro foco americano da pandemia e está em perigo”. © Fotomontagem RFI

O jornal La Croix desta terça-feira (12) traz duas páginas analisando a crise do coronavírus no Brasil e afirma: “o Brasil é o outro foco americano da pandemia e está em perigo”. A introdução do dossiê publicado pelo jornal católico francês diz que enquanto o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, considera o coronavírus uma “gripezinha”, o Brasil está em vias de ser o país mais contaminado do mundo e terá mais de 2 milhões de casos.

O diário lembra que a Europa registra uma inversão da curva da pandemia e começa uma prudente e cautelosa saída da quarentena. Agora, “a preocupação mundial se concentra no continente americano”, ressalta o texto. Os Estados Unidos são o país com o maior número de mortos do planeta, com mais de 80 mil óbitos. Mas o outro gigante ao sul do continente também gera muita consternação.

Será que as cenas registradas nos últimos dias em Manaus, com dezenas de mortos pela Covid-19 sendo enterrados em valas comuns, irão se repetir nas outras regiões brasileiras? Questiona o La Croix. O jornal informa que em menos de um mês o número de mortos no Brasil ultrapassou oficialmente o patamar de 10.000 vítimas fatais e de 155.000 contaminados e que em breve o país deve registrar mil mortos por dia.

Grito de alerta

Tudo leva a crer que os dados são subestimados e isso atrasa a tomada de consciência do perigo, alerta Domingos Alves, pesquisador da Universidade de São Paulo e organizador do grupo Covid-19 Brasil, entrevistado pelo diário. O grito de alerta é considerado essencial diante da mensagem incoerente formulada pelas autoridades políticas de Brasília, a começar pelo presidente Jair Bolsonaro que, como Donald Trump, minimiza desde o início da pandemia a gravidade da crise, compara La Croix.

 

O advogado Charles-Henry Chenut, especialistas nas relações comerciais entre a França e o Brasil, confirma nas páginas do diário o desinteresse de parte da população pelas medidas de distanciamento social, por motivos econômicos. “Uma parte importante da população, incluindo empresários, não tem ideia da gravidade da situação sanitária. O Brasil vive na negação e as consequências serão extremamente graves”, declara o sócio do escritório de advocacia franco-brasileiro Chenut Oliveira Santiago.

Populações indígenas em risco

As populações indígenas da Amazônia são particularmente vulneráveis e precisam ser protegidas, salienta o diário. La Croix aproveita para divulgar o manifesto lançado pelo fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado, pedindo medidas urgentes em favor dos índios da floresta Amazônica.

Oficialmente, 28 índios morreram na região de Covid-19, mas o saldo de mortos é provavelmente muito maior. A solução diante da epidemia não é isolar ainda mais essas populações, mas levar até elas os serviços básicos de saúde de que precisam para combater o coronavírus. Essa reivindicação é feita várias ONGs e chefes indígenas, entre eles o cacique Raoni, citados na matéria.

Antagonismo com a Argentina

O diário católico encerra o dossiê indicando que os vizinhos sul-americanos do Brasil, como a Argentina, estão preocupados principalmente porque o pico da epidemia brasileira ainda não foi atingido e deve acontecer somente em junho ou julho. O correspondente do jornal em Buenos Aires informa que o governo argentino vai permitir a entrada em seu território de mercadorias brasileiras essenciais para sua economia, mas teme que essa decisão prejudique os esforços e as medidas impostas na Argentina para lutar contra a Covid-19.

Em tempos de coronavírus, o antagonismo histórico entre os dois vizinhos se acentuou. A política de prosperidade decidida por Brasília é diametralmente oposta à estratégia de Buenos Aires que, em 20 de março, instaurou uma quarentena obrigatória no país e, em seguida, fechou todas as suas fronteiras. As medidas quase paralisaram a economia argentina, mas o país tem 6.000 infectados e 305 mortos pelo coronavírus, isto é, muito menos vítimas do que o vizinho, informa o jornal La Croix.

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