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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

01
Jun18

A TORTURA NUNCA TERMINA

Talis Andrade

estátua da liberdade tortura colonialismo preso .

 

 

1

Na escuridão do cárcere

não persiste a mínima

noção de tempo

A escuridão prolonga

um suplício

que nunca termina

 

Na escuridão do cárcere

o prisioneiro desconhece

quando os encapuzados

vão recomeçar o ritual

das místicas

sessões cívicas

 

Desconhece de onde vêm

os cruciantes gritos

se da cela vizinha

ou dos porões da mente

 

Gritos que não lhe deixam em paz

estouram os tímpanos

Pregos penetram o corpo

revificando os estigmas da crucificação

o sangue a coroa de espinhos os escarros

 

Os pungentes gritos

recordam os sermões

dos tempos de menino

O padre Nicolau

descrevia as estações

                               da via-crúcis

ameaçando com os tormentos

                               do inferno

O corpo aferroado

por tridentes em brasa  

a carne torrificada

no castigo do fogo eterno

A capela exalava

malsinado cheiro

de carne queimada e enxofre

Por toda capela

o beatífico aroma

de incenso e cera

de círios acesos

 

2

O prisioneiro desconhece de onde vêm

os cruciantes gritos

se da cela vizinha

ou dos porões da mente

 

No terror implantado o preso não percebia

quando tudo era um macabro divertimento

o cruel vexatório brinquedo do gato com o rato

ou triste cenário de um banho de sangue

O real o imaginário se (con)fundiam

no surrealismo de uma guerra suja

Nos aviões prisioneiros avisados

de que seriam atirados em alto mar

aterrizavam humilhados por continuarem vivos

Carros os freios sabotados desabavam no abismo

Corpos caiam no poço dos elevadores

Carros invisíveis atropelavam nas esquinas

Prisioneiros alinhados ao pé do muro viam a morte fugir

nos fuzilamentos com balas de festim

Prisioneiros eram trucidados

 em uma simulação de fuga

ou simplesmente sumiam

Outros anunciados como mortos

retornavam lampeiros perambulando pelas ruas

 

3

A imprevisibilidade uma tortura

Os segundos sobressaltante eternidade

Os inquisidores não têm hora precisa

Os inquisidores podem chegar

                     a qualquer instante

 

 

Os segundos se arrastam

Perde-se a noção

de quando dia

de quando noite

Não existe mês

no calendário da escuridão

 

 

Na angustiante espera

o prisioneiro sofre a tortura

de desconhecer

quando chegará a vez

de ser empurrado

pelos campos de sangue

para os subterrâneos da morte

os olhos vendados

para uma viagem sem volta

 

 

---

Talis Andrade, O Enforcada da Rainha, ps. 135/139

 

 

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