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24
Jul22

A fome (por Gustavo Krause)

Talis Andrade

ossos de boi vendidos em açougue

Arma das lideranças autoritárias, a fome escraviza estômagos vazios e elimina liberdades desprotegidas

 
por Gustavo Krause
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A memória, de vez em quando, recorda: “o almoço está servido; o jantar está na mesa”; “coma o lanche na hora do recreio”.

A hora das refeições era um momento especial de reunião familiar: primeiro ato da educação doméstica, recomendações e limites. Hábitos de classes sociais que realizavam, pelo menos, três refeições diárias.

Mas o tempo foi rodando na pata dos automóveis, na turbina dos aviões; trouxe junto o complexo universo dos chips e algoritmos; operou profundas revoluções nos costumes, nos padrões de consumo e produção à custa de graves passivos sociais e ambientais.

O mundo virou de ponta-cabeça. A convocação “a janta ou o almoço estão na mesa” sumiu. O tempo aligeirou-se. O “fast food” entope o estômago e, sem cuidados nutricionais ou dietas de alimentos considerados profanos, a geração saúde viu o Índice de Massa Corporal (IMC) saltar do incômodo sobrepeso para a grave doença da obesidade.

Em dez anos, o relatório do GBD (publicado, em 2019, na revista Lancet) revelou que o maior fator de risco de morte no Brasil mudou de desnutrição para o alto Índice de Massa Corporal – IMC. Conclusão: o brasileiro está comendo pior e vivendo a mais severa forma de insegurança alimentar, a fome.

Dependendo do critério, os dados sobre a fome divergem. Segundo a Professora Renata Motta em “Efeitos da pandemia na alimentação e na situação de segurança alimentar no Brasil” indicam que 125 milhões de brasileiros sofreram algum grau de insegurança alimentar (2021). Por sua vez, o retorno do Brasil ao Mapa da Fome (ONU) se deu pela constatação de fome crônica de 4,1% da população acima da média global 2,5%.

A fome, crônica e estrutural, é uma doença produzida pela Política. Nada a ver com a produção de alimentos e a profecia escatológica de Malthus. O grande pernambucano Josué de Castro, em a “Geografia da Fome” (1946), obra clássica sobre o tema, desnaturalizou o problema da fome ao apontar como elementos determinantes fatores geográficos, ecológicos, biológicos e, sobretudo, políticos.

“Vivemos um mundo de opulências sem precedentes”, assim Amartya Sen (1933 e Nobel de Economia em 1988) inicia o magnífico livro “Desenvolvimento como liberdade” (Companhia das Letras, 2000) e complementa: “Vivemos igualmente em um mundo de privação, destituição e opressão extraordinárias […] persistência da pobreza, fomes coletivas e fomes crônicas […] violação de liberdades políticas elementares e liberdades formais básicas […].

Os apetites eleitorais, em disputa, sabem que a tirania escraviza o estômago vazio e as liberdades desprotegidas.

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