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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

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O CORRESPONDENTE

16
Dez19

Neofascismo: um fenômeno planetário – o caso Bolsonaro

Talis Andrade

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por Michael Löwy

Observamos nos últimos anos uma espetacular ascensão da extrema direita reacionária, autoritária e/ou “neofascista”, que já governa metade dos países em escala planetária: um fenômeno sem precedente desde os anos 1930. Alguns dos exemplos mais conhecidos: Trump (USA), Modi (Índia), Urban (Hungria), Erdogan (Turquia), ISIS (o Estado Islâmico), Duterte (Filipinas), e agora Bolsonaro (Brasil). Mas em vários outros países temos governos próximos desta tendência, mesmo que sem uma definição tão explicita: Rússia (Putin), Israel (Netanyahu), Japão, (Shinzo Abe), Áustria, Polônia, Birmânia, Colômbia, etc.

Em cada país esta extrema direita tem características próprias: em muitos países (Europa, Estados Unidos, Índia, Birmânia) o “inimigo” – isto é, o bode expiatório – são os muçulmanos e os imigrantes; em certos países muçulmanos são minorias religiosas (cristãos, judeus, yezhidis). Em alguns casos predomina o nacionalismo xenofóbico e o racismo, em outros o fundamentalismo religioso, ou então o ódio à esquerda, ao feminismo, aos homossexuais.

Apesar dessa diversidade há alguns traços comuns à maioria, senão a todos: o autoritarismo, o nacionalismo integral – “Deutschand über alles” e suas variantes locais: “America First”, “O Brasil acima de tudo”, etc. – a intolerância religiosa ou étnica (racista) contra o “Outro”, a violência policial/militar como única resposta aos problemas sociais e à criminalidade.

A caracterização como fascista ou neofascista pode se aplicar a alguns, mas não a todos. Algumas forças políticas têm características diretamente fascistas: é o caso do partido “Aurora Dourada” na Grécia, da Casa Pound na Itália, e de vários partidos nacionalistas nos países bálticos; na Ucrânia, na Bulgária e em outros países do Leste europeu. Outros, como os partidos racistas da Holanda, Inglaterra, Suíça, Dinamarca, não tem raízes no passado fascista.

Proponho designar como “neofascistas” líderes, partidos, movimentos ou governos que tem semelhanças significativas com o fascismo clássico dos anos 1930 – e com frequência, raízes históricas nesse passado – mas também algumas diferenças substanciais. Trata-se de fenômenos novos, que não são idênticos aos que conhecemos no passado. Alguns exemplos: o partido de Marine Le Pen na França, o FPÖ (“Liberal”) da Áustria, o partido Vlams Belang na Bélgica, Salvini e a Legga italiana, Jair Bolsonaro (sem partido orgânico), etc. Trump tem alguns aspectos neofascistas, mas misturados com o reacionarismo tradicional.

Outros conceitos têm sido usados para designar a extrema-direita atual. O termo “conservadorismo” é muito utilizado no Brasil, mas não é o mais apropriado: não se trata de uma corrente conservadora, no sentido de tradicionalista, nostálgica do passado, mais de um autoritarismo violento, moderno, geralmente neoliberal.

Bem pior é o caso do termo “populismo”, muito utilizado pela mídia burguesa e pela ciência política acadêmica para designar a extrema-direita. Trata-se de um conceito inoperante e mistificador por varias razões: (a) sua definição é tão vaga e imprecisa – “populistas são líderes que se dirigem diretamente ao povo, pretendendo lutar contra as elites” – que pode se aplicar praticamente a qualquer liderança política; (b) não tem nada a ver com o que habitualmente se designa como populismo, em particular na América Latina: Vargas, Perón, Cárdenas, João Goulart, termo que designa líderes com um discurso e, até certo ponto, uma prática nacionalista, anti-imperialista e um programa de reformas sociais moderadas; (c) funciona como um eufemismo, ocultando a realidade destes líderes e regimes de extrema direita, profundamente antipopulares, intolerantes, com traços fascistizantes; (d) serve para confundir o público, colocando no mesmo saco, como “populistas de direita e de esquerda”, todos os críticos da globalização neoliberal.

Para compreender o neofascismo

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Como explicar essa espetacular ascensão da extrema-direita e do neofascismo, em forma de governos, mas também de partidos políticos que ainda não governam, mas tem ampla base eleitoral e influenciam a vida política do país (França, Bélgica, Holanda, Suíça, Suécia etc.)? É difícil propor uma explicação geral para fenômenos tão diferentes, que são expressões de contradições especificas de cada país ou região do mundo. Mas, como se trata de uma tendência planetária, é necessário pelo menos examinar algumas hipóteses.

A mais evidente, e sem dúvida pertinente, é que a globalização capitalista – que é também um processo de brutal homogeneização cultural – produz e reproduz, em escala mundial, formas de “pânico identitário”(o termo é do crítico marxista francês Daniel Bensaïd), alimentando manifestações nacionalistas e/ou religiosas intolerantes e favorecendo conflitos étnicos ou confessionais. Quanto mais a nação perde seu poder econômico devido a globalização, tanto mais se proclama a imensa glória da Nação “Acima de Tudo”.

Outra explicação seria a crise financeira do capitalismo, iniciada em 2008, e suas consequências: depressão econômica, desemprego, marginalização. Esse fator foi sem dúvida importante para a vitória de Trump ou de Bolsonaro, mas é bem menos válido para a Europa: em países ricos, menos afetados pela crise, como Suíça e Áustria, a extrema direita tem um grande poder, enquanto que nos países mais atingidos pela crise, como Portugal, Espanha e Grécia, é a esquerda ou a centro-esquerda que é hegemônica, enquanto que a extrema-direita é periférica.

Esses dois processos se dão em uma sociedade capitalista na qual o neoliberalismo opera desde os anos 1980, aprofundando as desigualdades e as injustiças sociais e concentrando riquezas – como acontecia no capitalismo liberal pré-1929.

Estas explicações são úteis, pelo menos em alguns casos, mas são insuficientes. Não temos ainda uma análise global, que dê conta de um processo que é mundial, e que ocorre em um momento histórico determinado.

Um retorno ao passado?

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Seria uma volta aos anos 1930? A historia não se repete: existem evidentes semelhanças, mas os fenômenos atuais são bastante diferentes dos modelos do passado. Sobretudo, não temos – ainda – Estados totalitários comparáveis com o regime fascista italiano ou o Terceiro Reich nazista.

Os partidos neofascistas atuais não organizam tropas de choque paramilitares uniformizadas para aterrorizar a esquerda, como era o caso dos “camisas negras” de Mussolini, ou da Sturm Abteilung (SA) de Adolf Hitler.

A análise marxista clássica do fascismo o define como uma reação do grande capital, com o apoio da pequena burguesia, diante da ameaça revolucionária do movimento operário. Podemos nos interrogar se esta interpretação realmente explica a natureza do fascismo na Itália, Alemanha ou Espanha, nos anos 1920 e 1930.

De todo modo, ela não é pertinente no mundo atual, por várias razões: (a) não existe, em nenhum dos países em que o neofascismo está em ascensão, uma “ameaça revolucionária”; (b) o grande capital manifesta pouco entusiasmo pelo programa econômico “nacionalista” da extrema direita, embora possa vir a se acomodar a essa política; (c) o apoio aos Trump, Bolsonaro ou Le Pen não se limita à pequena burguesia, mas inclui grandes contingentes populares e mesmo da classe operária.

Esse conjunto de diferenças justifica o uso do termo “neofascismo” para designar forças políticas que apresentam traços fascistas, mas não são uma reprodução do passado.

O site francês Mediapart (https://www.mediapart.fr), em um editorial recente, a propósito da ascensão da extrema direita na França e no mundo, escreveu: “são cinco minutos antes de meia noite”. Mas não é tarde demais para tentar impedir a “resistível ascensão de Arturo Ui” – para citar o título da famosa peça de teatro antifascista de Bertolt Brecht.

No Brasil

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O fenômeno Bolsonaro tem muito em comum com esta vaga planetária “marrom” (cor da camisa das milícias nazistas dos anos 1930). Mas há algumas diferenças importantes quando comparamos, por exemplo, com a Europa:

(1) em vários países europeus existe uma continuidade política e ideológica entre movimentos neofascistas atuais e o fascismo clássico dos anos 1930, mas esse não é o caso no Brasil. O fascismo brasileiro, o integralismo, chegou a ter bastante peso nos anos 1930, inclusive influenciando o golpe do Estado Novo em 1938. Mas o fenômeno Bolsonaro tem pouca ou nenhuma relação com essa matriz antiga; pouquíssimos entre seus partidários sabem o que foi o integralismo.

(2) ao contrário da maioria da extrema direita europeia, Bolsonaro não fez do racismo sua principal bandeira. Certo, algumas de suas declarações tinham claro caráter racista, mas não foi o tema central, mobilizador, de sua campanha.

(3) o tema da luta contra a corrupção está presente no discurso da extrema direita europeia, mas de forma marginal. No Brasil é uma velha tradição, desde os anos 1940, dos conservadores: se levanta a bandeira do combate à corrupção para justificar o poder das oligarquias tradicionais e, segundo o caso, legitimar golpes militares. Bolsonaro conseguiu manipular este sentimento legitimo de indignação contra os políticos corruptos para se impor, e venceu a disputa de opinião na sociedade, ao identificar (falsamente) o PT como o núcleo do sistema político do Estado brasileiro e como o principal responsável pela corrupção.

(4) o ódio à esquerda, ou ao centro-esquerda – no caso do Brasil, ao PT – não é um tema importante da extrema-direita na Europa ocidental; ele está presente nas correntes pró-fascistas da Europa oriental, território das antigas “democracias populares”. Neste caso, trata-se de uma referência a uma experiência real do passado; no caso brasileiro, o discurso violentamente anticomunista de Bolsonaro nada tem a ver com a realidade brasileira presente ou passada. Ele é tanto mais absurdo quando se considera que a Guerra Fria acabou há várias décadas, a União Soviética não existe mais, e o PT obviamente nada tinha a ver com o comunismo (em qualquer definição possível deste termo).

(5) Enquanto boa parte da extrema direita, em particular na Europa, denuncia a globalização neoliberal, em nome do protecionismo, do nacionalismo econômico e do combate à “finança internacional”, Bolsonaro propõe um programa econômico ultraliberal, com mais globalização, mais mercado, mais privatizações, além de um completo alinhamento com o Império norte-americano. Isto lhe garantiu, sobretudo no segundo turno, o apoio decisivo das forças do capital financeiro e industrial assim como do agronegócio. A oligarquia capitalista brasileira preferia outros candidatos, mas ao se dar conta que Bolsonaro era o único capaz de vencer o PT, aderiu massivamente a ele.

(6) Enquanto que a religião tem um papel limitado na ascensão da extrema direita europeia (salvo na Polônia e Hungria), no Brasil as Igrejas neopentecostais, com seu discurso homofóbico e antifeminista ultrarreacionário, tiveram um papel essencial na vitória de Bolsonaro.

O que é comparável na extrema direita europeia, norte-americana e brasileira (Bolsonaro) são dois temas de agitação sociocultural reacionária: (a) a ideologia repressiva, o culto da violência policial, o chamado a reestabelecer a pena de morte e a proposta de distribuir armas à população para sua “defesa contra a criminalidade”; e (b) a intolerância com as minorias sexuais, em particular em ralação aos homossexuais. Trata-se de um tema de agitação que obtém sucesso em setores religiosos reacionários, com referência católica (Opus Dei, Civitas, etc.) ou, sobretudo, evangélica neopentecostal.

Esses dois temas foram decisivos para a vitória de Bolsonaro. Outros fatores foram importantes: (a) o desgaste do PT e da centro-direita convencional. Mas havia outros candidatos que também poderiam se apresentar como defensores da luta anticorrupção e da palavra de ordem “fora o sistema”, como Marina Silva. Por que não tiveram sucesso? (b) o papel nefasto da mídia. Ela, no entanto, estava dividida: nem todos fechavam com Bolsonaro; (c) as fake news, enviadas por meio de mensagens do aplicativo WhatsApp, a milhões de brasileiros. Resta explicar porque tantas pessoas acreditaram em mentiras tão grosseiras; (d) o desejo de parte significativa da população de um “Salvador da Pátria”, um “Homem Forte”, um “Mito”, capaz de “restabelecer a ordem” e “limpar o país”.

Ainda falta uma explicação convincente do incrível sucesso, em poucas semanas, da candidatura de Bolsonaro, a despeito de sua pregação da violência, da truculência, da misoginia, da ausência de programa e da apologia descarada da ditadura e da tortura.

Armando Boito publicou recentemente um artigo muito interessante em A terra é redonda (aterraeredonda.com.br), onde define Bolsonaro como “neofascista”. Compartilho essa caracterização, embora discorde da definição que ele propôs, citando Togliatti, do fascismo como “um movimento reacionário de massa enraizado em camadas intermediárias das formações sociais capitalistas.” Essa definição talvez fosse correta nos anos 1930, mas é bem menos pertinente no século 21. Hoje em dia, Marine Le Pen e Bolsonaro – para citar dois exemplos de neofascismo – dispõe de amplo apoio entre setores das classes populares, inclusive entre operários.

Uma das mais importantes contribuições do ensaio de Boito é sua caracterização da ideologia neofascista de Bolsonaro: “fascismo e o neofascismo são movidos por um discurso superficialmente crítico e ao mesmo tempo profundamente conservador sobre a economia capitalista e a democracia burguesa – crítica ao grande capital e defesa do capitalismo; crítica à corrupção e à “velha política” combinadas com a defesa de uma ordem autoritária. A ideologia de ambos é heterogênea e pouco sistemática; nela se destacam a designação da esquerda como o inimigo a ser destruído (Bolsonaro não proclamou abertamente em discurso transmitido nos telões da Avenida Paulista que a esquerda em seu governo deveria emigrar ou iria para a prisão?); o culto da violência (alguma dúvida sobre isso no que respeita ao bolsonarismo?); seu caráter principalmente destrutivo, negativo, não propositivo (Bolsonaro não esclareceu, para justificar sua falta de propostas positivas, que o governo dele será uma quimioterapia para o Brasil?); o irracionalismo (a terra é plana e o aquecimento global uma invenção, certo?); um nacionalismo autoritário e conservador (culto da homogeneidade da sociedade nacional e rejeição dos “desviantes”) e a politização do racismo e do machismo, ervas que brotam espontaneamente no solo da sociedade capitalista – na desigualdade de classe, na organização patriarcal da família, no autoritarismo da empresa capitalista – e que o fascismo alça, com o seu programa partidário, para a cena política” (https://aterraeredonda.com.br/a-terra-e-redonda-e-o-governo-bolsonaro-e-fascista/).

Marilena Chaui também publicou no mesmo site um artigo muito interessante sobre os autoritarismos de nossa época. Marilena recusa o termo “fascismo” para esses novos fenômenos, preferindo o conceito de “totalitarismo neoliberal”. Segundo Chaui, o fascismo era militarista, imperialista e colonialista, o que não é o caso dos atuais regimes autoritários. Me parece um equívoco pois há vários  exemplos de fascismos do passado sem vocação imperialista, o franquismo espanhol, por exemplo. O conceito de “totalitarismo neoliberal”, tal como ela propõe é muito rico, mas pode adotar várias formas, uma das quais corresponde ao que estamos chamando de neofascismo.

Sua análise do discurso desses governos autoritários, incluindo naturalmente Bolsonaro, é muito certeira: “Ideologicamente, com a expressão “marxismo cultural”, os gestores perseguem todas as formas e expressões do pensamento crítico e inventam a divisão da sociedade entre o bom povo, que os apoia, e os diabólicos, que os contestam. Por orientação dos consiglieri, pretendem fazer uma limpeza ideológica, social e política e para isso desenvolvem uma teoria da conspiração comunista, que seria liderada por intelectuais e artistas de esquerda. Os conselheiros são autodidatas que se formaram lendo manuais e odeiam cientistas, intelectuais e artistas, aproveitando-se do ressentimento que a extrema direita tem por essas figuras. Como tais conselheiros estão desprovidos de conhecimentos científicos, filosóficos e artísticos, empregam a palavra “comunista” sem qualquer sentido preciso: comunista significa todo pensamento e toda ação que questionem o status quo e o senso comum (por exemplo: que a terra é plana; que não há evolução das espécies; que a defesa do meio ambiente é mentirosa; que a teoria da relatividade não tem fundamento, etc.). São esses conselheiros que oferecem aos governantes os argumentos racistas, homofóbicos, machistas, religiosos, etc., isto é, transformam medos, ressentimentos e ódios sociais silenciosos em discurso do poder e justificativa para práticas de censura e de extermínio” (https://aterraeredonda.com.br/neoliberalismo-a-nova-forma-do-totalitarismo/).

À guisa de conclusão

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Gostaria de encerrar propondo uma breve reflexão para a ação no Brasil e na América Latina: precisamos construir amplas Frentes Únicas Democráticas e/ou Antifascistas para combater a onda da “Peste Marrom”. Mas não podemos deixar de levar em conta que o sistema capitalista, sobretudo nos períodos de crise, produz e reproduz constantemente fenômenos como o fascismo, o racismo, os golpes de estado e as ditaduras militares. A raiz desses fenômenos é sistêmica. A alternativa, portanto, tem que ser radical, isto é, antissistêmica. Concretamente isto significa uma alternativa anti-imperialista e anticapitalista: o socialismo. Ou melhor, o ecosocialismo, porque a questão ecológica terá um papel cada vez maior no enfrentamento com Bolsonaro e seu protetor ianque, Donald Trump. Um ecosocialismo afro-indo-americano (parafraseando José Carlos Mariátegui) que supere os limites dos movimentos socialistas do século passado – o compromisso socialdemocrata com o sistema, e a degeneração burocrática do chamado “socialismo real” – recuperando as bandeiras revolucionarias latino-americanas, de Simon Bolívar a Ernesto Che Guevara, de José Martí a Farabundo Marti, de Emiliano Zapata a Augusto Cesar Sandino, de Zumbi dos Palmares a Chico Mendes.

*Michael Löwy é diretor de pesquisas do Centre National de la Recherche Scientifique

Publicado originalmente em https://aterraeredonda.com.br/neofascismo-um-fenomeno-planetario-o-caso-bolsonaro/

26
Nov19

Bolsonaro fala em volta à ditadura e STF acena com impeachment

Talis Andrade

Em resposta às ameaças de edição do AI-5, que fechou o Congresso e ampliou os poderes ditatoriais, tanto a Câmara quanto o Senado e o Supremo Tribunal Federal (STF) rebelaram-se, nesta terça-feira

 

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Correio do Brasil - Os péssimos resultados no campo econômico têm levado o governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) a ventilar uma possível volta à ditadura militar; seja com a edição de um novo Ato Institucional (AI), nos moldes daqueles que marcaram os ‘Anos de Chumbo’ (1964 a 1984), ou com a imposição da violência contra manifestações de protesto contra o atual regime. Mas, dessa vez, há reação por parte dos demais Poderes da República.

Em resposta às ameaças de edição do AI-5, que fechou o Congresso e ampliou os poderes ditatoriais, tanto a Câmara quanto o Senado e o Supremo Tribunal Federal (STF) rebelaram-se, nesta terça-feira. No Supremo, o ex-presidente da Corte e ministro Ricardo Lewandowski foi além: acenou com a possibilidade da abertura de um processo de impedimento contra o mandatário neofascista.

Lewandowski criticou as ameaças à volta de práticas ditatoriais, por parte do governo Jair Bolsonaro, que enviou ao Congresso Nacional um projeto com o chamado um excludente de ilicitude em ações do Garantia da Lei e da Ordem (GLO). De acordo com Lewandowski, Bolsonaro sujeita-se a um processo de impeachment “caso venha a atentar contra o exercício dos direitos políticos, individuais ou sociais, extrapolando os rigorosos parâmetros que norteiam a atuação presidencial naquelas situações”.

Medidas extremas

“Nem se imagine que a intervenção federal, o emprego das Forças Armadas em operações para garantia da lei e da ordem ou a decretação do estado de defesa e de sítio — estes concebidos para enfrentar graves comoções internas, calamidades públicas de grandes proporções e agressões armadas externas, dentre outras crises — podem prestar-se a sufocar franquias democráticas”, disse o ministro, em artigo publicado no diário conservador paulistano Folha de S.Paulo.

Ainda segundo o ministro, ”é que tais medidas extremas não só estão estritamente balizadas no texto constitucional como também se encontram submetidas ao controle parlamentar e judiciário quanto à legalidade, razoabilidade, proporcionalidade, demarcação espacial e limitação temporal”.

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22
Nov19

Imprensa alemã alerta: "É preciso soar alarme sobre a expansão do neonazismo no Brasil"

Talis Andrade

cristo redentor vasco gargalo nazismo bolsonaro.jp

 

A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha divulga entrevista com  antropóloga,  que prepara livro sobre cena extremista no Brasil e aponta existência de 334 células no país, com pelo menos 5 mil membros ativos. Em São Paulo existem 99 células. Santa Catarina tem 69; Paraná, 66; Rio Grande do Sul, 47; e Rio de Janeiro, 22. Mas há também células em atividade em estados do Nordeste e do Centro-Oeste.

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Foi por acaso que a antropóloga Adriana Dias se tornou a maior especialista em movimentos neonazistas no Brasil. Ela era aluna de graduação de Ciências Sociais na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e, em uma aula, deparou-se com o assunto. Decidiu pesquisar na internet.
"Encontrei um site, em português, que tinha quatro homens fazendo uma suástica com o corpo e uma bandeira nacional-socialista", recorda. "No primeiro momento, atribuí aquilo a jovens, como quase todo mundo faz. Mas logo identifiquei que havia uma estrutura por trás."
O assunto foi transformado em trabalho de conclusão de curso, em 2005, posteriormente e mestrado e finalmente em tese de doutorado. Agora ela prepara um livro que deve abordar especificamente os grupos neonazistas brasileiros.
"Observo um crescimento muito grande desde que comecei a estudar o assunto", conta ela. Dias identificou 334 células neonazistas em atividade no País. São grupos que reúnem de três a 25 adeptos. Há seguidores de diversas linhas – hitleristas são a maioria, com 187 grupos, mas há ainda supremacistas brancos, separatistas, negacionistas do Holocausto, Klu Klux Klan, entre outros.
De acordo com o levantamento da antropóloga, a maior parte do movimento neonazista brasileiro concentra-se nas regiões Sul e Sudeste do país. Em São Paulo existem 99 células. Santa Catarina tem 69; Paraná, 66; Rio Grande do Sul, 47; e Rio de Janeiro, 22. Mas há também células em atividade em estados do Nordeste e do Centro-Oeste.
Ao todo, essas células reúnem de 4 mil a 5 mil pessoas, segundo a pesquisadora. Para efeito de comparação, o serviço de inteligência doméstico da Alemanha, o Escritório Federal para a Proteção da Constituição (BfV, na sigla em alemão), estima que há pelo menos 24 mil extremistas ativos no país europeu.

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DW Brasil: A senhora observa um crescimento dos neonazistas no Brasil?
Adriana Dias: Sim, desde que comecei a estudar o assunto, noto aumento na quantidade e na diversidade dos grupos. Há dez anos, por exemplo, eu não localizava grupos no Centro-Oeste. Agora já tem – seis em Goiás, três em Mato Grosso e um em Mato Grosso do Sul.


São 334 células identificadas em seu levantamento. É possível estimar quantos são os praticantes?
Que leem material neonazista são cerca de 500 mil pessoas no Brasil. Que praticam em células mesmo são de 4 mil a 5 mil pessoas – mas em torno delas há muita gente para ajudar. Agora, se houvesse uma conspiração neonazista grande no Brasil hoje, seriam pelo menos 600 pessoas dispostas a cometer crimes graves. Mas as células não leem o Brasil atual como um momento de conjuntura para isso. Elas não acreditam que estejamos no decorrer histórico palatável para a ascensão de um Estado neonazi.


Esses números não podem ser vistos como alarmistas? Como abordar o tema sem dar "palanque" para tais discursos?

Não é caso de alarmismo. É de alarme. A sociedade brasileira está nazificando-se. As pessoas que tinham a ideia de supremacia guardada em si viram o recrudescimento da direita e agora estão podendo falar do assunto com certa tranquilidade. Precisamos abordar o tema para ativar o sinal de alerta. Justamente para não dar palanque a essas ideias, precisamos falar sobre criminalização de movimentos de ódio e resgatar a questão crucial: compartilhar humanidades.
No limite, o que esses movimentos fazem é hierarquizar humanidades, ou seja, acreditar que o branco é melhor do que a mulher, melhor do que o negro, melhor do que o índio, o gay, etc. Empatia é achar a humanidade compartilhada, é compartilhar a humanidade com o outro. Estamos precisando construir a capacidade psicocognitiva da empatia – e isso só é construído por meio da diversidade.


A senhora percebe ideias do movimento neonazista já incorporadas pela sociedade?
É o que se chama de propaganda de terceira fase. Enquanto na primeira fase esses militantes querem comprar uma elite neonazista, falando de branquitude de um nível espiritual e dirigindo-se a pessoas que já se interessam pelo tema e se organizando em células, na terceira fase o público-alvo é o homem médio da sociedade.
Então são trazidas questões como medo dos migrantes e outras questões que deixam aqueles que se sentem maioria com receio de que as minorias os tirem do lugar que eles acreditam ser natural deles, a priori, como se fosse um direito natural. São preocupações que [Sigmund] Freud chamava de ansiedade persecutória da incompletude.
Um exemplo é a ideia de que existe racismo reverso. A expressão foi criada em 1974 por um membro da Klu Klux Klan [organização racista americana] do Colorado, nos Estados Unidos. Em pouco tempo passou a ser difundido. De tal forma que atualmente é um termo comum do senso comum. É isso que o movimento quer: que os termos racistas fiquem cada vez mais deglutíveis pela massa, de forma que se aproximem, de modo que a média da sociedade aceite isso de maneira mais palatável.


A internet catalisa esses discursos?

Eu diria que ela permite essa difusão. Mas os grupos são a água do banho e a internet é o bebê. Não se pode jogar o bebê junto com a água do banho. A internet e as redes sociais deram condições favoráveis para que esses grupos se comunicassem. A internet não é só um espaço de comunicação, é um espaço de socialização.
Por outro lado, a internet também dá condições para o avanço de grupos democráticos. A questão é: precisamos fortalecer os espaços democráticos na internet e é necessário haver regras mais fortes para conter crimes de ódio, difusão de discursos de ódio.

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