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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

02
Ago19

O Brasil é muito mais civilizado que você, Bolsonaro

Talis Andrade
 

Nem o “eu sou assim mesmo” de Jair Bolsonaro resistiu à pesquisa que mostrou uma rejeição acachapante às suas declarações que uma das missões de seu filho Eduardo, na embaixada brasileira nos EUA, seria a de trazer mineradoras norte-americanas para explorar terras indígenas no Brasil.

Ou ao que disse anteontem, prometendo várias “serras peladas” pelo país afora.

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Hoje ele se emendou – ou melhor, remendou-se – dizendo que é preciso explicar melhor o “projeto” (!?) de abrir áreas de reserva aos mineradores.

Nem assim, Jair, nem assim o que você diz é palatável para a imensa maioria da população.

O seu mundo, o do “velho oeste” é coisa do passado, que só sobrevive na mente doentia dos imbecis.

26
Mai19

Sínodo da Amazônia é desafio para presença da Igreja Católica na região

Talis Andrade

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RFI - O correspondente do jornal na Itália, Nicolas Senèze, explica em sua reportagem que além dos desafios ecológicos, a presença da Igreja Católica na vasta região amazônica vai estar no centro dos debates durante o Sínodo convocado pelo papa Francisco. Esse assunto também esteve presente em um recente colóquio na Universidade gregoriana de Roma.

O artigo cita a experiência de vários padres para mostrar o quanto a ausência da Igreja é flagrante na região. Um deles, David Romero, responsável pelos jesuítas na Amazônia, visitou uma pequena comunidade em uma localidade não informada, mas que não tinha visto um padre há pelo menos 10 anos.

Outro padre, o peruano Pablo Mora, disse ter celebrado uma missa em uma comunidade onde havia apenas uma família católica, mas estiveram presentes muitos fiéis que se tornaram evangélicos, o que revela, segundo o religioso, o abandono pastoral da Igreja.

Ao jornal, o secretário-executivo da Repam (Rede Eclesial Pan-Amazônica), Mauricio Lopez, afirma que os povos da Amazônia reclamam a presença da Igreja Católica. A constatação veio dos eventos organizados pela Repam nos últimos meses, chamados de "momentos de escuta", que reuniram mais de 22 mil moradores dos nove países da bacia amazônica. Lopez considera a Amazônia e seus desafios para o clima do planeta, a segunda área de maior influência geopolítica mundial depois do Oriente Médio.

Bolsonaro é obstáculo

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Por isso, diz o jornal La Croix, o ex-cardeal de São Paulo dom Cláudio Hummes vê a necessidade de criar uma Assembleia especial sobre o tema durante o Sínodo. Ele diz que a Amazônia nunca esteve tão ameaçada e critica o "paradigma tecnocrata" que dá ênfase a um "neocolonialismo econômico", manifestado pelo apetite das empresas de agronegócio e mineração, em detrimento do ser humano, que ficou em segundo plano.

Para ouvir o grito dos excluídos, a Igreja Católica deve ampliar sua presença na região, mas diante das dificuldades do deslocamento dos padres na Amazônia, Cláudio Hummes defende a importância de uma Igreja "inculturada", termo que designa a influência recíproca da fé cristã com a cultura local. O problema dessa visão é que muitos enxergam uma porta aberta para temas tabus na Igreja Católica, como o celibato e a ordenação de mulheres.

Já o arcebispo de Huncayo, no Peru, o cardeal Pedro Barreto, estima que os povos autóctones, que ele descobriu em diversas viagens a partir de 2001, representam uma alternativa para nossa sociedade. Por isso, ele defende o que chama de "amazonificação da Igreja".

O texto ainda lembra que essa visão humana da Amazônia encontra forte resistência do governo do presidente Jair Bolsonaro, já que ele considera os povos indígenas um obstáculo para a exploração da floresta. Ele já manifestou preocupação com o Sínodo da Igreja e seus colaboradores já declararam que o evento da Vaticano "interfere na soberania do Brasil".

02
Abr19

Para polícia, não há negociação, o trem vai passar, mesmo que custe vidas

Talis Andrade

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por Maria Júlia Gomes Andrade

 

A escolha da jornada da luta de mulheres deste ano inspirou muitas perguntas, na reflexão sobre Brumadinho: Quantas trabalhadoras morreram? Quantas mães morreram? Quantas filhas morreram? Quantas viúvas ficaram? Quantos órfãos ficaram? Quem vai cuidar desses filhos e filhas, agora órfãos?

No dia 14 de março de 2019 completou-se um ano do assassinato de Marielle Franco. Atos ecoaram em todo o Brasil e, também, em muitos outros países. Da madrugada até as últimas horas do dia aconteceram manifestações, debates, marchas, assembleias, saraus em todas as partes. Era óbvio para as mulheres militantes que precisávamos fazer alguma coisa nesse dia. Porque não aceitamos naturalizar a execução de Marielle. Porque lutar para que não se esqueça e perguntar "Quem mandou matar?" nos move para muitas outras batalhas. A jornada de luta das mulheres este ano começou no dia 08 de março e foi até o dia 14. Marielle é inspiração e fogo no pavio.

Em Minas Gerais muita coisa aconteceu também. E as mulheres do MST e do MAM decidiram honrar a memória de Marielle denunciando outro crime: o rompimento da barragem da Vale em Brumadinho. Mais de 300 pessoas morreram nesse dia. Mais de 70 eram mulheres. Soterradas, sufocadas, arrastadas e partidas pela lama de rejeitos da Vale. A maioria das pessoas eram trabalhadores da Vale ou de empresas terceirizadas, que estavam ali, trabalhando como um dia qualquer. Muitas das vítimas fatais estavam nos espaços dos escritórios, laboratórios, oficinais, vestuário ou refeitório. A Vale escolheu construir todas estas estruturas logo abaixo da barragem de rejeitos B1, a que se rompeu no dia 25 de janeiro. Com o detalhe revoltante de que quando o complexo minerário era da mineradora Ferteco (de quem a Vale comprou em 2001), várias destas estruturas se localizavam em outra parte do empreendimento, e que não foram atingidas pela lama. Inclusive o refeitório, onde muitos infelizmente estavam por ter sido horário de almoço o momento do rompimento. Quais corpos são descartáveis? Os trabalhadores são mais descartáveis? Os corpos negros, maioria da população em muitas das comunidades de Brumadinho, são descartáveis?

As mulheres do MST representavam ali as mulheres do campo que têm os seus territórios invadidos por projetos de mineração e que, em muitas regiões, têm a sua forma de vida e de renda alterada profundamente em consequência dos impactos: pela contaminação ou assoreamento das águas e pelo confinamento da terra gerada pela disputa do território quando chegam os empreendimentos de mineração. Estes impactos têm consequências diretas: é bastante comum a diminuição ou mesmo inviabilização da agricultura onde a mineração se instala.

As mulheres do MAM, as atingidas pela mineração, representavam aquele dia todas aquelas que estão em conflito com o atual modelo mineral. As mulheres que precisam cuidar dos seus filhos e familiares doentes por causa da poeira das explosões das minas ou pelo pó que é espalhado dos trens que levam todo o dia nossos bens minerais para os portos. As mulheres que precisam varrer e lavar roupas muitas vezes, não raro mais do que uma vez, já que a poeira do minério suja muito mais os lugares atingidos pela mineração. Quem é mesmo na nossa sociedade a quem a dimensão do cuidado com a família e com a casa é atribuído como algo "natural"?

A mineração atualiza, onde chega, as relações machistas e patriarcais que já existem na nossa sociedade.

A escolha da jornada da luta de mulheres deste ano inspirou muitas perguntas, na reflexão sobre Brumadinho: Quantas trabalhadoras morreram? Quantas mães morreram? Quantas filhas morreram? Quantas viúvas ficaram? Quantos órfãos ficaram? Quem vai cuidar desses filhos e filhas, agora órfãos?

 

Escolha do território

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Optou-se por um ato simbólico, na cidade de Sarzedo, vizinha A Brumadinho. O complexo Paraopeba, de onde rompeu a barragem em janeiro, abrange dois municípios: Brumadinho (onde fica a mina Córrego do Feijão) e Sarzedo (local da mina Jangada). O complexo abarca minas, barragens, estradas internas e plantas de beneficiamento. Pela ferrovia que passa pelo centro de Sarzedo é escoado parte do minério do Complexo Paraopeba e de vários empreendimentos minerários na região.

E o município de Sarzedo é ainda ameaçado pelo empreendimento da mineradora Itaminas, barragem que apresentou recentemente problemas na estrutura, e que em caso de rompimento tomaria vários bairros da cidade, na área urbana. Isso tem gerado um verdadeiro terror na população, eles sabem bem o que a lama de rejeitos pode causar. Inclusive várias vítimas fatais do crime da Vale em Brumadinho eram moradores de Sarzedo, e eram trabalhadores do complexo Paraopeba.

Durante o ato, as mulheres liam os nomes completos de cada uma das trabalhadoras que foram assassinadas pela Vale no dia 25 de janeiro. E nesse exato momento a Polícia Militar de Minas Gerais começou a jogar bombas de efeito moral. Mirando as pessoas. Mais assustador ainda: muitos deles riam enquanto jogavam bombas. Muitos riam ao passarem as mulheres carregadas, machucadas. Nesse momento da bomba houve correria, tombos, sangue nos corpos machucados pela violência.

Dez pessoas ficaram mais machucadas e tiveram que ser levadas ao hospital: nove mulheres e um homem, jornalista cobrindo a manifestação. Dezenas de outras mulheres ficaram também machucadas no pânico. Não houve negociação para a liberação da ferrovia, houve um aviso: saiam agora ou sairão à força. Os policiais no comando sequer aceitaram dialogar com as advogadas que estavam acompanhando a ação. E as mulheres responderam: vamos terminar a cerimônia de homenagem a Marielle e em homenagem às mulheres que morreram na lama de rejeitos da Vale, e em seguida saímos. Ato simbólico e com previsão de ser breve. Mas a urgência se explica, na lógica deles: está vindo um trem da mineração e ele vai passar. Não há negociação, o trem vai passar. Não importa quantas pessoas morreram do município, quantas morreram em Brumadinho, sequer importa se há acima das cabeças da população uma barragem de rejeitos que pode romper. O trem vai passar. Por cima das mulheres, que estavam ali homenageando outras mulheres. O trem vai passar.

Os cães do Estado em Minas Gerais são, em muitas partes, também os cães das mineradoras. Mas que eles não se esqueçam: onde tem mulheres na mineração, tem luta. E apesar de toda a fumaça das bombas malditas, e de tantas pessoas machucadas, a cerimônia de homenagem não parou: as mulheres leram até o final a lista daquelas mulheres que a Vale assassinou no dia 25 de janeiro de 2019.

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31
Mar19

Quantos brasileiros a Vale pretende matar neste inverno que se aproxima

Talis Andrade

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Mais três barragens da Vale em Minas Gerais foram colocadas em alerta máximo para rompimento nesta quarta-feira, 27. Duas ficam em Ouro Preto e uma em Nova Lima, no distrito de São Sebastião das Águas Claras, conhecido como Macacos. Sirenes foram acionadas, como protocolo, na zona de autossalvamento (ZAS) das três barragens. As estruturas deixaram o nível 2 e passam para o nível 3 de segurança, o que significa risco iminente de ruptura. A barragem em Nova Lima é a B3/B4. Em Ouro Preto são as estruturas Forquilha I e Forquilha III.

Na sexta-feira, uma represa de rejeitos da mineradora em Barão de Cocais também recebeu nível 3 de segurança. A cidade vive em estado de vigília desde então.

Hoje o Estado de Minas Gerais publica reportagem de capa, para informar que a assassina Vale mantem, "escondidas entre montanhas, no interior de matas fechadas", duas barragens de rejeitos fora dos radares das autoridades. O que comprova: a empresa estrangeira não leva a sério as autoridades do Executivo, do Legislativo, do Judiciário. Trata o Brasil como um país safado do Terceiro Mundo, colônia de quinta categoria, republiqueta de bananas.

Eta País dominado, sem patriotismo, sem amor ao próximo.

A vida dos brasileiros, para a Vale, não vale um tostão furado. Leia para entender o descaso 

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31
Mar19

Marina, Brumadinho, rio Doce, o calote abominável

Talis Andrade

Mariana não serviu

As atividades da Vale não deixam benefícios nos locais em que explora os recursos minerais

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Rio Doce antes e depois da exploração da Vale

 

por Vittorio Medioli

O Tempo

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Instalou-se em vários redutos econômicos e políticos, nos últimos dias, a discussão sobre as indenizações que a Vale deve em decorrência da queda da barragem de Brumadinho e outras indenizações, como as relacionadas a Mariana e ao rio Doce. É uma realidade que Mariana, decorridos três anos, nada recebeu. Levou calote abominável; apesar de o Estado ter cobrado multas e a Samarco (controlada da Vale) prometido indenizações, nada chegou aos prejudicados. Da mesma forma, a multa de R$ 100 milhões aplicada no último mês à Vale chegou a Brumadinho, incorporando-se ao superávit do primeiro bimestre do Estado.

Existe ainda uma compensação de R$ 1,3 bilhão de outra controlada, VLI (Valor Logística Integrada), que transita na Procuradoria da República em Minas Gerais. O prazo contratual de liquidação venceu em outubro de 2018, após cinco anos de infrutíferas gestões. Nem um centavo foi liquidado, apesar de ser contrapartida indenizatória destinada a compensar alguns municípios da região Central de Minas, em função da concessão de linhas férreas da antiga RFFSA.

A VLI não investiu, nada repassou aos municípios, e continua estática e premiada pela sua inércia proposital, transitando com seus trens dia e noite, interrompendo o trânsito, matando transeuntes, abalroando veículos, disparando suas sirenes que destelham as habitações próximas.

O modus operandi da Vale é o descomprometimento, mesmo em seu berço natal, Minas Gerais. Levou sua sede ao Rio, que não tem uma jazida, para curtir da beira-mar um horizonte preservado. Ela é contumaz no desrespeito aos compromissos sociais, da mesma forma que desrespeita as regras de segurança com seus funcionários, com seu entorno, com o meio ambiente.

Depois da atividade extrativa na Vale, a enrolação se destaca para aumentar a lucratividade. Não é certamente por falta de recursos, de capital, de falta de lucros fantásticos, mas pela obsessão desmedida com a ganância. Seu balanço espelha, depois de vários malabarismos contábeis, de reservas e contingências, um lucro real de R$ 25,6 bilhões em 2018, ou R$ 2,1 bilhões por mês, com tendência acentuada de crescimento.

As atividades da Vale não deixam benefícios nos locais em que explora os recursos minerais. Nas últimas décadas, as contrapartidas sociais da Vale atingiram o Parque Municipal, na avenida Afonso Pena, em BH, a praça da Liberdade, sem nada para os grotões que explora. Veja-se o caso de Itabira, um município espoliado, condenado à mais profunda decadência. De lá já saíram US$ 1 trilhão em minérios nas últimas quatro décadas, mas continua uma cidade sofrida, onde nasceu Carlos Drummond de Andrade. Mariana, patrimônio da humanidade, foi carimbada pelo maior desastre ecológico de todos os tempos, e nada recebeu.

Como Maquiavel ensinou, “quando se pode ganhar pelo engano, não se devem usar outros métodos”. O know-how, “a expertise para fugir de responsabilidades legais”, da mineradora é condenável e não mais suportável.

Bem por isso, os municípios e as regiões lesadas, considerando os antecedentes e as práticas da Vale, devem se organizar para um enfrentamento que deverá ter à disposição muita firmeza, mobilização. Rigor também na determinação de princípios, critérios, metas, valores e prazos. Os valores indenizatórios não podem ser inferiores a um terço do lucro anual da Vale, e sua aplicação deve se dirigir a projetos sustentáveis e de geração de renda e oportunidades. Indenizar as famílias de imediato, mas não perder de vista o desenvolvimento econômico e social nas regiões atingidas. É preciso acertar, também, e de uma vez, as condições de utilização e destinação correta desses “supostos” rejeitos, que, pela lógica da aceleração da lucratividade, acabam sequestrados em barragens arriscadas.

Essa é a realidade, que pode parecer absurda, mas surge da relação entre tempo, espaço, mercado e lucro, levando a sequestrar ouro e outros minerais considerados “rejeitos” e “perda de tempo”.

Pois bem, os municípios atingidos precisam estabelecer princípios claros no enfrentamento da Vale para não serem vítimas de outras, do mecanismo de esquecimento.

As indenizações regionais não podem ir para compensar o Estado em outras regiões, mas para gerar desenvolvimento compensatório, empregos e renda entre os atingidos. O PIB de Minas caiu mais de 20% nos últimos cinco anos, o desemprego assola o Estado, e as regiões atingidas pelos desastres da Vale acabaram por ser aniquiladas.

Se numa família três foram penalizados, a compensação aos outros três nunca servirá a reparar os danos reais, mas em Minas funcionou dessa forma até hoje.

26
Fev19

Maior do que a 'guerra' da Venezuela é a tragédia de Brumadinho. Um mês de luto sem corpo. Familiares “morrem um pouco a cada dia”

Talis Andrade

Bombeiros ainda buscam por 131 pessoas desaparecidas após rompimento da barragem da Vale. Sobreviventes e parentes de vítimas tentam cicatrizar as dores e o trauma após  tragédia com 179 corpos 

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á um mês a auxiliar de cozinha Paloma da Cunha, de 22 anos, não consegue parar de rebobinar em sua cabeça as lembranças do tsunami de lama produzido após o rompimento da barragem I da mina de Córrego do Feijão, em Brumadinho. A enxurrada de rejeitos da mineradora Vale engoliu sua casa, levando embora o marido, o filho de 1 ano e 6 meses, a irmã de 13 anos e o futuro como ela tinha imaginado. Paloma foi a única da residência que sobreviveu.

"Primeiro veio aquele barulho forte, parecia um helicóptero caindo. Depois, a luz acabou e, quando me levantei da cama para ver o que era, só sentia as coisas me esmagando", conta a auxiliar de cozinha que morava em frente à pousada Nova Estância também devastada pelo tsunami de rejeitos. Levada pela correnteza, Paloma foi arremessada pela onda para o lado esquerdo e se agarrou ao que encontrou pelo caminho para sair da enxurrada.

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A sede de justiça e o amor de mãe é o que também faz o coração de Andreza Rodrigues continuar batendo um mês após a tragédia. Moradora de Mário Campos, cidade vizinha a Brumadinho, ela busca incansavelmente notícias sobre o filho Bruno Rocha Rodrigues, engenheiro, que trabalhava na Vale. Ele tinha sido efetivado em 2018 na mineradora após trabalhar dois anos como estagiário. "O que sentimos é um descaso em relação às buscas dos mais de 100 desaparecidos. A intensidade diminuiu ao longos dos dias, temos menos helicópteros circulando, menos informações do que está sendo feito. Já estamos completando um mês de luto sem corpo. A gente está morrendo um pouquinho cada dia", diz Andreza. Segundo o Corpo de Bombeiros, as buscas ainda não têm prazo para finalizar e podem durar meses. Eles explicam que os trabalhos entraram em uma nova fase, mais complexa e lenta, de escavações e uso de maquinário, e menos sobrevoos de varredura. [Leia mais. Tudo sobre a tragédia que o governo federal, o governo de Minas Gerais e a imprensa escondem. Reportagem de Heloísa Mendonça para El País, Espanha]

31
Jan19

De testes de DNA à convocação de policiais aposentados, magnitude da tragédia pressiona Brumadinho

Talis Andrade

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Vista aérea do Cemitério Parque das Rosas, em Brumadinho. DOUGLAS MAGNO

 

Quanto mais os corpos permanecem na lama, mais difícil é a identificação das vítimas.

Polícia Civil terá base para recolher material para exames de DNA e da arcada dentária

Desesperada em busca de notícias do irmão, Vanessa da Cruz foi na manhã desta terça-feira ao Instituto Médico Legal (IML) de Belo Horizonte. Desde sexta-feira ela não sabe nada de Adriano Wagner da Cruz de Oliveira, que trabalha como mecânico de uma empresa terceirizada na Mina Córrego do Feijão, em Brumadinho, onde a barragem da mineradora Vale rompeu espalhando lama e morte a apenas 60 km da capital mineira. “Estamos agoniados, com as mãos atadas. Mas vim hoje porque quero que isso acabe logo, já são cinco dias que estamos na espera, no desespero”, disse na frente do IML, para onde os corpos das vítimas da tragédia estão sendo encaminhados –84 mortes foram confirmadas e, segundo o balanço mais recente, ainda há 276 desaparecidos. Vanessa foi ao IML para pedir que antecipassem seu exame de DNA para ajudar na identificação de Adriano. “Se essa foi a vontade de Deus, quero que isso acabe da forma certa, quero poder enterrar o meu irmão”, completou com a voz embargada.

O drama das famílias só cresce enquanto também aumenta a pressão nos serviços públicos obrigados a atender uma tragédia dessa magnitude. Brumadinho vive uma corrida contra o tempo. Cada segundo importa não apenas para se localizar sobreviventes, mas também para se identificar as vítimas. "A Polícia Civil empreende esforços para a identificação de todas as vítimas. Mas com o passar do tempo, alguns [fatores] dificultadores vão surgir", afirmou o delegado Luiz Carlos Ferreira, em uma entrevista coletiva na tarde de segunda, 28 de janeiro. Ele aponta, por exemplo, que quanto maior a demora, mais difícil é manter as impressões digitais, que foram utilizadas até agora para identificar os corpos das pessoas que morreram. A partir da próxima quarta, um posto de atendimento será montado para que os parentes de desaparecidospossam fornecer dados como material para a comparação de DNA e radiografias e relatórios odontológicos para possibilitar a identificação de vítimas pela arcada dentária.

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O número elevado de vítimas do rompimento da barragem da mineradora Valetambém impõe desafios estruturais para o trabalho de identificação dos corpos.Como o número de mortos e desaparecidos passam de 300, foi necessário um reforço de conteiners frigoríficos para manter os corpos no IML de Belo Horizonte. Uma força tarefa foi montada no local, com o cadastro de policiais aposentados que estão se voluntariando para auxiliar os que estão na ativa. Na manhã desta terça, quatro peritos de Brasília chegaram ao Instituto Médico Legal para auxiliar os 88 profissionais que atuam na identificação e liberação dos corpos das vítimas do desastre.

A Polícia Militar também suspendeu todas as atividades de sua academia de polícia para reforçar o policiamento em Brumadinho, onde há boatos de saques em casas que foram esvaziadas após o rompimento da barragem. A polícia diz que nenhum caso foi registrado oficialmente, mas afirma que o patrulhamento na área rural foi ampliado e uma base comunitária extra foi montada para o registro de ocorrências. O município de cerca de 40.000 moradores tem 250 policiais destacados no momento, além de um patrulhamento constante feito por helicópteros.

A disputa contra o tempo também aumenta a ansiedade das famílias, que se mantêm em compasso de espera. Qualquer mínimo sinal é capaz de trazer expectativas que se frustram logo depois. No fim da tarde de segunda, um forte choro de um grupo de familiares de uma desaparecida tomou conta da Estação de Conhecimento, o local em que os parentes das vítimas do rompimento da barragem da Vale, em Brumadinho, estão recebendo assistência e passam o dia aguardando notícias dos resgates. Desta vez, as lágrimas eram de alegria, já que os parentes de Nathália de Oliveira Porto de Araújo diziam ter conseguido a localização do celular da estagiária de administração e isso os fazia acreditar que ela estava viva. A família gritava de emoção e agradecia a Deus. A boa notícia acendeu a esperança das dezenas de familiares de outros desaparecidos que estavam no local. Minutos depois, no entanto, os familiares foram informados que ela não tinha sido encontrada.

Quem se agarra à esperança também é a mãe do mecânico Adriano Wagner da Cruz de Oliveira. Vanessa da Cruz, no IML de BH nesta terça, explica que a mãe viajou para Brumadinho logo que soube do rompimento da barragem da Vale e continua no local para ter mais informações do filho. Ela também acredita, segundo Vanessa, que uma boa notícia pode chegar. Morador de Nova Lima, na Grande BH, Adriano tem uma filha de 16 anos que está grávida e em choque com o desaparecimento do pai. Vanessa relembrava como estava o irmão na última vez que o viu: barba longa, brinco... Tentava pensar em algo diferente que pudesse ajudar os médicos a identificá-lo. Remexer nas lembranças aumentava sua dor. “Até agora não consigo acreditar no que está acontecendo”, lamentava.

A nova rotina de tristeza e ansiedade é também marcada por informações desencontradas, além de  falsas informações sobre localizações de pessoas que chegaram até o Corpo de Bombeiros. Segundo o porta-voz da corporação, Pedro Aihara, pelo menos três boatos circularam em Brumadinho. “Fomos muito prejudicados no dia de hoje com veiculação de informações falsas. Tivemos notícias que algumas pessoas estariam perdidas em áreas de mata, inclusive com pessoas passando coordenadas. Deslocamos equipes para os locais, mas nada foi constatado”, disse. Aihara explicou ainda que muitas vezes os celulares dos desaparecidos continuam em funcionamento e podem emitir sinal mesmo não estando com a pessoa. “Às vezes, um parente ligou para a pessoa e o celular pode ter chamado, mas não significa que ela esteja viva”, explicou.

 

 

12
Jun18

Metade dos assassinatos no campo em 2017 foram chacinas

Talis Andrade

71 pessoas foram mortas em conflitos políticos no campo

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por Rute Pina

 

Segundo relatório da Comissão Pastoral da Terra, 71 pessoas foram mortas em conflitos políticos no campo brasileiro. Diz a coordenadora da Pastoral: “Essa movimentação do capital a partir de 2008 para a questão da terra tem influenciado muito a violência. E, nos últimos três anos, em que tivemos o processo de impeachment e com o governo ilegítimo de Temer que assumiu, houve uma autorização para que os próprios fazendeiros e o agronegócio, eles mesmos, possam fazer uma contra-reforma agrária.”

 

A Comissão Pastoral da Terra (CPT) lançou, nesta segunda-feira (4), a 33ª edição do relatório anual Conflitos no Campo Brasil, documento que apresenta balanço dos assassinatos ocorridos em decorrência de disputas políticas no Brasil rural.


De acordo com o relatório, das 71 mortes registradas em 2017, 31 ocorreram em massacres; ou seja, 44% das vítimas de conflitos políticos no campo foram assassinadas em chacinas no ano passado.

 

Foram cinco os massacres decorrentes de conflitos por terra, água ou trabalho no campo. Dois deles, em Colniza (MT) e Pau D’Arco (PA), só não superaram o número de mortos do Massacre de Eldorado dos Carajás, que vitimou pelo menos 19 trabalhadores sem-terra em 1996.


Desde 1988 a pastoral não registrava, em um único ano, mais de dois massacres — caracterizados, pela metodologia do relatório, como assassinato de três ou mais pessoas em um conflito no mesmo dia.

 

A CPT pondera que não contabilizou o assassinato de pelo menos dez indígenas no Vale do Javari, no Amazonas, entre julho e agosto de 2017. Embora haja indícios de que as mortes se trataram de ainda mais um massacre, nem o Ministério Público Federal do Amazonas, nem a Fundação Nacional do Índio (Funai) confirmaram a motivação das mortes.

 

Aumento da violência

De acordo com o relatório, o número de conflitos no campo teve uma pequena redução de 6,8% no ano passado, caindo de 1.536 ocorrências em 2016 para 1.431, em 2017.

 

No entanto, as vítimas aumentaram. O registro de mortos em decorrência desses conflitos cresceu 16,4% em relação ao ano anterior, de 61 pessoas assassinadas em 2016 para 71 em 2017. Foi a maior progressão de crimes políticos no campo desde 2003.

 

Em relação a 2014, ano em que foram registradas 36 vítimas, os assassinatos praticamente dobraram no ano passado. Isolete Wichinieski, coordenadora da pastoral, atribuiu o aumento da violência ao contexto político e econômico do país.

 

“Essa movimentação do capital a partir de 2008 para a questão da terra tem influenciado muito a violência. E, nos últimos três anos, em que tivemos o processo de impeachment e com o governo ilegítimo de Temer que assumiu, houve uma autorização para que os próprios fazendeiros e o agronegócio, eles mesmos, possam fazer uma contra-reforma agrária”, analisou.

 

Desde que começou o monitoramento da CPT, os assassinatos em decorrência de conflitos no campo se concentram nos estados da Amazônia Legal.

 

Pará e Rondônia, que registraram 22 e 17 mortes respectivamente, lideram a lista dos locais mais violentos. Juntos, os estados são responsáveis por mais da metade dos assassinatos, quase 55% do total. Em terceiro lugar, está o estado da Bahia, com dez mortos.

 

As tentativas de assassinatos também aumentaram em 2017, passando de 74 para 120 ocorrências – ou seja, uma tentativa a cada três dias.

 

Conflitos pela água

 

Outro destaque do levantamento da CPT é o registro de 197 conflitos por água. Este é o maior número desde 2002, quando a pastoral passou a contabilizar separadamente estes casos. Em relação a 2016, os conflitos por recursos hídricos cresceram 14,5%. Entre 2005 a 2014, a média anual foi de 73 ocorrências.

 

“Esses conflitos, principalmente no ano de 2017, estão concentrados na área de mineração. Dos 197, 124 foram pela atuação das mineradoras. Tivemos, inclusive, um caso de morte. Também é um processo da mercadorização da água e do próprio aumento das commodities, que exigem expropriação dessas áreas”, explicou a coordenadora da CPT.

 

No Pará, por exemplo, as comunidades do município de Barcarena denunciam os impactos ambientais causados pela Hydro Alunorte. A mineradora explora bauxita para a produção de alumínio na região.
O alto consumo de água para irrigação de monoculturas também é uma das causas do aumento destes confrontos, lembra Wichinieski.

 

“Outro problema na questão das águas continua sendo as hidrelétricas. E, um número menor, 26 conflitos, estão em áreas dominadas por fazendeiros, que é a expropriação das águas para a grandes produções de monoculturas, principalmente a questão da irrigação. Isso acaba tirando ou reduzindo o acesso à água para as comunidades tradicionais”, explicou Isolete.

 

Minas Gerais concentrou o maior número de embates pela água, com 72 ocorrências. Em segundo lugar, a Bahia registrou 54 ocorrências. O estado foi palco, inclusive, de uma revolta popular causada por um conflito hídrico. Em novembro do ano passado, aproximadamente 600 pessoas entraram em duas fazendas que consumiam grande volume das águas do rio Arrojado, em Correntina (BA), para o agronegócio.

 

A íntegra do relatório anual Conflitos no Campo Brasil está disponível no site da CPT.
Edição: Diego Sartorato

20
Jan18

Francisco critica corrupção e discriminação de populações indígenas e atividades que destroem a Amazônia

Talis Andrade

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Lima, 19 jan 2018 (Ecclesia) – O Papa Francisco alertou hoje na capital do Peru para as atividades que destroem a Amazónia, condenando a corrupção e a discriminação de populações indígenas, num discurso a autoridades políticas e diplomáticas.


“As atividades informais de mineração tornaram-se um perigo que destrói a vida das pessoas; as florestas e os rios são devastados com toda a sua riqueza. Todo este processo de degradação envolve e favorece a organizações fora das estruturas legais, que degradam tantos dos nossos irmãos e irmãs, submetendo-os ao tráfico de seres humanos – nova forma de escravatura –, ao trabalho irregular, à delinquência”, denunciou, no Palácio do Governo de Lima.

 

“A perda de florestas e bosques implica não só o desaparecimento de espécies, que poderiam inclusive significar no futuro recursos extremamente importantes, mas também uma perda de relações vitais que acabam por alterar todo o ecossistema”, precisou.


À imagem do que escreveu na sua encíclica ‘Laudato si’, Francisco propôs uma ecologia integral como “alternativa” a um modelo de progresso “ultrapassado”, que “continua a produzir degradação humana, social e ambiental”.


Isto exige escutar, reconhecer e respeitar as pessoas e os povos locais como válidos interlocutores.

 

Estes mantêm uma ligação direta com o território, conhecem os seus tempos e processos e, por conseguinte, sabem os efeitos catastróficos que, em nome do progresso, estão a provocar muitas iniciativas”, defendeu.


O Papa aludiu à sabedoria ancestral dos povos da Amazónia, “a maior floresta tropical e o sistema fluvial mais extenso do planeta”, e a valores como “a hospitalidade, a estima do outro, o respeito e a gratidão pela mãe-terra e a criatividade”, bem como a responsabilidade comunitária.


Francisco ligou a degradação do meio ambiente à degradação moral, em particular à corrupção, desejando uma cultura da transparência entre entidades públicas, setor privado e sociedade civil”.


“A corrupção é evitável e exige o compromisso de todos”, incluindo as instituições eclesiais, sublinhou.

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