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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

15
Jul17

Paranoias de Leonardo

Talis Andrade

 

rafael rocha .png

por Rafael Rocha

 

 

 

 

Leonardo tinha um problema sério.

 

Era paranoico. Ele tinha muito cuidado com os caminhos por onde andava e pisava, bem como com a própria sombra.

 

Se as calçadas fossem lisas e sem risco ele caminhava por sobre elas normalmente. Se visse alguma fissura ou algo quebrado, tinha o cuidado de não pisar nessa fissura ou risco, passando os pés cuidadosamente por cima até alcançar o outro lado.

 

O maior cuidado era com a própria sombra. Por onde andasse, a sombra tinha sempre de ficar atrás dele e jamais na frente.

 

Achava que se desse um passo com a sombra na frente poderia cair em um buraco negro.

 

Assim quando saía do trabalho, à noite, sempre estava armado com uma lanterna a iluminar o caminho onde a sombra aparecesse.

 

O horário de meio-dia era o que ele mais gostava, porque não via a sombra nem atrás nem à sua frente.

 

Toda essa paranoia e excentricidade criavam para Leonardo problemas variados.

 

As calçadas do Recife não eram de confiança, pois muitas delas destacavam-se por terem fissuras e outros riscados.

 

Mas gostava de caminhar durante o dia pela Avenida Guararapes por baixo daquelas marquises dos prédios afrancesados, já que a sombra não aparecia de jeito algum para incomodar.

 

Leonardo viveu cerca de setenta anos.

 

Foi cliente de muitos psicólogos e psiquiatras do Recife e de Olinda, cidade onde morava.

 

Mas não era louco. Tinha apenas uma paranoia generalizada com a própria sombra e com as fissuras das calçadas das cidades.

 

Um dia Leonardo morreu.

 

Seu enterro ocorreu exatamente quando um eclipse total do sol escureceu por completo o céu do Recife em pleno meio-dia.

 

 

===

do livro

CONTOS DELIRANTES COM VERSOS EM BOLERO

do jornalista, poeta e escritor Rafael Rocha,

a ser lançado este ano 

 

 

 

 

13
Jul17

Precisamos trazer de volta a dignidade da revolução

Talis Andrade

rafael rocha a revolução .jpg

 

CANÇÃO DA LUTA

 

Necessário lutar, amigos, a história

vive em todos os instantes do presente

não dá licença a mudanças descabidas

nem mercantiliza as memórias.

 

Amigos meus, aceitar momentos de terror

e acatar juízos de merda

é viver a ideologia da casa grande.

Necessário lutar, amigos, nossas vidas

são maiores e são ternas e são limpas.

 

Os pensamentos das verdades vivem para nós

e em nós e sobre nós

e trazem objetivos amplos para nossa existência,

eu luto e nós lutamos e nesse verbo

as ruas nos esperam para desfraldar as bandeiras.

 

É preciso recordar, amigos,

o tempo de caos do antanho

e os outros amigos idealistas assassinados.

É preciso, sim, amigos, respeitar suas memórias

e fazer a nova história da pátria

com as mais fortes cores da liberdade.

 

E, meus amigos, jamais esquecer

a luta gloriosa

pelo direito de ser humano

e pelo direito de viver.

 

....

 Poemas do livro, no prelo, Contos Delirantes com Versos em Bolero

Leia mais Rafael Rocha aqui

 

 

01
Jul17

44 poetas selecionados por Rafael Rocha

Talis Andrade

muses.jpg

 

 

 

No jornal Humanitas, agora na internet Nas Páginas de Ateop, uma seleta de 44 poetas.

 

Apesar dos prestigiados meios de comunicação, o importante que a coletânea de poetas internacionais tem a assinatura de Rafael Rocha, historiador, antiteólogo, romancista, jornalista, também poeta consagrado.

 

Além dos versos, testemunhais, fotografias e entrevistas com os poetas que Rocha encontrou em vida. Assim acontecendo, temos um rico arquivo para pesquisadores, historiadores da Literatura, críticos literários, estudantes de Letras e amantes da Poesia. 

 

O gosto de Rocha difere dos ratos de biblioteca por ele ser boêmio, ativista político e ateu.

 

Vale conferir. O amor de Rafael Rocha pela Arte livra suas escolhas das simpatias, dos modismos e aprovações oficiais.

 

 

 

 

 

 

26
Jun17

2017 do poeta Rafael Rocha

Talis Andrade

Nas livrarias e premiações, este ano, três livros inéditos do poeta Rafael Rocha:

Poemas Escolhidos

Poemas dos Anos de Chumbo

e

 

AO TRIBUTO A BUCK.  rocha.jpg

felizes na dor (*)

 

ponham os copos na mesa
acendam seus cigarros
tem litro de cachaça e muita cerveja
para rolar esta noite
estão cansados?
não existe cansaço para os notívagos.
a eles é dada a solidão dos felizes na dor

duas horas da manhã
e vocês querendo mulheres e fodilanças?
eu serei bondoso mesmo que vocês fiquem bêbados.
se alguém pegar aquele violão
abandonado lá no canto
e resolver cantar uma canção qualquer
conseguiremos espantar nossas mágoas de ébrios

elas não virão hoje (puta merda!)
fiquem certos disso
elas são sombras decaídas e nos odeiam
por sermos tão honestos e sensíveis
e por bebermos a vida e por fumarmos a vida
ainda quero que alguém pegue o violão abandonado
e dê voz a uma canção cheia de putaria

e tu ainda diz - meu deus que grande farsa!?
- bebe o líquido amargo de tua cerveja, porra!
estás mais perto do nada que esse deus
esse abominável!

esse trágico comediante das esferas celestes
que prega a morte como culto
e deixa matar o próprio filho
para salvar os homens de suas merdas

na verdade, vos digo, na verdade
e agora sou eu o vosso profeta
“se quer saber onde está deus, pergunte a um bêbado”
(essa frase é do bukowski, outro amigo desta merda de vida!)
o bêbado tem mais consciência
da localização da mentira que um homem sóbrio

deixa que o violão toque sozinho
todas as canções do mundo
elas não cabem em nossas cabeças
que só pensam em mulheres
nos cigarros e nas cervejas
e nas ingratidões da vida
mas continuem a encher os copos
quero todos bêbados e voláteis
dançarinos de suas próprias infelicidades.

 

 

tereza


na rua chamada

imperatriz tereza cristina

morava a tereza

maltrapilha

a louca do bairro

da boa vista

cantora

de rua

e pedinte

dos botecos

fétidos

feia como

uma maldição

de bruxa

 

tereza

da rua imperatriz

todas as manhãs

ficava nua

e mergulhava

no rio capibaribe

às 7 da manhã

fazendo chuva

ou fazendo sol

ria e ria e ria

brincando na água

sem ligar

aos passantes

na ponte de ferro

e mostrava

o dedo médio

em riste

a quem mandasse

ela sair da água

 

tereza da imperatriz

lavava os peitos

a bunda

e a buceta

com a água do rio

e depois

saía cantando

pela lama

do manguezal

trazendo caranguejos

entre os dedos...

 

(um dia

tereza da imperatriz

sumiu nas águas

entre as baronesas

de uma enchente

e nunca mais foi vista).

 

 

final

 

casualmente

tinha de ter um poema mais velho que o diabo

para oferecer em algum altar

e infelizmente

tinha de terminar de poetar com uma palavra simples

obrigado! obrigado!

e agradecer os aplausos

verdadeiramente

tinha de falar gritando para esses obtusos e vadios

intelectuais inventados pelo poder

- uns merdas do pedaço!

digo, sim:

vão tomar no cu!

felizmente, sim!

tenho saco roxo para dizer isso!

vão se fuder!

se não gostam do que escrevo

felizmente, ah, felizmente!

estou livre de todos!

tenho uma estrada aberta só para mim!

e meus verdadeiros leitores me amam!

 

 

 

rafael rocha.jpg

 

Nota do editor: Dos livros Poemas Escolhidos e Poemas dos Anos de Chumbo já divulgamos alguns versos. Comprove a beleza in tags.

Do poema Felizes na Dor, o autor faz o seguinte comentário:

(*) Escrito e falado por mim na bela cidade do Recife no bar Mansão do Fera no louco ano de 1980, quando as merdas da vida eram mais reais que as merdas religiosas

 

 

 

15
Jun17

A multiplicidade de Rafael Rocha

Talis Andrade

Poeta. Romancista. Jornalista. São diferentes Rocha ou um só?

 

Que também existem o ativista político, o boêmio, o compositor, o dono do Humanitas, "o jornal dos livres pensadores", uma publicação sem fins lucrativos, cuja linha editorial tem ligação direta com o agnoticismo e o ateísmo.

 

A simplicidade une todos os Rocha, que tem nome de anjo, Rafael, nome de pia dado pela religiosidade de sua santa mãe.

 

Do altar de vários livros, Alguma Poesia

 

poemas ecolhidos capa.jpg

 

TEU CORPO

 

Para mim teu corpo é sempre o mesmo corpo.

Não envelhece. Não tem rugas. Sempre o mesmo.

Até quando escrevo um poema olhando um outro

de qualquer outra mulher eu vejo o teu vivaz e lindo.

Eu sei que o tempo torna as coisas carcomidas

mas teu corpo em mim continua sempre novo.

Sempre como aquele de décadas antigas

esperando meus beijos e minhas carícias.

 

Irei assim acompanhando essa imagem de teu corpo

ainda que nós ambos estejamos desenvoluindo

e tendo outros olhos a olhar para outros corpos

fingindo e mentindo que ainda são os de antes.

Mas para mim teu corpo é sempre o mesmo corpo

onde redescubro sonhos e desejos de paixão.

Sim! Sim! Porque estamos vivos na paisagem

e não custa sonhar e acreditar que somos e somamos.

 

Tudo isso serve para a gente espantar a morte

como a beber uma cerveja, um vinho ou um licor.

Viver é uma bebida venenosa a matar lentamente

e isso nós sabemos e criamos antídotos com o olhar.

O teu corpo vem em sonhos e traz variedades

dos momentos de quando o destino bateu na porta

e de quando nunca e jamais as nossas saudades

foram ideias mortas.

 

Para mim teu corpo é sempre o mesmo corpo.

Não envelhece. Não tem rugas. Sempre o mesmo.

É um poema para meu olhar envelhecido de hoje.

 

MARCOS DO TEMPO CAPA.jpg

 

OLINDA

 

Olinda do frevo maior

ofício de minha canção

onde buscando o amparo

fiz milagres nunca vistos

pedindo ao carmo da virgem

o brilho da luz do farol.

No bairro novo do sonho

numa casa recém-caiada

em um varadouro sem fim

nasceu a história maciça

do jardim atlântico novo

onde o doce rio desemboca

e de onde os bultrins da vida

chamam homens/mulheres pra mim

 

 

JUDAS

 

O ideal morreu

trinta moedas foram repartidas.

 

As armas fazem salvas.

Eis o mundo!

(O mundo está vivo?)

 

Os gaiatos obliteram

o homem

nos comícios

e nas passeatas

ideológicas

 

Homens sem-terra replicam

hinos de salvação

salmos inconsistentes

aos estatutos dos ventos

 

E quando a cidade dorme

os encapuzados roubam

carne e frutas

ao peso exato

do sangue

da população

 

 

INSTANTÂNEO NO BAR

 

Quando ela entrou no bar os homens acordaram da bebida

perplexos passaram os olhos por todas as linhas do seu corpo.

 

Gestos invisíveis de sonhos em volúpia a homenagearam.

 

Quando ela entrou no bar, a vida abriu portas e janelas e garrafas.

Copos tilintaram, mãos sorriram,

as almas deram-se graças totais e dinâmicas.

 

O garçom atendeu-a solícito como pôde

fazendo dos olhos lentes objetivas para sentir a substância da carne.

Uma cerveja. Um cigarro. Um enredo moreno.

Um meneio coxas/pernas/seios/olhos/lábios e convites incertos.

 

Ao sair do bar manto e roupa de rainha deu-lhe o vento.

A lua iluminou todas suas perfumadas e sinuosas reentrâncias.

Os automóveis deslizaram de mansinho pelo asfalto.

 

Quando ela saiu do bar tudo lá dentro adormeceu em outro silêncio:

Os copos calaram os cristais.

Os homens tornaram-se falaciosos.

E o garçom resolveu beber sua meiota de cachaça.

  

ANOS DE CHUMBO CAPA.jpg

 

O HOMEM CINQUENTENÁRIO

 

Ao passar um olhar na vida

notou-a amarrotada e tardia.

Os móveis da casa poeirentos.

O cigarro sem gosto.

O café sabendo à água suja.

 

Pôde num só olhar, olhar-se:

barba por fazer. Dedos rugosos.

Cabelos esparsos e olhos opacos.

Desacreditou-se. Já não era

a coisa brincalhona de outros tempos.

 

Teve ódio do espelho e escreveu

uma frase lugar comum cinquentenário:

- Tenho um coração de quinze anos! -

 

A partir desse instante

conseguiu sentir o tamanho das suas rugas.

 

 

 

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