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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

30
Abr19

O latifúndio é sagrado, a vida não

Talis Andrade

 

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por Fernando Brito

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O Brasil já é campeão de mortes provocadas por conflitos agrários.

E, embora seja difícil metrificar isso, certamente é um dos maiores – senão o maior – índice de impunidade por elas.

Jair Bolsonaro deu, hoje, o comando para que esta desgraça aumente, ao açular um feira ruralista dizendo que apresentará um projeto de lei descriminalizando o assassinato de quem for acusado de invadir terras.

Ainda que o faça “armado” apenas de mulher, filhos e trouxas de roupa.

Por que, diz o presidente, a propriedade rural “é sagrada”.

A vida não é sagrada, pois. Estão revogados o Primeiro Mandamento e as disposições em contrário na lei dos homens..

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Os cultivadores de “laranjais”, como Fabrício Queiroz, têm direito a um processo legal; o Ministro do Turismo tem direito, também, mas não os bóias-frias que colhem as laranjas de verdade.

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Com estes é a bala, como sempre foi, aliás.

A diferença é que, ao menos, estávamos inconformados que fosse assim. Chico Mendes, Dorothy Stang, os mortos de Eldorado de Carajás eram vergonhas mas, hoje, parecem ser o exemplo do que o país deve fazer com quem não aceita ser expulso, corrido como cão sarnento de terras tão imensas que delas não se vê o fim.

Agora, os “produtores” que nunca puseram a mão numa enxada, batem palmas e urram por seu “mito”, antes de embarcarem em suas camionetes de luxo, chacoalhando ao som do “sertanejo universitario.

Sai o “Plante que o Governo garante” da ditadura e entra o “mate que o Bolsonaro garante”.

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06
Jan19

Dois sem-terra assassinados e "Jagunço" diz que Bolsonaro autorizou matar “bandidos”

Talis Andrade

Dois camponeses morrem e sete ficam feridos

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Sargento reformado João Benedito Neto, vulgo "Jagunço Olho do Cão"

 

Dois homens morreram e outras sete pessoas ficaram feridas durante um confronto armado na madrugada de sábado (05), nas terras griladas pelo governador Silval Barbosa e o deputado José Geraldo Riva, denominadas Fazenda Agropecuária Bauru (Magali), em Colniza (a 1006 quilômetros de Cuiabá).

Na fazenda estão acampados seguranças da empresa Unifort, de propriedade de João Benedito da Silva Neto, ex-sargento da Polícia Militar do Mato Grosso, que atende pelo apedido de Jagunço Olho do Cão.  

Segundo o site O DOCUMENTO, apesar de nenhum documento ter sido apresentado, o representante da Unifort, e chefe dos seguranças e jagunços, João Benedito da Silva Neto diz que a fazenda está legalizada e se sente no direito de matar os trabalhadores rurais. “A fazenda é do Riva, houve invasão dos sem-terra, que agora não é mais sem-terra. Segundo Bolsonaro são bandidos… morreram dois bandidos e cinco baleados, estão no hospital…Estou subindo pra Colniza com mais 15 homens pra reforçar lá”.

Existem cerca de 200 membros da Associação Gleba União que residem no local, e vivem do plantio de lavoura de subsistência. Eles afirmavam que só deixariam o local se Riva e/ou Sinval apresentassem documentos que comprovassem a posse da terra de 46 mil alqueires. Há quatro meses, o Ministério Público Estadual, por meio da Promotoria de Justiça de Colniza, oficiou o Governo do Estado sobre risco de conflito armado no local. A preocupação é que ocorra uma tragédia como a chacina de abril de 2017, na qual nove pessoas foram mortas naquela região - área de desmatamento florestal, e dominada pelo tráfico internacional de madeira nobre.  
 
 
Fazenda citada em delação do governador corrupto


A fazenda em questão foi citada pelo  ex-governador do Estado Silval da Cunha Barbosa  em sua delação premiada. Ele declarou que negociou com o ex-deputado José Geraldo Riva a compra de uma fazenda pela quantia de  R$ 18 milhões no município de Colniza, denominada “Fazenda Bauru”. O delator disse que pagou apenas R$ 4,5 milhões neste contrato, pois a compra não foi para frente. Admitiu que  valor para a aquisição era oriundo de propinas do programa “MT Integrado".
 

 



 

 

 

06
Jan19

Assassinado o primeiro trabalhador rural do governo Bolsonaro

Talis Andrade

Segundo o chefe dos jagunços, João Benedito da Silva Neto, houve invasão dos sem-terra, que "agora não é mais sem-terra. Segundo Bolsonaro são bandidos… morreram dois bandidos e cinco baleados, estão no hospital… Estou subindo pra Colniza com mais 15 homens pra reforçar lá”.

O ataque acorreu em terras invadidas e griladas pelo governador Silval Barbosa e comparsa deputado José Riva. De 2003 até agora foram registrados 16 assassinatos em conflitos agrários no município

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Governador Silval Barbosa 

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Deputado José Riva, condenado a 22 anos de prisão por desvio de dinheiro público

por Lina Marinelli

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Começou. Oito trabalhadores rurais ligados à Associação Gleba União foram atacados por capangas da Fazenda Agropecuária Bauru hoje em Colniza, a 1065 km de Cuiabá. A fazenda pertence ao ex-deputado José Riva e ao ex-governador Silval Barbosa. Um dos agricultores está morto e vários estão feridos gravemente. A Comissão Pastoral da terra conta que o grupo estava indo buscar água no Rio Traira para levar ao acampamento, onde estão desde outubro do ano passado. Parece insano, cruel, tenebroso, e é. Os atiradores dizem que houve “troca” de tiros. Dá pra acreditar em troca, quando só um lado morre? A segurança da fazenda é feita pela empresa Unifort Segurança Patrimonial.

O acampamento, com cerca de 200 famílias, foi criado para exigir que José Riva apresente documento comprovando a posse de 46 mil alqueires da terra que ele afirma ser proprietário. A área do conflito, conhecida como Fazenda Magali, se encontra em uma grande gleba de terras da UNIÃO. As famílias solicitam que a terra seja destinada à Reforma Agrária. A maioria dos que estão acampados sob a mira dos pistoleiros, são posseiras, já moram em seus lotes há algum tempo, produzem alimento e criam animais. A região possui grave histórico de assassinatos, consequência da luta pela terra. De 2003 até agora foram registrados 16 assassinatos em conflitos agrários no município. Em abril de 2017, nove trabalhadores com idade entre 23 e 57 anos foram mortos a mando do empresário Valdelir João de Souza, o "Polaco", exportador de madeira nobre para os Estados Unidos e Europa. Eles estavam em barracos erguidos na Gleba Taquaruçu do Norte, foram rendidos, torturados e mortos.

Segundo o site O DOCUMENTO, apesar de nenhum documento ter sido apresentado, o representante da Unifort, e chefe dos jagunços, João Benedito da Silva Neto diz que a fazenda está legalizada e se sente no direito de matar os trabalhadores rurais. “A fazenda é do Riva, houve invasão dos sem-terra, que agora não é mais sem-terra. Segundo Bolsonaro são bandidos… morreram dois bandidos e cinco baleados, estão no hospital…Estou subindo pra Colniza com mais 15 homens pra reforçar lá”.

A guerra começou. A tese da legítima defesa da propriedade tá valendo, ainda que José Riva e Sinval Barbosa não comprovem a posse da terra. Ganha quem tem mais dinheiro e mais armas. Isso se chama barbárie. O Governo tem obrigação de punir os culpados por esse crime e resolver a questão de maneira civilizada. Essa tragédia já vem sendo anunciada há tempos. Se o Presidente Bolsonaro e sua turma realmente acreditam em Deus, devem acreditar também no Diabo. Pois que se aprumem ou irão arder nas chama dos infernos por atacarem os mais fracos e mais necessitados, e defenderem os ricos e poderosos.

No vídeo anexo é possível ver o momento em que, em Outubro, o acampamento foi montado e os trabalhadores explicam aos seguranças da Unifort, por que estão ali.

A chacina em Colniza

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A polícia já sabe que foram quatro homens os autores da chacina na gleba Taquaruçu do Norte, em Colniza. Perícia aponta que as vítimas sofreram tortura. Alguns corpos estavam amarrados e um delas teve uma orelha cortada (e levada); vítimas foram assassinadas a golpes de facão e por tiros de uma arma calibre 12.

Segundo policiais, os assassinos ‘entraram e executaram, barraco por barraco, as pessoas que estavam dentro deles‘, disse. O clima é de pânico na vila e segurança foi reforçada. A identificação da maioria dos corpos só foi possível com apoio de prontuários civis dos Institutos de Identificação dos estados e ou cidades de origem das vítimas.

Os nove trabalhadores rendidos, torturados e mortos a mando do escravocratas e cruel empresário Valdelir João de Souza, dono de uma madeireira:

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Sebastião de Souza, 57
Pastor da Assembleia de Deus em Guatá, distrito de Colniza a cerca de 140 km de Taquaruçu do Norte. Era um dos posseiros da linha (picada) 15, alvo de disputa. Sua casa no local já havia sido incendiada em 2014. Foi encontrado com um facão enterrado na nuca.

Fábio dos Santos, 37
Trabalhava principalmente como pedreiro. Foi contratado pelo pastor Sebastião de Souza para limpar o terreno -o dia de trabalho custa cerca de R$ 55 na região. Morava em uma vila próxima e não tinha terras. Evangelista da Assembleia de Deus, deixou quatro filhos.

Ezequias de Oliveira, 26
Posseiro, tinha um lote fora da área em disputa e estava no local trabalhando como diarista. Fiel da Assembleia de Deus.

Edison Antunes, 32
Outro posseiro que estava no local contratado como diarista. Era diácono da Assembleia de Deus. Tinha quatro filhos.

Aldo Carlini, 50
Um dos que estavam no local trabalhando como diarista. Seu lote está fora da área em conflito.

Samuel da Cunha, 23
Recém-chegado de Nova Brasilândia (RO), estava no local como diarista e também tinha lote fora da linha 15.

Valmir do Nascimento, 55
Um dos três mortos que tinham lote na linha 15, área do assentamento em disputa. Foi encontrado com as mãos amarradas para trás. Tinha dois filhos.

Izaul dos Santos, 50
Posseiro da linha 15, palco de disputa. Estava no local desde o ano passado, quando comprou cerca de 200 hectares por R$ 110 mil. Respondia a um processo por homicídio simples. O seu filho e a nora são dois dos quatro que estavam na área da chacina e conseguiram fugir.
 

Francisco da Silva, 56
Também estava no local como diarista. Em agosto de 2015, foi multado em R$ 115 mil pelo Ibama por ter desmatado ilegalmente 22 hectares de floresta.

 

 

 

10
Dez18

Dois sem terra assassinados na Paraíba

Talis Andrade

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"Exigimos justiça com a punição dos culpados e acreditamos que lutar não é crime", afirma em nota a direção do MST na Paraíba, após assassinato dos militantes José Bernardo da Silva e Rodrigo Celestino, que ocorreu na noite deste último sábado (8), no acampamento Dom José Maria Pires, localizado em Alhandra - PB.

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O Movimento denuncia o ocorrido, exige celeridade nas investigações e convoca os trabalhadores e trabalhadoras do campo e da cidade a seguirem em luta contra a atual repressão e os assassinatos em decorrências de conflitos no campo:

 

“O que seria deste mundo sem militantes? Como seria a condição humana se não houvesse militantes? Não porque os militantes sejam perfeitos, porque tenham sempre a razão, porque sejam super-homens e não se equivoquem. Não é isso. É que os militantes não vêm para buscar o seu, vem entregar a alma por um punhado de sonhos". (Ex-presidente Uruguaio, Pepe Mujica)

 

O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST-PB) perde nesta noite de sábado (8) por volta das 19h30 dois militantes: José Bernardo da Silva, conhecido por Orlando, e Rodrigo Celestino foram brutalmente assassinados por capangas encapuzados e fortemente armados. Isso demonstra a atual repressão contra os movimentos populares e suas lideranças. O ataque aconteceu no acampamento Dom José Maria Pires, no município de Alhandra na Paraíba. Área da Fazenda Garapu, pertencente ao Grupo Santa Tereza, ocupada pelas famílias em julho de 2017.

 

Exigimos justiça com a punição dos culpados e acreditamos que lutar não é crime. Nestes tempos de angústia e de dúvidas sobre o futuro do Brasil, não podemos deixar os que detém o poder político e econômico traçar o nosso destino. Portanto, continuamos reafirmando a luta em defesa da terra como central para garantir dignidade aos trabalhadores e trabalhadoras do campo e da cidade.

 

Justamente dois dia antes das comemorações do Dia Internacional dos Direitos Humanos, 10 de dezembro, são assassinados de forma brutal dois trabalhadores Sem Terra. Neste sentido, convocamos a militância, amigos e amigas, aos que defendem os trabalhadores e trabalhadoras, denunciar a atual repressão e os assassinatos em decorrências de conflitos no campo.

 

Solidariedade à família de Orlando e Rodrigo.

Direção do MST – PB

Lutar, Construir Reforma Agrária Popular!"

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14
Ago18

Marcha Lula Livre chega a Brasília

Talis Andrade

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Para garantir o registro da candidatura de Lula
 
 

Depois de marcharem por mais de 50 km, os cerca de 5 mil militantes de movimentos populares que integram a Marcha Lula Livre se encontraram na manhã desta terça-feira (14) no Plano Piloto de Brasília.

 

A marcha, dividida em três colunas, teve início no dia 10 de agosto, e partiu de três pontos distintos.

 

Uma delas saiu da cidade de Formosa (GO), outra de Luziânia (GO) e a terceira de Engenho das Lages (DF).

 

Cada uma das colunas saiu por volta das 6h30 da manhã desta terça-feira (14) do entorno de Brasília, e se encontraram no Plano Piloto da capital federal por volta das 9h.

 

Marco Baratto, da direção nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), afirma que o ato é histórico para a organização.

“Esse momento é importante porque vai ser a consolidação de um processo de retomada do debate com a sociedade, e a nossa marcha cumpre esse papel”, explica.

 

Os militantes levantam três bandeiras que representam algumas de suas principais reivindicações

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As delegações da região amazônica e do Centro-Oeste na Coluna Tereza de Benguela pautam a soberania popular; os estados nordestinos da Coluna Ligas Camponesas se somam com a faixa Lula Livre, e as regiões Sul e Sudeste, na Coluna Prestes, pontuam o tema Terra, Trabalho e Moradia.

 

“Cada coluna, então, leva essa simbologia para que, no encontro em Brasília, a gente construa esse processo de forma ampla e popular”, pontua o dirigente.

 

Nesta quarta-feira (15), a Marcha Lula Livre realiza, junto com outras organizações e movimentos populares, o registro da candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à presidência da República.

 

Segundo Luiz Roberto, da direção estadual do MST em Rondônia,  a luta dos próximos dias é pela retomada da democracia e contra as ilegalidades jurídicas e legislativas que permeiam o país. O dirigente afirma que exigir Lula Livre é impedir a ampliação dogolpe que atua contra a classe trabalhadora.

 

“Nós queremos construir um Brasil diferente e por isso marchamos por um projeto popular para o país. A classe trabalhadora é a única capaz de mudar essa realidade. A reforma que nós queremos só pode ser popular”, conclui.

 

COLUNA LIGAS CAMPONESAS

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Uma das três colunas da Marcha Lula Livre, homenageia luta dos povos pela democratização da terra. O ato político e cultural que reuniu quase 2 mil pessoas na Praça da Prefeitura, em Formosa, Goiás, deu a largada na caminhada de mais de 50 quilômetros que farão até Brasília.

 

“Quem marcha nunca esquece o que vê. Do pó das marchas sobe um letreiro escrito com os pés, que os governantes e os latifundiários sabem reconhecer: lá vem a sede por justiça!”, afirmaram integrantes da Juventude do MST em jogral durante o ato de abertura da marcha.

 

Após a mística e as apresentações de Fernandinho, do MST de Pernambuco, e de Lindomar, do Ceará, que apresentou um repente, a multidão ouviu em silêncio respeitoso uma gravação de um trecho do discurso de Lula em São Bernardo do Campo (SP) em 07 de abril deste ano, o último antes de apresentar-se à Polícia Federal para cumprir a ordem de prisão do juiz de primeira instância Sérgio Moro.

 

“Lula disse: ‘eu vou andar pelas pernas de vocês, e falar pelas vozes de vocês’. É isso o que está acontecendo aqui”, afirmou o deputado federal Paulo Pimenta (PT-RS), que participou do ato em Formosa. “Se o Brasil nunca precisou tanto do Lula como agora, o Lula nunca precisou tanto de vocês como hoje. É o Brasil inteiro que marcha a Brasília a partir de hoje”, completou.

 

A dirigente do MST Lucineia Duraes, em discurso emocionado, lembrou que esta sexta-feira (10), também foi o Dia do Basta, convocado por movimentos populares e sindicais em todo o país para protestar contra a retirada de direitos e precarização do Estado promovidos pelo governo ilegítimo de Michel Temer (MDB), empossado após um golpe de estado em 2016.

 

“Hoje e sempre, nossa tarefa é ir a todos os cantos do campo e da cidade para defender diversas liberdades, inclusive a liberdade de ter esperança. A prisão de Lula é a prisão da nossa esperança de um Brasil melhor, é a prisão dos nossos direitos”, pontuou.

 

Entre as 17h e as 19h, o ato contou com a participação dos militantes sem-terra, mas seguiu noite afora no centro de Formosa. O coletivo Vivarte, que reúne artistas independentes da região, organizou diversas apresentações especiais para animar à população e despertar consciência política. “A arte humaniza as pessoas, apresenta para elas dimensões mais amplas. Por isso, depois do golpe, foi como se a culturafosse até demonizada, perseguida. E isso tornou a sociedade mais intolerante e violenta. Por meio da arte, podemos mudar isso”, conta Helena Ribeiro, uma das coordenadoras do coletivo.

COLUNA PRESTES

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Nessa coluna organiza as regiões Sul e Sudeste e reúne acampados e assentados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Espírito Santo, Minas Gerais e São Paulo. São cerca de 2 mil marchantes que no ato de abertura relembraram momentos de outras marchas nacionais.

 

No simbólico da marcha, está a repetição da ideia de marchar, que faz parte do simbólico do MST desde a sua fundação. “Marchar é ter ponto de partida e de chegada, e também defender um projeto”, afirma Damasceno, do MST do Paraná.

 

Conhecido como cavaleiro da esperança,  Luiz Carlos Prestes foi o comandante da Coluna Prestes, movimento político realizado entre 1924 e 1927 contra o coronelismo brasileiro.

 

“Resgatamos o nome  ‘Coluna Prestes’ porque foi uma marcha de mais de dois anos, composta por milhares de pessoas, e que caminhou mais de 25 mil km pelo interior do Brasil, discutindo quais eram os direitos dos trabalhadores”, explica Ester Hoffmann, da coordenação nacional do MST e do estado de Minas Gerais.

 

“Nessa conjuntura, se faz necessário que resgatemos todas as lutas que já tivemos no Brasil e marchemos novamente. Precisamos resgatar os lutadores do povo, como Luiz Carlos Prestes”, complementa a coordenadora.

COLUNA TEREZA DE BENGUELA  

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As delegações da Amazônia e do Centro-oeste do Brasil que se reúnem em Engenho das Lages (DF), homenageiam a lutadora Tereza de Benguela, liderança quilombola que atuou contra o sistema escravocrata na região do atual estado do Mato Grosso.

 

Thainá Regina tem 15 anos e vive há onze anos no assentamento Che Guevara, no Mato Grosso do Sul. Ela destaca que o sofrimento e a violência contra a população do campo escancaram a importância da luta pela reforma agrária popular.

 

“O que me fez apaixonar pelo MST e por sua luta foi ver as injustiças no campo. Com a conjuntura que vivemos hoje, na mídia, na política e na sociedade, estar aqui é mostrar minha luta pelo meu povo e ir contra aquilo que eu vejo todos os dias, na sociedade, na política e na mídia”, pontua.

 

O ato político de largada da Marcha Nacional Lula Livre na coluna Tereza de Benguela foi marcado por músicas e místicas a respeito da agricultura familiar e da soberania popular na luta pela terra. Também estiveram presentes comunidades indígenas e quilombolas, além de movimentos urbanos de rua.

 

“Todo mundo tem direito à terra, mas nós estamos pelejando para conseguir um direito básico. Nessa Marcha, os pobres se reúnem para curar suas feridas juntos, porque o rico não cura ferida de ninguém”, afirma Liomar Ferreira, 52, assentado em Formosa (GO).

 

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04
Ago18

O que o Paraguai tem a ensinar ao STF

Talis Andrade

 

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Manchete mentirosa de um jornal golpista

por Ayrton Centeno

 

Aconteceu fato ao qual ninguém prestou muita atenção. Muito menos nosso jornalismo, aquele que Mino Carta considera "o pior do mundo", do qual, em tese, deveríamos nos nutrir mas nos alimenta com lixo tóxico. A imprensa viu mas fez que não viu. Ou viu mas deu ao assunto destaque zero. Talvez por evocar episódio similar passado no Brasil em 2016, do qual ela, a mídia empresarial, participou com incontrolável faceirice.

 

Ocorreu no Paraguai, país ao qual ninguém presta também muita atenção, exceto quando um figurão, como o médico Roger Abdelmassih, acusado de estuprar dezenas de pacientes, lá resolve se refugiar.

 

Na semana passada, após cinco anos de cárcere, 11 agricultores sem terra foram libertados. A decisão foi do supremo tribunal -- fenômeno que deveria nos estarrecer: o supremo deles funciona!

 

Alguns estavam condenados a penas de 30 anos. O procurador Jalil Rachid, espécie de Dallagnol paraguaio, denunciou-os por associação criminosa, homicídio e invasão. Haviam ocupado terras improdutivas no distrito de Curuguaty. Na desocupação, houve balaceira que resultou na morte de seis policiais e 11 agricultores de junho de 2012. Vendeu-se a lenda de que 60 sem terra, 25 deles mulheres e crianças, teriam aberto fogo contra 324 policiais armados de metralhadoras e granadas e apoiados por helicóptero.

 

A propriedade, conhecida como Marina Cué, também era ambicionada pela empresa Campos Morombi, cujas plantações de soja a cercam. Conta El País que o primeiro dos libertados a sair pelo portão de Tacumbu, a maior penitenciária do país, foi Néstor Castro, 36 anos. Caminhou entre canetas e câmeras para tocar a cabeça da filha e abraçar a mulher. "Não somos responsáveis (pelas mortes) e nunca o fomos", disse.

 

Castro e seus dez companheiros acabaram absolvidos porque a corte não encontrou relação direta deles com as mortes. As armas, que supostamente portavam, não foram disparadas. No Paraguai, portanto, não basta convicção para condenar. Existem ainda essas nações pitorescas onde se exige a existência de prova, essa velharia, para mandar alguém apodrecer na cadeia.

 

A chacina correu o mundo, denunciada pela Oxfam e a Anistia Internacional, como uma sangrenta maracutaia visando promover o fim do governo de Fernando Lugo, acusado de instigar a resistência dos agricultores, o que nunca se confirmou. Ele também cogitava tributar as exportações de soja, negócio de grandes conglomerados como o Campos Morombi. Bastou para seus inimigos deflagrarem um processo de impeachment a jato no Senado no qual Lugo teve somente 24 horas para se defender.

 

No Brasil, tal ode ao vapt-vupt só seria emulada pelo revisor do processo de Lula no TRF4 que leu 250 mil páginas em seis dias. Devorou duas mil páginas por hora, sem dormir, durante seis dias. Proeza que a indústria farmacêutica deveria reivindicar, afirmando sua utilidade na agilização da justiça pátria. E um prodígio a ser festejado pelo Livro Guiness dos Recordes, o que injetaria novo alento na auto-estima nacional, ora residindo abaixo do rabo do cachorro.

 

Lugo atribuiu o golpe ao então candidato do Partido Colorado, Horacio Cartes. Uma das maiores fortunas do país, depois presidente, Cartes reluziu nos documentos confidenciais vazados pelo Wikileaks, aparecendo vinculado ao narcotráfico. Foi investigado, ainda, pelos EUA, na operação Coração de Pedra, relativa à lavagem de dinheiro.

 

Na América do Sul, vários governos perceberam que o impeachment de Lugo era tão legítimo quanto o uísque paraguaio. E trataram a jogada com o nome mais curto: golpe. Até a Organização dos Estados Americanos, OEA, identificou um caso de "juízo sumário" sem direito à defesa adequada. Era a reprise, ainda mais grotesca, do acontecido com Manuel Zelaya, em Honduras, em 2009.

 

Nos dois casos – Paraguai e Brasil – a receita do golpe teve como ingredientes básicos o legislativo e o judiciário, ambos fermentados pela mídia. A diferença é que, do outro lado da fronteira, a máxima instância corrigiu a barbeiragem, mostrando-se menos folclórica e mais rápida. Para desgosto de Rachid, embora o procurador tenha sido acariciado por Cartes, ganhando o cargo de vice-ministro de segurança.

 

O fato é que o Paraguai facilitou a vida do STF. Nossas excelências não precisam mais observar as cortes europeias em busca das luzes que lhes faltam. Basta olhar para o lado e aprender, enfim, como cumprir o seu papel. Já passou da hora.

 

05
Jul18

CABEÇAS FEITAS POR MENTIRAS REPETIDAS, TORTURA ATÉ QUANDO?

Talis Andrade



por André Moreau

 

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As reformas de base do Presidente João Goulart tinham por objetivo terminar de vez com as imposições dos senhores da casa grande, identificando financiadores dos capitães do mato e abolindo de vez a senzala, rumo à construção de uma sociedade igualitária que atendesse aos mais pobres com a Reforma Agrária e educação de qualidade, para todos.

 

A meta do governo dos Estados Unidos, de impedir o desenvolvimento da soberania nacional, foi imposta pelas ameaças da IV Frota, reativada depois da II Guerra Mundial para atingir esse fim, de onde poderiam partir aviões autorizados por militares brasileiros para proceder a invasão, caso o golpe empresarial/militar de 1º de abril de 1964, não tivesse a força só pelo dinheiro, para deflagrar uma das mais longas ditaduras da América Latina.

 

Os alvos principais foram os líderes Francisco Julião e o educador Paulo Freire: representantes mais expressivos das boas lutas pela terra e pela educação para todos. Alvos do relatório Kissinger que tem por base destruir a cultura nativa para dominar diferentes povos, a partir da restrição dos alimentos e da manipulação da informação que no Brasil, continua levando boa parte da população a pensar que só com a adoção da sub-cultura estadunidense, o país poderá se livrar da "ameaça comunista" e "do sub-desenvolvimento".

 

Para preparar o golpe de estado visando atingir tais objetivos, foi planejado o jornalismo de guerra, a partir das ações de manipulação da informação visando colocar as classes sociais baixa e média, uma contra a outra. Sob orientação do jornalista Irineu Marinho e do fotógrafo Jean Manzon, respectivamente diretor e cineasta/produtor de filmes do Departamento de Propaganda e Cinema do IPES - Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais, comandado pelo então tenente-coronel Golbery do Couto e Silva, foram exibidos filmes com esse objetivo em todos os cinemas e praças públicas do país.

 

"De acordo com seus postulados o IPES tem procurado atingir suas finalidade através de levantamentos, pesquisas, inquéritos, campanhas educativas, cursos, conferências, seminários, difusão e propagandas, manutenção de escolas, institutos ou bolsas de estudos e convênios com outras organizações de educação e pesquisa que se batem pelos mesmos princípios" - Documento do IPES.

 

"O texto acima consta do relatório enviado pelo instituto à Comissão Parlamentar de Inquérito, que questionou, no Congresso, o funcionamento da entidade em 1963, acusando-a de fugir dos seus objetivos, mantendo atividades político-partidárias. Em sua defesa, o IPES alegou que, desde a fundação, ‘as finalidades a que se propõe têm tido a mais ampla divulgação e podem ser assim descritas:

 

Com o objetivo de demonstrar a responsabilidade da Empresa no aperfeiçoamento e consolidação da sociedade democrática, o IPES:

 

a) Publica boletim mensal
b) Efetua programas semanais na TV de São Paulo (Programa Peço a Palavra)
c) Promove entrevistas dos seus dirigentes
d) Promove publicação na Imprensa de seus estudos
e) Realiza filmes documentários sobre problemas brasileiros
f) Edita livros e publicações ¹

 

Com essa preparação, semelhante a que assistimos ser desencadeada a partir de 2013, visando derrubar a Presidenta Dilma Rousseff, o clima de medo foi introduzido de forma eficiente junto a classe média crédula na veracidade da narrativa pregada nos filmes do IPES que satanizavam comunistas como se fossem "comedores de criancinhas". Películas que começaram a ser produzidas a partir de 1962 e "in loco" repercutindo mobilizações como, por exemplo, a "Campanha da Mulher Pela Democracia (CAMDE)".

 

Hoje o quadro desse processo de globalização gerado pela manipulação uniformizada, apresenta sete pessoas com fortuna equivalente a metade da população mundial, fato que deixa alguns capitalistas da era Ford perplexos, mas tais especuladores continuam patrocinando direta ou indiretamente as "operações" que atingem brutalmente os mais pobres nas periferias.

 

O ex-Presidente Lula se encontra preso em uma cela de quinze metros quadrados, por decisão própria, assim como Sócrates. Sócrates foi julgado por um tribunal corrompido por membros da elite que o acusavam de conspirar contra as leis estabelecidas pela elite Grega, por ensinar os mais pobres a pensar usando a maiêutica - método de exercício do pensamento através de perguntas e respostas, que com o mesmo cuidado de quem faz um parto, levava a juventude a pensar com lógica. O tribunal não ouviu a defesa de Sócrates, somente a acusação.

 

Sócrates poderia ter saído da Grécia, como lhe foi proposto pelo seu mais chegado discípulo, Platão, mas ele se recusou: "Se há uma justiça infame, é a justiça do meu país e que todo o mundo saiba que o meu país condenou à morte um homem inocente". Assim como Sócrates, em diferentes tempos e graus de condenação, o ex-Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, se recusou a sair do país ou a pedir asilo e foi preso, para que todos soubessem que no Brasil se condena à prisão, homens inocentes.

 

Ao condenar Lula os agentes da "operação" podem condenar qualquer cidadão que lhes desagrade, inclusive aqueles que os criticam, porque essa ditadura, assim como a do Chile, dos Chicago Boys de Milton Friedman, como dizia o Historiador e General do Exército Brasileiro, Nelson Werneck Sodré, poderá ser a mais longa de todos os tempos.

 

E a quem interessa a justiça?

 

Para responder essa pergunta e desnudar de vez toda e qualquer dúvida, seria importante que todos os fazedores de justiça publicassem seus comprovantes financeiros, bem como suas rendas paralelas.

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1 - Texto do IPES contido na Seção "O IPÊS FAZ CINEMA E CABEÇAS" de autoria do Jornalista e Roteirista José Louzeiro, do livro "Propaganda e Cinema a Serviço do Golpe - 1962/1964", de autoria da Jornalista e Escritora Denise Assis - Editora MAUAD/FAPERJ, sobre os curtas-metragem de Irineu Marinho e Jean Manzon.

16
Jun18

DESIGUALDADE SOCIAL Mais pobres podem levar até 9 gerações para atingir renda média no Brasil

Talis Andrade

Na comparação com 30 países, Brasil empata na segunda pior colocação com a África do Sul. Em estudo, OCDE sugere melhorar gasto público, principalmente nas áreas de educação e saúde

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Moradora do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, pinta a bandeira do Brasil numa parede. LEO CORREA AP

 


por RODOLFO BORGES
e SILVIA AYUSO

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Uma família brasileira pode levar até nove gerações para deixar a faixa dos 10% mais pobres e chegar à de renda média do país, segundo estudo sobre mobilidade social elaborado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

 

Nesse quesito, o Brasil só fica na frente da Colômbia e empata com a África do Sul numa lista de 30 países analisados pelo estudo O elevador social está quebrado? Como promover mobilidade social, divulgado nesta sexta-feira.

 

Na Colômbia, são necessárias 11 gerações para que uma família alcance a renda média nacional. A organização destaca que o estudo é ilustrativo e que não deve ser levado ao pé da letra.

 

A percepção do brasileiro, de acordo com pesquisa da Oxfam mencionada no estudo, endossa o cenário: seis em dez cidadãos pensam que esforço não é o bastante para um pessoa que nasceu pobre alcançar uma situação de vida confortável. De acordo com o levantamento da OCDE, 35% dos filhos de pais posicionados no um quinto mais pobre do Brasil terminam a vida nesse mesmo estrato social. Além disso, apenas 7% deles chegarão a figurar entre os 20% mais ricos.

 

Por outro lado, 43% dos filhos com pais mais ricos seguirão com o mesmo nível de renda, enquanto apenas 7% deles têm chance de piorar de vida. Para se ter uma ideia da situação brasileira, a média da OCDE indica que apenas 31% do um quarto mais pobres seguem da mesma forma, enquanto 17% se elevam ao um quarto mais rico. A mobilidade social é maior em países como Estados Unidos e muito maior nos países nórdicos.

 

desigualdade social mundo.jpg

 

 

E como se acelera o elevador social no Brasil? Não há receitas milagrosas, mas algumas pistas. A OCDE sugere ao Brasil melhorar o gasto público, principalmente nas áreas de educação — com mais investimento no ensino básico — e saúde — alocando recursos para os tratamento mais importantes e para as pessoas quem mais precisem. A formação de desempregados por meio do Pronatec também é destacada pelo organismo internacional, assim como a redistribuição de renda por meio de reformas que extingam isenções e o aumento do gasto social em programas para auxiliar os cidadãos mais vulneráveis.

 

Apesar dos números ruins, segundo a mesma pesquisa os brasileiros que já conseguiram subir na escala social têm menos risco de piorar de vida na comparação com habitantes de países emergentes como China, África do Sul e Indonésia. E por que todos esses dados importam? Porque saber se uma geração vive melhor ou pior do que seus pais não é só uma percepção ou uma curiosidade. Também é um fator econômico chave, segundo a OCDE.

 

O estudo investiga o impacto de "eventos gatilhos" — como mudanças no mercado de trabalho, divórcio ou parto — na mobilidade da renda. O emprego é o principal determinante da trajetória de renda individual, mas, em vários países, "as mudanças relacionadas à família também podem desempenhar um papel muito importante". "Em particular, as mulheres são mais gravemente afetadas do que os homens por perdas de renda após o divórcio", diz o estudo. Uma rede de transferências sociais é um fator crucial para evitar a mobilidade descendente, segundo a OCDE, enquanto a mobilidade ascendente resulta principalmente da dinâmica do mercado de trabalho.

 

Produtividade

O conceito de mobilidade social influi na produtividade econômica de um país e na qualidade de vida de seus cidadãos. E também tem fortes implicações políticas: um alto risco de cair na escala da mobilidade e a perda de status social que isso implica não só reduz a satisfação pessoal, mas também “mina a coesão social e a sensação das pessoas de que sua voz conta, especialmente entre pessoas de rendimentos médios e baixos”. Isso, por sua vez, “reduz a confiança no sistema sociopolítico, com potenciais consequências negativas na participação democrática”. E isso, adverte o organismo com sede em Paris, “reforça os extremismos políticos ou o populismo”.

15
Jun18

Afinal, quem matou Marielle?

Talis Andrade

Se permanece impune um crime de repercussão internacional, o que esperar das investigações sobre assassinatos contra militantes quase anônimos?

marielle 3 meses assassinato.jpg 

Grupo segura cartazes em ato que lembrou os três meses da morte de Marielle, na última quarta-feira, no Rio SILVIA IZQUIERDO AP

 

 

por Luiz Ruffato

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Ontem completaram-se três meses do assassinato covarde da vereadora, militante feminista, ativista negra e defensora dos direitos da população LGBT e de moradores de favelas, Marielle Franco, e de seu motorista, Anderson Gomes. Marielle, eleita pelo PSOL, “cria do Complexo da Maré”, como gostava de se identificar, foi morta no dia 14 de março, com quatro tiros disparados de dentro de um carro, numa rua semideserta do bairro do Estácio, região central do Rio de Janeiro, às 21h30. Embora tenha causado repercussão internacional, sua execução até hoje permanece sem autoria...

 

Treze dias depois do assassinato de Marielle e de Anderson, no dia 27 de março, um dos três ônibus que levavam a caravana do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva pelo Paraná foi atacado a tiros entre os municípios de Quedas do Iguaçu e Laranjeiras do Sul. Segundo o delegado que investigava o caso, Hélder Lauria, o ataque foi planejado: “Quem fez isso sabia o que estava fazendo. A pessoa não estava lá atirando em passarinhos e por acaso acertou o ônibus”. Embora tenha sido um atentado contra um ex-presidente da República, o autor dos dois tiros, calibre 32, permanece solto e desconhecido...

 

Um mês depois, no dia 28 de abril, às 4 horas da manhã, seis tiros de pistola 9 mm foram disparados contra o acampamento de apoiadores do ex-presidente Lula, que encontra-se preso em Curitiba. Dois militantes da vigília pacífica saíram feridos – Jefferson Lima de Menezes, do Sindicato dos Motoboys do ABC, e Márcia Koakoski. Também desta vez a polícia não conseguiu identificar os responsáveis...

 

No dia 24 de maio, completou-se um ano do assassinato de dez trabalhadores sem terra na fazenda Santa Lúcia, em Pau D’Arco (PA). O inquérito da Polícia Federal apontou para a execução sumária das vítimas, contrariando a versão dos policiais, de que teriam sido recebidos a bala pelos sem terra. Laudos e testemunhas mostraram que os trabalhadores foram mortos à queima-roupa. Apesar de haver quinze policiais presos, aguardando julgamento, até hoje a Polícia Federal não descobriu quem foram os mandantes do massacre...

 

Em 2016, foram assassinadas 66 lideranças, uma a cada cinco dias. A grande maioria atuava em conflitos em zonas rurais

 

No dia seguinte, 25 de maio, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Marco Aurélio Mello mandou soltar o fazendeiro Reginaldo Pereira Galvão, conhecido como Taradão, um dos condenados pelo assassinato da missionária norte-americana Dorothy Stang, em fevereiro de 2005, em Anapu (PA). Embora condenado a 25 anos de prisão, Taradão só foi recolhido em maio do ano passado, após ter tido a sentença confirmada em segunda instância. Mas o ministro Marco Aurélio, contrariando o entendimento do próprio STF que levou Lula à prisão, revogou o encarceramento de Taradão, afirmando que ele só poderia cumprir a sentença após esgotarem todos os recursos...

 

Se permanecem impunes um crime de repercussão internacional, como o de Marielle Franco, ou um atentado a tiros contra um ex-presidente da República, o que esperar das investigações sobre assassinatos contra militantes quase anônimos como os líderes comunitários Jefferson Marcelo do Nascimento (Rio de Janeiro), Leandro Altenir Ribeiro Ribas (Rio Grande do Sul), Carlos Antônio dos Santos (Mato Grosso), George de Andrade Lima Rodrigues (Pernambuco), Paulo Sérgio Almeida Nascimento (Pará); os líderes sem terra Valdemir Resplandes (Pará) e Márcio Oliveira Matos (Bahia); o líder quilombola, Nazido Brito (Pará); ou o líder de pequenos agricultores, Katison de Souza (Pará) - todos executados apenas neste ano, em casos sem solução...

 

O Brasil está entre os quatro países mais perigosos do mundo para ativistas dos direitos humanos, ao lado da Colômbia, Filipinas e México

 

Segundo relatório da Anistia Internacional, referente a 2017, o Brasil está entre os quatro países mais perigosos do mundo para ativistas dos direitos humanos, ao lado da Colômbia, Filipinas e México. Conforme a Comissão Interamericana, ligada à Organização dos Estados Americanos (OEA), aqui, em 2016, foram assassinadas 66 lideranças, uma a cada cinco dias. A grande maioria atuava em conflitos em zonas rurais, ligados à defesa dos direitos da terra e à proteção do meio ambiente.

 

 

Difícil viver no Brasil e fechar os olhos para a triste realidade que nos envolve. Mais difícil ainda é viver no Brasil e lutar para mudar essa triste realidade que nos envolve... Mas há muitos e muitas que fazem isso... E que estão fazendo isso agora, espalhados por todos os cantos do país, no momento mesmo em que você lê esse artigo...

 

08
Jun18

Reforma agrária: o que a cidade tem a ver com isso?

Talis Andrade

Com uma forte concentração de terras em posse nas mãos do agronegócio, o debate sobre a reforma agrária não costuma fazer parte da rotina dos moradores da cidade, mas deveria.

 

A nossa matriz é de força política baseada na propriedade, desde a época colonial. E até hoje uma parte da elite continua sendo rentista,            vivendo de terras e de aluguel.

 

Criamos mecanismos políticos e jurídicos para concentrar cada vez mais a propriedade, tanto no campo quanto na cidade

 

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por Juliana Avila Gritti

Le Monde

 

Em julho do ano passado, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou uma nova proposta para diferenciar espaços rurais e urbanos no Brasil, baseando-se em diretrizes internacionais adotadas pelos EUA e pela União Europeia. De acordo com estes critérios, 76% da população brasileira reside em cidades – se contrapondo ao modelo antigo, que indicava 84,4%. Os dados demonstram que, independente da decisão metodológica, ainda existem muitas pessoas no campo, um espaço não democratizado devido à ausência de reforma agrária. A reestruturação do campo, todavia, não costuma fazer parte da rotina dos moradores da cidade, mas deveria.

 

“Hoje, quando falamos em direito à cidade, uma das coisas que precisamos pensar é no link entre urbano e rural”, diz Rodrigo Faria Iacovini, coordenador executivo do Instituto Brasileiro de Direito Urbanístico (IBDU). O advogado e urbanista dá destaque ao problema histórico de distribuição de terras no Brasil, “a nossa matriz é de força política baseada na propriedade, desde a época colonial. E até hoje uma parte da elite continua sendo rentista, vivendo de terras e de aluguel”.

 

Iacovini pontua que “criamos mecanismos políticos e jurídicos para concentrar cada vez mais a propriedade, tanto no campo quanto na cidade”. Um dos marcos legais desse conflito socioeconômico é a Lei de Terras, de 1850, que determinou a aquisição de terras apenas a partir da compra e venda, restringindo-as, portanto, àqueles de alto poder aquisitivo, excluindo imigrantes e, principalmente, ex-escravos. “Não é à toa que esse processo acontece paralelamente às lutas contra a escravidão”, avalia o urbanista. Outros lugares do globo, como os EUA, fizeram o caminho inverso: em 1862, por exemplo, o país decretou o Homestead Act, que legalizou a ocupação de terras sem dono por qualquer interessado em cultivá-las.

 

Saulo Mendes Goulart, doutor em história do Brasil pela Unicamp explica que a Lei de Terras surgiu para fazer a manutenção de um modelo já existente. Em 1808, a família real deu início ao padrão latifundiário, pois assim que se estabeleceu no Brasil passou a doar lotes para membros da Corte — inicialmente apenas na região costeira. A Lei de Terras e outras determinações governamentais do fim da monarquia e começo da República seguiram, por sua vez, o paradigma da concentração fundiária. O efeito colateral, segundo o professor, foi criar uma tendência para que as pessoas recorressem às cidades.

 

A estrutura desigual e ineficiente do campo, somada ao início da industrialização brasileira, fizeram o país viver um forte êxodo rural na primeira metade do século XX. As famílias saiam do ambiente rural para procurar melhores oportunidades nas cidades, mas estas também não se dispuseram a criar ferramentas para acolhimento digno dessa massa migrante, que, em abundância, foi submetida a salários insuficientes para garantir uma vida digna. A consequência, para o urbanista do IBDU, é que “as pessoas chegaram na cidade e foram morar em áreas que não eram do interesse do mercado imobiliário até o momento — áreas de condições ambientais precárias, de restrição legal à ocupação ou muito distantes do centro. Vimos, portanto, uma grande expansão dos centros urbanos e de suas periferias”.

 

Simultaneamente, as cidades em desenvolvimento estavam pouco distribuídas pelo país, como aponta Goulart, mas conseguiram manejar a situação migratória até a crise mundial de 1929. Com o colapso econômico e o Estado centralista de Getúlio Vargas, ficou de lado qualquer política governamental de investimento fora das principais cidades. A partir desse momento, o crescimento urbano passou a ser desenfreado, com pouco ou nenhum planejamento, cujas sequelas sentimos até hoje. “A não reforma agrária redundou também no fato de as cidades terem uma subcondição de vida, uma suburbanização, e com isso gerar um exército de reserva suficiente para a parca, pobre e porca industrialização brasileira”, sintetiza Iacovini.

 

Segundo dados do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), a grande propriedade representava cerca de 56% da ocupação fundiária em 2010, sendo que apenas 16% era considerada produtiva. O uso desse tipo de estabelecimento, por sua vez, é destinado à monocultura e à agroexportação, suscitando também outro debate, sobre soberania alimentar. Ou seja, a capacidade de decidir quais alimentos serão cultivados, produzi-los e comercializá-los localmente. A estrutura fundiária do país, entretanto, não permite o exercício dessa soberania, pois está majoritariamente voltada para o mercado externo de commodities. “Precisamos de um modelo que reverta a concentração rural, não só para benefício de quem está no campo ou na cidade, mas também como uma forma de soberania nacional”, defende Iacovini.

 

Em depoimento concedido durante a III Feira Nacional da Reforma Agrária, no mês de maio, o coordenador do Movimento Trabalhadores Sem Teto (MTST) e pré-candidato psolista à presidência da República, Guilherme Boulos, afirmou que “não é possível fazer reforma urbana em meio a um processo que, por falta de terra no campo, as pessoas são jogadas para a cidade sem nenhum direito. A luta por direito à cidade, que é uma sobretudo de não continuar jogando os mais pobres para as periferias mais distantes, está muito ligada com a luta pela reforma agrária no campo. O povo tem que ter terra – seja no campo, seja na cidade”.

 

*Juliana Avila Gritti é estudante de jornalismo e participa do curso de formação Repórter do Futuro

 

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