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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

23
Abr18

AS FILHAS DA DIDATURA

Talis Andrade

 

besta apocalipse.jpg

 

 

(Primeiro ato)

 

Nada acontece de novo

no reino da Dinamarca

As filhas da ditadura

depois de brincarem

de guerrilha urbana

esposam católica angelicamente

os filhos dos amigos do pai

convidam burguesa orgulhosamente

o marechal presidente

para padrinho de casamento

 

Vestidas de branco

belas e joviais

as nobres murzelas

sobem o altar

ao som marcial

da música de Wagner

 

( Segundo ato)

 

Nada acontece de novo

no reino da Dinamarca

Desfilando em carrões negros

guiados por motoristas negros

as filhas da ditadura

cruzam fortuita perigosa

atordoante passeata estudantil

recordando suspirando heróicas trepadas

quando freqüentavam a universidade

pichando muros panfletando

utópicos programas partidários

 

As consciências leves

as jovens esposas

retornam à militância política

patrocinando chás e bingos

de pública caridade

com fotos dominicais

de Sebastião Lucena

nas colunas sociais

 

(Terceiro ato)

 

Dona-patroa dispõe

desde menina-moça

das regalias de sangue

casa na praia

casa no campo

casa na corte

Em cada casa o conforto

a sujeição dos criados

para os serviços pesados

e secretos brinquedos

Em cada casa

o ritual preciso

para banquetear os amigos

encastelados no governo

Em cada casa

o ambiente propício

para as festas de santo

e feriados cívicos

 

No jogo do poder

dona-patroa se arma

de inatas inocentes

sedutoras artimanhas

para o esperto marido

colocar no pescoço

do convidado de honra

o macio mesurado

laço de lobista

 

Sendo preciso

o sacrifício

uma vítima

uma isca

dona-patroa

com muito jeito

máximo proveito

se enfeita

se perfuma

para dormir

com senadores e ministros

liberando o dinheiro

que o marido cobiça

 

(Quarto ato)

 

Uma ditadura

fatalmente dura

uma geração

não morre

nem antes

nem depois

Morre de podre

morre de velha

pelas passarelas

dos palácios

e quartéis

 

As balas da guerra interna

ricocheteiam nos marechais

um a um eliminados

torturados pela artrite

sufocados pela angina

o coração explodindo enfartado

o peito coberto de medalhas

o corpo vestido

com a farda de gala

que bela mortalha

 

 

===

Talis Andrade, O Enforcado da Rainha, ps. 51/57

 

 

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