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O CORRESPONDENTE

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12
Set20

A pequena Pietà amazônica

Talis Andrade

pieta-am sagui.jpg

Foto Ueslei Marcelino

 

 

Por Sonia Zaghetto 

 

Quando ouvir falar em incêndios na Amazônia, lembre-se desta pequena pietá em agonia, abraçando o corpo do filhinho. Xita é o nome dela. A macaquinha de grandes olhos castanhos fugia do fogo quando foi atropelada com os dois filhotes recém-nascidos. Agora há pouco ouvi o relato emocionado do Ueslei Marcelino, fotógrafo da Reuters cobrindo os incêndios na Amazônia.

A minúscula macaquinha, um Sagui-de-Rondônia, abraçava com força o seu recém-nascido quando Ueslei fez a foto. Ambos lutavam por suas vidas. O primeiro filhote morreu após o atropelamento. O da foto se foi dias depois, ainda com o cordão umbilical – e sua morte tão evitável foi registrada numa foto igualmente pungente. A mãe está com uma lesão cerebral e dificilmente vai sobreviver.

Traduzi para vocês parte do relato de Ueslei na página da Reuters. Ele mostra o trabalho dos veterinários que atuam na clínica Clinidog, em Porto Velho/RO, e socorreram os animais feridos. Os profissionais acreditam que a mãe e os bebês foram atropelados por um carro quando fugiam de incêndios na maior floresta tropical do mundo.

“Ela chegou estressada, gritando e coberta de sangue”, contou Carlos Henrique Tiburcio, o dono da clínica, enquanto envolvia os dois em um pequeno pano branco.

“Nesta época do ano, em que os incêndios são constantes devido à ausência de chuva, os animais procuram abrigo, no desespero para escapar da morte, e acabam na cidade, correndo o risco de serem atropelados ou capturados”, disse Marcelo Andreani, cujo trabalho é resgatar animais feridos e trazê-los para a clínica.

“O respeito do homem pela natureza está acabando”, lamentou Andreani, que trabalha na Polícia Ambiental do Estado de Rondônia.

Vale lembrar que a floresta amazônica não queima naturalmente. Na estação seca, fazendeiros e especuladores ateiam fogo à floresta desmatada previamente. Os incêndios ocorrem quando as chamas saem de controle, impulsionadas pelo vento e pela folhagem deixada para secar durante meses após a derrubada das árvores.

A vida selvagem – despreparada para lidar com o fogo – se vê desesperada em meio aos incêndios causados, repito, exclusivamente pela mão humana.

Segundo Ueslei, animais fracos e moribundos chegam à clínica, onde quatro voluntários trabalham incansavelmente para salvá-los.

A pequena Xita, seus filhinhos mortos e todos os animais feridos na Amazônia são as vítimas inocentes de nossa ignorância e crueldade.

Não há perdão para o que se faz a eles.

Não há perdão para o que se faz à nossa Amazônia.

***

Há quem imagine que médicos e jornalistas desenvolvem uma barreira emocional ao lidar com os momentos dolorosos da existência. Mas a verdade é que ao terminar um trabalho como este que o Ueslei faz tão corajosamente na Amazônia brasileira, a nossa alma também sangra. O repórter está esgotado, assim como eu, que escrevo isso profundamente tomada pela emoção.

E, ainda assim, agradecemos a oportunidade de contar ao mundo o que testemunhamos e tantos desdenham.

Parabéns pelo teu trabalho Ueslei. É esta a essência da nossa profissão.

 

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