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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

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O CORRESPONDENTE

10
Fev20

Ex-capitão Adriano, "arquivo-morto" que perseguirá os Bolsonaros

Talis Andrade

Jair e Flávio Bolsonaro, com Fabrício Queiroz, amigos em comum do ex-capitão Adriano Nóbrega 

 

por Marcelo Auler

Certamente nesta segunda-feira (10/02), Jair Bolsonaro evitará a famosa paradinha na porta do Palácio Alvorada onde costuma, a pretexto de cumprimentar militantes e apoiadores, provocar entrevistas nas quais busca manter o controle, escolhendo a quem e o que responder. Assim tenta se manter na mídia, evitando as questões mais incômodas, ainda que de forma atabalhoada, quando não grosseira e mal educada.

Nesta segunda, porém, caso pare e seja abordado pelos jornalistas, não terá subterfúgios para evitar os questionamentos a respeito do assassinato, na manhã de domingo (09/02), do seu amigo, o foragido ex-capitão reformado da PM do Rio, Adriano da Nóbrega Silva, 43 anos, chefe do famigerado Escritório do Crime. Um grupo miliciano que além de executar inimigos e/ou adversários, praticava agiotagem, grilagem de terras, construções ilegais, vendia segurança e costumava explorar serviços como transporte alternativo, venda de botijões de gás e exploração ilegal de sinais de TV a cabo.
 

Uma morte sobre a qual, para muitos, recai, desde que foi anunciada, a suspeita de que se tratou de uma “queima de arquivo”. Arquivo que ao desaparecer, aparentemente, trará benefícios à família Bolsonaro, tal como alertou Alex Solnik, no Brasil247, na postagem Morte do Capitão Adriano é boa notícia para Bolsonaro. Mas caso não fique devidamente esclarecido, poderá se tornar em um eterno motivo de cobranças aos Bolsonaros.

A natural suspeita de queima de arquivo sempre surge quando a policia deixa de capturar vivo alguém que teria muito o que falar/denunciar/esclarecer, se preso com vida e submetido a interrogatórios. Mesmo quando estes interrogatórios ocorram sem que se utilize os métodos violentos que as mícilias, como a comandada pelo ex-capitão Adriano, usam contra seus adversários. Era o caso dele, tal a gama de negócios e crimes em que seu nome foi associado. Em especial, o esquema de “rachadinha” adotado no gabinete do então deputado estadual Flávio Bolsonaro, alvo de investigação do Ministério Público do Rio de Janeiro.

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Ex-capitão Adriano previu que seria assassinado como “queima de arquivo” 

 

Na morte dele, essa suspeita de “queima de arquivo” aumenta ainda mais após se descobrir que a própria vítima, dias antes de morrer, em telefonema ao advogado Paulo Emilio Catta Preta, com o qual jamais falara, previu que seria morto.

Como seu defensor admitiu aos jornais Folha de S.Paulo – Advogado diz que miliciano ligado a Flávio temia ser morto como ‘queima de arquivo’ – e Estado de S.Paulo – Capitão Adriano tinha ‘certeza’ de que queriam matá-lo para ‘queimar arquivo’.

“Me causou surpresa na terça (4) ou quarta (5) ele me ligar diretamente. Se apresentou, e disse que a razão da ligação era que estava receoso pela vida dele. Disse que tinha certeza de que a operação para prender era para matar”, afirmou Catta Preta à Folha.

Temor compartilhado também pela, hoje, viúva, Danielle Nóbrega, em telefonema ao advogado. Para ela, o marido foi assassinado. De acordo com Catta Preta, Daniele explicou que “o miliciano se encontrava em condições precárias de fuga e não estaria armado”. Isso, a se confirmar, contraria a versão da polícia.

Pelo relato oficial, o miliciano estava com uma pistola Glock, 9mm com a qual revidou. Provocou, assim, troca de tiros. Acabou atingido. Para completar ainda mais o quadro de suspeita, consta que o local foi desfeito, pois teriam tentando socorrer o oficial reformado da PM do Rio, levando-o ao Hospital São Francisco São Vicente, conforme esclarece a Folha de S.Paulo, nesta segunda-feira (10/02). Uma funcionária disse ao jornal que Adriano já teria chegado morto ao local, diferentemente do que afirma o governo da Bahia. A versão oficial é de que ele ainda estaria vivo.

A poça de sangue no interior da casa onde Adriano se escondia. (Reprodução do vídeo apresentado pela Folha)

 

A mesma Folha apresenta um vídeo do interior da casa onde o miliciano se escondia, feito após a operação policial.

O sítio pertence a Gilson Batista Lima Neto, conhecido como Gilsinho da Dedé, vereador do PSL. em Esplanada (BA) – município de 37 mil habitantes a 160 km de Salvador. Trata-se do mesmo partido pelo qual os Bolsonaros se elegeram. Mas o vereador, que diz estar em Recife, nega conhecer Adriano e diz desconhecer que ele ocupava seu sítio.

Coincidentemente Flávio Bolsonaro estava em Salvador nesse final de semana.

O curioso no vídeo é a poça de sangue que aparece no chão da sala da casa onde o ex-capitão da PM do Rio se escondia. Teria sido ali que tombou Adriano? De onde os policiais trocaram tiros com ele? São questões iniciais, para se esclarecer o caso que merecem resposta de peritos e legistas. Mas, com a retirada do corpo, o local foi desfeito.

Desfazer locais sob o pretexto de tentar salvar a vida de alguém é forma tradicional de atrapalhar a perícia, muitas vezes para ocultar execuções. Pode não ser o caso. Mas tudo isso leva à necessidade de uma investigação isenta.

A questão, porém, é saber quem terá isenção nesse momento: a polícia baiana, possivelmente autora do disparo que vitimou o marginal? Ou a Polícia Federal, subordinada ao ministro da Justiça Sérgio Moro, incapaz de colocar o ex-militar, criminoso dos mais procurados do Rio de Janeiro, inclusive com alerta vermelho da Interpol, na lista dos bandidos mais procurados pela Justiça brasileira?

Adriano, "um foragido com esconderijo identificado"

Mais ainda, como narra o Painel da Folha de S.Paulo desta segunda-feira, a polícia do Rio chegou a sondar o Ministério da Justiça sobre a possibilidade de ajuda da Polícia Federal, com o empréstimo de um helicóptero na operação que caçava Adriano.

Questionada, a pasta da Justiça disse que não teve envolvimento com a operação e que “não haveria nenhum motivo para disponibilizar helicópteros e policiais para a captura de apenas um foragido com esconderijo identificado”. A Secretaria de Polícia Civil do Rio informou que “a parte operacional foi realizada pela Polícia Civil da Bahia”.” Ou seja, mais uma vez o ministério comandado pelo ex-juiz Moro se omitiu.

Não seria o caso de o governo baiano convocar peritos e legistas autônomos, de universidades públicas, para analisarem oficialmente o caso e afastarem as chamadas “teorias conspiratórias”, como pode ser a própria suspeita de “queima de arquivo”?

O envolvimento com os Bolsonaros

Ao contrário do que foi dito, o ex-capitão Adriano não tinha ligações diretas com a morte da vereadora Marielle Franco. Ela foi executada pelos milicianos Ronnie Lessa, de 48 anos, sargento reformado da PM-RJ, e por Élcio Vieira de Queiroz, de 46 anos, ex-soldado PM. Ambos até mantinham relações com Adriano, mas não lhe estavam diretamente subordinados no submundo do crime. Tal e qual o deputado Marcelo Freixo correu a esclarecer em áudio, pelas redes sociais, na tarde de domingo.

Ou seja, além de uma condenação anulada e de diversos outros crimes pelos quais tem a responder, a importância do ex-capitão no cenário político atual era a sua ligação com a família Bolsonaro e com o braço direito deles, Élcio Queiróz, com quem o ex-capitão assassinado serviu em um quartel da PM no Rio.

Em 2003, o então deputado estadual no Rio, hoje senador Flávio Bolsonaro propôs uma moção de louvor a Adriano por desenvolver sua função com “dedicação, brilhantismo e galhardia”.

Em janeiro de 2004, o então tenente da PM foi preso preventivamente pelo homicídio do guardador de carros Leandro dos Santos Silva, 24. Leandro denunciara extorsão de policiais militares a serviço da milícia. Adriano chegou a ser condenado por esse homicídio, no Tribunal do Júri, em outubro de 2005. Depois, conseguiu com um recurso anular a sentença e ser submetido a um novo julgamento. Foi solto em 2006 e absolvido no ano seguinte.

Enquanto preso, foi alvo de uma segunda homenagem por Flávio Bolsonaro. Este lhe concedeu a Medalha Tiradentes, maior honraria da Assembleia Legislativa do Rio. Na justificativa, entre outras razões, o então deputado estadual escreveu que Adriano teve êxito ao prender 12 “marginais” no morro da Coroa, no centro, além de apreender diversos armamentos e 90 trouxinhas de maconha.

No julgamento do policial, o hoje presidente Jair Bolsonaro, na época deputado federal, serviu como sua testemunha de defesa no Tribunal do Júri. Sua ajuda ao amigo da família não se limitou ao depoimento em juízo. O levou a fazer um pronunciamento na Câmara Federal, no dia 27 de outubro de 2005, em defesa do policial, reclamando de sua condenação (ouça aqui). Falou, inclusive, não saber como colaborar com o condenado, classificado como “coitado” e como um “brilhante oficial”. Não satisfeito, criticou um coronel que relatou ao júri o resultado de uma sindicância interna da PM que responsabilizava o então tenente.

A amizade dos Bolsonaros com o miliciano, por mais esdrúxula que seja – e não é o único laço deles com milicianos – não seria ainda suficiente para apontar a família do presidente como beneficiária da morte do ex-oficial da PM. Isso seria pouco.

Há, porém, a participação de Adriano e seus familiares com o escândalo da rachadinha, que está sendo investigado pelo Ministério Público Estadual do Rio, envolvendo Flávio Bolsonaro e servidores fantasma do seu gabinete quando deputado estadual. Em um esquema coordenado por Fabrício Queiroz, o ex-companheiro de Adriano no quartel da PM e braço direito da família Bolsonaro.

Sobre a rachadinha, o ex-capitão da PM do Rio teria muito a falar. Afinal, entre os servidores fantasmas de Flávio Bolsonaro estavam a hoje viúva de Adriano, Danielle Nóbrega, e a sua própria mãe, Raimunda.

Danielle foi empregada em 6 de setembro de 2007 e demitida apenas em 13 de novembro de 2018 no gabinete de Flávio. Jamais apareceu para trabalhar. Raimunda conseguiu dois empregos: primeiro, na liderança do PP, partido ao qual Flávio era então filiado; depois, passou a trabalhar no gabinete do deputado estadual — quando o filho de Bolsonaro se transferiu para o PSC. Também nunca esteve na Alerj.

Danielle e Raimunda receberam na Assembleia um total de R$ 1.029.042,48, do qual repassaram R$ 203.002,57 a Queiroz, de acordo com o Ministério Público Estadual do Rio de Janeiro. Outros R$ 202.184, 64 foram sacados em dinheiro. Há, portanto, valores ainda não esclarecidos.

São estes fatos que poderão fazer com que a morte de Adriano neste domingo seja sempre relacionada aos Bolsonaros. Como seu viu acima, há motivos de suspeitas – que podem jamais serem confirmadas – de uma “queima de arquivos”. Afinal, o próprio miliciano disse que na operação da polícia baiana com a participação de policiais do Rio de Janeiro ele seria morto, não recapturado.

O envolvimento dele com os Bolsonaros & Queiróz alimentará as suspeitas de que sua morte, como “queima de arquivo”, beneficia a família do presidente, na medida em que seu depoimento poderia servir para esclarecer fatos que estão sendo apurados diretamente relacionados ao crime de utilização de servidores fantasmas para confisco de parte dos seus salários. A chamada “rachadinha”. Logo, Adriano poderia incriminar mais ainda os Bolsonaro. Hipótese pouco provável, já que nas organizações mafiosas, como as milícias, funciona a lei da ormetà. Do silêncio.

A prevalecer a inocência dos Bolsonaros na relação com o miliciano – algo difícil de se acreditar -, a própria família deveria se empenhar para mostrar que não houve “queima de arquivo”. Do contrário, a morte do miliciano continuará sendo uma pedra no caminho da família do atual presidente. A suposta “queima de arquivo” irá persegui-los eternamente, por mais que desagrade a Jair. No caso, não vale apenas pregar a inocência. É preciso prová-la.

 

 

 

09
Fev20

Beneficiado pelas rachadinhas de Flávio Bolsonaro, chefe de mílicia é morto em tiroteio

Talis Andrade

O EFEITO SERGIO MORO

A morte do capitão Adriano d Nóbrega,

chefe da milícia do Rio das Pedras no RJ 

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Correio/ Estadão

Policial militar, suspeito de ter envolvimento na morte da vereadora carioca Marielle Franco, foi morto durante uma ação da polícia estadual na cidade de Esplanada, no interior da Bahia. Adriano Magalhães da Nóbrega, conhecido como Caveirão, foi morto na manhã deste domingo (9). Ele é acusado de liderar uma das maiores milícias do Rio de Janeiro, o Escritório do Crime, e estava foragido desde janeiro de 2019.

De acordo com informações da Secretaria da Segurança Pública (SSP), Adriano começou a ser monitorado por equipes de inteligência da SSP após a informação de que ele teria buscado esconderijo na Bahia. Ele foi encontrado em um imóvel na zona rural de Esplanada.

Ainda segundo a SSP, Adriano resistiu à abordagem e disparou contra os policiais. Houve troca de tiros e ele acabou sendo ferido. Ele teria sido levado para um hospital da região, mas não resistiu. 

"Procuramos sempre apoiar as polícias dos outros estados e, desta vez, priorizamos o caso por ser de relevância nacional. Buscamos efetuar a prisão, mas o procurado preferiu reagir atirando", comentou o secretário da Segurança Pública da Bahia, Maurício Teles Barbosa. 

Foram encontradas com ele uma pistola austríaca calibre 9mm e outras três armas. Participaram da operação equipes do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), da Companhia Independente de Policiamento Especializado (Cipe) Litoral Norte e da Superintendência de Inteligência (SI) da Secretaria da Segurança Pública.

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Quem é Adriano?
Ex-capitão do Batalhão de Operações Especiais (Bope) do Rio de Janeiro, Adriano comandava o Escritório do Crime, um grupo de matadores de aluguel. Segundo informações do Uol, há suspeitas de que membros do Escritório tenham participação na morte de Marielle. 

Ainda segundo reportagem do Uol, Adriano entrou no Bope em 1996, e fez o curso de operações especiais do Bope, onde conheceu Fabrício de Queiroz, que trabalhou como assessor do senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), quando este foi deputado estadual. Anos depois, Queiroz indicou a mãe e a mulher de Capitão Adriano para trabalhar no gabinete do filho mais velho do presidente da República, Jair Bolsonaro.

Adriano foi um dos homenageados por Flávio Bolsonaro com a Medalha Tiradentes, a mais alta honraria da Assembleia Legislativa do Rio, em 2005, enquanto estava preso sob acusação de homicídio. 

Comunidade controlada
O Escritório do Crime controlava a área da Muzema, onde dois prédios desabaram no ano passado. De acordo como Ministério Público, capitão Adriano  dirigia o esquema de construção civil ilegal nessas comunidades. O major da Polícia Militar Ronald Alves Pereira por sua vez, foi denunciado por comandar negócios ilegais da milícia, entre eles, grilagem de terra e agiotagem. 

O desabamento deixou ao menos três mortes e dez feridos. Segundo a prefeitura do Rio, as construções eram irregulares e tiveram as obras interditadas em novembro de 2018

Rachadinha de Flávio
Em dezembro do ano passado, o Ministério Público do Rio concluiu que o Capitão Adriano, era beneficiado pelo dinheiro do suposto esquema de “rachadinha” que existia no gabinete do senador Flávio Bolsonaro quando ele era deputado estadual no Rio.

Os promotores chegaram a essa conclusão depois de analisar conversas via WhatsApp e dados de transações financeiras do ex-PM. Adriano é apontado por outro grupo do MP como chefe do Escritório do Crime, milícia que atua na zona oeste da cidade. 

A mãe e a ex-mulher dele, Raimunda Veras Magalhães e Danielle Mendonça da Costa Nóbrega, respectivamente, foram nomeadas assessoras no gabinete de Flávio na Assembleia Legislativa do Rio, (Alerj), durante o período investigado. A investigação mostrou que elas transferiram para Fabrício Queiroz, então assessor parlamentar e considerado o operador do esquema, parte de seus salários, além de terem feito saques que poderiam indicar repasses em espécie para a “organização criminosa”. O dinheiro ‘vivo’ seria uma forma de não deixar rastros no sistema financeiro.

Adriano “também era beneficiado por parte dos recursos desviados por seus parentes na Alerj”, afirmam os promotores do Grupo de Atuação Especializada no Combate à Corrupção (Gaecc) no documento. Em um trecho da conversa dele com Danielle, o ex-capitão do Bope diz que “contava com o que vinha do seu também”, referindo-se ao salário dela que era repassado.

Em outro ponto da conversa, depois de ser exonerada do gabinete, no dia 6 de dezembro do ano passado, Danielle procurou o ex-marido para cobrar explicações e pedir que ele intercedesse para evitar sua demissão. O dia foi o mesmo em que o Estado revelou com exclusividade a investigação em curso no MP. “As coisas mudam”, disse Adriano à ex-mulher, que cobrara dele uma explicação.

Um mês depois, no dia 6 de janeiro, ele admitiu que também contava com o dinheiro dela. Adriano também indica sabia correr risco de ser preso por integrar o Escritório do Crime e passava a maior parte do tempo fora do Rio.

“As coisas não estão fáceis para mim. Só vim no Rio pra passar o fim de ano com minha mãe e ajeitar umas coisas. Amanhã já tô indo de novo”, disse, via WhatsApp.

Os dois voltaram a se falar no dia 15 do mesmo mês, quando Adriano informou que havia conversado com o “amigo” (Queiroz, segundo o MP). O ex-assessor de Flávio na Alerj teria recomendado a Danielle que não comparecesse ao depoimento para o qual havia sido convocada.

Uma tabela inserida no documento do MP, assinado pelo Gaecc, detalha os repasses e os saques feitos por Danielle e Raimunda. Enquanto foram lotadas no gabinete de Flávio, elas receberam cerca de R$ 1 milhão. Desse montante, 40% foram transferidos para Queiroz ou sacados em espécie, segundo a investigação. 

Entre os repasses de Danielle, os promotores observaram que parte deles foi feita por meio de empresas controladas por Adriano: o Restaurante e Pizzaria Tatyara (R$ 45,3 mil) e o Restaurante e Pizzaria Rio Cap (R$ 26,9 mil). 

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Jair Bolsonaro defendeu capitão Adriano

De Italo Nogueira na Folha de S.Paulo , janeiro 2019 - O presidente Jair Bolsonaro criticou em discurso no plenário da Câmara dos Deputados, em 2005, a condenação por homicídio do ex-policial militar Adriano Nóbrega, foragido e acusado de comandar uma milícia na zona oeste do Rio de Janeiro.

Naquela fala, revelada nesta sexta-feira (25) pela Folha, o então deputado federal afirmou que Adriano era um “brilhante oficial” e criticou um coronel que depôs contra o acusado, relatando ao júri o resultado de uma sindicância interna da PM.

“Um dos coronéis mais antigos do Rio de Janeiro compareceu fardado, ao lado da Promotoria, e disse o que quis e o que não quis contra o tenente [Adriano], acusando-o de tudo que foi possível, esquecendo-se até do fato de ele [Adriano] sempre ter sido um brilhante oficial e, se não me engano, o primeiro da Academia da Polícia Militar”, afirmou Bolsonaro, segundo registros da Câmara.

Na ocasião, ele relatou ter sido aquela a primeira vez que assistira a um julgamento do Tribunal do Júri. Ele foi deputado de 1991 a 2018, tendo sempre como bandeira a defesa de policiais.

Adriano foi preso preventivamente em 2004 acusado pelo homicídio do guardador de carro Leandro dos Santos Silva, 24. O então policial foi condenado no Tribunal do Júri em outubro de 2005. Neste intervalo, ganhou a Medalha Tiradentes, a mais alta honraria da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, a pedido de Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), deputado estadual, senador eleito e filho do atual presidente.

O efeito Sergio Moro

Desertor da Polícia Militar há mais de um ano, Nóbrega teve seu nome excluído da lista de criminosos mais procurados do Brasil divulgada pelo Ministério da Justiça, comandado por Sergio Moro. 

Essa exclusão do nome do miliciano provocou a divulgação da foto do capitão nos blogues e redes sociais. Foi uma inesperada propagação dos retratos existentes - estranhamente apenas três fotos -  na mídia.

A existênca de apenas três fotos indica que havia uma rede de proteção para Adriano d Nóbrega. 

01
Jul19

Lava-Jato era bunker de Dallagnol e Moro

Talis Andrade

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por Jeferson Miola

Era inocultável a militância anti-PT dos integrantes do Partido da Lava Jato nas redes sociais.

Faltavam, contudo, as provas documentais da atuação secreta deles no porão da Lava Jato – que o ministro do STF Gilmar Mendes compara a uma organização criminosa [OrCrim].

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Os integrantes desta organização dedicavam-se com fervorosa obstinação ao esforço para impedir o que temiam ser o “risco” de retorno do PT ao Palácio do Planalto. A Lava Jato, então, foi transformada no bunker de Dallagnol e Moro para atacar Lula e o PT.

O efeito da militância partidária desses agentes públicos em conluio com a Rede Globo e a mídia suja foi expressivo tanto na eleição municipal de 2016 como na presidencial de 2018 – 2 momentos para conferir aparência de “normalidade institucional” do golpe e do avanço do regime de exceção.

Hoje já é bastante aceitável pela crônica política que o bombardeio Globo-Lava Jato na boca-de-urna para prejudicar o PT em 2016 influenciou aquele que acabou sendo um dos mais desfavoráveis desempenhos petistas em eleições municipais nos últimos 20 anos [ler em A vitória do banditismo].

Também já era público e notório o ataque de Sérgio Moro à candidatura de Haddad na eleição de 2018 com a divulgação surpreendente e sem motivo processual aparente, da delação fraudulenta do Palocci.

Estava faltando se conhecer e se comprovar outras atividades secretas dos demais integrantes da OrCrim.

Esse segredo foi agora revelado pelo Intercept no diálogo em que Deltan Dallagnol instrui colegas a acelerarem investigações contra o petista Jaques Wagner para prejudicar o desempenho eleitoral de Haddad na Bahia e no nordeste e, desse modo, evitar o risco da eventual derrota do Bolsonaro, o candidato deles.

Em conversa com parceiros em 24 de outubro de 2018, a apenas 4 dias antes do 2º turno da eleição, Dallagnol pergunta: “caros, Jaques Wagner evoluiu? É agora ou nunca… Temos alguma chance?”.

Atento às pesquisas que mostravam crescimento de intenções de voto no Haddad faltando 4 dias para a votação, Dallagnol explica que “Isso é urgentíssimo. Tipo agora ou nunca kkkk”.

Ao ser lembrado por uma colega que Jaques Wagner já tinha sido alvo infrutífero de outra operação abusiva da Lava Jato – fato que tornaria ineficaz o novo espetáculo – Dallagnol então insistiu: “Acho que, se tivermos outra coisa pra denúncia, vale outra busca e apreensão até por questões simbólicas. Mas temos que ter um caso forte”.

É importante frisar o interesse do Dallagnol em promover uma ação de interesse partidário por questões simbólicas!, para reforçar na população o vínculo do PT e do candidato Haddad com escândalos de corrupção.

Não se está mais somente diante de falhas funcionais graves cometidas por servidores públicos que, como cidadãos e cidadãs, têm plena liberdade de escolha política e militância partidária.

No caso concreto, está-se diante de crime praticado por agentes públicos do sistema judicial brasileiro que aparelharam as instituições e usaram seus cargos para combater inimigos políticos, favorecer aliados ideológicos para viabilizar um projeto de poder.

Esses procuradores e juízes que agiram como integrantes de uma organização criminosa, mafiosa, envergonham as carreiras públicas e todo o funcionalismo público do país.

Eles já deveriam estar afastados dos cargos públicos há muito tempo, inclusive para evitar que continuem destruindo provas que os incriminam [aqui] e para serem julgados e condenados à luz das normas do próprio Estado de Direito contra o qual eles conspiram para atingir fins políticos.
 

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Propaganda nazista da Lava Jato para ajudar a fracassada campanha de Bolsonaro na Bahia 

30
Out18

Apresentadora de programa de TV de Haddad sofre ataques e racismo na web

Talis Andrade

 

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A jornalista, publicitária e apresentadora de TV baiana Rita Batista, que apresentou na televisão as propagandas de Fernando Haddad à Presidência da República durante o segundo turno das eleições 2018, afirma que foi ameaçada nas redes sociais e sofreu racismo em comentários públicos no Instagram e mensagens privadas. Ela denunciou na rede social o crime, praticado por simpatizantes de Jair Bolsonaro.

 

Em uma postagem feita no final da tarde do domingo de votação, 28, a apresentadora revelou que os comentários já vinham sendo enviados e que um dossiê foi entregue às autoridades policiais para tomar providências. Ela afirma ainda que o fato foi fruto de articulação de um deputado eleito aliado de Bolsonaro.

  

Os nazistas usam ofensas como "lixo", "fedorenta", "feia" e "pé de chinelo". Um safado, de apelido Julio Morbeck Lee, comentou: "este tipo de bosta só podia ser esquerdista". 

 

"Engana-se muito quem acha que a internet é uma 'terra sem lei'", escreveu Rita. "Discordar, debater, ter opinião contrária é da democracia, ofender, destratar, depreciar é para mim, falta de argumento e para a lei, crime. As ameaças de toda ordem, a mim e aos meus, não me acovardam e os pedidos de desculpas no privado não me comovem. O estado democrático de direito é soberano e continuará sendo", concluiu.

 

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Vereadora protocola moção de repúdio contra agressões sofridas por Rita Batista

 

A líder da oposição na Câmara Municipal de Salvador, vereadora Marta Rodrigues (PT), protocolou na Casa, nesta terça-feira (30), uma moção de repúdio contra as agressões sofridas pela jornalista Rita Batista nas redes sociais devido a sua participação na campanha do candidato à presidência da República, Fernando Haddad (PT).

 

À imprensa e ao Ministério Público do Estado (MP-BA), Rita revelou sofrer agressões racistas e misóginas, além de ameaças constantes à sua integridade física por meio das redes sociais.

 

“Toda minha solidariedade a Rita, uma mulher digna e integra, que sempre esteve ao lado da democracia e cumpre sua função de jornalista com muito profissionalismo e competência. Rita é a cara da mulher baiana e brasileira, aquela que não foge a luta e que não se esconde diante das ameaças”, declarou a vereadora.

 

Para a petista, as agressões e ameaças a Rita – e as diversas que vem sendo denunciadas no país inteiro – revelam o quanto a eleição de Jair Bolsonaro dá respaldo para a promoção do ódio e da violência por parte de seus eleitores.

 

“É uma realidade que nos preocupa, mas que não nos intimida. Estivemos esse tempo todo nas trincheiras de luta, ao lado da democracia e dos direitos humanos, não vai ser agora que vamos recuar na nossa batalha”, afirmou Marta Rodrigues.

 

"Eu sou Rita Batista"

 

 

Rita Batista, um dos principais rostos e vozes da comunicação, exerce papel importante ao se colocar como uma mulher negra que não abre mão de suas características. Plural e presente em quase todas as plataformas de mídia, esta moça formada em publicidade, mas jornalista por exercício, falou ao Hypeness sobre as dores e delícias do jornalismo.

 

“[A comunicação] Sempre fez parte da minha vida. Eu não me lembro de eu não me comunicando. Eu sempre fui uma criança que me comuniquei muito. Tanto que sempre andei com crianças mais velhas, me impacientava as crianças mais novas, que não acompanhavam meu ritmo, pois eu era de fato uma criança acelerada. Sempre fui.

 

E eu gostava muito da convivência com adultos. Sempre gostei. De adultos, pessoas mais velhas do que eu. Eu acho que tem a ver com a oralidade africana, moradora do subúrbio. A minha identificação foi desde de muito cedo vendo Glória Maria”, destaca.

 

Ao longo de sua carreira Rita, criada em Periperi – bairro do subúrbio ferroviário de Salvador, afirma que o grande objetivo sempre foi conhecer pessoas. Aliás, a pluralidade de vozes é uma das máximas do jornalismo.

 

“Eu digo que eu sou Rita Batista sempre querendo saber quem é você. Então a pessoa que se apresenta desse jeito quer saber das pessoas. Quer conhecer as pessoas. Eu acho que contar histórias faz parte do meu ofício. Nem sempre são histórias boas, bonitas. São histórias de luta, reivindicação. De reclamação de direitos, boa parte das vezes. Mas cada pessoa é de um jeito, cada história tem sempre alguma coisa que nos acrescenta. No fim das contas quem ganha sou eu”, pontua.

 

08
Ago18

ACM Neto solta os cachorros em cima dos professores (video)

Talis Andrade

ACM é mesmo neto de Tonho Malvadeza. Deu uma de Beto Richa. Soltou os cachorros em cima dos professores em greve

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Professores da rede municipal de Salvador foram agredidos pela Guarda Municipal da Prefeitura da capital baiana na manhã desta terça (7) durante protesto na avenida Anita Garibaldi, no bairro Ondina. Em greve há 28 dias, os professores pretendiam ocupar o prédio da Secretaria de Educação e foram impedidos de adentrar o prédio pela Guarda Municipal.

 

Elza Melo, diretora do Sindicato dos Trabalhadores em Educação do Estado da Bahia (APLB), diz que a ação da Guarda Municipal “é prova da truculência do Executivo Municipal de Salvador, liderado pelo prefeito ACM Neto”. Os professores foram recebidos com spray de pimenta, gás lacrimogêneo, balas de borracha e tiveram armas letais apontadas contra suas cabeças”, relata a diretora.

 

Os professores tinham como reivindicação inicial um reajuste salarial de 12,5% e a prefeitura oferecia 2,5%. Os docentes reduziram o pedido para 6,5%. No entanto, segundo a diretora do Sindicato, o prefeito continua impassível e se recusa a receber os docentes: “O prefeito mantém a intransigência e diz que só receberá os professores caso a greve seja encerrada”.

 

Ainda segundo Elza, a postura do prefeito dificulta as negociações pois a categoria tentou negociar com a administração antes de paralisar as atividades: “Enviamos a proposta à Secretaria de Educação em 3 de abril e só entramos em greve apenas em 11 de julho”. Além do reajuste, os professores pedem que a prefeitura reveja o nível dos docentes na carreira: “Estamos há quatro anos sem mobilidade na carreira”, critica a diretora.

 

 

26
Jul18

Bahia compra 80 carros por R$ 7, 490 milhões para 60 desembargadores

Talis Andrade

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O presidente do TJ baiano, Gesivaldo Nascimento. Toyota foi a vencedora da licitação

 

 

O Tribunal de Justiça da Bahia fez uma licitação para comprar 80 novos automóveis para o uso de seus desembargadores. O processo foi conduzido pela administração do presidente do TJ baiano, Gesivaldo Nascimento Britto, e vai custar R$ 7,490 milhões.

 

Eta vida maneira e luxuosa na Bahia de Todos os Santos e de todos os pecados.  

 

Cada carro deve ser de “tipo executivo”, modelo 2018, ter capacidade para até 5 pessoas, cor preta, biocombustível e com 4 portas.

 

A vencedora da licitação foi a montadora Toyota. Não está claro qual será o modelo exato a ser fornecido. Cada uma das 80 unidades deve custar em R$ 93.625.

 

Eis o aviso de homologação do resultado da licitação, publicado no dia 19 de julho de 2018, no “Diário de Justiça” da Bahia:

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O TJ da Bahia troca os veículos que servem os desembargadores (eis a lista dos 60 magistrados) com alguma frequência. Em 2014, os carros de luxo foram comprados da montadora Renault. Agora, 4 anos depois, haverá mais uma renovação completa. Os juízes baianos não ficaram satisfeitos com o carro da fabricante francesa, sobretudo porque muitos foram entregues com atraso.

 

Os novos automóveis dos desembagadores baianos serão conduzidos por motoristas contratados de maneira terceirizada, segundo o site Licitação.net. Segundo o Bahia Notícias, o “Tribunal de Justiça da Bahia também se prepara para a contratação de motoristas. O valor do contrato, com uma empresa terceirizada, poderá chegar a R$ 22 milhões por um ano, com aportes mensais de R$ 1,8 milhão, conforme cotações de mercado. O valor é o máximo que o tribunal poderá gastar com a terceirização do serviço”.

 

 

28
Jun18

Bahia assiste a onda de assassinatos após morte de policiais

Talis Andrade

Investigador aponta indícios de ação deliberada de agentes do Estado contra a população no caso de 45 mortes. Todas as vítimas, incluindo o PM, são negras

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Caixas para colocar corpos em Feira de Santana, no final de semana de 16 e 17 de junho.

 

 

 

Uma chacina, três duplos homicídios, duas mortes em supostos confrontos com a polícia, um total de 26 pessoas mortas e medo. O cenário é Salvador, capital da Bahia, os dias são 9 e 10 de junho, logo após o policial militar Gustavo Gonzada da Silva ser morto e ter o corpo mutilado. Na região metropolitana, foram mais cinco assassinatos. No final de semana seguinte, o soldado da PM Wagner Silva Araújo, 28 anos, foi morto em Feira de Santana, também na Bahia, e o mesmo roteiro se repetiu: 19 assassinatos em dois dias.

Ouvido pela Ponte, o investigador da Polícia Civil baiana Kleber Rosa, integrante do movimento Policiais Antifascismo, levanta a possibilidade de que várias dessas mortes tenham sido praticadas por policiais como uma retaliação aos moradores das periferias pelas mortes dos colegas. Para ele, a narrativa não deixa dúvida: os homicídios são uma resposta do Estado, a partir da polícia – para ele, “instituição moldada no racismo” – e baseada na vingança e na demonstração de poder.

 

“É o Estado dizendo assim: ‘tenho que mostrar que sou mais forte’. É uma disputa ilógica. Um comportamento medonho do Estado de tentar medir forças sem usar a Justiça, os meios legais. Não existe legítima defesa aí. O Estado não pode arrogar pra si o direito de matar, sobretudo de uma forma sumária, em nome de uma vingança”, critica.

 

Todas as execuções seguidas da morte do policial na capital baiana foram praticadas com armas de fogo contra homens jovens e sua maioria em bairros periféricos – apenas 4 na região central da capital baiana, segundo levantamento recebido pela Ponte.

 

Das mortes na capital baiana, 18 aconteceram ainda em 8 de junho, dia em que a ocorrência da execução do cabo Gonzada foi registrada. O policial estava bebendo com amigos em um bar entre Santa Cruz e Nordeste de Amaralina, onde vivia, quando foi abordado. Após tentar reagir, foi morto. Os assassinos cortaram partes do corpo do PM. A brutalidade gerou revolta em outros policiais.

 

 

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Soldado Araújo, morto após tentativa de evitar um assalto.

 

Kleber Rosa conhecia Gustavo e não soube de qualquer tipo de ameaça que pudesse estar sofrendo. “Eu sou do mesmo bairro, minhas relações estão localizadas lá, ele estudou comigo na mesma escola. Era bem conhecido na região, uma pessoa querida e, antes de ser policial, era morador do bairro, então isso é um elemento problematizador. Tanto é que isso indignou todo mundo, inclusive moradores do bairro que sofrem com a violência policial, porque ele era um morador, foi assassinado próximo da casa dele, num lugar que ele frequentava”, explica.

 

Um áudio atribuído ao deputado soldado Prisco (PSDB) demonstra a reação da tropa. “A morte do nosso colega Gonzada nos causou muita dor, muita revolta e muita indignação. A resposta tem que ser dada e tem que ser dada à altura. O bandido não pode dominar o nosso Estado”, diz a suposta mensagem do parlamentar. “O colega foi assassinado, humilhado, esbagaçado por esses marginais. E essa resposta tem que ser dada à altura. Estou aqui à disposição para ajudar vocês a caçar esses marginais e dar essa resposta”, segue.

 

Ponte questionou o soldado Prisco sobre se, de fato, é ele quem gravou o áudio propagado pelo WhatsApp, mas o político não respondeu ao e-mail da reportagem.

 

O investigador Rosa conta que a polícia fez “literalmente um cerco” no Nordeste de Amaralina depois do assassinado do PM Gonzaga. “O bairro foi sitiado. Eu recebi uma série de ligações de pessoas preocupadas, sem saber como agir, sem saber o que fazer com familiares, que podiam ou não ter antecedentes [criminais]. Pessoas, por exemplo, não tinham nem como sair do bairro, porque se fossem parados por uma blitz poderiam acabar em um fim trágico [por terem passagem]. Foi o final de semana mais violento do ano, com certeza”, afirma Rosa.

 

Medo coletivo

 

O resultado é uma sensação coletiva de medo nas regiões pobres da capital baiana. Há duas semanas, a Ponte busca familiares de vítimas dos homicídios nestes dois dias. Nenhuma pessoa aceita falar. Até mesmo movimentos e associações que denunciam violência de Estado têm preferido se preservar. Nos registros das ocorrências, há casos de números de telefone incorretos dados pelos parentes de pessoas mortas, outro indicativo do medo. A reação de uma familiar a um telefonema da reportagem deixa claro o alcance desse temor. “Como você conseguiu o meu contato?”, questiona. “Só falei o que precisava para a polícia e os movimentos, não autorizei mais nada. Não quero falar sobre esta história”, encerra.

 

Para Kleber Rosa, que tem experiência de quase duas décadas na Polícia Civil, o episódio desnuda uma política de segurança que passa pela dita “guerra às drogas”, mas que, no final das contas, “é um salvo conduto para matar”. “A política de segurança de Estado sempre esteve voltada para controlar, exterminar, combater a população negra, isso tudo com o objetivo de viabilizar a sociedade branca pós-escravista. O modelo que permanece se estendendo até hoje faz com que a estrutura da polícia esteja montada para um determinado tipo de crime, que acontece em determinada região e que coloca, portanto, todo o morador daquela região como inimigo”, avalia.

 

O problema não é só da Bahia, mas no Brasil como um todo, explica Rosa. “É uma política racista que encarcera em massa, que mata em massa a população e que controla mesmo em condição de liberdade, porque o que acontece nos bairros onde se concentra população negra é o que podemos considerar encarceramento ao ar livre. Ou seja, as pessoas estão vivendo em uma condição de permanente de vigilância e violência mesmo a céu aberto. O que aconteceu há duas semanas? As pessoas ficaram presas, sitiadas, não tiveram coragem de sair de casa, de sair do bairro. O clima ainda é tenso, as pessoas não estão falando”, diz.

 

A ouvidora da Defensoria Pública da Bahia, Vilma Reis, critica o banho de sangue e a rotina de pavor desde os crimes. “No bairro Nordeste, está todo mundo apavorado. Foram cinco assassinatos lá motivados pela morte desse policial. Não se pode admitir uma sociedade de vingança, é uma barbárie”, conta.

 

Um pesquisador sobre a violência na Bahia comparou a reação à execução do cabo Gonzada como “a versão baiana dos crimes de maio” de 2006 em São Paulo, quando houve uma resposta do Estado aos ataques do PCC (Primeiro Comando da Capital) com uma matança indiscriminada nas periferias. Nos números oficiais, 493 pessoas morreram na reação aos ataques da facção criminosa. “Cobraram geral pela morte do cabo, a periferia está com muito medo. Nessa onda de mortes, muitos não tinham passagem pela polícia. São fortes indícios de que ocorreu a pratica de extermínio”, explica o profissional, sob a condição de anonimato, temendo represálias.

 

Os mortos em Salvador

 

A chacina registrada no dia 9 ocorreu no bairro Ceasa. Já os bairros I.A.P.I., Cosme de Farias e Saboeiro tiveram, cada um deles, um duplo homicídio registrado. O cabo Gustavo foi a primeira vítima do fim de semana, seguido por Mario Souza Santos, Lucas Puig Maia Mesquita, Rafael Lucas Franco Matos, Caique Leonardo Santana de Souza, Flavio Reis dos Santos Júnior, Paulo Ricardo Ramos da Silva, Flávio Lucas Souza Penas dos Santos, Josué da Cruz, Samuel da Cruz Batista, Eliomar da Cunha Rosa, Evandro Silva Santos, Uenderson Gabriel de Oliveira, Diego de Jesus, Genilson de Freitas Santana, Jean Carlos dos Santos, Emerson de Santana Santos, Renivan Barbosa dos Santos, Eduardo de Jesus Santos, Yuri Oliveira da Cruz, Icaro Caio Oliveira Mendes, Alípio Pinheiro de Almeida, Rainer Bispo de Araújo e de outras quatro vítimas não reconhecidas – duas delas vítimas de suposto confronto com a polícia. Todas as vítimas, incluindo o PM, são negras.

Essa reportagem foi publicada originalmente no site Ponte.

 

 

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