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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

15
Jun17

A multiplicidade de Rafael Rocha

Talis Andrade

Poeta. Romancista. Jornalista. São diferentes Rocha ou um só?

 

Que também existem o ativista político, o boêmio, o compositor, o dono do Humanitas, "o jornal dos livres pensadores", uma publicação sem fins lucrativos, cuja linha editorial tem ligação direta com o agnoticismo e o ateísmo.

 

A simplicidade une todos os Rocha, que tem nome de anjo, Rafael, nome de pia dado pela religiosidade de sua santa mãe.

 

Do altar de vários livros, Alguma Poesia

 

poemas ecolhidos capa.jpg

 

TEU CORPO

 

Para mim teu corpo é sempre o mesmo corpo.

Não envelhece. Não tem rugas. Sempre o mesmo.

Até quando escrevo um poema olhando um outro

de qualquer outra mulher eu vejo o teu vivaz e lindo.

Eu sei que o tempo torna as coisas carcomidas

mas teu corpo em mim continua sempre novo.

Sempre como aquele de décadas antigas

esperando meus beijos e minhas carícias.

 

Irei assim acompanhando essa imagem de teu corpo

ainda que nós ambos estejamos desenvoluindo

e tendo outros olhos a olhar para outros corpos

fingindo e mentindo que ainda são os de antes.

Mas para mim teu corpo é sempre o mesmo corpo

onde redescubro sonhos e desejos de paixão.

Sim! Sim! Porque estamos vivos na paisagem

e não custa sonhar e acreditar que somos e somamos.

 

Tudo isso serve para a gente espantar a morte

como a beber uma cerveja, um vinho ou um licor.

Viver é uma bebida venenosa a matar lentamente

e isso nós sabemos e criamos antídotos com o olhar.

O teu corpo vem em sonhos e traz variedades

dos momentos de quando o destino bateu na porta

e de quando nunca e jamais as nossas saudades

foram ideias mortas.

 

Para mim teu corpo é sempre o mesmo corpo.

Não envelhece. Não tem rugas. Sempre o mesmo.

É um poema para meu olhar envelhecido de hoje.

 

MARCOS DO TEMPO CAPA.jpg

 

OLINDA

 

Olinda do frevo maior

ofício de minha canção

onde buscando o amparo

fiz milagres nunca vistos

pedindo ao carmo da virgem

o brilho da luz do farol.

No bairro novo do sonho

numa casa recém-caiada

em um varadouro sem fim

nasceu a história maciça

do jardim atlântico novo

onde o doce rio desemboca

e de onde os bultrins da vida

chamam homens/mulheres pra mim

 

 

JUDAS

 

O ideal morreu

trinta moedas foram repartidas.

 

As armas fazem salvas.

Eis o mundo!

(O mundo está vivo?)

 

Os gaiatos obliteram

o homem

nos comícios

e nas passeatas

ideológicas

 

Homens sem-terra replicam

hinos de salvação

salmos inconsistentes

aos estatutos dos ventos

 

E quando a cidade dorme

os encapuzados roubam

carne e frutas

ao peso exato

do sangue

da população

 

 

INSTANTÂNEO NO BAR

 

Quando ela entrou no bar os homens acordaram da bebida

perplexos passaram os olhos por todas as linhas do seu corpo.

 

Gestos invisíveis de sonhos em volúpia a homenagearam.

 

Quando ela entrou no bar, a vida abriu portas e janelas e garrafas.

Copos tilintaram, mãos sorriram,

as almas deram-se graças totais e dinâmicas.

 

O garçom atendeu-a solícito como pôde

fazendo dos olhos lentes objetivas para sentir a substância da carne.

Uma cerveja. Um cigarro. Um enredo moreno.

Um meneio coxas/pernas/seios/olhos/lábios e convites incertos.

 

Ao sair do bar manto e roupa de rainha deu-lhe o vento.

A lua iluminou todas suas perfumadas e sinuosas reentrâncias.

Os automóveis deslizaram de mansinho pelo asfalto.

 

Quando ela saiu do bar tudo lá dentro adormeceu em outro silêncio:

Os copos calaram os cristais.

Os homens tornaram-se falaciosos.

E o garçom resolveu beber sua meiota de cachaça.

  

ANOS DE CHUMBO CAPA.jpg

 

O HOMEM CINQUENTENÁRIO

 

Ao passar um olhar na vida

notou-a amarrotada e tardia.

Os móveis da casa poeirentos.

O cigarro sem gosto.

O café sabendo à água suja.

 

Pôde num só olhar, olhar-se:

barba por fazer. Dedos rugosos.

Cabelos esparsos e olhos opacos.

Desacreditou-se. Já não era

a coisa brincalhona de outros tempos.

 

Teve ódio do espelho e escreveu

uma frase lugar comum cinquentenário:

- Tenho um coração de quinze anos! -

 

A partir desse instante

conseguiu sentir o tamanho das suas rugas.

 

 

 

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