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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

12
Mar19

Bolsonaro estimula ódio contra jornalistas

Talis Andrade

 

redação liberdade jornalista.jpg

 

por Altamiro Borges

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Com a sua criminalização da política e a sua satanização das esquerdas, a mídia monopolista ajudou a chocar o ovo da serpente fascista no Brasil – que desembocou, mesmo a contragosto, na vitória eleitoral do miliciano Jair Bolsonaro. Agora, porém, ela é alvo do próprio monstro que pariu e nem pode se dizer surpresa. Afinal, o fascismo não tolera críticas e detesta a liberdade de expressão. Covarde, ele sempre estimulou o ódio contra os que pensam diferente. Nessa semana, o presidente-capetão demonstrou mais uma vez que não vacilará nem em difundir mentiras para intimidar os que denunciam suas mazelas.

Ao postar uma notícia falsa contra a jornalista Constança Rezende, do jornal Estadão, Jair Bolsonaro estimulou o ódio entre os seus fanáticos seguidores. Em postagem no domingo (10), o tuiteiro tresloucado endossou uma fake news do site bolsonarista Terça Livre, que atribuía à jornalista uma declaração de que teria a intenção de “arruinar a vida de Flávio Bolsonaro e buscar o impeachment do presidente”. A informação falsa replicada foi assinada por Fernanda Salles Andrade, assessora do deputado estadual Bruno Engler, do PSL (Partido Só de Laranjas) de Minas Gerais.

Ao reproduzir a fake news, Jair Bolsonaro tentou posar de vítima e afirmou que “querem derrubar o governo com chantagens, desinformações e vazamentos”. Logo após a postagem criminosa, a jornalista do Estadão foi alvo de ofensas e cancelou a sua conta no Twitter. Em seu linchamento virtual, o presidente-capetão inclusive disse que Constança Rezende é filha do também jornalista Chico Otavio, repórter do jornal O Globo, que tem investigado a atuação das milícias no Rio de Janeiro. Vale lembrar que estes bandos criminosos têm íntimas ligações com um dos “pimpolhos” do presidente, o senador Flávio Bolsonaro.

Ao estimular o ódio entre seus fanáticos seguidores, o que pode aumentar a violência contra jornalistas, Jair Bolsonaro gerou a imediata reação de vários setores da sociedade – inclusive daqueles que até recentemente silenciaram diante da ascensão fascista no país. A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) divulgaram nota de repúdio à tentativa de intimidar a “veículos de mídia e jornalistas” e afirmaram que a atitude do presidente revela o “descompromisso com a veracidade dos fatos”.

Já a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), que sempre alertou para os riscos à democracia, divulgou uma nota mais incisiva. Ela é assinada em conjunto com o Sindicato dos Jornalistas do Rio de Janeiro. Reproduzo-a na íntegra:

Presidente ataca a liberdade de imprensa ao caluniar jornalista

internet_sid.jpg

 

O Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro e a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) repudiam a acusação leviana e caluniosa que o presidente da República, Jair Bolsonaro, fez à jornalista Constança Rezende, por meio de seu Twitter.

O primeiro mandatário do país utilizou informação falsa do site Terça Livre, que atribuiu à jornalista a afirmação de querer arruinar a vida de Flávio Bolsonaro, para afirmar que a imprensa quer “derrubar o governo, com chantagens, desinformações e vazamentos”. O site é claramente partidário de Bolsonaro e atribuiu à Constança Rezende uma afirmação que ela jamais fez.

A jornalista, repórter do jornal O Estado de S. Paulo, é uma dos profissionais que acompanha o caso Queiroz, ex-assessor de Flávio Bolsonaro, que segundo o Coaf, movimentou quantias de dinheiro incompatíveis com sua renda.

Ao tentar desqualificá-la para enfraquecer a apuração do caso Queiroz, o presidente da República assume uma postura que não condiz com o cargo que ocupa. Em mais uma atitude intempestiva e irresponsável, ele agride a jornalista e, em última análise, o trabalho jornalístico. Os constantes ataques do presidente à atuação da imprensa são um desrespeito à democracia brasileira que precisa ter um fim.

O Sindicato dos Jornalistas e a Fenaj, assim como todos os jornalistas brasileiros, não se intimidarão diante desse comportamento ignominioso e pedem que as empresas de comunicação, e neste caso, especialmente ao jornal O Estado de S. Paulo, que também assumam a defesa da liberdade de imprensa e de seus profissionais.

Aos jornalistas cabe a função de informar à população, de forma responsável, sobre os fatos relevantes da vida nacional e, deste nobilíssimo papel, não vamos abrir mão.

*****

Em tempo: Como comandante em chefe do laranjal de Brasília, Jair Bolsonaro deveria ser mais cuidadoso com seus tuítes que estimulam linchamentos. Há muitos milicianos e fanáticos próximos ao presidente que topam seguir as ordens ao pé da letra e o capetão poderá ser acusado de cúmplice dos crimes. A situação dos jornalistas já é preocupante. Na campanha eleitoral do ano passado, houve um sensível aumento da violência contra profissionais do setor.


Relatório da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), divulgado no final de fevereiro, revelou que três jornalistas foram assassinados em 2018 – Jefferson Lopes, Jairo Sousa e Marlon Carvalho. Já os casos de atentados, agressões e ameaças, categorizados como violência não letal, tiveram aumento de 50% – pularam de 76 casos registrados em 2017 para 114 no ano passado.

O relatório aponta que os profissionais de TV foram as principais vítimas das agressões e que 72% dos casos ocorreram nas regiões Sul e Sudeste do país. São Paulo contabilizou 12 casos, o maior número entre os estados. A maior parte das agressões ocorreu na reta final da campanha eleitoral. O estudo da Abert foi o primeiro com um capítulo sobre crimes virtuais. Entre os 11 casos de ameaças, ofensas e ataques digitais destacou-se o da repórter Patrícia Campos Mello, da Folha de S.Paulo. A jornalista sofreu ofensas após publicação de reportagem que mostrava que empresários bancaram disparos por WhatsApp contra Fernando Haddad (PT) e em apoio a Jair Bolsonaro (PSL).

23
Fev19

DITADURA DO JUDICIÁRIO Blog Tijolaço está sob censura prévia

Talis Andrade

brito brizola.jpg

lula- brito.jpg

 


por Fernando Brito, no blog Tijolaço:

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Recebi, hoje, a intimação da 10a. Vara Cível de Curitiba, determinada pela Juíza Genevieve Paim Paganella, para que não apenas retirasse do blog um post sobre a Juíza “X”, também do Paraná, no qual reproduzi uma matéria do Jornal do Brasil, publicada também pelo jornal O Globo e pela Gazeta do Povo, maior jornal daquele estado.

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Cumprirei a ordem e, com os parcos recursos que tenho enfrentarei o processo que a “Juíza X” move, no qual não fui citado anteriormente mas apenas intimado agora para cumprir a liminar daquela colega da autora.

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Mas é chocante que, depois de tantas decisões do STF, aconteça de alguém receber uma ordem para se abster “de efetuar de novas postagens relativas aos mesmos fatos, em qualquer publicação ou postagem, por quaisquer meios de divulgação, mormente em virtude do caráter sigiloso do processo judicial sub judice (sic)”.

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No processo, ao qual só hoje tive acesso – e precário, pela desorganização de sua publicação eletrônica – verifico que há previsão de que se obedeça à ordem ” sob pena multa diária no valor de R$ 10.000,00 (dez mil reais), com limite de R$ 100.000,00 (cem mil reais) em relação à cada pessoa jurídica e/ou física indicada no polo passivo”. E são várias.

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Pode ser que o Yahoo e a Globo, ironicamente meus “colegas de processo”, não se importem com estes valores. Eu, sim.

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Aliás, este fato já me prejudica, pois tive de deixar de postar e receber os cliques dos quais o blog se sustenta para buscar saber do que se tratava e tomar as providências adequadas.

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Ressalto que não foi processado, entre vários outros sites que publicaram o tema, o do Instituto Brasileiro de Direito da Família, que tem em sua direção a festejada jurista, desembargadora aposentada da Justiça gaúcha e referência nacional em proteção a menores, Maria Berenice Dias,que quatro dias antes da publicação do Tijolaço, classificou o que se noticiava como uma decisão judicial “completamente esdrúxula”, que contrariava leis e tratados internacionais, em palavras desabridas de sua presidente da Comissão de Direitos do Refugiados, Patrícia Gorish.

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Perdoem o leitor e a leitora se não explicito, ainda, do que se trata, em termos de notícia, embora seja óbvio a quem quiser pesquisar. É que sobre este processo foi decretado “sigilo de Justiça”.

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Mas minha intimação, como é um ato público, que se poderia fazer até por edital, não está abrangida por este “segredo de Polichinelo”.

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E, com multa ou sem multa vou defender o princípio de que não existe censura prévia como a que está sendo imposta, ao impedir-me de falar em “novas postagens relativas aos mesmo fatos”.

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Fatos não podem ser proibidos.

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O Tijolaço respeitará a ordem judicial, mas não se conformará com ela.

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PS. Por razões de prudência jurídica, fechei o post para comentários. Agradeço as manifestações de solidariedade pessoal, menos importante que a defesa da liberdade de informação.

censura imprensa cartoon_abdullahi_muhiaddin_somal

 

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P.S. deste Correspondente: Desmoralize a Gestapo do Judiciário, visitando o Tijolaço, e procurando descobrir quem é essa juíza adestrada pelo Torquemada Sergio Moro, ex-juizeco agenciado pelos serviços de inteligência dos Estados Unidos.

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Moro prendeu Lula para facilitar a vitória de Bolsonaro, capitão de Trump na guerra de conquista das minas de ouro e poços de petróleo da Venezuela.

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Desde o golpe de 2016 que o Brasil entregou o Pré-Sal e a Petrobras, e outras riquezas representadas pelas cores verde e amarela da Bandeira do Brasil.

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Pelos serviços prestados, Moro ganhou o Ministério da Justiça mais o da Segurança Pública, cargo que gratifica sua vocação policial de cão de caça.

 

censura liberdade censor jornalista.jpg

 

03
Jun18

IN MEMORIAM DE LUIZ INÁCIO MARANHÃO FILHO

Talis Andrade

 

luis maranhão filho foto coleção  Rostand Medei

 

1

Nas televisões

a propaganda mostra

a vitória do sistema

o milagre brasileiro

 

Nas rádios

a animação

Pra frente Brasil

 

Nos jornais

a persuasão

Ame-o ou deixe-o

 

Não há espaço

para a notícia

do suposto extermínio

de um jornalista

 

2

Luiz Maranhão permanece desaparecido

Não há como se achar um cadáver

em um país de oito milhões de quilômetros quadrados

Não há como se achar um cadáver

em um mar de quinhentas milhas

Nem justificativa para rezar missa

pela alma penada de um comunista

 

Em defesa da Nova República

a precaução de colocar uma imensa pedra

sobre o cadáver de Luiz Maranhão

Em defesa da Nova República

a prudência de amarrar

o cadáver de Luiz Maranhão

a uma pesada âncora

fixada em secreto

profundo mar

 

 

3

A conspiração do silêncio

mantém todos quietos

A conspiração do silêncio

deixa em paz

os que prendem

e arrebentam

A conspiração do silêncio

tranqüiliza a consciência

dos confrades de Luiz Maranhão

 

4

Não há que rezar missa

pela alma de um comunista

não há motivo para reclamar

o corpo de um jornalista

 

O brasileiro não aceita

o revanchismo

prefere a paz dos túmulos

o povo brasileiro 

 

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Talis Andrade, O Enforcado da Rainha, 147/149

Foto Luiz Maranhão Filho/ Coleção de

22
Nov17

A censurada morte de uma linda adolescente que escrevia poesia

Talis Andrade

thalia 10 instagram .jpg

No Brasil os jornalistas sofrem assédio judicial, têm a morte anunciada, são presos e assassinados. O terrorismo contra a imprensa explica o silêncio sobre vários crimes. Explica porque a imprensa de São Luís jamais publicou uma linha sobre a morte da poetisa Thalia Mendes Meireles, 15 anos, em Monção, e estudante da escola Horas Alegres, em Santa Inês. Thalia foi encontrada morta na Quinta-Feira Santa, e desde os 12 anos sofria abusos sexuais do pai José Meireles da Silva, dono de supermercado em Igarapé do Meio, Maranhão.

CDL thalia nota.jpg

meireles lojistas.jpg

Na foto, José Meireles pousa com João Nojosa de Souza. Thalia morreu na noite do dia 13.04.2017, no dia seguinte, Sexta-Feira da Paixão, a imprensa publicava a nota do CDL.

03
Nov17

O Estado brasileiro e a impunidade em crimes contra comunicadores

Talis Andrade


É necessário políticas públicas que possam mapear as violações cometidas contra comunicadores

 

por Paula Martins e João Ricardo Penteado

El País/ Madri

 

 

Município de Miguel Pereira, Rio de Janeiro. Era pouco mais de 19h, do dia 13 de fevereiro de 2014, uma quinta-feira, quando o jornalista Pedro Palma chegou em casa depois de sair do trabalho. Ao descer de seu carro, dois homens em uma motocicleta se aproximaram. Um deles sacou o revólver e realizou três disparos; dois deles acertaram a barriga de Pedro; o outro, o tórax. O jornalista morreu na hora.

 


Pedro Palma era dono do Panorama Regional, um pequeno jornal local. O veículo era conhecido pelas matérias sobre irregularidades praticadas pelas prefeituras das cidades da região. Apesar de os criminosos ainda não terem sido indiciados pelas autoridades, a principal suspeita é que o assassinato do jornalista tenha ligação com seu exercício profissional.

 

Pedro Palma momento do crime e um dos atiradores.j

Imagens do assassinato do jornalista Pedro Palma, de 47 anos, em Governador Portela, distrito de Miguel Pereira, localizado no sul do Rio, mostram Pedro descendo do carro; momentos depois, dois homens em uma moto se aproximam do veículo; um deles desce e dispara contra o jornalista. Veja vídeo aqui . Ninguém foi preso

 

A morte de Pedro é um dos 12 casos de assassinatos de comunicadores¹ ocorridos entre 2012 e 2014 cujos desdobramentos a ARTIGO 19 vem monitorando até hoje. De todos eles, apenas três tiveram criminosos identificados e responsabilizados. Nos outros nove, incluindo o caso de Pedro Palma, ninguém foi responsabilizado, sendo que em seis deles, as investigações sequer foram concluídas.

 

Esse é o enredo que reflete a impunidade em crimes contra comunicadores não apenas no Brasil mas também em outros países. Segundo a Unesco, no período de 2006 a 2016, 930 jornalistas de todo o mundo foram assassinados por conta de seus trabalhos. E só em 8% dos casos os responsáveis pelos crimes foram identificados e levados à Justiça.

 

Tal cenário representa um terreno fértil para que o ciclo de violações contra comunicadores siga ocorrendo. Como consequência, surge a autocensura, a qual outros comunicadores acabam se sujeitando pelo medo de represálias. Informações de interesse público deixam então de ser publicadas, prejudicando não apenas o direito à liberdade de expressão desses indivíduos, mas também o direito à informação de toda a sociedade.

 

Para atacar o problema por aqui, é fundamental que o Estado brasileiro empreenda os recursos e esforços necessários na resolução desses crimes. Nesse sentido, uma boa prática é a designação de delegacias especializadas em homicídios e de grupos de trabalho interinstitucionais para conduzir as investigações, medida que, segundo o histórico, aumenta as chances de se alcançar a responsabilização dos criminosos envolvidos. Outro fator decisivo é a atuação do Ministério Público, que pode contribuir não só com o controle externo da atividade policial, mas também com a eficácia dos inquéritos policiais.

 

Vale ainda citar que, de acordo com o monitoramento da ARTIGO 19, os casos de assassinatos de comunicadores em que as investigações transcorreram com maior êxito foram aqueles em que as provas foram reunidas rapidamente e que consideraram a atividade profissional da vítima como principal hipótese para a motivação do crime. No caso desta última, apesar de parecer uma presunção óbvia, ela nem sempre é levada em conta pelas autoridades investigativas.

 

Assassinatos contra comunicadores trazem ainda uma característica marcante: em quase todos eles, os crimes são cometidos por pistoleiros contratados para isso, com a existência da figura de um ou mais mandantes por trás. Estes, no entanto, dificilmente são responsabilizados – nos 12 casos monitorados pela ARTIGO 19, por exemplo, a responsabilização dos mandantes não ocorreu sequer uma vez. Por isso, para que a impunidade seja combatida de fato, é de suma importância que todos os envolvidos no crime, e não somente os executores, sejam responsabilizados.

 

Por fim, é essencial que o Estado brasileiro assuma a responsabilidade de produzir políticas públicas que possam mapear de forma mais detalhada as principais características das graves violações (ameaças, sequestros, tentativas de assassinato e assassinatos) cometidas contra comunicadores no Brasil, levantando informações sobre os locais e a forma que ocorrem, o perfil dos perpetradores e os tipos de cobertura que oferecem mais risco. E, indo mais além, que também sejam capazes de fomentar ações preventivas e garantir a proteção de comunicadores que estejam sob risco.

 

Neste dia 2 de novembro, data em que o mundo celebra o Dia Internacional pelo Fim da Impunidade em Crimes contra Jornalistas, precisamos mais do que nunca lembrar daqueles que foram assassinados exercendo o direito à liberdade de expressão e informação. Para que essa realidade não continue, precisamos também seguir cobrando o Estado para que enfrente esse cenário de violência e impunidade, com a adoção de medidas rápidas, consistentes e duradouras.

 

---

Paula Martins é diretora-executiva da ARTIGO 19

João Ricardo é coordenador de Comunicação da mesma entidade

 

¹ Comunicadores são aqueles que têm no exercício da comunicação sua atividade regular, como, por exemplo, jornalistas, blogueiros, radialistas e midiativistas

 

Autoridades podres de ricas perseguem, prendem, torturam e matam comunicadores. Principalmente porque denunciadas por abuso de poder, enriquecimento rápido e ilícito, por receber salários roubados acima do teto constitucional, por chefiar máfias, por comandar o tráfico (caso dos comandantes da Polícia Militar do Rio de Janeiro). Leia aqui a peregrinação absurda a que a Justiça do Paraná submete um grupo de jornalistas

 

 

 

 

01
Nov17

Abraji investiga morte de jornalistas do Brasil. Polícia e política no assassinato de jornalistas

Talis Andrade

jornalista caixão Alfredo Martirena.jpg

 Ilustração Alfredo Martirena

 

 

Quem matou?

Quem mandou matar? 

 

 

por Pedro Varoni

 

 

É uma tarde chuvosa de sexta-feira e após duas tentativas frustradas no telefone celular, Bob Fernandes me passa o seu número fixo. É nosso primeiro contato e a sua voz me é familiar. Reconheço o ritmo de narração do repórter de texto econômico, desses que quase já não se fazem mais.

 

As palavras certeiras dizem muito, exploram contextos, expõem a clareza de um raciocínio de quem aposta as fichas na autonomia do jornalismo diante dos interesses políticos e econômicos.

 

É o mesmo estilo que encontro no último material publicado pela Abraji sobre o assassinato de jornalistas no Brasil. “Quem matou, quem mandou matar? – Política e Polícia no assassinato de jornalistas”.

 

As reportagens são de Bob Fernandes e Bruno Miranda e fazem parte do projeto “Programa Tim Lopes” da Abraji, com apoio da Open Society Foundations. O conteúdo inclui narrativas em texto e produções audiovisuais, como um documentário dirigido por Bob Fernandes e João Wainer.

 

O resultado pode ser descrito como uma grande reportagem transmídia: aprofundamento do tema, narrativa em formatos diversos. É a primeira vez que a Abraji produz conteúdo jornalístico. “Nesses 15 anos nossa opção estratégica sempre foi a de fomentar e estimular o uso de ferramentas e práticas que favorecem o exercício do jornalismo. Quebramos hoje, excepcionalmente, este paradigma, para tratar de um dos temas mais caros ao exercício da profissão, o assassinato de comunicadores pelo interior do país”, esclarece a associação em sua página no Facebook.

 

Dados do Committee to Protect Journalists (CPJ) apontam a morte de 39 jornalistas no Brasil desde 1992, sendo que 25 mandantes ou assassinos continuam impunes.

 

Para contar a história desses números, o projeto da Abraji percorreu 14.800 quilômetros pelo Brasil. E encontrou, sobretudo, a presença forte do radiojornalismo. O Brasil tem outorgadas 14.350 emissoras de rádio, com 9.973 outorgas para emissoras nas áreas comercial e educativa e 4.377 para rádios comunitárias.

 

Na apresentação do trabalho, a equipe do projeto fala da necessidade de prudência no levantamento dos dados de jornalistas mortos no exercício da profissão, principalmente pelas dificuldades em se definir com precisão se o assassinato se deu por motivos ligados ao jornalismo ou por ações pessoais alheias ao exercício profissional.

 

A partir desses critérios quatro lugares foram selecionados para as reportagens: Ponta Porã, no Mato Grosso do Sul, fronteira com o Paraguai; Ipatinga, no Vale do Aço em Minas Gerais; Conceição do Ferro, na região de Feira de Santana, na Bahia; e Camocim, no Ceará.

 

Bob Fernandes, relata na reportagem, outros motivos da escolha.

 

“Gleydson, em Camocim, Ceará, por ter sido assassinado dentro do estúdio, quando entrava no ar. Crime com repercussão mundo afora.

 

Rodrigo Neto e Walgney de Carvalho, em Ipatinga, pela reação exemplar do jornalismo aos assassinatos. Pressionado pelo trabalho de repórteres da região, e pelo Sindicato dos jornalistas de Minas, o governo estadual montou uma força-tarefa.

 

Os dois assassinos, um deles policial, foram condenados e presos. Acusados por outros crimes, 10 policias foram presos. Depois, pouco a pouco, foram libertados. Os mandantes seguem livres.

 

Em Conceição da Feira, na Bahia, o contrário. Ninguém preso. O delegado que investigou o crime já não está na cidade. Que seguia sem promotor, sem juiz, e sem Fórum.

 

Em Ponta Porã, Pedro Juan Caballero, a feroz disputa do narcotráfico, com a presença de ‘Comandos’ que, assim como Brasil afora, guerreiam e ocupam territórios.”

 

O trabalho de apuração comprovou, na prática, o que pesquisas apontam:

 

 

Entre 80 e 90% dos inquéritos abertos para investigar homicídios são arquivados sem determinação de autoria e circunstâncias dos crimes.

 

A abordagem do projeto sugere uma meta reflexão sobre a cobertura da violência no jornalismo brasileiro, em grande parte refém de tratamentos sensacionalistas e comprometida com só um lado — o policial — e também fragilizada por um cenário em que a investigação e o aprofundamento podem ser punidos com a vida.

 

Ao buscar contextualizar as relações de poder por detrás dos assassinatos dos jornalistas, a equipe do projeto “Quem Matou, quem mandou matar” retrata a face real de um país violento e injusto.

 

A reportagem foi a primeira etapa do projeto. A segunda fase será formada por uma rede de jornalistas, empregados de redações de diferentes partes do país, que acompanhará in loco cada caso de assassinato, sequestro ou tentativa de assassinato de um colega. “O objetivo é dar visibilidade tanto ao crime quanto ao conteúdo que a vítima investigava”, informa o site da organização.

 

Pergunto à Bob Fernandes como esse trabalho o transformou. “Viajo o Brasil há muitos anos e essa reportagem foi uma atualização do Brasil profundo. Vi, de novo, pessoas passando fome, dormindo nas praças, cenas que a gente achava que estavam superadas.”

 

Encerramos a conversa dialogando sobre as relações de poder na política brasileira e sua influência no jornalismo. Depois da despedida, volto ao texto. “Se no topo o país vive monopólios na indústria de comunicação de massa, imagine-se a fragilidade no Brasil profundo. Emissoras e profissionais, muitas vezes em vão, se esforçam para não se tornarem reféns de anunciantes. Sejam eles de origem privada ou pública.”

 

“Quem matou, quem mandou matar” nos faz conhecer esse jornalismo real, ao mesmo tempo distante e próximo dos grandes centros e do congresso nacional.

 

Ficha técnica do projeto

Direção
Bob Fernandes
João Wainer

Roteiro e Montagem
André Felipe

Reportagem
Bob Fernandes
Bruno Miranda

Produção
Lucas Ferraz

Produção executiva
Thiago Herdy
Guilherme Alpendre

Fotografia
Bruno Miranda

Direção de fotografia
Bruno Miranda

Som direto
Bruno Miranda

 

martyrs_of_freedom__vilma_vargas sangue jornalista

 Ilustração Vilma Vargas

 

Nota: Este Correspondente acrescenta:

 

O Brasil mata jornalistas. O Congresso já impediu que essa matança fosse investigada pela Polícia Federal. Deputados e senadores preferem que os crimes sejam investigados pelas polícias civil e militar estaduais. Ora, ora, quase todos os assassinatos de jornalistas têm a participação de policiais, notadamente como executores. Quando descobertos os mandantes, a justiça não prende.

 

Com a chamada pós-democracia, não são crimes políticos. Os jornalistas são assassinados por máfias chefiadas por políticos.
Que o Brasil está cheio de máfias.
Máfia do asfalto.
Da merenda escolar.
Dos livros didáticos.
Dos medicamentos.
Dos precatórios.
Dos alvarás.
Dos serviços fantasmas.
Da agiotagem para financiar campanhas eleitorais.
Máfias de tudo que se imaginar.

 

22
Out17

Panama Papers, a queima de jornalistas

Talis Andrade

memória.jpg

 

 

O governo de Malta oferece uma recompensa “sem precedentes” no valor de um milhão de euros a quem tiver informações sobre o assassinato da jornalista Daphne Caruana Galizia, noticia o The Independent. A jornalista de 53 anos liderava investigação dos Panama Papers em Malta e morreu depois de um engenho explosivo ter detonado no seu próprio carro. Leia mais

 

A jornalista tinha apresentado há poucos dias uma denúncia avisando que havia recebido ameaças de morte, segundo informa o jornal Times of Malta. “Há canalhas para todos os lados para onde você olha agora. A situação é desesperadora”, escreveu em uma postagem meia hora antes de sua morte.

  

A explosão destruiu o carro em que viajava a jornalista perto de sua casa. A polícia explicou que a bomba era muito forte e que o veículo, um Peugeot 108, ficou despedaçado e espalhado pela área.

 

carro .jpg

 Destroços do carro de Caruana Galizia 

 

No início deste ano, a prestigiosa revista norte-americana Politico colocou Caruana Galizia entre as “28 personalidades que fazem a Europa se mover”, descrevendo-a como um “WikiLeaks inteiro em uma única mulher, que empreendeu uma cruzada contra a falta de transparência e a corrupção em Malta”.

 

A Comissão Europeia declarou estar "horrorizada" com o assassinato e pediu "que seja feita justiça". Os EUA também condenaram o caso e garantiram a ajuda do FBI na investigação. O governo maltês apelou à colaboração de todos os países europeus por considerar que "boa parte do caso está fora do país".

 

Daphne Galizia era a mais popular jornalista do seu país. Além dos casos envolvendo figuras de destaque em Malta, investigava temas internacionais, como o narcotráfico e contrabando de petróleo da Líbia.

 

O governo de Michel Temer guarda um sigilo curioso, quando existe o envolvimento de políticos e empresários brasileiros no Panama Papers, inclusive alguns casos investigados pela Lava Jato que também permanece silenciosa.

 

O papa Francisco lamentou o assassínio da jornalista de investigação Daphne Caruana Galizia, ocorrido em Malta, na última segunda-feira, dia 16 de outubro, qualificando a morte da repórter como “trágica”, divulgou a Santa Sé.

 

Num comunicado, a Santa Sé informou que a mensagem do pontífice foi enviada para o arcebispo de Malta, Charles J. Scicluna, e assinada, de acordo com as habituais formalidades, pelo secretário de Estado do Vaticano, cardeal Pietro Parolin.

 

Na mensagem, Francisco enviou as condolências à família da jornalista e referiu estar solidário com o povo de Malta.

 

“Entristecido com a trágica morte de Daphne Caruana Galicia, sua Santidade o papa Francisco oferece orações para o seu eterno descanso e pede-lhe amavelmente que transmita as suas condolências à família. (...) Também assegura a sua proximidade espiritual com o povo de Malta neste momento difícil e implora a bênção de Deus sobre a nação”, indicou a mensagem papal.

 

Daphne Caruana Galizia era a jornalista que liderava a investigação jornalística que ficou conhecida como “Papéis do Panamá” em Malta.

 

Também tinha um blogue onde denunciava líderes políticos. Uma das suas mais recentes investigações visava o primeiro-ministro de Malta, o trabalhista Joseph Muscat, e alguns dos seus assessores mais próximos.

 

Um dia depois da morte desta jornalista, que integrava o Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação (ICIJ), um dos seus filhos denunciou a “cultura de impunidade” sentida em Malta e acusou o governo de Joseph Muscat e outras autoridades de “cumplicidade” no crime.

 

Nessa mesma ocasião, Matthew Caruana Galizia referiu-se a Malta como um “Estado da máfia”.

 

 

 

08
Set17

Prefeita Roseli Ferreira Pimentel assassina do jornalista Maurício Campos Rosa

Talis Andrade

assassina .jpg

A prefeita Roseli Ferreira Pimentel (PSB), da cidade de Santa Luzia, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, foi presa na manhã desta quinta-feira (7), por envolvimento na morte do jornalista Maurício Campos Rosa, do jornal O Grito.

 

Também foram presos três pistoleiros, que participaram do crime ocorrido em 17 de agosto do ano passado, em Santa Luzia.

 

A prefeita tem uma puta vida criminosa. Roseli teve o mandato cassado cinco vezes e ainda estava no cargo por causa de liminar na justiça safada. Ela e o vice-prefeito, Fernando César (PRB), são acusados de captação e gasto ilícito de recursos financeiros.

 

O LIXO PARLAMENTAR

 

Joven Pan - O dono do Jornal “O Grito” foi executado esta semana, e a publicação de denúncias contra parlamentares da cidade pode ter sido a motivação do crime.

 

Circulando na Grande Belo Horizonte, a publicação vinha registrando o envolvimento irregular de vereadores com uma cooperativa de coleta de lixo.

 

Maurício Campos.jpg

 

 

O empresário Mauricio Campos Rosa tinha 64 anos de idade e administrava o jornal que é publicado há quase 3 décadas.

 

Diretor de redação de “O Grito”, Carlos Dias Barbosa contou que, embora o emrpesário não tivesse recebido ameaças diretas, ele temia retaliações. Um vereador chegou a alertar Mauricio Campos Rosa sobre o descontentamento dos parlamentares com as investigações.

 

O dono do jornal deixava a casa de um amigo quando foi atingido por cinco tiros: um no pescoço e quatro nas costas.

 

 

 

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