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23
Out22

Bolsonarismo: a defesa do “Deus mau”

Talis Andrade

Bernard Meninsky, Esboço de uma natureza morta com uma tigela de frutas em uma superfície plana, Data desconhecida.

 

Apoiar o “mito” deixou de ser mera inclinação política ou ideológica, está além de ser “esquerda” ou “direita”; é negar qualquer tipo de ideal humanístico

 

 

por Francisco Fernandes Ladeira /A Terra É Redonda

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Jair Bolsonaro e o movimento ao qual ele é o principal nome – o bolsonarismo – representam o que há de pior no ser humano: racismo, homofobia, misoginia e aporofobia, entre outros sentimentos negativos. No entanto, como todo produto ideológico, o discurso bolsonarista não revela suas reais intenções; se escondendo sobre o lema fascista de uma suposta defesa de Deus, da pátria, da família e da liberdade.

Nesse caso, a família exaltada é aquela organização patriarcal, baseada na autoridade do homem e na completa submissão feminina. Esse tipo de arranjo parental é base para o tipo de pátria sonhada pelo bolsonarismo, “onde a minoria deve se curvar às vontades da maioria” (mero eufemismo para imposição dos preconceitos elencados acima). Já a “liberdade” defendida pelo bolsonarismo nada é mais do que a licença para a violência (física e simbólica) contra pobres, pretos, mulheres, esquerdistas e homossexuais.

Dito isso, alguém pode se perguntar: mas como “Deus” pode ser utilizado para corroborar todo o ódio bolsonarista?

Para responder a essa (complexa e necessária) questão, podemos recorrer à obra do psicanalista, filósofo humanista e sociólogo alemão Erich Fromm, mais especificamente ao seu livro O dogma de Cristo.

Erich Fromm – assim como os gnósticos (corrente religiosa que remete aos primeiros séculos da Era Cristã) –  considera que na Bíblia, livro sagrado do cristianismo, são apresentados “dois deuses”, completamente diferentes: o “Deus mau”, do Antigo Testamento; e o “Deus bom”, referente ao Novo Testamento.

De fato, não é difícil constatar que, no Antigo Testamento, Deus é vingativo e rancorosos, sendo responsável direto pelo extermínio de todos aqueles que não seguiam seus ditames. Por outro lado, no Novo Testamento, Deus é amor, benevolente, perfeito, justo e misericordioso.

Assim, a partir dos preceitos psicanalíticos, calcados nos antagonismos entre pai e filho, Erich Fromm compreende Jesus (o “Deus bom”) como a negação do pai: o “Deus mal”. Não por acaso, o Novo Testamento tem início, justamente, com o nascimento de Jesus.

Esse “Deus mal”, do Antigo Testamento, é grande referência para as pregações de pastores de igrejas neopentecostais, uma das principais bases do bolsonarismo, baluarte daquilo que intelectuais como Jessé Souza e Vladimir Safatle qualificam como “fascismo popular”, movimento responsável por dividir os pobres (que, antes do bolsonarismo, votavam majoritariamente em candidatos petistas, pelo menos nas eleições presidenciais).

Ainda nessa linha de raciocínio, é possível compreender as estreitas ligações entre igrejas neopentecostais e o bolsonarismo com o Estado de Israel (haja vista que o judaísmo só considera como legítimo o Antigo Testamento). Aliás, se formos a fundo na origem dessas organizações religiosas, chegamos aos Estados Unidos da América, não coincidentemente uma nação fundada sob a concepção de “Terra Prometida”, ideia retirada do Antigo Testamento.

Voltando ao Brasil do século XXI, alguém pode argumentar que bolsonaristas e neopentecostais, apesar de seguirem o Antigo Testamento, evocam constante o nome de Jesus. Puro recurso retórico!

Lembrando uma postagem que tem feito bastante sucesso nas redes sociais, associar Jair Bolsonaro e Jesus, seria pensar o Messias, na Galileia, dizendo a Maria Madalena “não te estupro porque você não merece”; vendo Lázaro morto e afirmar “e daí, não sou coveiro” ou, diante de um deficiente físico, comentar: “o que quer que eu faça, não sou médico”. Tratam-se de hipóteses, evidentemente, inconcebíveis.

Em suma, não há argumentos éticos para se defender Bolsonaro. Na presente conjuntura, apoiar o “mito” deixou de ser mera inclinação política ou ideológica, está além de ser “esquerda” ou “direita”; é negar qualquer tipo de ideal humanístico. Infelizmente, no primeiro turno da eleição presidencial, cinquenta e um milhões de brasileiros fizeram essa escolha perversa.

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