Ô menina O que é que você vai ser? Atriz, cantora ou dançarina?
O mundo te afirma o tempo inteiro Você tem que escolher ligeiro Um código de barra pra sua vida
Pressa, eu não tenho não
Eu creio que a paixão É um ato de conhecimento Quanto mais amo o que faço Mais invisto no que aprendo
Desejo que a invenção Da profissão que movimento Seja sempre consequência Do que explode aqui dentro
Ô menina O que é que você vai ser? Atriz, cantora ou dançarina?
Se a morte dura mais que o tempo em vida Dedicarei minhas batidas Ao que me faz ter mais dignidade
Por ora agora gosto de cantar Mas se amanhã isso bastar Serei fiel ao que me der vontade
Ô menina O que é que você vai ser? Atriz, cantora ou dançarina?
O mundo te afirma o tempo inteiro Você tem que escolher ligeiro Um código de barra pra sua vida
Pressa eu não tenho não
É que eu gosto tanto de poesia E de dar significado aos segundos São tantas tintas Diálogos com o porteiro Botão de elevador E a voz do tempo que diz Menina, se a vida estiver Consagrada ao exercício Do amor, o caminho será De paz. A paz que excede Todo entendimento
Eu vejo um planeta Que não tem gente careta Só trabalha no que gosta E não fecha a visão
Aprendi que a semente Está no riso dessa gente Que percebe que na vida Não há formula padrão
Ô menina O que é que você vai ser? Atriz, cantora ou dançarina?
“Já compreendi bem vosso sistema. Destes-lhes a dor da fome e das separações, para distraí-los de sua revolta. Vós os esgotais e devorais seu tempo e suas forças, para que eles não tenham nem o ócio, nem o ímpeto do furor! Estão sozinhos, apesar de constituírem massa. Mas eu declaro que nada sois e que esse poder desfraldado é apenas uma sombra sobre a terra. Em vossa bela nomenclatura esquecestes a rosa selvagem, os instantes do dilaceramento e a cólera dos homens.” Albert Camus
Flaira Ferro, 30, segura um estilhaço de vidro que reflete a sua própria imagem, enquanto olha desafiadoramente para a frente. A imagem ilustra a capa de “Virada na Jiraya”, segundo disco da cantora pernambucana. A expressão que batiza o sucessor de “Cordões Umbilicais” (2015) se popularizou como sinônimo de raiva e indignação. Os dois sentimentos perpassam as 12 faixas do álbum, com doses frequentemente elevadas.
Flaira assina a maioria das canções, em parcerias com Igor de Carvalho, Ylana, Mayara Pêra e Cristiano Meirelles. Para passar o seu recado, a anfitriã renuncia aos volteios e não usa meias-palavras, como fica escancarado em “Faminta”: “Eu tenho fome/ Eu sou faminta/ Eu quero comer você/ Eu quero comer a vida”, dispara no refrão. Noutro trecho, ela debocha com voz infantilizada: “Eu canto suave/ Eu não desafino/ Eu faço tudo certinho”.
Dor.“Ótima” segue a mesma toada, com a pressão rítmica lá em cima. “Germinar” oferece breve momento de descanso e interiorização. O alvo de Flaira é o mundo exterior e as condições de que ela dispõe para modificá-lo. A aposta em “Estudantes” é na juventude, e o inimigo também é apresentado sem disfarces. “Mesmo que o destino/ Reserve um presidente adoecido/ E sem amor/ A juventude sonha sem pudor/ Flor da idade, muito hormônio/ Não se curva ao opressor”, entoa a intérprete.
“Suporto Perder” traz dueto com Chico César e denuncia o machismo tóxico. “Maldita” inclui o suntuoso piano do conterrâneo Amaro Freitas. A disposição para denunciar as mazelas de um mundo repressivo e em compasso de regressão perpassa todo o álbum, como na ácida “Essa Modelo”, com descontraídos jogos de palavras. “No Olho do Tabu” retoma o papo reto, da mesma maneira que “Revólver” e a crença de que “uma cidade triste é fácil de ser corrompida”.
Amor.“Casa Coração”, de Isabela Moraes, abrilhante o trabalho com seu misticismo existencial. “Coisa Mais Bonita”, cujo videoclipe causou polêmica, exalta a liberdade sexual da mulher, numa fina e rara combinação, que conjuga ação com poesia. Agora, Flaira lança o registro audiovisual de “Lobo, Lobo”, em plena quarentena, como forma de combater, novamente, as doenças desse século através da arte.
Raphael Vidigal entrevista Flaira Ferro
Quem é o principal alvo da crítica que você faz na música “Lobo, Lobo”? Não há um único alvo. Lobos em pele de cordeiro atuam na surdina, estão em toda parte, muitos vestidos de personas que discursam em nome da “verdade”, do “amor” e da “moral”. Na esfera pública, todo dia descobrimos um novo caso entre líderes religiosos, políticos, filósofos, pensadores que, na primeira oportunidade, revelam suas intenções fascistas e hipócritas. Fiz essa música porque nossa democracia está baleada, há muito ataque às liberdades de expressão.
Provocações e ódios que vêm, muitas vezes, de pessoas que estão nos nossos ciclos de intimidade. Vivemos, por exemplo, a era das fake news. Quem são esses haters? É provável que estejam bem do nosso lado e a gente nem faça ideia. Estamos em uma crise ética profunda de valores humanos e esta realidade nos coloca em estado de alerta constante.
De que forma a música nasceu e quando se acendeu a fagulha da inspiração? A fagulha foi uma decepção que tive com uma pessoa que convivi profissionalmente. Fiquei arrasada, mas tenho o costume de transformar as energias trevosas em usina criativa. Então, comecei a desenhar uns versos, mostrei o refrão pra Igor de Carvalho, meu companheiro, e seguimos ampliando o sentido daquela revolta que poderia se desdobrar em muitas situações na vida. Com a letra pronta, mostrei ela para uma amiga roqueira, Mayara Pêra, e ela trouxe a melodia dos primeiros versos. Nasceu uma parceria a três mãos.
Além de compositora e cantora, você é dançarina. Como o aspecto visual influencia na sua música e de que maneira essas linguagens conversam? Minha relação com a música sempre foi muito corporal. Acredito que isso se deve ao meu trabalho com a dança desde pequena. O frevo, a rua e o improviso me ensinaram muito sobre a escuta e o jogo de perguntas e respostas entre som e movimento. Quase tudo que eu componho nasce de alguma sensação física. Seja de ordem emocional, espiritual ou material, disponibilizo minha pele e meus órgãos para receber os sons, as palavras e as melodias. Tem música que nasce do útero, por exemplo. Tem música que nasce da coluna, da bacia, de uma memória nos ombros, e por aí vai. Minha natureza é mais feliz quando estou em movimento.
Como foi gravar o clipe de “Lobo, Lobo” em meio a uma pandemia? Escolhi fazer esse clipe durante a quarentena porque estava muito difícil acompanhar as notícias e ficar parada. Muita gente morrendo…Tá duro existir sob as informações de um cotidiano que mais parece uma fita de terror arranhada no repeat. A arte é, entre tantas coisas, uma tentativa de transmutar os infernos em recados políticos e poéticos. E “Lobo, Lobo” foi uma canção que acendeu minha usina interna para seguir atenta e forte, como canta Gal.
Quais foram as principais inspirações para realizar essa montagem visual? Minha principal inspiração foi um vídeo trackz do disco “Matriz” que a cantora Pitty postou em abril. Era uma sequência de vídeos que ela mesma gravou em casa durante a pandemia. Eu achei muito interessante a alquimia de unir imagens simples, autênticas e caseiras com uma edição super esperta e profissional. Fiquei instigada e chamei a artista visual Mary Gatis para pensarmos juntas em algo caseiro, porém cuidadoso na montagem. Tudo foi feito em parceria.
Então, na prática, a gravação do clipe se deu em duas etapas. A primeira foi a de levantar ideias e traçar um argumento. A segunda foi a de pôr a mão na massa. Abri meu guarda roupa, montei alguns figurinos, inventei umas maquiagens, afastei os móveis da sala, chamei meu companheiro para dar o play na câmera e comecei a improvisar dançando e cantando. Com “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça” a gente levantou as imagens em duas tardes. Além das gravações em casa, tínhamos alguns vídeos de acervo das projeções de show do “Virada na Jiraya”. Mary juntou todos os materiais e começou a montar o quebra-cabeça com maestria.
O que pensa sobre o momento político do Brasil e as ações contra a pandemia por parte do governo federal? O Brasil tá num contexto político tenebroso. Perversidades explícitas e, ao mesmo tempo, disfarçadas em discursos de progresso. A batalha é pela narrativa e as polarizações e os discursos de ódio se acentuaram muito depois do golpe em 2016 (que depôs a ex-presidente Dilma Rousseff). Cá estamos, mais de 90 mil mortos numa pandemia com consequências irreversíveis e um governo genocida. Estamos há meses sem Ministro da Saúde e, como se não bastasse, os escândalos de corrupção, as “rachadinhas”, com provas evidentes que parecem farelos nas mãos da legislação.
E a ineficácia do auxílio emergencial? E as nossas florestas sendo devastadas pelo capitalismo desenfreado e perverso? E a cultura sem nenhum direcionamento eficiente? E os modelos estruturais de racismo que conduzem esse governo? É tanta coisa ruim que só vivendo um dia de cada vez para caçar estratégias de sobrevivência a cada manhã. Por outro lado, sei que esse contexto atual não é algo isolado no tempo. É fruto de uma mentalidade fundada na lógica da exploração, na lógica do colonizador, do sistema escravista e patriarcal.
São séculos de profunda desconexão com a natureza. E isso tem consequências inimagináveis…Vivemos ainda as sequelas de um processo histórico baseado na violência. E para transformar isso é preciso despertar as consciências. E isso toma tempo. Toma tempo eleger novas lideranças, mexer nas leis, modificar as estruturas e os sistemas limitantes de crença. Nossa geração tem bastante trabalho pela frente.
Com os dois pés fincados nos terreiros da dança e do teatro, Flaira Ferro resolveu mostrar também sua faceta de cantora e compositora. “Cordões umbilicais”, seu disco de estreia, é um álbum autoral e autobiográfico, em que a artista dá roupagem pop a diversos elementos de sua formação cultural: frevo, cavalo marinho, caboclinho e maracatu, pernambucanidades temperadas com pitadas de erudito.
Flaira veio ao mundo no meio do carnaval do Recife, tendo se iniciado na dança ainda criança, aos seis anos de idade. Filha de pais foliões, foi aluna do lendárioNascimento do Passo, formou-se em Comunicação Social pela Unicap (Recife) e hoje é professora, pesquisadora, dançarina, atriz e cantora, ufa!, do Instituto Brincante, deAntonio Nóbrega, sediado em São Paulo, onde está radicada desde 2012.
No refrão de atriz, cantora ou dançarina? (letra e música dela), a pergunta que muitos lhe fazem e farão, este repórter inclusive: “ô menina/ o que é que você vai ser?/ atriz, cantora ou dançarina?”. “Mundo, continente, país, estado,/ cidade, bairro, casa, eu./ Somos tantos mundos/ dentro de outros mundos mais/ e estamos ligados por/ cordões umbilicais”, comunga a letra da faixa-título, parceria de Flaira eIgor Bruno.
Ela assina letra ou música em 10 das 11 faixas, incluindo “Contra-regra” (pré-novo acordo ortográfico), calcada em versículos bíblicos. A única música que não assina é (mais ou menos) sobre ela. Na verdade é sobre “Filhos” – o título – em geral. A letra é do ex-deputado federalFernando Ferro, seu pai: “Filhos são frutos,/ filhos são parte do nosso caminho,/ filhos são flores e são espinho,/ filhos são nós, e nós que atam e desatam./ Filhos são nossa parte, fazendo arte,/ filhos são doces pimentas do ser,/ filhos são nosso prêmio e pranto,/ filhos são surpresas,/ em cada canto./ Filhos não pedem pra nascer…”, reza a letra.
Em “Me curar de mim” (letra e música dela), literalmente desnuda-se: “E dói, dói, dói me expor assim/ dói, dói, dói, despir-se assim/ Mas se eu não tiver coragem/ pra enfrentar os meus defeitos/ de que forma, de que jeito/ eu vou me curar de mim?”, indaga-se/nos.
Disponível para download gratuito nosite da artista, “Cordões umbilicais” foi gravado entre agosto de 2013 e abril de 2014 e lançado no Recife em janeiro passado, dentro da programação do Festival Janeiro de Grandes Espetáculos, em cuja 17ª edição Flaira já havia sido premiada como melhor bailarina, por “O frevo é teu?”, seu primeiro espetáculo solo, dirigido porBella Maia.
O disco tem produção musical e arranjos deLeonardo GorositoeAlencar Martins(seu parceiro em “Lafalafa” e “Contra-regra”) e participações especiais do maestroSpok(saxofone) eLéo Rodrigues(percussão). Por e-mail, ela conversou com o blogue sobre o álbum, seu trânsito livre entre a música, o teatro e a dança, a porção autobiográfica de sua obra e projetos futuros.
Zema Ribeiro entrevista Flaira Ferro
A artista no clique de Patrícia Black
Zema Ribeiro– O que melhor define você: atriz, cantora ou bailarina? Flaira Ferro– Essa resposta está na letra da música que te inspirou a pergunta. Meu caminho é o da busca. Nela procuro os lugares onde moram meus desafios. Quem se dispõe a olhar para dentro de si, na tentativa de entender seu papel no mundo, há de se deparar com muitas questões da existência. A dança está na minha vida há mais tempo, mas ela foi um pontapé inevitável para o teatro e para o canto. O que me interessa mesmo é a ponte que existe entre as três linguagens. Todas elas têm o corpo como instrumento e o movimento como impulso para ações e intenções. A possibilidade de me expressar misturando tudo isso é o que me define hoje.
ZR– Com uma consolidada carreira como bailarina e atriz foi preciso cortar algum cordão umbilical com aquelas artes para dedicar-se à música enquanto cantora? Ou tudo se soma e uma expressão ajuda a outra? FF– Elas são complementares e sem dúvida uma ajuda a outra, principalmente na compreensão de execução. Pra cantar é preciso respirar corretamente, coisa que a dança trabalha bastante. Pra interpretar uma dança ou música a atuação é um recurso importante na escolha das intenções, enfim.
ZR– “Cordões umbilicais” traduz uma reelaboração pop de ritmos tipicamente pernambucanos, como frevo, cavalo marinho, caboclinho e maracatu, e traz além de pitadas eletrônicas, referências eruditas. Como foi o processo de composição e gravação do álbum? FF– Tudo começou no final de 2012. Em um processo lento e atento às minhas verdades, juntei todas as composições que eu tinha feito ao longo da minha vida e convidei, por afinidade e entrosamento, os músicos Alencar Martins e Leonardo Gorosito para pensarmos na elaboração das músicas. Durante um ano nos encontramos semanalmente na casa de Alencar. Eu mostrava as letras e melodias e os dois criavam os arranjos. Dessa brincadeira saíram duas parcerias, “Lafalafa” e “Contra-regra”, com letras de minha autoria e música de Alencar. Depois de tudo arranjado, eles escolheram a dedo os músicos que formariam a banda para gravar no estúdio e foi quando conheciJota Jota de Oliveira(baixo),Gabriel Zit(bateria) eCiro de Oliveira(teclado). Fizemos alguns ensaios e gravamos o disco em dois estúdios: Cia do Gato e Ilha da Lua, ambos em São Paulo.Gustavo do Valefoi o técnico responsável pela gravação, mixagem e masterização. Além da banda, o disco contou com a participação especial dos músicos maestro Spok, Léo Rodrigues,Taís Cavalvanti, Danilo Nascimento, Sandra Oakh, Ramiro Marquese meus pais. Também tive parceiros fundamentais na autoria de algumas letras, são eles:Camila Moraes, Igor Bruno, Ulisses Moraese minha irmãFlávia Ferro. Apesar de eu ter idealizado o projeto, “Cordões Umbilicais” foi feito por muitas mãos e jamais teria a cara que tem se não fossem todas as pessoas que mencionei acima. Tive a sorte de contar com músicos, familiares e profissionais que foram verdadeiros portais para esse sonho ser compartilhado.
ZR– Em “Templo do tempo” se indaga: “será que saberei um dia/ o que vou ser quando crescer?”. Nenhum risco de “Cordões umbilicais” ser teu único disco, não é? Ainda é cedo, mas já se pegou pensando no sucessor da estreia? FF– Sem dúvida. A composição é um exercício e uma necessidade constante. Tem muita música nascendo e em algum momento irei desaguá-las em um novo disco. Mas ainda vai levar tempo. Quero curtir esse primeiro filho com calma, rodar com shows, digerir e processar essa descoberta com carinho.
ZR– A letra de “Contra-regra” tem versículos bíblicos, sem nem de longe pagar de gospel. Você é religiosa? É católica? Que papel tem a Igreja em sua vida? FF– Até o mais ateu dos ateus não nega: deus é um tema irresistível. Não sou católica, muito menos religiosa. Levo uma vida sem misticismos ou superstições. A meu ver, dignidade vem com trabalho, bom humor e uma boa dose de teimosia. Acredito na espiritualidade como um tipo de inteligência que qualquer um pode ou não desenvolver e, para mim, a conexão com o divino é um estado de discernimento e expansão de consciência sobre o todo. Nasci num país onde os preceitos da cultura judaico-cristã predominam e de alguma forma me sinto influenciada por isso. Sou fascinada pela mensagem intrigante de amor incondicional pregada por Jesus Cristo. Quem consegue amar ao próximo como a si mesmo? Quem é capaz de dar a outra face se alguém o bater? Eu não consigo. A meu ver, o verdadeiro artista é um devoto às questões da alma. Neste sentido Jesus é pra mim um artista revolucionário e transgressor da maior ordem e, por isso mesmo, acredito que sua mensagem está longe de ser compreendida pela ganância e hipocrisia que regem o sistema político e cultural do Ocidente. Fico imaginando o que Jesus faria se presenciasse as atrocidades irreparáveis que os homens fazem em seu nome. É tanta intolerância, homofobia, racismo e violência dentro das igrejas que tenho dificuldade de me sentir representada plenamente por alguma instituição. Mas acho importante compartilhar experiências coletivas de fé para fortalecer a crença individual, seja ela qual for. Procuro me cercar de pessoas generosas que estejam dispostas a olhar a vida sem dogmas e moralismos e são nestas relações que minha igreja reside em essência. Identifico-me profundamente com a lógica de agradecimento presente nas manifestações populares como o Cavalo-marinho e o Reisado [maiúsculas dela]. Fui batizada em igreja batista, sempre que dá frequento a IBAB, o templo budista da Monja Coen e as sambadas do Instituto Brincante.
ZR– Diversas faixas têm um quê autobiográfico. O quanto dói se expor assim, como você afirma em Me curar de mim? FF– Não sei se existe uma dimensão para medir nossas dores. Acredito que todo processo de transformação demanda algum tipo de sofrimento, o que é saudável e natural. No meu caso, a exposição de minhas fraquezas dói o necessário para me fazer perceber o que preciso trabalhar.
ZR– Por falar em exposição, sua participação no projeto Apartamento 302, do fotógrafoJorge Bispo, ganhou repercussão na seara política, ao que parece com veículos de comunicação querendo atingir seu pai. O que achou de participar do projeto e qual a sua opinião sobre essa repercussão enviesada? FF– Participar do projeto foi uma experiência interessante para lidar com a auto-imagem, o lugar do feminino e o julgamento externo. Sinto que a repercussão distorcida e maldosa só fortaleceu a importância de agir a partir da fidelidade às minhas próprias questões. O artista nem sempre vai ser compreendido, então, avante. Quando a gente se entrega de coração a alguma coisa, a paz que vem da escolha feita com verdade é absurda. O autoconhecimento é um tema que me seduz muito, desde pequena. Procuro viver atenta às minhas necessidades e todos os dias me faço a pergunta: estou investindo meu tempo tentando ser o melhor de mim mesma? A partir dela vou encontrando respostas para tomar decisões que independem do que os outros vão dizer ou achar.
ZR– Em “Atriz, cantora ou dançarina” você afirma: “Por ora agora gosto de cantar/ mas se amanhã isso bastar/ serei fiel ao que me der vontade”. O que Flaira ainda não fez e tem vontade? FF– Muita coisa, né? Mas das que estão no topo da lista, tenho muita vontade de organizar uma viagem intensa pelo Brasil para fazer uma pesquisa de campo sobre os ritmos e as danças populares de cada região do país.
Artista recifense apresenta afiado repertório autoral no segundo disco, gravado com participações do pianista Amaro Freitas e do cantor Chico César.
por Mauro Ferreira
"Explodam / Saiam daqui / Quero me divertir / Com as minhas coleguinhas...", ordena Flaira Ferro aos machos nos versos cheios de som, ironia e fúria deFaminta, parceria da cantora e compositora pernambucana com o conterrâneo Igor de Carvalho.
Famintaé a composição que abreVirada na jiraya, o forte, firme e sólido segundo álbum dessa artista que vem despontando na movimentada cena musical do Recife (PE).
Quatro anos após o álbum de estreiaCordões umbilicais(2015), Flaira Ferro reaparece com álbum reativo aos desmandos e injustiças do mundo ainda patriarcal. O títuloVirada na jirayareproduz expressão popular que significa estar com raiva.
Esse título sinaliza que há leveza e eventual humor (mordaz) na ira feminina destilada por Flaira no álbum produzido por Yuri Queiroga, com exceção deCoisa mais bonita, faixa produzida por Pupillo Oliveira e previamente apresentada em março de 2018.
Capa do álbum 'Virada na jiraya', de Flaira Ferro — Foto: Matheus Melo
Música formatada em tom lúdico,Ótima(Flaira Ferro) é exemplo da habilidade de Flaira de sustentar a leveza de ser mulher apta a amar em mundo em que muitos homens ainda sujam as mãos de sangue para impor vontades e desejos.
Tal leveza se alterna com o som arretado do disco.Revólver(Flaira Ferro) disparamixhardcore de frevo, rock ebeatseletrônicos em mistura que reverbera emSuporto perder(Flaira Ferro e Igor de Carvalho)."Minha alma é a arma", fuzila a artista com altivez existencial nessa música gravada pela cantora com a adesão de Chico César.
Flaira Ferro tem alvos certeiros no álbumVirada na jiraya."Tem lábia de fascista / Joga o jogo da milícia / Por dentro é terrorista / E paga de espiritual", vocifera emLobo, lobo(Flaira Ferro, Igor de Carvalho e Mayara Pêra).
"Mesmo que o destino / Reserve um presidente adoecido / E sem amor / A juventude sonha sem pudor / Flor da idade e muito hormônio / Não se curva ao opressor", ensina emEstudantes(Flaira Ferro), balada turbinada pela guitarra climática de Yuri Queiroga.
Flaira Ferro lança o segundo álbum, gravado com participações do pianista Amaro Freitas e de Chico César — Foto: Matheus Melo / Divulgação
Por mais queGerminar(Flaira Ferro e Ylana Queiroga) faça brotar sons delicados, evocativos de caixinha de música na faixa formatada com participações como a de Isaar, o álbumVirada na jirayadança conforme o ritmo de tempos embrutecidos.
A atitude é a do rock em músicas comoEssa modelo(Flaira Ferro), mesmo que a batida quase nunca seja a do rock mais ortodoxo.Maldita(Flaira Ferro), por exemplo, é música belamente subjugada ao toque luminoso do piano de Amaro Freitas, gênio do Recife (PE) que vem ganhando o mundo no manuseio do instrumento.
As letras afiadas, atuais e diretas da artista dão vigor aVirada na jiraya, álbum que firma Flaira Ferro na cena alternativa brasileira com repertório quase inteiramente autoral (a exceção éCasa coração, de Isabela Moraes).
"Eu me sinto ótima / Forte, firme e sólida / Solidária ao mundo", perfila-se a cantora na letra da já mencionada músicaÓtima.Virada na jiraya corrobora a sensação de Flaira Ferro.
Além de cantora, compositora você é bailarina. Conte para os leitores, como foi o seu envolvimento com cada uma dessa área?
A memória mais viva sobre meu envolvimento com a dança e com a música vem aos seis anos de idade, quando brinquei meu primeiro carnaval em Recife, em 1996. Sou de Recife e lá fevereiro é mês de tradição carnavalesca, a cidade fica em função da festa. Há uma explosão de manifestações populares, ritmos, danças e fantasias, o que me seduziu desde o primeiro contato.
A dança, em especial o frevo, foi minha porta de entrada para o universo das artes. Fui me interessando, me dedicando, e entrei na Escola Municipal de Frevo do Recife, tive aulas com o Mestre Nascimento do Passo e nunca mais parei. Aos poucos, conheci outras linguagens, fiz sapateado, ballet, dança contemporânea e a dança virou profissão.
Meu envolvimento com a música e a composição foram consequências diretas dessa relação com o movimento corporal. Sinto que essas linguagens conversam o tempo todo entre si, tudo passa pelo corpo.
Queria saber um pouco mais sobre seu passado pré-musica. O que você ouvia quando era pequena? E quando você descobriu seu amor pela musica e composição?
Por influência dos meus pais, ouvi muita música regional na infância. Coco, ciranda, maracatu, bumba-meu-boi, forró e frevo sempre foram ritmos presentes na prateleira de CDs da minha casa. Só vim conhecer música internacional na adolescência. Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Elis Regina e Raul Seixas eram os artistas que mais tocavam no som do carro durante as viagens da família pro interior de Pernambuco.
Meu pai é um poeta tímido. Apesar de não seguir carreira artística, sempre gostou de declamar poesias e escrever versos e rimas. Acredito que por influência dele tomei gosto pela palavra escrita, falada e cantada. Compus minha primeira música aos 8 anos e descobri esse amor quando percebi que através da composição eu conseguia desafogar minha energia criativa. Coisas que eu não conseguia dizer numa conversa ou ideias que eu não desenvolvia na escola iam acumulando na minha cabeça e desaguavam em poesias e canções. Até hoje é um tipo de escape que me ajuda a entender meus sentimentos.
Há pouco tempo você lançou seu álbum “Cordões Umbilicais”. Como foi a escolha do nome do álbum e do repertorio do seu novo trabalho?
O nome do álbum veio da necessidade de dar uma imagem ao afeto. Quando vim morar em SP tive que me reinventar para me adequar a uma cidade na qual eu não tinha vínculos afetivos. Conheci a solidão e aliada a ela, paradoxalmente, o sentimento de não estar só, de estar conectada com todas as pessoas, com a criação de algo maior, o divino.
Além das questões existenciais, minha mãe é obstetra e assisti muitos partos feitos por ela. Um certo dia, após presenciar uma cesariana, saí inspirada e compus uma música que nomeei Cordões Umbilicais e é também uma faixa do disco.
Quanto ao repertório, percebi que a temática do autoconhecimento era predominante na maioria das minhas letras. Selecionei as músicas que mais representavam meu momento de vida e organizei o repertório. O disco é um estado de espírito.
No seu álbum você traz 11 faixas de autorais. Qual música do seu cd mais te representa?
Por se tratar de um disco inteiramente autoral no qual a maioria das letras são minhas, cada música é um pedaço do que sinto e penso. Sou tudo que tá lá, o que muda é a intensidade, eu acho. Tem dias que me vejo mais numa música do que noutra, por exemplo. Depende.
O álbum vem com ritmos bastante brasileiros e você mistura esses ritmos. Qual ritmo musical mais te encanta ou chama sua atenção?
Além do frevo, eu tenho um carinho especial pelo caboclinho perré e pelo batuque de umbigada. São ritmos que adoro dançar e me tocam de maneira mais visceral.
Como foi o processo de composição para o álbum “Cordões Umbilicais”? Alguma influencia em especial?
Tom Zé, Elis Regina, Gilberto Gil, Lenine e Bjork são artistas que me influenciam muito. Mas não teve nenhuma música que pensei em um artistas específico para compor. Eles estão presentes de maneira inconsciente, tudo que escuto é referência e alimenta meu processo de composição.
No disco você contou com algumas participações especiais. Como maestro Spok e do pandeirista Léo Rodrigues entre outros. Como foi a escolha das participações especiais?
Conheço Spok há 12 anos, trabalhamos juntos em vários projetos. Além de excelente maestro e instrumentista, ele é um grande amigo que a vida me deu. Eu queria que o disco tivesse um frevo e ninguém melhor do que ele para compor o arranjo instrumental na faixa Bom dia, doutor cuja letra é de outro grande amigo, Ulisses Moraes. Já Léo Rodrigues eu o conheci no Instituto Brincante e tornamo-nos amigos rapidamente. Quando vi ele tocar fiquei encantada com a propriedade e o domínio do pandeiro de couro. Admiro muito o trabalho dele e o convidei pra participar na música Mundo invisível.
Como você descrever no geral o seu álbum?
É uma obra de afeto e um retrato do tempo.
Gostaríamos de saber mais sobre seu gosto musical. Quais as 6 músicas preferidas e o por que?
Como falei antes, cada música me representa com muita verdade e não tem nenhuma que eu ache menos importante. Elas estão dentro de um conceito e a ideia de cada uma agrega à mensagem do disco como um todo. Mas se eu fosse fazer um pocket show e tivesse que escolher seis músicas, eu escolheria: Templo do tempo, Atriz Cantora ou dançarina?, Pondera, Me curar de mim, Bom dia, doutor e Lafalafa.
Fiz duas matérias sobre você aqui no blog. E as criticas foram muito positivas. Como é para você ver o carinho do publico e até mesmo dos críticos musicais falando bem do seu álbum?
É bom né? Um estímulo, sem dúvida. É gostoso compartilhar algo que ressoa em outras pessoas de maneira positiva. A coisa vai ganhando outras dimensões, interpretações e significados. Mas acredito que a aceitação do público nunca deve ser o objetivo de um artista. A opinião dos outros, positiva ou não, deve ser apenas consequência daquilo que nasce da verdade de quem cria.
Como é seu contato com o publico? Você usar muito as redes sociais para bate um papo com os fãs? Você acha importante esse contato?
Não gosto muito da palavra fã como denominação de alguém. Tenho a impressão de que ela cria uma fronteira entre o público e o artista que não deveria existir. Tenho pavor desse endeusamento do artista, essa coisa de colocá-lo num pedestal para se admirar e contemplar, como algo inalcançável.
Sim, uso muito as redes sociais e quem se interessa pelo meu trabalho e entra em contato eu adoro trocar ideia. Respondo, pergunto, leio, opino, etc. E é isso que rola, uma troca constante com quem chega junto.
Entrevista quase no final. Quais as próximas novidades, lançamento e agenda de show?
Recentemente gravei dois clipes. Um da música Lafalafa, dirigido por Patrícia Black e outro da música Me curar de mim. Em breve estarei lançando eles nas redes sociais. Quanto aos shows, as agendas são divulgadas na fanpage e no meu site flairaferro.com.br
Qual mensagem você deixa para os fãs e leitores do blog?
Leiam a autobiografia de Gandhi.
AgoraFlairalança um clipe, no qual pode, de alguma forma, unir música e dança. Escolheu a canção “Lafalafa”para inspirar esse primeiro vídeo que foi gravado em junho de 2015, entre as ruas de São Paulo e o Instituto Brincante, espaço onde atua como artista e professora.
Os vídeos de dança solo da bailarina Sylvie Guillem foram grandes fontes de inspiração. O minimalismo, a simplicidade estética e a pesquisa de intenções de movimento de seu trabalho clarearam o rumo do que seria o clipe e a performance deFlaira.“Como venho da dança popular e o ritmo de ‘Lafalafa’ é o cavalo-marinho, mergulhei numa pesquisa de movimentos que partissem dessa matriz. Decidimos que minha atuação se basearia no improviso, sem coreografia definida”– explica ela. Quando a música termina, o clipe ainda continua por alguns instantes. Fique por dentro de todas as novidades sobre a cantora:
Cairão um por um! Valter Nagelstein foi condenado a dois anos de reclusão e poderá ficar inelegível após áudio racista contra a bancada negra de Porto Alegre nas últimas eleições. Racistas não passarão!
Absurdo! Enquanto lotamos as ruas no #AtoPelaTerra contra o pacote da destruição, foi aprovada a urgência do projeto que quer liberar a mineração em terras indígenas. Não podemos recuar, cobre seu deputado para que esse PL seja derrotado na Câmara! #PL191Nao
A aprovação do projeto que quer liberar a mineração em terras indígenas é um grande retrocesso para o Brasil. Vamos pressionar nossos deputados! #PL191Nao
Não consigo contar o nº de vezes que fui agredida no mercado ou na rua por conta de mentiras e ameaças. Há 8 anos, eu sinto medo por mim e pelos meus.
Eu lembro a primeira vez em que fui agredida por causa de uma fakenews: era 2014. Eu estava tomando café com meu marido e um menino olhou para mim e passou a me agredir por conta de uma notícia mentirosa publicada num perfil de Twitter e num site que mentia ser de humor.
Mas eu ando nas ruas de cabeça erguida porque sei quem sou e o que defendo e sei quem são os mentirosos que me atacam. Já esse deputado tem medo de sair na rua porque descobriram exatamente quem ele é.
Ontem escrevi esse fio. Logo depois, o Presidente em pessoa, sem intermediários, passou a me atacar em suas redes. Tipo confissão de culpa. Ficou nervosinho, né? Vai trabalhar!
A atual política de preços da Petrobras é a responsável pela alta dos preços? Entendam nesse vídeo! O completo está no canal:
Quatro anos da morte de Marielle e nosso país ainda exige saber quem mandou matá-la!!!
Da mesma maneira, as sementes de Marielle florescendo são esperança de que podemos ser um país mais próximo daquilo que ela sonhou e lutou.
Eu olho sua imagem e penso em Dona Marinete, em Anielle, em sua filha Luyara. Penso nas mesas de domingo com a imensidão de sua ausência. Penso em Monica. Desejo que meu carinho e solidariedade chegue até cada uma delas.