Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil

O CORRESPONDENTE

06
Jun20

A força da sociedade civil garante a democracia e inclui os mais pobres e distribui a riqueza produzida

Talis Andrade

nós .jpg

 

 

II - É nóis por nóis!

por Silvio Caccia Bava

Le Monde

- - -

Os brasileiros mais pobres não podem contar com o amparo, a proteção e o acolhimento do governo dos brasileiros. As políticas públicas ou não chegam, ou chegam de maneira insuficiente aos territórios da pobreza. Nunca a chaga da desigualdade foi tão escancarada. Anuncia-se uma tragédia humanitária com a conjugação de crise sanitária, crise alimentar e desemprego, os quais não se resolvem de um dia para o outro.

Lideranças comunitárias nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Manaus e Distrito Federal já identificam a fome e a insegurança alimentar como os principais problemas nas favelas. Sem renda e sem trabalho, falta dinheiro para tudo, inclusive para as máscaras e o material de higiene pessoal. A dificuldade de acesso ao auxílio emergencial, produzida pelo próprio governo, impede milhões de pessoas de ter acesso a essa mínima proteção social. Os que adoecem já não encontram socorro da parte dos equipamentos de saúde pública, que não têm mais capacidade de atender à demanda, sucateados que foram ao longo dos últimos anos.

O medo de que os problemas se agravem também é expresso por essas lideranças comunitárias. Em primeiro lugar, elas temem a expansão do contágio. Por conta da falta de amparo governamental e das políticas de desinformação – de responsabilidade principalmente da Presidência da República e do chamado Gabinete do Ódio, o centro produtor da desinformação –, a adesão às medidas de combate à pandemia é baixa. Em segundo lugar vem a fome. Em terceiro lugar, a falta de acesso a equipamentos de saúde.1

Abandonados à própria sorte, esses territórios da pobreza vão se articulando e enfrentando as condições adversas como sempre fizeram, lançando mão da solidariedade, assumindo responsabilidades e tarefas que deveriam ser políticas públicas, lançando seu apelo aos demais setores da sociedade para que os socorram neste momento.

E o que vemos surgir em meio à crise é uma extraordinária rede de solidariedade que se baseia nas organizações existentes, que tomam todo tipo de iniciativa para cuidar de seus pares, para cuidar do território que habitam com os recursos que podem mobilizar. E, ao se organizarem para essas tarefas, conquistam a adesão e a solidariedade de outros setores da sociedade, como pessoas e entidades das classes médias, empresas e igrejas.

As iniciativas são muitas: monitorar a saúde dos moradores da favela e criar um posto de atendimento de saúde e casas de isolamento em seu território (Paraisópolis, São Paulo); desinfetar regularmente as ruas da comunidade (Favela Santa Marta, Rio de Janeiro); produzir e distribuir máscaras e material de higiene; produzir vinhetas educativas e informação, combatendo as fake news (Rádio Comunitária Cabana, Ananindeua-PA); organizar campanhas educativas (projeto Saúde e Alegria, Rádio Rural de Santarém-PA); coletar fundos e distribuir cestas de alimentos para as famílias com fome; ajudar no cadastramento para ter acesso ao auxílio-pandemia do governo; cobrar dos governantes o atendimento emergencial de suas necessidades.

A importância dessas iniciativas de solidariedade é enorme. Sem elas, a tragédia certamente seria maior. E aqui podemos avaliar a importância das organizações da sociedade civil. São elas que, articuladas em redes, pressionam os poderes públicos para o atendimento das necessidades dos mais pobres, organizam o trabalho voluntário e oferecem apoio e acolhimento aos mais necessitados.

São associações de moradores, sindicatos, órgãos de imprensa independentes, rádios comunitárias, igrejas, grêmios estudantis, escolas de samba, torcidas de futebol, coletivos informais de cultura, associações profissionais, ONGs, universidades, enfim, uma infinidade de formas de organização que criam coletivos e permitem ações conjuntas.

A base dessa solidariedade é uma ética humanista, de cooperação, de valores que se afirmam como fundamentos da convivência plural e democrática, que afirmam o respeito à diferença, a dignidade e o bem-estar de todos como meta comum da sociedade. Mesmo a doutrina liberal defende que o Estado deve prover condições dignas de vida para todo cidadão e considera a democracia a melhor forma de regulação dos conflitos e das diferenças sociais. São as organizações independentes, a força da sociedade civil articulada e os movimentos sociais que garantem a democracia e o quanto esta inclui os mais pobres e distribui a riqueza produzida. (Continua)

 

Comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2021
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2020
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2019
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2018
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2017
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub