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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

03
Jun18

DOS VIVOS E DOS MORTOS

Talis Andrade

 

capa_o_enforcado_da_rainha.jpg

 

 

Os que voltaram do desterro

não deixaram nenhum amigo

nenhum vínculo na terra estranha

Os que voltaram se sentem perdidos

tão solitários quando no exílio

Uma vida tão torturada

quanto a do presídio

como se não mais existisse

nenhum conhecido

uma vez que tudo mudou

no mundo dos vivos

 

Dos camaradas desaparecidos

nos guetos e becos

subsistem vagas referências

nos escritos dos brasilianistas

e na lista publicada

por dom Evaristo 

 

 

03
Jun18

A ANISTIA

Talis Andrade

prestes.jpg 

betinho.jpg

arraes.jpg

 

 

O frio vídeo

mostra os rostos

antes censurados

dos que sobreviveram

nos presídios

 

Coloridas televisivas imagens

registram os passos

dos que regressaram

ao convívio dos vivos

trazendo uma conversa

antiga e repetida

 

Os que regressaram

ao convívio dos vivos

parecem fantasmas

tirando das mochilas

dos tempos hippies

obsoletas armas

exóticos brinquedos

baleeira bolas de gude

máquina de escrever

mimeógrafo e panfletos

 

As roupas fora de moda

envelhecidos líderes

discursam os slogans

cantam os hinos

de quando expulsos

do paraíso

 

Pelos labirintos das fábricas

pelos corredores da fome

pelos corredores da morte

envelhecidos líderes

retomam a caminhada

de vinte anos atrás

 

Envelhecidos líderes

ofuscados pelas fugazes luzes

dos flashs azuis

vão demorar a perceber

vinte anos se passaram

em negras nuvens

vinte anos se passaram

em brancas nuvens

 

 

---

Talis Andrade, O Enforcado da Rainha, ps. 143/145

02
Jun18

Borborema pedra encantada

Talis Andrade

com tema de João Urban

Jussara Salazar na Pedra do Ingá.jpg

 

 

 

por Jussara Salazar

 

Atravessei 5.000 anos
Na pedra do ingá
Atravessei seus guerreiros
Órion com seus luminares
Atravessei antigos oceanos
Agora adormecidos
Na quietude da terra
Atravessei mulheres
As mulheres
Com seus cabelos ensolarados
Com suas marcas gravadas
Volutas
Fios ancestrais
Sobre o coração

 

Atravessei meu corpo
quando meus dedos
tocaram o sol
dessas pedras
onde as deusas me atravessaram
gravando seus uivos
Em um tempo
próximo
em um tempo
longínquo

 

E adormeci

 

 

---

ILUSTRAÇÃO Jussara Salazar na Pedra do Ingá

01
Jun18

A TORTURA NUNCA TERMINA

Talis Andrade

estátua da liberdade tortura colonialismo preso .

 

 

1

Na escuridão do cárcere

não persiste a mínima

noção de tempo

A escuridão prolonga

um suplício

que nunca termina

 

Na escuridão do cárcere

o prisioneiro desconhece

quando os encapuzados

vão recomeçar o ritual

das místicas

sessões cívicas

 

Desconhece de onde vêm

os cruciantes gritos

se da cela vizinha

ou dos porões da mente

 

Gritos que não lhe deixam em paz

estouram os tímpanos

Pregos penetram o corpo

revificando os estigmas da crucificação

o sangue a coroa de espinhos os escarros

 

Os pungentes gritos

recordam os sermões

dos tempos de menino

O padre Nicolau

descrevia as estações

                               da via-crúcis

ameaçando com os tormentos

                               do inferno

O corpo aferroado

por tridentes em brasa  

a carne torrificada

no castigo do fogo eterno

A capela exalava

malsinado cheiro

de carne queimada e enxofre

Por toda capela

o beatífico aroma

de incenso e cera

de círios acesos

 

2

O prisioneiro desconhece de onde vêm

os cruciantes gritos

se da cela vizinha

ou dos porões da mente

 

No terror implantado o preso não percebia

quando tudo era um macabro divertimento

o cruel vexatório brinquedo do gato com o rato

ou triste cenário de um banho de sangue

O real o imaginário se (con)fundiam

no surrealismo de uma guerra suja

Nos aviões prisioneiros avisados

de que seriam atirados em alto mar

aterrizavam humilhados por continuarem vivos

Carros os freios sabotados desabavam no abismo

Corpos caiam no poço dos elevadores

Carros invisíveis atropelavam nas esquinas

Prisioneiros alinhados ao pé do muro viam a morte fugir

nos fuzilamentos com balas de festim

Prisioneiros eram trucidados

 em uma simulação de fuga

ou simplesmente sumiam

Outros anunciados como mortos

retornavam lampeiros perambulando pelas ruas

 

3

A imprevisibilidade uma tortura

Os segundos sobressaltante eternidade

Os inquisidores não têm hora precisa

Os inquisidores podem chegar

                     a qualquer instante

 

 

Os segundos se arrastam

Perde-se a noção

de quando dia

de quando noite

Não existe mês

no calendário da escuridão

 

 

Na angustiante espera

o prisioneiro sofre a tortura

de desconhecer

quando chegará a vez

de ser empurrado

pelos campos de sangue

para os subterrâneos da morte

os olhos vendados

para uma viagem sem volta

 

 

---

Talis Andrade, O Enforcada da Rainha, ps. 135/139

 

 

30
Mai18

ASCENSO E MANO TEODÓSIO NO PARAÍSO

Talis Andrade

ascendo.jpg

 

1

Em uma pequena casa uma rua humilde

o corpo de Ascenso

sobrava na cama de solteiro

armada na sala de estar

para esconder das visitas

a pobreza

do quarto de dormir

 

O corpo de Ascenso

a morte veio buscar

A morte veio devagar

triturando-lhe o coração

O coração de poeta

parte fraca

covardia machucar

 

O coração de poeta

desmanchado coração

derretido coração

pelas morenas de cabelos de trança

trançados amores os corpos trementes

enroscados no verde dos canaviais

gemendo lamentos de almas penadas

desencarnadas almas

dos quilombos destruídos

a ferro e fogo e berro

por Bernardo Vieira de Melo

 

2

Mano lembrava Ascenso

o corpo gigante desajeitado

esbarrando nas mesas

e amigos

Mano lembrava Ascenso

no sorriso de menino

no abraço apertado

e imenso

 

De Mano e Ascenso a luta

em diferentes fronts e

confrontos

 

Ascenso imaginárias escaramuças

cantadas nos folhetos populares

duelos de repentistas

brigas de feira e amor

emboscada de macacos

fuga de cangaceiros

enganadora busca

do Tempo de Antes

quando o trem corria

danado pra Catende

 

Mano o sofrimento

por compreender

querer levar aos escravos

a esperança

pelos campos de catequese dos camponeses

aos estudantes o ensinamento

da guerrilha de Che

nos aparelhos clandestinos

 

3

No fígado devorado pelas águias de asas azuladas

os adivinhos buscavam decifrar números nomes

revelados pelos presos no terror

no delírio dos corpos dilacerados

 

Estava Mano deitado no áspero chão

as mãos os pés amarrados

o jovem corpo nu

bonito de ver

apesar dos hematomas

 

apareceu a potestade maior

gritando

para os subordinados

eram uns frouxos

deixassem ele sozinho

que tirava o serviço

 

Expulsos os comparsas

fechou a porta da câmara escura

a pesada porta de bronze

que tudo veda e esconde

 

Serpenteando no chão frio cinzento 

a potestade foi se aproximando

silenciosamente se aproximando

se achegando

e chegando mansamente

abocanhou o pênis de Mano

e mamou

mamou

e babou

como um frágil

inocente

bezerrinho

 

4

Mano conseguia fugir para os mais distantes recantos

correndo solto pelas ruas pelos campos

Vinham ao seu encontro os vultos de mulheres

que amou pelos verdes canaviais verdes gramados

brancas dunas macios leitos leitosas luas

Mano se transportava enlevado pelas estrelas

fachos que iluminam a noite e os bares de Olinda

 

Estava Mano deitado

os olhos vendados

as mãos os pés amarrados

os pensamentos na lonjura

na tontura

os músculos se retesaram

com o frio toque

o bote profissional

da cobra verde

 

Os músculos se retesaram

como acontecia na sessão de choques

os fios elétricos riscando com fogo a pele

Pela vez primeira Mano sentiu medo

O medo de ser castrado escureceu os olhos

 

Secos poços os olhos

As mãos

em carne viva

cavassem na rocha

os poços das lágrimas

As mãos reconquistassem a força

para quebrar as correntes

da verde cana caiana

 

Nas vascas da morte

o corpo desvencilhar-se da rede

dos reacionários

A rede de invisíveis e visíveis malhas

A rede dos terciários

que imobiliza os corpos

e enreda as almas

 

Deitado em leito de plumas

deitado em areias prateadas

despojado no cimento esponjoso

desmaiado no chão molhado

Mano ia e voltava do paraíso

Mano desfalecia e acordava

para beber uma cerveja

no inferno 

 

5

Chegado o novo tempo

pactuado na anistia

gradual geral irrestrita

Mano sentiu-se deslocado isolado

no arraial da fama camaleônica

dos antigos camaradas

a dividir o poder

com os inimigos

 

No mudado tempo

Mano nada pediu

Não pousou de herói

não virou mito

não encenou o papel

de sobrevivente

Quis simplesmente o tento de ser

o Mano de sempre

 

6

Mano fazia política

por amor

um grande amor

à marginalizada gente

que ele liderava

nas barricadas e comícios

 

Mano fazia política

como Ascenso fazia poesia

      por desvairada paixão

       mal de raiz

 

Mano se misturava com o povo

com ternura de flor

pureza de irmão

A inocência de quem tem

dos poetas e dos santos

a pobreza o coração

 

 

29
Mai18

LIÇÕES DE (NÃO) VIVER NO CÁRCERE

Talis Andrade

 

casa-da-morte..jpg

 

A sobrevivência

   alimenta-se de esperanças

   a fome dorida de espaços

   Da casa paterna a reminiscência

   os compridos corredores da infância

   os quartos imensos

   a mesa grande e farta

   a alegria dos extensos quintais

   repletos de frutas e pássaros

 

O sonho

    Das ruas e praças a liberdade

    A diversidade da paisagem

    que se renova a cada passo

 

A contemplação

   O sol se pondo no horizonte

   O sol uma bola de fogo

   se pondo por trás dos morros

   trazendo as infindas noites

   de êxtase e chope

 

A masturbação

  Em nenhuma circunstância

  profana a recordação

  da amorosa cena

  a fêmea apagando

  a chama do cigarro

  escurecendo o quarto

 

---

Foto Casa da Morte

Talis Andrade, O Enforcado da Rainha, ps. 124/125

 

 

29
Mai18

DITADURA MILITAR Recordações da Casa dos Mortos

Talis Andrade

 

casadamorte.png

 

 

1

Vieram

soldados

de armas

     nas mãos

 

Vieram

soldados

de botas

     pretas

 

Gritaram forte

espancaram forte

vasculharam tudo

      tudo

 

2

Tomaram retratos documentos

Os carcereiros regiam quase tudo

Os carcereiros não podiam acorrentar

os sonhos de liberdade a doce

esperança de encontrar

a Terra Sem Mal

 

3

Acaso o corpo presunto

se conserve vivo

na câmara frigorífica

Liberto dos sequazes

o corpo defunto

escape do inferno

não há como afastar

a persistente presença

do senhor da tortura

 

Acaso o preso escape

ileso das mãos homicidas

não há como esquecer

o contato na carne

das tenazes em brasa

a comida pastosa

empurrada na boca

as unhas arrancadas

os dentes quebrados

Não há como esconder

as visíveis marcas

confundindo a alma

quebrantando o corpo

 

4

Como varrer da memória

as cenas de esquartejamento

Esquecer uma madrugada

a porta da casa derrubada

foi retirado da cama

e jogado em um negro carro

idêntico aos coches

das casas mortuárias

Uma madrugada as corujas nefastas

cobriram o céu azul com suasas negras

e metálicas

Uma noite os olhos diante

dos horrores do holocausto

quedaram macabramente inúteis

Infaustos olhos de Santa Luzia

exibidos em um prato de prata

 

5

Os olhos desbotados

pela salmoura das frias

paredes dos presídios

vazados nas masmorras

do Santo Ofício

arrancados nos porões

 

 

d a   d         d

         i         u

         t         r

d i  t  a d u r a 

u      d

r       u      

a       a  d i t a

 

Os olhos tristes

de quem sentiu

quanto (ser)vil

pode se tornar

o bicho homem

 

De Lázaro os olhos

de quem voltou

do país das sombras

querem

 

os verdes anos perdidos

o azul a paz

de longínquo cais

 

a liberdade dos espaços

brancas velas de uma jangada

no horizonte

 

pássaros velejando

o infinito

 

---

Foto Casa dos Mortos, em Petrópolis

Prisão clandestina da Ditadura de 64

Poema do livro O Enforcado da Rainha

de Talis Andrade

 

 

 

28
Mai18

de Fernando Monteiro

Talis Andrade

 




MAR DE MÁRMARA

Por longos mil anos,
Bizâncio (esmalte e ouro
Marchetados sob a fumaça
Dos círios de Constantinopla),
A grande Bizâncio
Decaiu como qualquer pessoa decai:
De década para década,
De ano para ano,
De mês para mês,
Contando-se as semanas
E os dias debaixo das horas
De inverno gelando cúpulas
De ladrilhos e cabeças
De bispos no hipódromo
Molhado de lágrimas
Da chuva a correr
Pelos mármores de sal
Das esculturas pagãs
Transformadas em santos
Sob a ameaça do milagre:
Tornar em humaníssima carne
A pele de pedra das estátuas
De olhos vazados
Por mirar de frente
Para o mar do nada
Às nossas costas.

 

fmonteiro.jpg

fmonteiro2.jpg

 

 

26
Mai18

de Clarice Freire

Talis Andrade

A boca se cala 
Minha voz hoje gastou toda 
palavra que tinha. Já não sei se 
aquela fala era ou não era a minha. 
E o que eu não sei dizer aparece 
de algum jeito. Quando o silêncio 
da boca diz um poema perfeito.



O pensamento fala 
Abri a gaiola do imaginário, 
então libertei os sonhos contidos. 
Voaram com o vento por toda a casa 
como se não fossem mais proibidos.

 

clarice-freire-vai-casar-noivasdobrasil.jpg

clarice-freire-vai-casar-noivasdobrasil (1).jpg

freire.jpg

 

 

26
Mai18

BOA NOTÍCIA PARA OS POETAS (Não sei se para a poesia)

Talis Andrade

Postou o romancista Urariano Mota:

 

No caderno de livros do jornal Globo:


Com 'instapoetas', vendas de poesia crescem 130% e quebram barreiras editoriais


Antes considerado difícil de emplacar, gênero conquista público e editoras


Tradicional patinho feio do mercado editorial, a poesia sempre foi vista como “algo que não vende”, “gênero difícil”, alvo de desconfiança. “Livro de poesia vende pouco e de poeta desconhecido não vende nada. Nenhum editor, em seu juízo perfeito, entra nessa fria”, escreveu Ferreira Gullar, há seis anos. E lembrou que até o futuro imortal Manuel Bandeira pagou do próprio bolso a edição de seu primeiro livro, lá em 1917.


Se fosse vivo, Gullar, que morreu em 2016, levaria um susto com a lista de mais vendidos nos quatro primeiros meses deste ano. Entre os dez primeiros, na categoria ficção, três são de poesia. Entre os 50 mais, em todas as categorias (incluindo autoajuda, religião e youtubers), há quatro títulos de poesia.


De janeiro a abril, o gênero vendeu 209.764 exemplares, um crescimento de 130% em relação ao mesmo período do ano anterior. Agora, portanto, poesia vende. E quem puxa o fenômeno não são clássicos ensinados nas escolas, figurões ou autores premiados, e sim poetas jovens, alguns no primeiro ou segundo livro, que ficaram famosos espalhando nas redes sociais versos curtos, simples e diretos.


Conheça os jovens poetas best-sellers João Doederlein. Aos 21 anos, o estudante de Publicidade da UnB já tem mais de 800 mil seguidores no Instagram. Como uma espécie de dicionário poético e sentimental, seus textos dão outros sentidos a palavras conhecidas do cotidiano. O projeto de Doederlein começou em 2015 e viralizou quando celebridades como a atriz Grazi Massafera compartilharam seus posts. Lançada no ano passado, a sua primeira obra, “O livro dos ressignificados”, está em 18º na lista de mais vendidos de ficção nesta semana. No ano, ocupa a 9ª posição.

 

 


Ryane Leão: Espalhando seus poemas há dez anos em cartazes lambe-lambes e em todos os cantos da internet, ela percorreu uma trajetória de “caos e flores”. Cuiabana radicada em São Paulo, negra e lésbica, está sendo chamada de “a Rupi Kaur brasileira”, por trazer questões delicadas sobre a mulher para a poesia nacional. Não por acaso, 95% de suas leitoras são mulheres entre 16 e 60 anos. Seus poemas foram reunidos no livro “Tudo nela brilha e queima”, que chegou à quinta edição em apenas seis meses.

 

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Pedro Gabriel: “Instapoeta” antes mesmo de o termo existir, Pedro Gabriel foi um dos primeiros fenômenos da poesia nas redes sociais. Filho de pai suíço e mãe brasileira, chegou ao Brasil aos 12 anos. Começou escrevendo e desenhando em guardanapos que encontrava nos bares. Ao postá-los em sua página no Facebook (e, posteriormente, no Instagram) ganhou milhares de fãs. Seus dois primeiros livros, que reproduzem os guardanapos poéticos, já venderam mais de 350 mil exemplares desde 2013, segundo a editora Intrínseca.


Clarice Freire. Os poemas da publicitária pernambucana de 30 anos têm toque artesanal. Frases como “Vi o sol nascendo e tive vontade de ser também” ou “Estou levando as tristes idas para te dar as boas-vindas” aparecem em caligrafia de nanquim, sempre acompanhadas de desenhos. E tudo é fotografado e postado no Facebook e no Instagram. Em 2014, o material foi reunido no livro “Pó de Lua”, que vendeu 90 mil exemplares. Depois, veio “Pó de Lua nas noites em claro” (2016). Agora, ela prepara uma terceira obra.

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Zack Magiezi: Um “instapoeta” que usa máquina de escrever. Este é Zack Magiezi, pioneiro da poesia de rede social que se mostra ao mesmo tempo vintage e contemporâneo.


São pílulas instantâneas, de leitura fácil, geralmente acompanhadas de imagens em postagens de Facebook e Instagram. Explorando esse formato, brasileiros e estrangeiros se firmaram como best-sellers e transformaram o modo como o gênero é visto pelo público — e também pelos editores.

 

É o caso da indo-canadense Rupi Kaur, do brasiliense João Pedro Doederlein (@akapoeta), da pernambucana Clarice Freire e do coletivo TCD (da série “Textos cruéis demais para serem lidos rapidamente”).


— A poesia está na moda — diz Ismael Borges, gestor da Nielsen, que monitora o varejo de livros no país. — Guardadas as proporções, é o que aconteceu com os livros de colorir. O gênero cresceu como um todo. E isso não parece planejado por editoras. Houve um encontro da poesia mais contemporânea, digerível, com um leitor que buscava isso.


E o que seria essa poesia mais “digerível”? A professora do Instituto de Letras da Uerj Giovanna Dealtry acredita que, por ter nascido nas redes sociais, a escrita desses autores é mais direta, de consumo imediato.


— É um movimento novo da poesia, que não tem mediação de professor ou intelectual dizendo por que ela é boa ou ruim — analisa. — Os poetas conseguem se comunicar diretamente com o leitor. Eles têm a marca da oralidade, com textos assertivos, quase num tom de autoajuda e aconselhamento. “Você precisa fazer isso”, “precisa fazer aquilo”... São versos direcionados, que acomodam o leitor e não chegam a desafiá-lo.
As vendas vêm crescendo desde 2013, ano em que a Nielsen começou suas pesquisas no Brasil. A data coincide com um marco editorial para o gênero: “Toda poesia”, de Paulo Leminski. Lançado pela Companhia das Letras, o livro pegou o mercado de surpresa. E, em algumas livrarias, vendeu mais do que “Cinquenta tons de cinza”.


DOS BLOGS AOS FEEDS


No mesmo ano, a Intrínseca lançou o primeiro livro de Pedro Gabriel, que começava a despontar no Facebook com um conceito peculiar: fotos de guardanapos com poemas ilustrados, que ele escrevia em bares. Era aposta ousada, mas seu “Eu me chamo Antônio” superou expectativas. O livro e sua continuação (“Segundo — Eu me chamo Antônio”, 2014) já venderam 350 mil cópias.


— Na época, ainda era difícil visualizar essa poesia de rede social como livro — diz Danielle Machado, editora-executiva da Intrínseca. — O que nos fez investir no Pedro não foi uma aposta no gênero, e sim na originalidade do livro, com a estética dos guardanapos e a linguagem.


O sucesso dele levou a editora a procurar outros nomes populares na web, como Clarice Freire, que na época tinha uma página no Facebook chamada Pó de Lua. Com 90 mil cópias vendidas, os livros dela foram adotados nas escolas neste ano.


Sem as redes sociais, Danielle acredita que editoras e livrarias ainda estariam no modus operandi “poesia não vende”. Antes delas, os poetas usavam blogs, acessados frequentemente por leitores já interessados no gênero. Agora, os posts infiltram-se nos feeds por compartilhamentos em Facebook, Instagram, Twitter. E encontram um público que até então podia nem gostar ou acompanhar poesia. Essa, aliás, é a razão que fez muitos autores

 

migrarem do Facebook para o Instagram, onde conseguem mais destaque. Ganharam até um apelido: instapoetas.


As redes sociais criaram uma linha direta para que autores promovessem seus textos. E os ajudaram a mapear com muita precisão o perfil de seus leitores. Pedro Gabriel, que tem 1,5 milhão de seguidores no Instagram, sabe que 70% de seus fãs ali têm entre 13 a 25 anos. Os jovens são os que mais interagem com ele, mandando mensagens e comentários. Muitos dizem estar lendo poesia pela primeira vez.


— Depois de descobrir minha página, eles começam a se interessar por outros poetas, como Drummond, Leminski, Manoel de Barros... — diz Pedro. — O público perdeu o medo da poesia. Não tem mais essa de que é uma coisa inacessível, voltada para a Academia, para pessoas com cabelo branco.


Pela linguagem mais acessível de seus trabalhos, muitos instapoetas acham que são a porta de entrada para obras mais densas. Clarice Freire conta que, nas sessões de lançamento de seus livros, vários fãs lhe pedem dicas de outros autores. Não é impossível presumir, portanto, que o fenômeno também esteja favorecendo outros tipos de poeta.


Afinal, talvez não seja acaso que a primeira grande coletânea da portuguesa Sophia de Mello Breyner (1919-2004) lançada no Brasil, com seus versos complexos e sinuosos, já tenha vendido respeitáveis duas mil cópias em menos de um mês. O próprio fenômeno Leminski, um poeta que se encontra no meio do caminho entre o pop e o hermético, também pode ter sido beneficiado por novos autores.


Expoente da poesia marginal, o poeta Chacal, que nos anos 1970 e 1980 encontrou no mimeógrafo uma forma alternativa de fazer poemas chegarem a leitores, tem certeza de que a poesia falada ainda é a principal responsável por popularizar o gênero. Tanto em sua época quanto hoje:


— É nesses eventos que ela deixou de ser solene. Essa poesia da era digital já tem as bases que existiam no cordel, no rap e em todas essas tendências globalizadas que se vê no slam. Acho que a poesia hoje pode ser tudo, em breve não vai ter mais diferença entre poeta, músico, fotógrafo. Será tudo o mesmo criador.

 

 

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