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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil

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30
Nov18

ANGOLA O Semba como ferramenta de libertação

Talis Andrade

semba.jpegFernando Carlos encenou em livro os acordes histórico-políticos de “Ritmos da Luta – o Semba como ferramenta de Libertação”. Tal como o romance histórico, o drama histórico reinventa o passado e ressuscita os actores reais do tempo marcado para durar, actores de uma cena imortal, tais como Liceu Vieira Dias, Amadeu Amorim, Zé Maria, Euclides Fontes Pereira, Nino Ndongo, Mário Pinto de Andrade, Lourdes Van-Dúnem, Belita Palma, Maria do Carmo Medinae muitos outros.Esta obra do género dramático glorifica o Conjunto Ngola Ritmos e foi publicada no Camões-Centro Cultural Português, no passado dia 13 de Novembro.


Em declarações ao jornal O PAÍS, o autor da obra referiu que se trata de uma obra que surge para homenagear os nacionalistas que estiveram envolvidos na luta anti-colonial de libertação, que veio a culminar com a independência a 11 de Novembro de 1975. O historial sobre as causas que levaram a que se formasse o conjunto, a introdução do violão na música nacional, com o dedilhar do “maestro” Liceu Vieira Dias, no estilo que veio a designar-se “Semba” estão na base desta obra, com 84 páginas.Fernando Carlos contou que sentiu-se motivado em retratar o historial, por se ter “apaixonado” pela causa que estes nacionalistas abraçaram. “Eles eram assimilados, ainda assim não se acomodaram com a posição que tinham e lutaram a favor dos indígenas”, apontou. “Liceu, enquanto líder do agrupamento transmitia estrategicamente mensagens de libertação através da música. Como lhe era permitido cantar, o ritmo surge precisamente para não dar a entender os códigos que passam, e ainda em língua Kimbundu”.


O livro começou a ser esboçado em 2015 e só agora ficou concluído. O autor disse ter enfrentado algumas dificuldades, sobretudo no acesso às fontes e fidelização das datas por cada período, bem como a limitação de conteúdos a respeito do percurso destes camaradas da clandestinidade. Entretanto, foi possível serem ultrapassadas à medida que pôde colher depoimentos do nacionalista Amadeu Amorim, único sobrevivente do conjunto Ngola Ritmos, e de Ruy Mingas, sobrinho de Liceu Vieira Dias.


Qualquer narrativa ou drama histórico, mesmo Mayombe, de Pepetela, é um eco do nosso tempo, aportam para a nossa era, o verdadeiro sentido do humanismo que os poderes políticos lenta e penosamente vão cedendo à sociedade.


A abrir o livro, na cena I, lemos este diálogo entre Mário Pinto de Andrade e Liceu Vieira Dias que levanta o problema maior da africanidade contemporânea: a libertação da alma do homem:

 

“Mário – Só se for agora mesmo e de pé. Tenho de me apressar, vou à Marginal de Luanda fotografar o sol a espreguiçar-se, depois o mar a assobiar o nosso Semba e os barcos que nele bailam, trazendo e levando vidas, o cais de sorrisos e choros, os que partem desejando ficar e os que ficam desejando partir.


Fotografar tudo com este meu terceiro olho e guardar na minha memória externa. O café aguça-me a inspiração. Vou começar contigo (tira uma fotografia a Liceu). Um dia, esta foto vai parar ao Jornal de Angola, algo que tenho sonhado e vislumbrado no dia-a-dia de um país livre.


Liceu (a dar-lhe palmadas suaves nos ombros) – Este teu jeito ninguém iguala, tudo te sabe a poema!

Mário – A minha alma adora e tudo faço por ela. Quem somos sem a alma?


Liceu – Somos colonos.


Mário (aponta no bloco) – Tem piada. Um homem sem alma é colono. O Jacinto vai-se babar a rir quando ouvir isto.”

 

Mitografia do prefácio

 

Está de parabéns a editora Asas de Papel, recém constituída para competir no mercado editorial angolano. Só um reparo: é urgente ultrapassar a mitografia do prefácio. O leitor busca, num livro, em primeira mão, o discurso do seu autor, não o do autor do prefácio. Em Ritmos da Luta, o prefácio de Kizua Gourgel só veio destoar o conteúdo da peça e deitar cá para fora uma incongruência de todo o tamanho ao colocar no mesmo diapasão musical o Ngola Ritmos e Eduardo Paim e O2. Entre o Ngola Ritmos e estes dois grupos da nova geração não existe nenhuma solução de continuidade.


De igual modo dizer que “já existe uma nova vaga musical denominada por alguns de NMA (nova música angolana), também ela baseada no resgate e no aprimoramento das linhas harmónicas e rítmicas nascidas dos Ngola Ritmos. Vários nomes sonantes, apesar de jovens, têm assumido esta linguagem musical como a «bossa nova» de Angola.” Dizer isto é demonstrar um desconhecimento da alma da música angolana. Pois, se Beto Gourgel deu ao filho o nome de Kizua (kimbundu) é precisamente para honrar a luta do Ngola Ritmos pela identidade cultural angolana. “Bossa Nova” é brasileiro. Não tem nada a ver com o Semba. Melhor faria o editor em remover da obra o prefácio e em colocar na capa o nome do seu autor. Que contribuição deu, afinal, o prefaciador, para esta obra?

 

 

 

 

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