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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

03
Abr19

O desmonte do programa nuclear brasileiro

Talis Andrade

O ENTREGUISMO DA LAVA JATO

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por Thiago Flamé 

 

Alvo de dez inquéritos, Michel Temer já esperava ser preso. Segundo informações divulgadas na imprensa, porém, foi uma surpresa a ordem de prisão ter partido do juiz Marcelo Brettas, por conta dos contratos que envolvem a usina Angra 3 e não pela questão dos portos ou pela delação de Joesley da JBS.

A estatal Eletronuclear, subsidiária da Eletrobrás, é alvo da Lava Jato desde o início da operação. Na sua primeira derrota importante no STF, ainda em 2015, a operação foi desmembrada, e a parte relativa à Eletronuclear saiu de Curitiba e foi para o Rio de Janeiro, ficando nas mãos de juiz Marcelo Brettas. Na época ainda não se tinha uma dimensão que essa operação surgida nos laboratórios do Departamento de Estado dos EUA estendia seus tentáculos muito além de Curitiba, e que Brettas seria um dos maiores cruzados da operação.

Tendo como alvo principal a Petrobras, a Lava Jato na sua cruzada pró EUA também bombardeou a programa nuclear brasileiro. A obra da usina Angra 3, paralisada desde a década de oitenta, foi retomada como parte do PAC ao final do segundo governo Lula. A reativação das obras em Angra faziam parte da retomada do programa nuclear, a cargo da Eletronuclear, que tomou impulso com os acordos assinados com a França em 2008 para a construção de um submarino nuclear, projeto acalentado pela marinha e pelas forças armadas desde a década de setenta. Os contratos envolvendo o submarino nuclear com a França, o maior na história das forças armadas brasileiras em valores não podia deixar de incomodar os EUA.

A Lava Jato tem três operações em curso que investigam as obras de Angra 3. A Operação Radiotavidade, Irmandade e Pripyat. Os maiores contratos para a construção da usina, os mesmos da década de oitenta que foram reativados pelo governo Lula sem novas licitações, envolvem multinacionais europeias, alemãs, suecas, holandesas, mas principalmente francesas, com as empreiteiras brasileiras envolvidas nos escândalos da Petrobras, Odebrecht e Camargo Correia e Andrade Gutierrez.

A operação que levou o ex-presidente Michel Temer à prisão na última quinta feira, que se encerrou com a sua liberação na noite de ontem, é um desdobramento dessas três operações. O esquema de corrupção era um sistema de repasse de verbas através de empresas laranjas que levavam o dinheiro da propina para o MDB, via Argeplan, a empresa do coronel Lima, e para a diretoria da Eletronuclear, entre outras formas, através da empresa Aratec, ligada ao Almirante Othon, presidente da Eletronuclear desde 2005.

Se Michel Temer e Moreira Franco são os políticos ilustres presos pela Lava Jato, o coronel Lima é o operador que liga os caciques do MDB às obras de Angra 3, o almirante Othon é a peça que liga as prisões desta quinta feira ao conjunto do programa nuclear, uma disputa geopolítica que remonta aos anos setenta. Apesar do MPF pedir a prisão do almirante, o juiz Brettas negou o pedido. O início das obras em Angra, contou com o apoio inicial dos EUA, que pouco tempo depois reviu a posição de fornecer material radioativo ao Brasil, que se voltou à Alemanha para seguir o projeto nuclear, sob protesto dos EUA. A mesma Alemanha boicotou o acordo de transferência tecnológica com o Brasil, o que levou no final do governo Geisel a Marinha lançar o chamado programa nuclear paralelo, um programa secreto à época. Othon não é qualquer pessoa. Foi um dos líderes desse programa nuclear paralelo, sigiloso, que levou o Brasil a dominar a tecnologia de enriquecimento de urânio, apesar da resistência dos EUA.

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A Lava Jato também investiga o programa do submarino nuclear e o consórcio entre a estatal francesa DCNS com a Odebracht, que passaria por esquemas parecidos com os de Angra 3, envolvendo também o almirante Othon. Essa linha de investigação surge das delações da Odebrecht e de Antonio Palloci. Outra operação em curso, a Operação Submarino, deflagrada agora em fevereiro de 2019, com mandados de busca e apreensão no Centro Tecnológico da Marinha, investiga contratos firmados com a holandesa Bilfinger Maschinembau GMBA & CO (MAB).

As prisões deflagradas pela Lava Jato na última quinta tem um duplo objetivo. No plano imediato é uma demonstração de força da operação que vinha acumulando derrotas no STF e tendo o pacote de segurança de Moro secundarizado por Rodrigo Maia. Essa disputa entre a Lava Jato e Maia como representante da casta política, marca o embate diante de dois métodos distintos para seguir com um mesmo objetivo do golpismo em derrotar o movimento de massas: uma que utiliza os métodos da Lava Jato para disciplinar o Congresso e garantir os votos à reforma da previdência (com Moro e os procuradores de Curitiba); e outra que quer garantir esses votos com os velhos métodos do "toma lá dá cá" da velha casta política. Ao mesmo tempo é um prosseguimento dos objetivos mais estratégicos da Lava Jato, que é golpear todas as tentativas do Brasil sob o lulismo em barganhar maiores margens, ainda que pequenas, de autonomia. O programa nuclear e as relações de troca de tecnologia com a França, na alça de mira da Lava Jato, eram peças importantes destas tentativas.

 

02
Jan19

Porque o programa de governo de Bolsonaro choca os europeus

Talis Andrade

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por Márcia Bechara da RFI

Rádio França Internacional

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Desde que foi eleito, em 28 de outubro de 2018, as propostas do presidente eleito do Brasil, Jair Bolsonaro, são recebidas com um misto de espanto e rejeição no Velho Continente, que ainda espana com dificuldade as cinzas do fascismo dos ombros de sua história. Com exceção dos governos considerados populistas, como a Itália de Matteo Salvini ou a Hungria de Viktor Orban, as democracias europeias tradicionais veem com desconfiança o projeto ultraconservador de Bolsonaro, que desafia em diversos momentos os cânones republicanos da política continental do bloco.

 

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Na França, onde a imprensa assume abertamente suas cores políticas, as críticas a Jair Bolsonaro chegam de todos os lados: jornais e revistas de direita e esquerda encontram dificuldade em simpatizar com a polêmica figura do novo presidente brasileiro, e seu projeto de governo.

A começar pelo slogan, “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”, considerado por France Info como uma “réplica assumida” do hino nazista Deutschland über alles (“Alemanha acima de tudo”, em português).  O programa de governo é considerado propositalmente difuso e pouco objetivo, para “não ter que se explicar posteriormente com a população”. Assustada pelo populismo que assinou o cheque do Brexit e a ascensão de Trump na maior economia do mundo, a Europa lida ainda com velhas feridas de guerra e tem problemas para controlar os novos fantasmas do fascismo no continente.

Apresentado pela unanimidade da imprensa europeia como um representante da extrema direita, Bolsonaro, muitas vezes chamado de “Trump tropical”, foi descrito pelo jornal Le Monde como “um chefe de Estado que mistura paranoia e ódio ao socialismo”, representante de uma “corrente, defendida [pelo ex-conselheiro de Trump] Steve Bannon, que mistura antiglobalização, xenofobia e fé cristã”.

 

“Cidadãos de bem”

 
 

O projeto para a segurança pública defendido pelo novo presidente brasileiro, que promete liberar o porte de armas para “cidadãos de bem”, também foi fortemente criticado pelo vespertino francês, que cita um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), publicado em 2015, mostrando que a lei brasileira de 2003 que proibiu o livre porte de armas “salvou 121.000 vidas em 10 anos, freando a onda de homicídios”.

A chamada “carta branca de Bolsonaro a policiais e militares” também chocou os franceses, que veem em suas declarações “uma situação inédita e perigosa para a democracia, onde se pode atirar sem investigações ou consequências”, segundo o jornal Libération. Incompatível com a tradição republicana europeia, o desmonte institucional brasileiro deixou perplexa a rádio France Info, que chamou o programa de Bolsonaro de “projeto fascista para o Brasil”.

 

Brasil à venda não vai pagar a dívida interna, segundo imprensa europeia

 

France Info considera o programa econômico de Jair Bolsonaro “claramente neoliberal, mesmo se ele defendeu anteriormente, em sua vida parlamentar, o modelo estatista”. “O presidente de extrema direita se comprometeu em lançar um vasto programa de privatizações de empresas públicas e propriedades agrícolas do Estado, para obter um lucro de RS$ 1 trilhão”, diz Le Monde.

“Um número maluco, segundo especialistas, e que, de toda maneira, é incapaz de sanar a dívida pública, que representa mais de 80% do PIB do país”, avalia o jornal francês. A medida foi considerada um “tratamento de choque” pelo diário econômico Les Echos, que ressaltou, no entanto, o “otimismo dos mercados” com “a política ultraliberal do ex-banqueiro e novo ministro da Economia, Paulo Guedes”. “Mesmo que tudo seja vendido, não será suficiente. Mas isso significa uma completa liquidação de toda a participação do Estado na economia e a limitação do Estado em funções soberanas: Exército, polícia, justiça”, analisa a historiadora Maud Chirio no site de France Info.

A imprensa europeia noticiou também o vídeo publicado nas redes sociais pelo então candidato em 21 de outubro de 2018, onde prometia “acelerar a grande limpeza do país dos marginais vermelhos e dos bandidos esquerdistas", deixando a seus adversários “a escolha entre o exílio ou a prisão”. O jornal britânico The Guardian repercutiu a polêmica declaração, falando em “expurgo político de adversários”, citando o famoso slogan da ditadura militar brasileira (1964-1985): “Brasil, ame-o ou deixe-o”.

 

Educação de olho no passado 

 

Num continente laico, onde a separação entre Igreja e Estado [o chamado secularismo europeu] é lei, a figura de Bolsonaro, frequentemente descrito como “fervoroso católico, conservador e apoiado por cristãos evangélicos”, choca a sociedade. “Bolsonaro é o arauto da família tradicional, não hesitando em “denunciar notícias falsas".

Fazendo eco à “guerra cultural” contra o marxismo e a “ideologia de gênero”, uma verdadeira caça às bruxas iniciada pelo premiê Viktor Orban na Hungria nos últimos anos, Bolsonaro denunciou durante a campanha presidencial uma suposta "doutrinação de crianças à homossexualidade orquestrada pelo Partido dos Trabalhadores", relatou a historiadora francesa Maud Chirio ao site de France Info. A estratégia deu certo e foi amplamente reproduzida por seus seguidores nas redes sociais.

Outro fato que deixou perplexos os europeus foi a figura de Jair Bolsonaro na televisão, em agosto de 2018, quando o candidato de extrema direita brandiu a versão em português do Guide du zizi sexuel, e garantiu que o famoso livro ilustrado pelo desenhista Zep, que visa explicar a sexualidade às crianças, fazia parte de um "kit gay" "transmitido nas escolas brasileiras para promover a homossexualidade e seria" uma porta aberta para a pedofilia". "Um manual que, na realidade, nunca foi distribuído para as escolas", afirmou Le Monde.

 

Ameaça ao Meio Ambiente

 

Ponto de honra na política e na diplomacia europeia contemporânea, os programas de defesa do Meio Ambiente e as medidas contra o aquecimento global são respeitados e se tornaram divisas para o comércio de commodities. Por esta razão, as declarações e ações de Bolsonaro neste setor inquietam particularmente os europeus, como a ideia de fundir os ministérios da Agricultura e do Meio Ambiente, com um propósito claro, segundo Maud Chirio: favorecer o agrobusiness, principal cavalo de batalha do comércio exterior brasileiro, um setor que não aprecia medidas e acordos internacionais que regulam o uso de terras protegidas e recursos naturais. O novo presidente brasileiro chegou mesmo a falar em “acabar com o ativismo ecologista xiita”.

Segundo o correspondente francês da RFI no Rio de Janeiro, François Cardona, "Jair Bolsonaro não esconde sua intenção de autorizar projetos industriais, hidráulicos e de mineração em áreas protegidas: da Amazônia, por exemplo. Entre a defesa da natureza e os interesses dos grandes latifundiários, o candidato de extrema direita escolheu o seu lado de maneira inequívoca”, afirmou Cardona.

As ameaças de Bolsonaro de seguir o exemplo de seu mentor, Donald Trump, e deixar o Acordo de Paris, podem, no entanto, trazer consequências para a balança comercial brasileira no exterior. Entre promessas de campanha e atos presidenciais, resta saber se as diferenças entre o governo brasileiro e a comunidade europeia serão amplamente assumidos em termos de diplomacia internacional, e suas devidas consequências econômicas para o Brasil.

 

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