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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

21
Set17

Da leveza de ser livre

Talis Andrade

 

 

 

matisse_icaro.jpg

 

Vencer o medo de ver

e conhecer

Vencer o medo

de pular da cama

para enfrentar a multidão

Deixar a prisão

a casa

o caixão

Desatar os laços

quebrar as alianças

com os inimigos

quebrar os angustiantes elos

com os governantes

e sair por aí

 

Livre

pelas ruas

Livre

dos flagelos do mundo

Livre

das contaminações

dos ídolos

Livre

da prostituição

Livre

do que é sufocado

e do sangue

Livre

subir as escadarias

do templo

dançando e cantando

louco de Deus

bêbado de Deus

dançando e cantando

na leveza

na inteireza de ser

 

 

----

Ilustração: Ícaro, Henri Matisse


Mais poesia de Talis Andrade aqui 

17
Set17

O VENTO É SEMPRE ÁSPERO, por Adriano Marcena

Talis Andrade

adriano-marcena.jpg

 Adriano Marcena

 

 

Talis Andrade é amigo das palavras, primo da aliteração, sobrinho da alegoria, cunhado da versificação. Poeta-ser é conceber o desabafo da carne, músculos e entranhas. Talis não é inofensivo e sua receita po-ética não aceita adoçante, quando mais açúcar! É um poeta movido pela aspereza do diabetes simbólico recriando seu interior de homem-solitário escaldado pela vida boêmia literária. Fácil é perceber a fisgada certeira com que ele consegue apreender o fígado da poesia, o baço da palavra, a cefaléia da pontuação. Talis também é meio grego, não grego-romano, mas grego-pernambucano, pois ali está o cheiro dos trópicos apri- sionados ou escaneados no papel inofensivo. Todo poeta é covarde pelo simples fato de oprimir as folhas em branco diante de si. Entre a dor e o poeta reside a poesia, entre Talis e a vida existe o amor por uma leveza que se aprisiona ao vento, cortando as amantes, serrando os ouvidos, sufocando as virilhas, apalpando os desejos, esses crudelíssimos desejos, perdidos em monólogos madrugais. Entre o poeta e a dor o vento sopra como se pusesse os nervos para bailarem suavemente: o poeta é um nervo que não suporta nem o prenúncio do vento. “A flor do sexo/ a lascívia/ a amante entrando quarto a dentro dos antigos olhos/ a faca fria/ a bala quente/ a ronda dos ricos/ a mulher que tropeça pela casa/ os gritos que não nos deixam em paz/ a profana recordação/ o enforcado da rainha preso à teia da ilusão…” Talis quebra tabus grudados em poetas. De sua pena contemporânea desnuda-se, diante de nossas retinas, o próprio enforcado: suas artérias expostas à brisa consoladora, suas vísceras se decompõem, se reciclam em água humana, mas por trás do enforcado resiste e triunfa o poeta vivo, o poeta nu, o poeta do pó das letras, o poeta da dor sincera que finge existir, o poeta tentando encontrar o tinteiro e o mata-borrão para se defender, atemorizado, da leveza delicada da filha mais jovem do vento que lhe excita em pleno sol do meio-dia. Todo grande poeta tem medo do vento. Talis, é bom saber que você só está enforcado no livro. Sobre algum mangue soterrado, parabenizo pelo livro, poeta!

 

 

 

 

04
Set17

Beijo de penitência

Talis Andrade

cecchi.jpg

 


Beijei teus lábios
como se beija
a própria boca
refletida em um frio
espelho de prata

Frio beijo de penitência
no sexo repisado
e sem graça
Incômoda dívida
que se paga
na mesma cama
cada fim de semana
Compulsório sexo
de quem não tem
outra parceira
Sexo que se faz
por se estar tonto
A comportada bebedeira
dentro de casa
Sexo que se faz
como um autômato
com a técnica
dos profissionais
e a pressa
de quem bate o ponto

 

---

Ilustração: Adriano Cecchi

Mais poesia de Talis Andrade aqui 

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