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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil

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O CORRESPONDENTE

19
Mai20

Brasil constrói a própria catástrofe na pandemia

Talis Andrade

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Bolsonaro ignora consenso científico internacional e volta apoiar aglomeração em Brasília

 

País se torna terceiro do mundo em número de casos de covid-19 e avança para se tornar o epicentro global da doença, enquanto presidente se esquiva de responsabilidade. E, ao que tudo indica, o pior ainda não passou

por Thomas Milz

DW

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No fim de semana, viu-se novamente um clima de festa entre os jovens na Lapa, bairro boêmio do Rio de Janeiro. E ao longo das famosas avenidas litorâneas da cidade, muitos apreciavam o drinque noturno, muitos sem a máscara de proteção determinada pela prefeitura. Depois de dois meses cheios de restrições, muitas pessoas em bairros mais abastados parecem se se comportar relaxadamente.

Por outro lado, muitos vivem com medo nas favelas, onde o vírus é galopante. "Colocando a proteção facial e sempre limpando as mãos com desinfetante, não acontece nada", afirma o funcionário de uma pequena mercearia que faz entregas de bicicleta aos clientes em quarentena. Sua esposa, que trabalhava fazendo faxina para famílias com melhores condições, está em casa há meses por medo. "Mal se consegue sobreviver", diz o marido.

O coronavírus atinge particularmente os pobres que, apesar do perigo, não podem simplesmente ficar em casa e não podem contar com nenhuma clínica particular bem equipada no caso de uma emergência. Com 256 mil casos confirmados e mais de 16,8 mil mortes, o Brasil estava em terceiro lugar nas estatísticas globais de coronavírus nesta terça-feira (19/05).

Mas é provável que o número real de mortes seja mais que o dobro, e o número de casos não relatados de infecção pode ser até 15 vezes maior. Sem testes, os especialistas ficam no escuro. E como os hospitais públicos estão superlotados em muitas localidades, cada vez mais pessoas morrem em casa sem serem testadas.

Os números oficiais já são, por si só, suficientemente assustadores. Atualmente, até 15 mil novas infecções e mais de 800 mortes são relatadas todos os dias. As curvas apontam acentuadamente para cima, não há achatamento à vista. Imagens de valas comuns em Manaus e São Paulo rodam o mundo. No centro da cobertura da mídia está o presidente Jair Bolsonaro, que parece estar pouco preocupado com o sofrimento dos cidadãos.

De "gripezinha" a foco da epidemia

Bolsonaro ainda acha que o vírus causa uma "gripezinha" e ele suspeita que, por trás dessa "histeria", esteja a China. Ele acredita que alguém quer prejudicar a ele e ao presidente dos EUA, Donald Trump. No início de março, Bolsonaro visitou o líder americano na Flórida. Ao retornar, mais de 20 membros da delegação brasileira testaram positivo para o coronavírus, um desastre de relações públicas para Bolsonaro.

Ele desrespeita deliberadamente as regras de distanciamento social recomendadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e seu próprio Ministério da Saúde. De forma demonstrativa, ele tira selfies e aperta as mãos de seus seguidores, que protestam todos os domingos em frente ao Palácio do Planalto pelo fim das medidas de combate à pandemia. O ex-paraquedista disse que, por seu "histórico de atleta", ele não precisaria se preocupar e "nada sentiria", caso fosse contaminado pelo vírus.

Além disso, nas grandes cidades do país, há caravanas de carros de apoiadores de Bolsonaro. Eles criticam abertamente os governadores e prefeitos que fecharam shopping centers e lojas, atividades que não são consideradas essenciais na pandemia. Enquanto seus adversários atribuíam a Jair Messias Bolsonaro o número crescente de mortes, ele comentou com escárnio: "E daí? Eu sou Messias, mas não faço milagres."

Orações e remédio para malária

Mesmo assim, ele pediu aos seus compatriotas que orassem contra o vírus. Além disso, da mesma forma que Trump, ele está exigindo o uso de cloroquina, um medicamento contra a malária. Bolsonaro instruiu os laboratórios das Forças Armadas a fabricar milhões de comprimidos do remédio.

Depois que recusou-se a aprovar o uso da controversa droga, o médico Luiz Henrique Mandetta teve que deixar o cargo de ministro da Saúde em meados de abril. Seu sucessor, o oncologista Nelson Teich, também se recusou a prescrever cloroquina para pacientes com covid-19. Após 28 dias no cargo, Teich jogou a toalha na última sexta-feira.

Até o momento, não foi possível comprovar a eficácia do medicamento contra a covid-19. Em vez disso, em muitos pacientes, ele leva à arritmia cardíaca. Os médicos suspeitam que centenas de brasileiros tenham morrido em casa nas últimas semanas porque se trataram com cloroquina sem supervisão médica.

No entanto, o Ministério da Saúde deverá mudar esta semana o protocolo para o uso da cloroquina: Bolsonaro quer que o medicamento seja usado de forma ampla e, não somente em casos graves com orientação médica, mas também no início do tratamento.

Bolsonaro contra governadores

Os ex-ministros da saúde Mandetta e Teich também caíram em desgraça por apoiarem as medidas de distanciamento social ordenadas por governadores e prefeitos. Bolsonaro, por outro lado, quer reabrir "quase tudo" para salvar a economia brasileira. "Espero que não venham me culpar lá na frente pela quantidade de milhões e milhões de desempregados", disse o presidente, apontando que os culpados são os governos locais.

Mas Bolsonaro está de mãos atadas. Porque os governadores e prefeitos são responsáveis por decidir sobre medidas de confinamento. Como os hospitais em algumas regiões já estão sobrecarregados, cada vez mais governos locais estão anunciando medidas drásticas. O bloqueio total já foi anunciado em alguns municípios do Rio de Janeiro, e o governo estadual está prestes a fazê-lo em São Paulo, unidade mais populosa da federação e que já tem mais mortes do que a China. A situação é ainda mais dramática no Norte e Nordeste, onde as cidades de Belém, Manaus e Fortaleza não têm mais leitos hospitalares livres.

Por insistência do Congresso, o governo iniciou pagamentos de ajuda a trabalhadores informais e mães solteiras. O auxílio emergencial de 600 reais será pago durante três meses. Até 50 milhões de pessoas, cerca de um quarto dos brasileiros, têm direito ao benefício. A procura é enorme. Em todo o país, o pagamento caótico da primeira parcela vem causando filas em frente às agências bancárias há semanas ‒ e provocando provavelmente muitas novas infecções.

Mas a recessão iminente pode salvar Bolsonaro, cuja aprovação está caindo nas pesquisas. Para tal, ele tem que conseguir culpar os governos locais pela miséria econômica.

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19
Mai20

Protocolo fantasma

Talis Andrade

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 por Eliane Costa Ribeiro  

 

A ironia fina e sofisticada de Machado de Assis ajudaram-me, mais uma vez, a refletir sobre os complexos problemas que nos circundam e que refogem à minha compreensão.

A literatura sempre nos salva.

Os acontecimentos recentes fizeram-me lembrar de Brás Cubas, o famoso personagem de Machado de Assis, aquele que teria escrito suas memórias após a própria morte. “Memórias Póstumas de Brás Cubas” é considerado por muitos críticos como o primeiro exemplo do realismo fantástico no Brasil.

Brás Cubas, o defunto-autor, passara a vida obstinado pela criação de um medicamento, o seu emplasto, o emplasto Brás Cubas, aquele que seria criado para acabar com o mal da humanidade, o mal estar da civilização: a melancolia.

O emplasto salvaria nossa melancólica humanidade.

Obcecado por esta ideia fixa, Brás Cubas passara a vida a buscar o estrelato que adviria de seu miraculoso emplasto. A fama, a glória e o reconhecimento finalmente viriam e a humanidade se curvaria ao seu invento e aos seus pés.

Em suas reflexões post mortem, Brás Cubas finalmente confessaria ao público os verdadeiros, recônditos e inconfessáveis desejos por trás da ideia fixa do emplasto. Diria ele: “O que me influiu principalmente foi o gosto de ver impressas nos jornais, mostradores, folhetos, esquinas e, enfim, nas caixinhas do remédio, estas  três palavras: Emplasto Brás Cubas”.

Simples assim.

Diante da singeleza de tal afirmativa, empenhei-me a perscrutar quais seriam as verdadeiras origens da obsessiva insistência na adoção do protocolo da cloroquina para os portadores da Covid-19.

O que levaria alguém a insistir na ideia de um protocolo não recomendado pelas mais diversas autoridades em saúde, passando pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Conselho Federal de Medicina (CFM)?

Sem embargo dos sempre possíveis interesses econômicos que usualmente transitam em torno dessas drogas milagrosas, fico aqui especulando qual seria a sua verdadeira história, aquela que repousa subjacente à obstinada ideia.

A hipótese de salvamento da humanidade fica desde já descartada. É evidente a pouca disposição, por parte da figura pública que incentiva o uso do remédio, pela compaixão, pela alteridade ou pela sensibilidade. Basta citar o elucidativo episódio do jet-ski no dia em que as estatísticas demonstravam a ocorrência de mais de 700 brasileiros mortos no país e, portanto, 700 famílias marcadas pela dor e desamparo.

Experiência própria bem-sucedida, apesar dos exames negativos realizados sob pseudônimos? É uma possível linha investigativa.

Desejo de fama, eternidade, poder, glória, reconhecimento para compensar o vazio de uma existência? Em outras palavras, narcisismo, tal como admitira Brás Cubas?

Fica a reflexão.

O desenrolar das estatísticas e as previsões de mortes decorrentes desse vírus avassalador não são nada estimulantes. As opiniões dos especialistas mais abalizados indicam o caráter duvidoso e pouco seguro do uso da referida droga no tratamento da doença.

Tudo nos leva a crer, portanto, que uma ideia fixa nos levará à adoção do novo protocolo. A ciência, contudo, não o recomenda. Ninguém assegura o êxito em seu uso. Nada de concreto o avaliza. Teremos o ‘protocolo fantasma’. A missão é impossível. O futuro, macabro.

Brás Cubas ao menos teve consciência – tardia – do rastro destrutivo de sua obstinação.

Saindo do campo da ficção não temos como esperar tal sensatez.

Fica apenas uma certeza: parafraseando Machado, não queremos sofrer o legado dessa miséria.

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