Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

13
Set18

A ditadura da justiça racista e a advogada negra algemada e presa

Talis Andrade

valeria-advogada-negra-algemada-rio-de-janeiro.jpg

 

 

 

A advogada Valéria dos Santos, que foi algemada e presa dentro de uma sala de audiência, afirmou que sentiu desdém desde o início da sessão por parte da juíza leiga envolvida no episódio. Ela foi detida por policiais militares após se negar a sair do local, com o argumento de que a audiência não teria terminado.

 

“Num primeiro momento eu senti um certo desdém da própria juíza leiga, mas abstraí isso e continuei com o direito de exercer minha profissão. Em determinado momento, eu quis verificar a peça de contestação. Porque não houve um acordo, então automaticamente eu teria que ver a contestação da parte ré e isso me foi negado”, contou Valéria.

 

“Foi quando eu pedi a solicitação do delegado da OAB, fui buscar o delegado. Tudo foi muito rápido. Desci, voltei novamente à sala de audiência e fui comunicada que a audiência tinha sido encerrada. Por isso a minha resistência em não sair da sala e aguardar o delegado, para ele ver as relações que estavam sendo ocorridas naquele momento”, completou a advogada.

 

Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro esconde o nome da juíza que mandou algemar e prender a advogada 

 

Valéria defendia sua cliente em um processo contra a operadora de telefonia Claro por uma cobrança que teria sido duplicada, no valor de R$ 180. No fim da audiência, a juíza Ethel Tavares de Vasconcelos não permitiu que Valéria tivesse acesso a um documento da defesa da operadora. Para a advogada, tratava-se de uma violação dos direitos de sua cliente, por isso ela acionou a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) e se recusou a deixar a sala. “Caso eu saísse, estaria concordando. Precisava resistir para garantir o direito da cliente”, contou Valéria à Ponte. Foi quando a juíza acionou a Polícia Militar e dois homens a retiraram da sala. Valéria ficou algemada no corredor.

 

A advogada relata que não é a primeira vez que tem um direito negado durante o trabalho. Caso semelhante aconteceu, segundo ela, em Arraial do Cabo, outro município da Baixada Fluminense. “Eu me acovardei antes porque a OAB sempre fala que a gente tem de usar de urbanidade, nem sempre é melhor afrontar. Quando aconteceu pela segunda vez, me deu um flashback. ‘A mesma coisa acontecendo, não acredito’. Aí eu gritei, temi uma nova injustiça. ‘Não vou me acovardar'”, explica.

 

Além de sentir novamente o trabalho interrompido, Valéria pontua que, por ela ser negra, é comum ser menosprezada por magistrados que a recebem. “Alguns juízes, desembargadores, quando a gente entra na sala, eles não nos veem como advogados. Eu tento abstrair porque preciso trabalhar, ignoro. Neste dia, a juíza perguntou se eu e a minha cliente éramos irmãs porque nós duas éramos negras”, diz.

 

Segundo Valéria, além dessa pergunta, a juíza Ethel Tavares teria mostrado seu preconceito ao jogar a credencial da OAB da advogada em sua direção, após o encerramento do caso. “Não me abalei em nenhum momento quando ela teve ação para me ferir sobre minha cor. Agora, me feriu quando não quis deixar eu trabalhar… aí é demais, é meu ganha pão. Não tem ninguém que me sustente”, completa. O fato de não se retirar da sala rendeu um B.O. (Boletim de Ocorrência) por desobediência, pois teria descumprido uma ordem dos PMs. Valéria assinou o documento para, depois, “requerer todos os direitos”. Leia mais 

 

A História de Valéria

advogada negra.jpg 

advogada .jpg

 


Na adolescência, fui convidada para jogar no Iguaçu Basquete Clube e no América. Aos 17, me mudei para Santa Catarina para ser atleta em Criciúma e depois em Concórdia. Morava em uma república de jogadoras, treinava de manhã, ia para escola, estudava de tarde e treinava de novo. Recebia um salário, tudo direitinho. Joguei contra a Paula, a Hortência, várias atletas famosas.


Com 24, voltei para o Rio para fazer faculdade. Comecei com fisioterapia, depois mudei para educação física na Universidade Federal Rural. Fui a primeira da família a entrar na faculdade.


Antes de concluir, recebi uma bolsa para estudar e jogar nos Estados Unidos, na Oral Roberts University, em Tulsa, Oklahoma. Morei lá dez anos, casei com um americano e tive dois filhos. Quando fiquei grávida, perdi a bolsa. Fiz um curso técnico e me tornei auxiliar de enfermagem.


Em 2005, minha mãe foi diagnosticada com câncer de pulmão, e eu decidi voltar ao Brasil. Meu casamento já não estava bom, e nos divorciamos. As crianças vieram comigo, conheceram a avó. Retornei para a Baixada e segui com a enfermagem.


Aos poucos, o desejo de terminar a faculdade voltou. A saúde no Brasil estava muito precária e escolhi cursar direito. Passei em uma universidade particular, com o Prouni. Mas me angustiava com a situação dos meus filhos.
Infelizmente, com a implantação das UPPs na cidade do Rio, a Baixada ficou muito perigosa. Meus dois irmãos foram assassinados em Mesquita. Eu olhava para os meus filhos dormindo e pensava: 'Meu Deus…' Eles faziam várias atividades, futebol, natação, judô, mas eu tinha aquele receio de mãe. Eu trabalhava muito, fazia faculdade. Pensava: 'E se eu vacilar, não for tão atenta? Com o tráfico e aquela violência toda…'


O Brasil não investe no ser humano, e eles vão ficando pelo meio do caminho. Tem uns que têm uma força muito grande e, mesmo com todas as dificuldades, conseguem quebrar barreiras. Outros não, e são esses que nós perdemos.


Então na época eu liguei para o meu ex-marido e chegamos a um acordo. Era melhor para os nossos filhos que eles voltassem para os EUA. Não consegui viajar para visitá-los ainda, faz sete anos que não os vejo. Sou advogada autônoma, no começo da carreira, me formei em 2016. Ganho pouco, cerca de R$ 1.500 por mês. Trabalho de casa, em Mesquita, e duas vezes por semana em um escritório de Caxias.


Foi uma decisão radical mandar meus filhos para os EUA, mas foi a melhor opção. Um está começando a faculdade de engenharia, na Carolina do Norte, e o outro está terminando o segundo grau. É difícil para mim falar disso [fica em silêncio, suspira]. Tenho saudade, mas vejo que eles estão evoluindo lá. O mais velho conseguiu uma bolsa de estudos. Então foi doloroso sim, mas valeu a pena.


Como meus pais já faleceram e meus filhos estão fora, a minha referência aqui são os meus tios. Foi com um deles que fui conversar depois do que aconteceu no fórum. Porque as pessoas mais velhas, mesmo sem estudo, são muito sábias. Ele me disse: “Você é igual à sua mãe, não leva desaforo para casa”. E me deu o melhor conselho: “Não abaixa a cabeça, segue em frente”.

 

 

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2020
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2019
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2018
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2017
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub