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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

31
Ago19

Boulos quer saber quem paga a conta de Queiroz. Agora que ele foi encontrado, onde está o Adriano?

Talis Andrade

Acharam o Queiroz. E não foi a PF do Moro. A questão agora é quem paga sua estadia no Morumbi e suas consultas no Albert Einstein. Com a palavra, a família Bolsonaro. Guilherme Boulos, ex-candidato do Psol ao Planalto, no twitter

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VioMundoUm mistério de cerca de oito meses foi desfeito.

Fabrício Queiroz mora no bairro de classe média alta do Morumbi, em São Paulo.

De táxi, se desloca para tratamento de câncer no hospital Albert Einstein, em São Paulo.

A informação está na revista Veja que circula neste fim de semana.

Do ponto-de-vista legal, Queiroz não é oficialmente procurado.

Mas, para quem foi visto dançando em vídeo publicado nas redes sociais, o ex-assessor e amigo da família Bolsonaro conseguiu se manter um tempão longe dos holofotes.

Veja publicou uma foto de Queiroz tomando café dentro do hospital, sem identificar autoria da imagem.

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Ele não parece mal de saúde, mas segundo a publicação continua o tratamento — a cirurgia para retirar o tumor de intestino não teria resolvido totalmente o problema.

Queiroz alegou tratamento médico para jamais depor ao Ministério Público Estadual do Rio de Janeiro.

A família Bolsonaro faz-de-conta agora que mal sabe quem é o assessor.

Até ontem, no entanto, Queiroz era tão amigo do hoje presidente da República que teria merecido de Jair Bolsonaro, então deputado federal, um empréstimo de 40 mil reais.

Parte do pagamento do suposto empréstimo Queiroz depositou na conta da hoje primeira dama Michelle Bolsonaro: R$ 24 mil.

No auge do escândalo, Queiroz foi ao SBT, emissora alinhada ao governo Bolsonaro, para dizer que ganhou muito dinheiro vendendo automóveis.

“Sou um cara de negócios, faço dinheiro”, afirmou.

Por escrito, ao MPE-RJ, Queiroz admitiu que fez dinheiro para o chefe, o então deputado estadual Flávio Bolsonaro, desviando parte do salário de assessores do parlamentar para turbinar o mandato.

Na versão de Queiroz, Flávio Bolsonaro nada sabia do esquema, nem se beneficiou pessoalmente.

Contada assim, a história não explica a evolução patrimonial do hoje senador, que avançou 397% em 12 anos ou 432% em quatro anos, de acordo com cálculos publicados pela revista Época e o UOL.

Segundo o MPE-RJ, as suspeitas sobre Flávio resultam do fato de que, entre 2010 e 2017, ele lucrou mais de R$ 3 milhões em transações imobiliárias. Ao todo, comprou 19 imóveis por cerca de R$ 9 milhões.

São dois fenômenos: Queiroz no ramo dos automóveis, Flávio no imobiliário.

Mas, o que o Queiroz tem a ver com isso?

O ex-assessor de Flávio Bolsonaro, que era íntimo da família, chamou a atenção do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) ao movimentar R$ 1,2 milhão — entradas e saída de dinheiro — em sua conta bancária.

Além disso, Queiroz fez saques em dinheiro de R$ 661 mil entre janeiro de 2016 e junho de 2018.

A suspeita é de que ele atuava como laranja financeiro da família Bolsonaro.

Para entender melhor o caso, a Justiça determinou a quebra de sigilo de 95 pessoas e empresas, inclusive de Flávio, da esposa dele, Fernanda, da empresa dos dois, a Bolsotini Chocolates e Café Ltda., de Fabrício Queiroz, suas filhas Evelyn e Nathalia e a ex-mulher Márcia.

As três trabalharam como assessoras em gabinetes da família Bolsonaro.

São suspeitas de terem sido funcionárias fantasmas.

Nathalia supostamente trabalhou dois anos no gabinete de Jair Bolsonaro na Câmara Federal, em Brasília.

Teve atestada a presença de 40 horas semanais, para justificar o salário de cerca de R$ 10 mil mensais, mais benefícios.

Porém, no mesmo período, ela era personal trainer no Rio de Janeiro.

Queiroz é policial militar aposentado e, além de motorista, atuava como segurança dos Bolsonaro.

Segundo procuradores que levantaram a vida pregressa do PM, Queiroz tem no currículo ao menos dez “autos de resistência”, ou seja, matou dez pessoas em supostos confrontos.

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Por que Queiroz é suspeito de ligação com milicianos?

Segundo as explicações dadas por Flávio Bolsonaro, Queiroz tinha liberdade para agir no gabinete.

Contratava, cuidava dos arranjos com assessores.

Dentre os que serviram no gabinete de Flávio Bolsonaro estão Danielle Mendonça da Costa da Nóbrega e Raimunda Veras Magalhães.

São a esposa e a mãe de Adriano Magalhães da Nóbrega, ex-capitão do Batalhão de Operações Especiais da PM do Rio de Janeiro, o Bope.

Adriano está foragido. Ele é suspeito de ser um dos líderes da milícia que atua na Zona Oeste do Rio de Janeiro e teria envolvimento no assassinato da vereadora Marielle Franco.

Raimunda, a mãe de Adriano, aparece no mesmo relatório do Coaf que levantou suspeitas sobre Fabrício Queiroz.

De um salário líquido de R$ 5.124,62, Raimunda fez um depósito de R$ 4,6 mil na conta de Queiroz.

Tudo indica que a mãe e a esposa do miliciano foragido eram fantasmas do suspeito de ser laranja dos Bolsonaro.

Flávio hoje atribui tudo a Queiroz.

Mas Adriano, o miliciano foragido, foi homenageado duas vezes por Flávio lá atrás.

Numa moção de louvor, em 2003, Flávio escreveu que “o policial militar desenvolvia sua função com dedicação e brilhantismo, desempenhando com absoluta presteza e excepcional comportamento nas suas atividades”.

Na segunda homenagem, em 2005, Adriano recebeu a mais alta condecoração da Alerj, a Medalha Tiradentes.

Detalhe: Adriano estava preso, sob suspeita de homicídio. Ele chegou a ser condenado a 19 anos de prisão.

Quatro dias depois, em 27 de outubro de 2005, o então deputado federal Jair Bolsonaro fez discurso na Câmara em defesa de Adriano, dizendo que a condenação era injusta, fruto do depoimento de um superior que tinha desconsiderado o fato de Adriano ser um “brilhante oficial”.

Bolsonaro sugeriu que tinha assistido ao julgamento e chamou o réu de “coitado”.

Em trecho do discurso, criticou os governantes do Rio à época: “É importante saber a quem interessa a condenação pura e simples de militares da Polícia do Rio de Janeiro, sejam eles culpados ou não. Interessa ao casal Garotinho, porque a Anistia Internacional cobra a punição de policiais em nosso País, insistentemente. É preciso ter um número xis ou certo percentual de policiais presos. O Rio é o Estado que mais prende percentualmente policiais militares e, ao mesmo tempo, o que mais se posiciona ao lado dos direitos humanos”.

A condenação de Adriano seria revertida na segunda instância, mais tarde.

A contratação da esposa de Adriano, Danielle, para o gabinete de Flávio Bolsonaro foi em setembro de 2007. Ela serviu por mais de 11 anos.

Alguns meses antes, em fevereiro de 2007, Flávio fez seu famoso discurso defendendo as milícias.

Segundo ele, “a milícia nada mais é do que um conjunto de policiais, militares ou não, regidos por uma certa hierarquia e disciplina, buscando, sem dúvida, expurgar do seio da comunidade o que há de pior: os criminosos”.

A mãe de Adriano, Raimunda, foi contratada pela primeira vez para trabalhar na Alerj em março de 2015. Servia no gabinete da liderança do PP, partido ao qual Flávio era filiado.

Deixou o cargo em março de 2016, mas em junho voltou, desta vez no gabinete do próprio Flávio.

Adriano foi expulso da PM em 30 de dezembro de 2013, acusado de envolvimento numa guerra entre bicheiros.

Apesar disso, a mãe e a esposa dele continuaram “trabalhando” para Flávio Bolsonaro por quase cinco anos.

Danielle e Raimunda foram exoneradas em dia 13 de novembro de 2018.

Em janeiro de 2019, a polícia fez a operação que tentou prender Adriano. Ele conseguiu escapar, mas foi preso o major Ronald Paulo Alves Pereira.

Major Ronald ou Tartaruga, como é conhecido na Zona Oeste do Rio, é acusado de ser “chefe da milícia da Muzema e grileiro nas regiões de Vargem Grande e Vargem Pequena”, de acordo com o diário conservador carioca O Globo.

Ronald também foi homenageado por Flávio Bolsonaro na Alerj, com menção honrosa, em 2004.

O STF deve decidir até o final do ano se o inquérito contra Flávio e Queiroz continua ou será trancado pelo uso indevido do relatório do Coaf — é o que alega a defesa.

O presidente do STF, Dias Toffoli, concordou liminarmente.

Dentre as perguntas ainda a responder: Queiroz foi intermediário no repasse do dinheiro que esclarece o enriquecimento veloz de Flávio Bolsonaro? se sim, qual a origem dos valores, apenas o repasse do dinheiro público desviado de salários? houve relação financeira entre Queiroz e os milicianos Adriano e Ronald? Flávio, ao contratar parentes de milicianos, estava pagando alguma dívida anterior com os ex-PMs?

Em uma live no Facebook, ontem, o presidente Jair Bolsonaro prometeu indulto a policiais que, segundo ele, estão presos injustamente.

“Final do ano, espera aí. Aqueles indultos, eu vou escolher alguns caras, colegas, policiais que estão presos injustamente no Brasil. Presos por pressão da mídia. Até o final do ano vai ter policial neste indulto aqui”, declarou.

Independentemente disso, agora que sabemos onde anda Queiroz, é preciso perguntar: e o Adriano?

 

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