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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

19
Jul20

Jornalista apenas reportou fatos

Talis Andrade

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Procurador do MPF denuncia novo reitor e chefe de gabinete da UFSC por não coibirem manifestação contrária aos abusos de poder, publica jornalistas livres

IV - Delegada Erika Marena perde em mais uma ação contra o BLOG de Marcelo Auler

por Marcelo Auler

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Ao analisar a possibilidade do crime de injúria, Fernandes Luciano se mostrou convencido de que na reportagem publicada na Carta Capital, ainda que houvesse tom pejorativo, o jornalista não cometeu crime. Até porque os fatos narrados eram oficiais, por constarem em inquérito policial, jamais contestado pela delegada e seus defensores:

“Levando em consideração essas premissas, verifico que a redação apresentada na Revista Carta Capital sob o título “As marcas da Lava Jato” foi elaborada em tom pejorativo em relação a Delegada ERIKA MIALIK MARENA. Isso, por si só, não significa que o querelado tenha praticado algum ilícito, porque é necessário averiguar em que medida consistiria esse tom pejorativo”.

Adiante, a sentença explicou que a defesa do editor do BLOG não deixou de apresentar provas concretas do que foi narrado na reportagem:

“No presente caso, o querelado reportou que a querelante vazava informações sigilosas, porém, justiça seja feita, em nenhum momento a Defesa baseou seus argumentos simplesmente no direito à liberdade de informar. A Defesa asseverou que quando o querelado elaborou a reportagem, apenas quis se reportar a fatos de que tinha conhecimento. Justamente por isso teria constado na reportagem que “Segundo um colega, ela costuma compartilhar com jornalistas as “operações de vulto, que abranjam pessoas relevantes política e economicamente, inclusive, por meio de vazamento“. A Defesa também argumentou que o querelado “por ter consciência do seu compromisso enquanto jornalista, função que exerce com abnegação e responsabilidade, Marcelo Auler não faz da garantia do sigilo da fonte prevista no art. 5º, XIV, da CRFB, um escudo para excessos. Longe disso” (Evento 104 – OUT41 – fl. 17).

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O juiz considerou o espaço de tempo decorrido entre a data do depoimento prestado em Inquérito Policial pelo delegado Paulo Renato Herrera e a publicação da reportagem. Com isso, mostrou haver nexo de que a fonte de informação do BLOG – que na reportagem não nomeou o delegado, uma vez que ele estava sob pressão psicológica – foi o Inquérito em questão.

Uma das reclamações da defesa da delegada é que o IPL 737/2015 estava sob segredo de justiça, mas isso sequer foi levado em conta pelo juiz, até porque jornalistas não são obrigados a respeitar tais segredos judiciais. Na decisão, o juiz fez constar a prova documental do que foi afirmado e contrariou a delegada:

“É digno de nota mencionar que a reportagem “As marcas da Lava Jato” foi publicada no dia 17 de fevereiro de 2016 (Evento 14 – OUT4) enquanto que o depoimento do Delegado Paulo Renato de Souza Herrera foi no dia 30 de novembro de 2015 (Evento 105 – OUT46). Com isso, há plausibilidade em se entender que o depoimento do Delegado realmente foi a fonte de informação da reportagem, e não que o jornalista tenha lançado palavras à própria sorte e depois tenha se socorrido de algo que lhe desse respaldo. Outro ponto digno de registro é que as declarações do Delegado Paulo Renato de Souza Herrera não foram frases jogadas ao vento. Essas afirmações partiram, conforme declarado, de conhecimento próprio e foram registradas em um Inquérito Policial.”

Respaldado em entendimento já firmado em diversos julgamentos do Supremo Tribunal Federal, o juiz deixou claro o direito de o jornalista emitir opiniões críticas em cima de fatos reportados com base em documentos oficiai. Tal como o inquérito, do qual o depoimento do delegado Herrera foi extraído, ainda que esta informação tenha chegado ao jornalista à revelia do delegado que a deu na polícia.

Para o juiz, o jornalista não pode ser responsabilizado pela veracidade da informação prestada pelo delegado no inquérito:

“Se o conteúdo da fonte de informação é correto ou não, não vejo como responsabilizar o jornalista que apenas reporta o fato, salvo se previamente sabia da falsidade da informação. Contudo, pressupor que o jornalista sabia que as declarações de Paulo Renato de Souza Herrera são verdadeiras ou falsas não passam de meras conjecturas, sem qualquer respaldo indiciário nos autos. Diante da seriedade do ato (depoimento no Inquérito Policial), não se pode exigir que o jornalista não reporte a informação se ele próprio entende conveniente divulgar.

É perceptível também que a reportagem seguiu a linha do que foi declarado pelo colega da querelante. A partir das informações obtidas, o jornalista emitiu opinião no trecho em que afirma “Quem aparentemente a adota de corpo e alma é a delegada Érika Malik Marena (…)”. Emitir juízo de valor diante de um fato que se tem conhecimento é consequência da carga axiológica que pode ser extraída desse mesmo fato” (g.o.).

Adiante ele registrou a inexistência do dolo de injuriar a delegada:

“Com efeito, agora com base na posse da fonte de informações do querelado, verifica-se que o livre exercício do jornalismo foi realizado sem a intenção de injuriar a querelante. A Defesa asseverou que “Em sua reportagem evidencia-se a preocupação meramente narrativa, inclusive respaldando a informação divulgada, o que se revela ao mencionar que “um colega” da delegada de Polícia Federal Érika Mialik Marena teria revelado tais fatos (…)” (Evento 104 – OUT41 – fl. 21).

Pelo fato de a fonte de informação ter sido prévia à reportagem, significa que os fatos retratados pelo jornalista não foram lançados sem ter um prévio conhecimento do assunto, fundado em uma fonte que não era ele próprio.”

Nessa linha de entendimento, o juiz não viu motivos de prosseguir a ação e ingressar na chamada fase de instrução na qual seriam ouvidas as testemunhas. Para ele, as provas documentais foram mais do que suficientes à absolvição do jornalista que, segundo disse, “exerceu o seu direito de expressão dentro da ampla liberdade que possui de reportar fatos que tem conhecimento”. Ele registrou ao final da sentença:

“A absolvição nesta fase processual se mostra imperativa, pois, da leitura da reportagem, com a fonte de informação apresentada, há claro exercício do direito de informar. Contudo, há mais alguns pontos dignos a se mencionar, caso se entenda que o encerramento do processo esteja sendo feito precocemente.

A parte querelante, quando instada a se manifestar, não tocou em uma vírgula sobre as declarações de Paulo Renato de Souza Herrera. Longe disso, a parte querelante não arrolou sequer uma pessoa para testemunhar, diferentemente da parte querelada.

Conforme dito alhures, se a fonte de informação é correta ou não, não vejo como responsabilizar o jornalista que apenas reporta o fato. Assim, ainda que a querelante pretendesse demonstrar que o referido Delegado teria faltado com a verdade, os reflexos pretendidos nesta ação penal seriam irrelevantes para impor um decreto condenatório ao querelado.

Evidentemente que uma situação foi o recebimento da denúncia, diante da reportagem apresentada; situação distinta é a leitura dessa mesma reportagem, com as explicações da Defesa e a juntada da fonte das informações.

Frise-se que a absolvição de MARCELO JOSÉ CRUZ AULER não significa endossar uma linha sequer de que a Delegada da Polícia Federal ÉRIKA MIALIK MARENA vazava informações sigilosas. Tratou-se apenas de averiguar se o querelado exerceu o seu direito de expressão dentro da ampla liberdade que possui de reportar fatos que tem conhecimento”. (Continua)

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Nos dias de terrorismo policial e assédio judicial da Liga da Justiça da Lava Jato, Gazeta do Povo publicou a foto acima com a seguinte legenda: "Agentes públicos que praticaram abuso de poder contra a UFSC e que levou ao suicídio do reitor” dizia cartaz que estampava fotos da delegada Erika Marena e da juíza Janaína Cassol em evento na UFSC

17
Jul20

Delegados da Lava Jato perderam contra o Blog de Marcelo Auler

Talis Andrade

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por Marcelo Auler

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Ainda por conta dessa mesma reportagem Novo ministro Eugênio Aragão brigou contra e foi vítima dos vazamentos (16/03/2016) e Carta aberta ao ministro Eugênio Aragão (22/03/2016), na revista Carta Capital, a delegada move uma terceira ação contra o BLOG e a Editora Confiança Ltda. (responsável pela revista).

Em tramitação na 10ª Vara Cível de Curitiba, nesta ação Erika pede uma indenização de R$ 100 mil por supostos danos morais e danos à sua imagem. Nela, novamente os advogados Fratoni Rodrigues e Magalhães Vieira tentaram impor censura judicial ao site da revista, mas o pedido foi rejeitado pela juíza Carolina Fontes Vieira.

A decisão do juiz Fernandes Luciano, da 10ª Vara Federal Criminal do Rio, afirmando que “não restam dúvidas de que o jornalista exerceu o seu direito de reportar aquilo que entendia conveniente, não incidindo em qualquer tipo penal” está sendo anexada ao processo na Vara Cível de Curitiba. A decisão do Tribunal Recursal também já se encontra na mesma ação.

Além das ações da delegada Érika, o editor deste BLOG foi acionado judicialmente por outros dois delegados da Lava Jato de Curitiba. Mauricio Moscardi Grillo, no mesmo mês de maio de 2016, chegou a impor censura a oito matérias aqui editadas através de decisão da juíza Vanessa Bassani, do 12º Juizado Especial Cível de Curitiba. Ela não apenas censurou matérias publicadas, também impedia o BLOG de “divulgar novas matérias em seu blog com o conteúdo capaz de ser interpretado como ofensivo ao reclamante” (o dpf Moscardi). Esta determinação foi interpretada por muitos como censura prévia.

Antes de conseguir esta decisão, Moscardi tinha recorrido a outros dois Juizados Especiais Cíveis com ações idênticas. No Juizado Especial Cível de Santa Felicidade (bairro de Curitiba), ao não obter a censura, desistiu do processo. No 11º Juizado Especial a ação foi rejeitada por ele recorrer a um fórum de um bairro onde não residia. A ação no 12º Juizado, que impôs a censura ao BLOG, foi suspensa quando a juíza percebeu a má fé do autor: Ele apresentou o endereço da Superintendência do DPF em Curitiba, mas apresentou como comprovante a conta de luz da sua residência, em outro bairro. Isto noticiamos em Cai parte da censura ao blog: DPF Moscardi erra e juíza extingue processo e em Para censurar o blog, o delegado Moscardi usou de má fé na Justiça do Paraná.

O terceiro delegado a insurgir-se contra o BLOG foi Eduardo Mauat da Silva. Ele ingressou com ação de indenização por danos morais no Juizado Especial Cível de Santa Cruz do Sul (RS). Foi mais um tiro n’água. Como mostramos em 21 de dezembro passado – Ação de Mauat contra o Blog: tiro no pé com dados revelados – o processo foi rejeitado por o juízo entender serem verdadeiras as informações da reportagem Delegado Eduardo Mauat: foi por ideologia ou pelas diárias?.

Não bastasse sua derrota, ele não teve como impedir o juiz exigir do Departamento de Polícia Federal (DPF) a apresentação dos valores que lhes foram pagos a títulos de diárias enquanto trabalhava na Lava Jato em Curitiba, apesar de ter pedido transferência para o Sul. Eram dados que ele e o DPF evitavam divulgar. Entre 2014 e 2016 foram pagas 521 diárias que lhe renderam um total de R$ 93.489,80. (Continua)

 

 
 
09
Jun20

Um ano depois, Demori conta os bastidores da Vaza Jato

Talis Andrade

As mensagens secretas da Lava JatoEquipe do Intercept Brasil na redação, em 9 de junho de 2019.

Equipe do Intercept Brasil na redação, em 9 de junho de 2019. Foto: Christian Braga para o Intercept Brasil

 

Por Leandro Demori

Intercept Brasil

Um ano atrás eu estava fazendo as malas para uma viagem mais ou menos longa quando meu telefone tocou. Era o Glenn. Fazia algum tempo que não conversávamos – ele não trabalha fisicamente no site e não temos a convivência comum das redações. “Você está sentado?”, ele me perguntou.

Sentei, e, em poucos minutos, Glenn me contou o motivo da ligação: ele havia recebido um material explosivo de interesse público evidente. Foi a primeira vez que eu soube do conjunto de conversas no Telegram que mais tarde nós batizaríamos de Vaza Jato. Desliguei e imediatamente acionei nossos editores Alexandre de Santi e Rafael Moro Martins para que começassem a analisar o material. Nossa primeira preocupação era checar a autenticidade do arquivo. Não demorou muito para entendermos que as mensagens trocadas pelos procuradores da Lava Jato e pelo ex-juiz e ex-ministro Sergio Moro eram autênticas – e uma bomba na República.

Semanas depois, mais exatamente no dia 9 de junho, publicamos as três primeiras reportagens, traduzidas assim no editorial que assinamos naquele mesmo dia:

“As reportagens de hoje mostram, entre outros elementos, que os procuradores da Lava Jato falavam abertamente sobre seu desejo de impedir a vitória eleitoral do PT e tomaram atitudes para atingir esse objetivo; e que o juiz Sergio Moro colaborou de forma secreta e antiética com os procuradores da operação para ajudar a montar a acusação contra Lula. Tudo isso apesar das sérias dúvidas internas sobre as provas que fundamentaram essas acusações e enquanto o juiz continuava a fingir ser o árbitro neutro neste jogo.”

A Vaza Jato faz um ano hoje. Foram quase 100 reportagens publicadas – um dos casos jornalísticos mais extensos da história, e isso não é exagero. Parte dos nossos leitores nos pergunta com alguma frequência quais foram os efeitos da série de reportagens. É uma pergunta legítima. Afinal de contas, jornalismo só serve para alguma coisa se tem impacto real na sociedade. Mas, fora a visível e naturalmente midiática soltura do ex-presidente Lula, quais foram os impactos da Vaza Jato?

A mudança sobre a prisão em segunda instância, que acabou por soltar Lula, não foi o único movimento do STF pós-Vaza Jato. Teve também o entendimento de que réus delatados precisam falar por último nos processos. Antes, o réu delatado fazia suas alegações finais ao mesmo tempo que o delator – o princípio da ampla defesa determina que o acusado sempre fale sempre por último no processo. Foi uma aberração que perdurou por muito tempo graças à guerra santa de Moro e seus comandados, que pressionavam o Supremo a condenar pessoas na base do custe o que custar. Graças à Vaza Jato, agora o acusado deve ser o último a fazer sua defesa, depois de todos os delatores. Parece elementar, não? Pois é, mas precisou que o jornalismo mostrasse o caminho.

Quando chegou ao governo, Sergio Moro era o homem mais popular de Brasília. Seu “projeto anticrime”, ninguém duvidava, seria aprovado pelo Congresso com um pé nas costas. E o que tinha naquele projeto? Um mecanismo chamado “excludente de ilicitude”, que basicamente autorizava que as forças de ordem cometessem crimes e que não fossem punidas caso estivessem sob “escusável medo, surpresa ou violenta emoção”. Uma licença para matar em forma de lei. Com as revelações do Intercept e de nossos parceiros, a imagem de Moro e da Lava Jato sofreu abalos inéditos, e deputados puderam alterar o projeto com apoio público. O excludente de ilicitude caiu.

Outra briga comprada pelo ex-ministro de Bolsonaro e pelos procuradores foi o combate à Lei de Abuso de Autoridade. Uma lei que diz, basicamente, que quem abusa de sua autoridade precisa ser punido. Quem era contra ela? Quem provavelmente acha que autoridades podem fazer o que quiserem, ao arrepio da lei. Moro & cia fizeram campanha pública contra o mecanismo e perderam: ela foi aprovada e começou a valer este ano.

Aconteceu o mesmo na disputa sobre o juiz de garantias, uma figura que busca dar mais imparcialidade ao sistema. Ele evitaria, por exemplo, que Moro, depois de ter feito parceria com a acusação, julgasse os casos que ele próprio ajudara a construir. O ex-juiz foi contra, claro. E perdeu mais uma. O juiz de garantias foi criado em dezembro do ano passado, mas sua aplicação está suspensa por uma liminar do juiz do STF Luiz Fux (nele they trust, vocês sabem).

Quando participei de uma reunião com 40 advogados que ofereceram solidariedade ao nosso trabalho, ouvi de muitos deles que a Lava Jato estava destruindo o direito de defesa no Brasil e que nosso jornalismo aparecia como uma luz brilhante no fim de um túnel que antes parecia não ter fim. Os impactos da Vaza Jato, alguns me disseram, seriam mais profundos do que nós mesmos havíamos imaginado. Naquele momento, nenhuma das mudanças que acabei de elencar acima tinha acontecido. Quando as pessoas me paravam em locais públicos para comentar sobre o Intercept, muita gente perguntava quando Moro iria cair, quando Deltan seria afastado, quando Lula seria solto. Eu não tinha essas respostas. O público se acostumou a encarar esse tipo de coisa como o único impacto possível do jornalismo. Hoje, percebemos que a influência do nosso trabalho foi muito além de derrubar um ministro – que, desgastado, caiu de todo modo.

No editorial que publicamos junto às três primeiras reportagens da série, escrevemos no parágrafo final: 

“Tendo em vista o imenso poder dos envolvidos e o grau de sigilo com que eles operam – até agora –, a transparência é crucial para que o Brasil tenha um entendimento claro do que eles realmente fizeram. A liberdade de imprensa existe para jogar luz sobre aquilo que as figuras mais poderosas de nossa sociedade fazem às sombras”.

Relendo hoje aquele texto, recitei em voz alta a última frase: “A liberdade de imprensa existe para jogar luz sobre aquilo que as figuras mais poderosas de nossa sociedade fazem às sombras”. Cada vez mais.

PS: o 9 de junho de 2019 foi um dia intenso para nós. Confira fotos inéditas dos bastidores daquele dia.

 

13
Fev20

Insulto misógino contra jornalista reafirma relevância de reportagem

Talis Andrade

Desde o início de seu mandato, o próprio Bolsonaro coleciona ataques à imprensa, na maioria das vezes contra mulheres jornalistas

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por Maria Carolina Trevisan

Na falta de elementos para contestar reportagem da “Folha de S.Paulo” sobre envio em massa de notícias falsas na campanha eleitoral de 2018, Hans River do Rio Nascimento mentiu e usou de artifícios sórdidos para destruir a credibilidade da jornalista Patrícia Campos Mello, uma das melhores e mais premiadas repórteres investigativas do país. A situação fica ainda mais grave quando a insinuação é reverberada por deputados como Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), Carlos Jordy (PSL-RJ) e Filipe Barros (PSL-PR). Ao insultar a repórter em sua condição de mulher – como se seu corpo fosse objeto de troca –, Hans e os deputados ratificam a relevância da reportagem. E mostram que, contra fake news, a melhor arma é o jornalismo de qualidade.

Desde o início de seu depoimento na CPMI das Fake News na Câmara dos Deputados nesta terça (11), o músico Hans River do Rio Nascimento demonstrou desgosto por ter se envolvido na reportagem. Teve uma postura displicente e respondeu de maneira imprecisa às perguntas formuladas pelos deputados. Não soube informar, por exemplo, o nome do diretor da empresa onde trabalhou, seu chefe direto, segundo ele. Tampouco conseguiu dizer a quantidade de mensagens enviadas, o que era parte de seu trabalho. “Era produto grande, não era qualquer coisinha, não.” Focou-se em tentar mostrar que foi explorado pela empresa Yacows, o que não era objeto da comissão.

Hans pareceu estar ali para se vingar. “A ‘Folha de S.Paulo’ acabou com meu nome. O prejuízo que essa jornalista me deu é um absurdo”, afirmou. Disse que não conseguiu mais emprego depois que a reportagem foi publicada e que não consegue pagar pela insulina que precisa. Culpou o jornal e a jornalista por uma situação criada pela empresa que o contratou – e que foi aceita por ele. Demonstrou e verbalizou estar “irritado”.

Foi aí que apelou. “Vou deixar mais claro, mas muito mais claro: ela queria sair comigo, eu não dei interesse para ela. Ela parou na porta da minha casa e se insinuou para entrar na minha casa com propósito de pegar a matéria, ela se insinuou para entrar, eu disse que não poderia entrar na minha casa, ela queria ver o meu computador. Não era parte do meu interesse a pessoa querer determinado tipo de matéria a troco de sexo, que não era a minha intenção.”

Pesa também contra Hans uma acusação de ameaça de morte da mãe de sua filha, que afirma que ele já quis “estrangulá-la”. A reportagem teve acesso ao Boletim de Ocorrência. Ele alega que a acusação seria inverdade e fruto de ciúme por ele ter uma nova companheira.

O cenário misógino estava colocado desde o início da sessão. A relatora da comissão, deputada Lídice da Mata (PSB-BA), advertiu colegas parlamentares para que parassem de dizer que ela estava “nervosa”, na tentativa de desqualificá-la. “Toda vez que uma mulher fala e que um homem se dirige a ela dizendo que está nervosa, há um componente muito grave”, afirmou. É um comportamento típico do homem machista, como se a mulher fosse histérica ou louca ou estivesse afogada em hormônios e fosse incapaz de se controlar. É abjeto. O que se seguiu após a audiência foi também um show de machismo por parte de parlamentares e seguidores bolsonaristas.

É repugnante que se apele a isso. Mas não chega a ser uma surpresa. Desde o início de seu mandato, o próprio presidente Bolsonaro coleciona ataques à imprensa, na grande maioria das vezes contra mulheres jornalistas. A tentativa de intimidar profissionais da imprensa tem sido uma prática sistemática. Tanto é que entidades em defesa da liberdade de expressão solicitaram à Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA um pedido de audiência temática sobre as violações neses sentido promovidas pelo Estado Brasileiro. A CIDH-OEA acolheu o pedido e a audiência ocorrerá em 6 de março, em Porto Príncipe, no Haiti. É a primeira vez que uma audiência sobre o tema será realizada no âmbito da OEA.

“Os recentes ataques à jornalista Patrícia Campos Mello são mais uma demonstração do grave cenário de ataques sistemáticos à liberdade de expressão que vivemos no país. Além disso, é abominável recorrer ao discurso machista, misógino de forma inescrupulosa como fizeram Eduardo Bolsonaro e o Hans River por ocasião da reunião da CPMI das Fake News”, afirma a jornalista Renata Mielle, coordenadora do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação, uma das instituições que pediram audiência à OEA.

“A falta de respeito com o papel da mulher no exercício de sua profissão, o assédio moral que tenta intimidar as mulheres é algo infelizmente recorrente na nossa atividade como jornalistas e em outras profissões. O que o governo e seus seguidores pretendem com esses ataques é calar as vozes dissonantes, é desqualificar o jornalismo. Desde a posse de Bolsonaro há uma explosão de situações de censura.” O que preocupa é o efeito cascata que dá salvo conduto para que outros políticos e poderes atuem violando a liberdade de expressão e ameaçando repórteres mulheres. A atuação da imprensa livre é um dos pilares que sustenta a democracia, bastante fragilizada neste momento.

O fato de autoridades respaldarem o comportamento desrespeitoso da testemunha faz com que outras pessoas se sintam à vontade para cometer violações contra mulheres e contra jornalistas. “O temor é que isso chancele a liberdade de atuação de repórteres mulheres, o risco aumenta”, alerta Maiá Menezes, conselheira fiscal da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji). Se, ao contrário, parlamentares condenassem esse tipo de atitude, não seria tão fácil cometer agressões dessa natureza.

“A verdade factual não conforta, mas desafia. Os fatos não são amigos. Não são acolhedores. Não são espelho. Os fatos são da ordem do que diferem, do que dissente e, por isso mesmo, cumprem o pape de servir como contrapeso da intolerância. Os fios demandam diálogo entre subjetividades que se hostilizam. Tecem a dimensão vital da política: a dimensão do diálogo”, escreveu Eugênio Bucci em “Existe democracia sem verdade factual?”, editora Estação das Letras.

O fato é que as mulheres são maioria nas redações, assim como somos maioria na sociedade. Não deixaremos de dar furo, de buscar a melhor reportagem, com ética e responsabilidade. Contra tudo isso, oferecemos o melhor jornalismo.

 

 

 

25
Jan20

Para presidenta da FENAJ, sociedade brasileira não percebeu a gravidade de um governo atentar contra a liberdade de expressão

Talis Andrade

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por RFI

Rádio França Internacional

 

O Ministério Público Federal (MPF) de Brasília apresentou na terça-feira (21) uma denúncia contra o jornalista Glenn Greenwald sobre a acusação de participação no hackeamento de dados que estão na origem da série de reportagens do site Intercept Brasil sobre a atuação dos procuradores e juízes na Operação Lava Jato. Para repercutir esta denúncia, a RFI entrevistou a presidenta da Federação Nacional dos Jornalistas, Maria José Braga.

Maria José aponta a controvérsia deste episódio: “Para a nossa surpresa, um procurador da República, que já tem uma atuação bastante criticada em relação principalmente ao ex-presidente Lula denuncia o jornalista à Justiça, pedindo o indiciamento dele por crime de associação criminosa e interceptação telefônica”.

Além disso, a jornalista avalia que houve desrespeito à investigação prévia da Polícia Federal – que já havia concluído não haver arbitrariedades da parte do jornalista Greenwald – e da Constituição neste caso.

“No nosso entendimento, o MPF desconheceu o trabalho da Policia Federal, desconheceu ou desrespeitou a decisão do STF, que em 2019 já havia determinado que o jornalista não fosse investigado, baseado no princípio constitucional do sigilo da fonte, e o MPF desrespeitou também a Constituição brasileira, que é bastante clara na expressão da liberdade de imprensa”, afirma.

Impacto no trabalho dos jornalistas investigativos 

Sobre o impacto desta denúncia do MPF contra o jornalista, a presidenta da FENAJ pede que os colegas não se intimidem.  “A gente espera que veículos e profissionais de comunicação - e principalmente o jornalista Glenn Greenwald e o site Intercept Brasil - não se deixem intimidar”.

“É claramente uma tentativa de intimidação, uma tentativa de cerceamento ao trabalho do jornalista e o que nós, profissionais, temos de fazer é não nos deixar impactar por esta e outras acusações que estão, infelizmente, sendo frequentes no Brasil para impedir o livre exercício do jornalismo”, acrescenta.

Sobre a declaração do presidente Jair Bolsonaro, que comentou que Greenwald poderia passar um tempo na prisão, e sua recusa a dar entrevistas para jornalistas, na manhã desta quarta-feira (22), Maria José adverte que isso é uma ameaça à liberdade de imprensa.

“Em relação à frase dele sobre o Glenn Greenwald, nós da Fenaj já denunciamos lá atras que o presidente da República, ao dar esta declaração, estava ameaçando o jornalista, já que o presidente tem o controle do Ministério da Justiça e Segurança, que tem o controle da Polícia Federal. Houve claramente uma ameaça, uma tentativa de intimidação. Esta, infelizmente, tem sido uma atitude frequente do presidente da República”, lamenta.

Ameaça à democracia

A jornalista à frente da entidade de classe afirma que o presidente não cumpre com a obrigação da transparência de um cargo público e ainda descredibiliza a imprensa.

“Nós dissemos publicamente na semana passada, quando apresentamos um relatório sobre a violência contra jornalistas no Brasil, que o presidente tem sistematicamente dado declarações para descredibilizar a imprensa. E hoje, na sua passagem matinal pela porta do Alvorada, ele se recusou a dar entrevistas e de alguma forma tentou culpabilizar a Fenaj por sua atitude, dizendo que a Federação o havia criticado ao afirmar que ele ataca a liberdade de imprensa no Brasil e que por isso ele não ia mais dar entrevista”, aponta.

“Lembramos que cabe a qualquer funcionário público, principalmente às autoridades constituídas, como é o caso do presidente, respeitar os princípios da administração pública brasileira, e entre eles está o da transparência e da publicidade. Um presidente e qualquer outra autoridade pública tem o dever de informar à sociedade sobre os seus atos de governo. O presidente tem o dever, sim, de conceder entrevistas. Agora o que a FENAJ não quer e não admite é que, a pretexto de entrevistas, o presidente ataque profissionais e veículos de comunicação”, adverte.

Para ela, o que está acontecendo no governo é muito sério. “Infelizmente grande parte da sociedade brasileira ainda não percebeu a gravidade que é uma autoridade pública atentar contra a liberdade de expressão. Isso é uma ameaça real à democracia. Mas, felizmente, outra parte considerável da sociedade brasileira já percebeu e está do lado do jornalismo e do jornalista que está sendo atacado. A gente acredita que a liberdade de imprensa vai prevalecer neste caso”.

 

22
Jan20

Por que é inepta e abusiva a denúncia do MPF contra Glenn Greenwald

Talis Andrade

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Por Lenio Luiz Streck, Gilberto Morbach e Horacio Neiva  

ConJur

 

No dia 21 de janeiro, o Ministério Público Federal denunciou, além de outras seis pessoas, o jornalista Glenn Greenwald, por supostos crimes relacionados à interceptação de diálogos privados envolvendo o então juiz Sergio Moro, Deltan Dallagnol e procuradores da Operação Lava Jato. Os diálogos foram divulgados pelo Intercept Brasil, de Greenwald, e os parceiros Folha, Uol e El País, em cobertura que passou a ser conhecida como “Vaza Jato”.

A inclusão do nome do jornalista entre os denunciados tem como base um áudio obtido em cumprimento de autorizadas medidas de busca e apreensão — motivo pelo qual o MPF sustenta não ter sido descumprida a liminar concedida pelo ministro Gilmar Mendes na Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 601, garantindo ao jornalista Glenn Greenwald não ser investigado pela divulgação de informações que preservam o sigilo da fonte.

Por si só, isso já é discutível. A liminar concedida pelo ministro Mendes, lembremos, impedia qualquer ato que tivesse como propósito a responsabilização do jornalista por práticas relacionadas à divulgação dos diálogos interceptados. Do ponto de vista institucional, parece-nos que seria necessário muito mais do que algumas poucas linhas ou letras garrafais para que o Ministério Público afastasse qualquer possibilidade de descumprimento de uma decisão de ministro do Supremo.

De todo modo, analisemos a peça. Segundo a denúncia (fls. 52), assinada pelo procurador Wellington Divino Marques de Oliveira — grifos nossos — “o jornalista GLENN GREENWALD, de forma livre, consciente e voluntária, auxiliou, incentivou e orientou, de maneira direta, o grupo criminoso, DURANTE a prática delitiva, agindo como garantidor do grupo, obtendo vantagem financeira com a conduta aqui descrita”.

Nos termos da denúncia (fls. 55), parte da suposta conduta criminosa de Greenwald seria ter mantido “contato com os agentes infratores”, garantindo que seriam “por ele protegidos”, “indicando ações para dificultar as investigações e reduzir a possibilidade de responsabilização penal”.

O problema é que não se sustenta, sequer minimamente, nenhuma das alegações do procurador, e os próprios diálogos que servem de base à inclusão do jornalista no rol dos denunciados indicam isso. A denúncia é inepta, arbitrária, abusiva. Isso fica bastante claro a partir da leitura dos trechos destacados pelo próprio procurador. Vejamos.

E por que isso seria crime, afinal?

Nesse trecho do diálogo, Glenn Greenwald e Luiz Molição, um dos denunciados, falam sobre notícias de que autoridades públicas teriam sido hackeadas por outros, em episódios sem relação com aqueles sobre os quais a denúncia diz respeito; em meio a isso, o jornalista mostra-se preocupado em deixar claro que as informações por ele recebidas eram anteriores a esse episódio discutido. Não apenas isso é verdade como o diálogo mostra que Greenwald não participou da interceptação das mensagens.

Sigamos.

Aqui, Glenn Greenwald claramente procura preservar o veículo que detém a informação. Novamente, não há sequer indício de algo que pareça apontar a qualquer crime.

Outro dos pontos divulgados, como se vê, acerca do download das mensagens interceptadas, não comprova absolutamente nada — menos ainda com relação ao jornalista. A questão colocada pelo hacker era sobre realizar o download de informações que ainda não haviam sido baixadas.

Nesse sentido, o que mais impressiona é que o próprio procurador admite que Greenwald não deu o alegado incentivo. Que agiu com cautela. O assustador é que, pela sua perspectiva, isso não apenas não comprova que não há crime como reforça sua convicção. O raciocínio do MP aqui contraria os próprios fundamentos.

Em outro ponto supostamente sensível, o jornalista reforça que já salvou as informações encaminhadas e que precisava resguardá-las (afinal, era sua informação). Acrescenta que não vê sentido no hacker mantê-la, justamente para evitar a violação da fonte.

O mais importante, contudo, é que, no trecho citado pelo próprio procurador, Greenwald diz que isso é escolha do hacker. Não há qualquer incentivo, não há qualquer orientação. Há apenas um jornalista preservando sua própria atuação, sua própria fonte.

Veja-se: Greenwald diz expressamente que não pode dar conselhos ao hacker. Isso é destacado pelo próprio procurador que assina a denúncia.

Também são destacados, vimos, os trechos em que o jornalista garante que o Intercept Brasil vai sustentar ter recebido os documentos antes de artigos que colocavam a divulgação em descrédito, porque, vejam só, o veículo de fato recebeu os documentos antes de artigos que colocavam a divulgação em descrédito.

Vejamos a conclusão do procurador:

A conclusão exaure todos os limites do absurdo. O crime de um jornalista é ter “relação próxima” com sua fonte, que teria praticado crime. Perguntamos: como um jornalista vai investigar algo sem ter relação próxima com fontes, mesmo aquelas que praticaram — sem participação do jornalista — algum crime?

Isso tudo é muito grave, e grave justamente porque, do ponto de vista jurídico, a questão é muito simples.

É simples, primeiro, porque a liberdade de imprensa e o sigilo das fontes são garantias constitucionais.

Segundo porque, por razões óbvias, liberdade de imprensa e sigilo de fontenão envolvem apenas um direito que tem o jornalista de não dizer quem é fonte. As garantias constitucionais envolvem os atos necessários para que o jornalista possa efetivamente exercer sua profissão, sob pena de serem reduzidas a meras palavras em um documento sem qualquer pretensão de eficácia. Para que serviriam as garantias de livre exercício da profissão sem a garantia dos meios legítimos para efetivá-la?

Os problemas não param por aí. O áudio já tinha sido analisado pela Polícia Federal, que, em seu relatório final, assim disse: “Pelas evidências obtidas até o momento, não é possível identificar a participação moral e material do jornalista Glenn Greenwald nos crimes investigados”.

Repetimos: o diálogo usado pelo procurador já havia sido analisado, e a conclusão era a de que não houve participação de Greenwald nos crimes investigados. E não só isso: da leitura dos diálogos e dos trechos destacados não é possível derivar nenhuma das alegações contra ele.

O que queria o procurador, afinal? Que um jornalista não divulgasse material de interesse público? Que Glenn Greenwald, no pleno exercício de suas prerrogativas constitucionais, fiscalizasse a conduta de sua fonte?

Em atos institucionais como esse, o Ministério Público revela um profundo desconhecimento acerca da função do jornalismo independente e, pior, degrada aquela que é a sua própria função.

Do ponto de vista jurídico, novamente, tudo isso é muito simples, passível de ser resumido em algumas poucas linhas. Após uma decisão de ministro do Supremo visando a proteger um jornalista no exercício legítimo de suas funções, “impossibilita[ndo] que o Estado utilize medidas coercivas para constranger a atuação profissional e devassar a forma de recepção e transmissão daquilo que é trazido a conhecimento público”, o procurador Wellington Divino Marques de Oliveira afasta a hipótese de descumprimento da decisão em alguma meia dúzia de linhas e denuncia o jornalista com base em diálogos que não apenas nada têm de criminoso como revelam justamente o contrário.

Se uma ação de hackers é criminosa, o jornalismo não pode ser crime em nenhuma democracia que se pretende digna do nome. Glenn Greenwald foi denunciado pelo legítimo exercício de seus direitos amparados por garantias constitucionais. Uma denúncia como essa diz muito mais sobre o caminho adotado pela instituição que a assina do que sobre um jornalista (que o é de fato, sem aspas e com um Pulitzer) que, protegido pela Constituição, busca preservar a própria fonte.

 

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03
Set19

Jornalistas dão vexame e Glenn Greenwald detona Lava Jato no Roda Viva

Talis Andrade

 

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por Ricardo Kotscho

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Os 90 minutos do Roda Viva de segunda-feira, com Glenn Greenwald, editor do The Intercept, vão passar para a história do programa como um dos maiores vexames já promovidos por jornalistas amestrados desde os tempos da ditadura militar.

Foi um jogo de seis inquisidores ferozes, mas despreparados, contra um entrevistado sereno, que manteve a calma o tempo todo e detonou a Lava Jato, defendida pelos repórteres nativos com unhas e dentes afiados.

Parece até que fizeram midia-training com a Polícia Federal de Curitiba, sob a supervisão dos dallagnois do MPF, pois todos seguiram o mesmo script nas perguntas repetitivas, para Greenwald confessar que pagou pelas mensagens hackeadas e cometeu um crime contra a segurança nacional.

Logo no primeiro bloco, o jornalista americano premiado com o Pulitzer derrubou uma a uma as teses, ilações, insinuações e cobranças da moderadora e dos cinco desconhecidos integrantes da bancada.

“A autenticidade desse arquivo não está mais em dúvida. Esse jogo cínico que o Moro e o Dallagnol estavam fazendo no começo acabou. Sabemos que temos o ministro da Justiça e o coordenador da Lava Jato que usavam métodos completamente corruptos, não em casos isolados, mas o tempo todo”, disparou o entrevistado, sem deixar de sorrir diante de cada pergunta encomendada pelas chefias.

Em tom pausado e didático, Greenwald deu uma lição do que é jornalismo com ética, um departamento em que os acusadores da bancada não parecem ter muita familiaridade.

Eles não se conformavam de ouvir o entrevistado repetir reiteradas vezes que Sergio Moro era o chefe de um sistema judiciário corrupto, em que o Jornal Nacional atuava como parceiro da Lava Jato.

Como não comecei ontem na profissão, senti vergonha dos coleguinhas que não sabiam mais o que fazer para pegar o entrevistado na curva, falando ao mesmo tempo, e não conseguindo concluir as perguntas.

Mas não fui só eu. Durante todo o programa, publiquei vários posts no meu Facebook, que tiveram 2.827 acessos/participações (mais de 30 por minuto de programa) e 400 comentários.

 

Todos foram unânimes em criticar a atuação desrespeitosa e inquisitorial dos integrantes da bancada, algo totalmente fora da curva dos propósitos do programa. Não apareceu um único vivente para defendê-los (e eu não deletei nenhum participante).

Já participei dezenas de vezes do Roda Viva, até já perdei a conta de quantas, como perguntador, e nunca vi nada parecido.

O que mais se aproximou do espetáculo de sabujice e agressividade de ontem foi um programa, no ano passado, em que eu não estava, com a então candidata a presidente Manoela D´Ávila, no qual o moderador e os jornalistas convidados partiram para cima dela, por pertencer a um partido, o PC do B, que tem a palavra “comunista” no nome.

Também ali o programa virou um tribunal em que a entrevistada foi julgada e não se falou do que mais interessava aos telespectadores: quem é, o que pensa, quais suas propostas de governo.

Da mesma forma, ninguém perguntou a Greenwald sobre o conteúdo das denúncias feitas pela Vaza Jato, como é conhecido o conjunto de reportagens divulgado pelo Intercept, em parceria com alguns dos principais veículos nacionais.

Curiosamente, nenhum desses veículos estava representado na bancada para dizer se as gravações foram ou não manipuladas.

Greenwald foi tratado como um criminoso, que ousou cumprir seu papel de jornalista e divulgar tudo o que é de interesse público, preservando a sua fonte, um direito assegurado pela Constituição.

Nem o marido de Glenn Greenwald, o deputado federal David Miranda (PSOL-RJ), com quem tem dois filhos pequenos, escapou das acusações baseadas em supostas investigações da Polícia Federal.

Com pegadinhas infantis, tentaram encurralar o entrevistado de todo jeito, até que, no final, introduziram o tema da sua homossexualidade e insinuações de desonestidade, como último recurso, a chave de ouro do programa.

Jornalista não é advogado de defesa nem assistente de acusação, não é juiz nem promotor, mas apenas um profissional que deve fazer perguntas para atender ao interesse público, não aos seus eventuais empregadores.

Repórter tem que fazer suas próprias apurações, checar dados e versões, e não apenas oferecer o prato feito que recebe de autoridades com objetivos político-partidários, como aconteceu durante estes cinco anos de Lava Jato.

Que Greenwald continue fazendo seu trabalho e os jornalistas tenham aprendido alguma coisa sobre os compromissos da nossa profissão para informar a sociedade.

Liberdade de expressão é um direito de todos, não só de quem tem carteirinha de jornalista.

Vida que segue.

 

 
03
Set19

Saída para números em queda de Bolsonaro pode estar em bancada do Roda-Viva

Talis Andrade

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por Denise Assis 

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As manchetes, claro, giram em torno do número principal: 38% avaliam mal o presidente Jair Bolsonaro, reprovando o conjunto de sua “obra”, e tornando-o historicamente o proprietário do pior índice de avaliação na vigência do primeiro mandato, desde a redemocratização do país.  Um aspecto, porém, o difere dos demais. O motivo que o joga ladeira abaixo. Direcionando a lupa para os itens que medem as opiniões sobre o seu comportamento, vê-se que o seu desempenho despenca, apontando para um aspecto que todos já sabiam, mas 57 milhões fizeram questão de ignorar. O seu despreparo para o cargo.

Subiu de 25% para 32% os que o consideram inadequado para a função. Do mesmo modo, dos 22% entusiastas com o seu comportamento, 7% já recolheram as bandeirolas da torcida e 44% dizem não confiar em nada do que o presidente fala. Apenas uma parcela ínfima: 19%, lhe dão crédito e, 88% dos 2.878 entrevistados em 175 cidades, não acharam graça nenhuma em sua escatologia explícita. Há sempre aquela turma de 2% que não têm opinião formada sobre nada. Apenas toca a vida, como se governo fosse algo para ser comentado apenas por repórteres de TV engravatados e não influísse decisivamente em suas vidas.

O ponto a se observar, no entanto, é que Bolsonaro, tal como fez com os números do INPE, que acabaram por torrar a sua popularidade na crise das queimadas amazônicas, prevista pela Instituição que ele teimou em desmentir, o quesito responsável pelos números em queda e com viés de mais queda, só pode ser alterado por ele mesmo. E, mais uma vez, num espetáculo de fuga da realidade, arrogância e prepotência, Bolsonaro, na impossibilidade de sopapear os responsáveis pela publicação dos números, distribui murros contra os números que ele próprio produziu.

Nesta hora, o seu maior sonho era ter em torno de si a bancada de entrevistadores do Glenn Greenwald, do programa da TV Cultura, o “Roda-Viva”, a lhe afagar o ego e defender a sua imagem. (Ainda que no dia seguinte, como de costume, ele pusesse tudo a perder, com alguma frase de efeito dita na jaulinha reservada aos repórteres de plantão no Planalto). Bolsonaro deveria começar a pensar em contratar aquele conjunto de “jornalistas” para compor a sua assessoria. Ele não precisaria cair em si, e mudar suas atitudes. Com eles sua vida – e seu clipping - seriam “só festa”.

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03
Set19

A porta-voz pornográfica

Talis Andrade

 

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por Marcelo Zero

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A turminha desqualificada, com uma honrosa exceção, em vez de questionar sobre as aterradoras revelações da Vaza Jato, não desmentidas por ninguém, dedicou-se, com a empáfia beócia de um procurador “lavajateiro”, a criticar o único jornalista de verdade presente por, pasmem, fazer jornalismo. 

Reproduziram, com fidelidade canina, os argumentos ridículos de Moro e Deltan sobre o “hacker”. Tentaram o tempo todo desqualificar Glenn e torná-lo um criminoso por revelar evidências concretas sobre os crimes da Lava Jato. 

Insinuaram sistematicamente que Glenn e Manuela D´Ávila teriam participado ou sido coniventes com um crime de invasão de privacidade pago por alguém.  Nenhuma palavra, um sussurro sequer, sobre os aberrantes e evidentes crimes de Moro e Deltan, que mudaram, para pior, muito pior, a história recente do Brasil.

Equipararam as divulgações do Intercept com os vazamentos ilegais da Lava Jato, como se Glenn fosse um promotor ou um juiz com o poder de mandar prender alguém ou investigar alguém. 

Tentaram o tempo todo arrancar uma “confissão” de Glenn sobre sua fonte, ignorando um dos princípios mais comezinhos do jornalismo.

Demostrando também total ignorância sobre fatos recentes, insinuaram que a Lava Jato teria deixado um grande legado, e que único legado da Vaza Jato seria o da inviabilização do combate à corrupção no país. 

Ora, o legado da Lava Jato foi eminentemente destrutivo, inclusive no campo econômico. Recuperou, até agora, cerca de US$ 10 bilhões, mas, apenas em 2015, provocou em prejuízo de mais de US$ 140 bilhões. Deu enorme contribuição para destruir a cadeia de petróleo e gás, a construção civil pesada nacional e a engenharia brasileira. No Brasil, o combate à corrupção causa um prejuízo muito maior que a corrupção. Graças à Lava Jato e seus “heróis”. 

Mas o prejuízo maior da Lava Jato, como ficou claro nas divulgações do Intercept, foi à democracia.

Com efeito, a Lava Jato, além de ter sido instrumental no golpe de 2016, na prisão sem provas do presidente Lula e na eleição fraudada que levou Bolsonaro ao poder, atingiu o cerne da democracia brasileira.

Em nome de um combate partidarizado e ideologizado à corrupção, atingiu-se o que a democracia tem de mais sagrado: o devido processo legal, a presunção da inocência e o direito de todo cidadão de ter acesso a uma justiça isenta. 

Esses são princípios democráticos básicos e fundadores, que protegem o indivíduo contra o arbítrio dos agentes do Estado. Por isso, o writ inglês de Habeas Corpus de 1679 é o documento considerado unanimemente como a base da democracia moderna.  

A Lava Jato, contudo, tornou aceitável que o Estado atropele tais direitos básicos, desde que seja para perseguir o inimigo político, na luta contra a “corrupção”. O problema é que esse direito penal do inimigo acaba se tornado um inimigo mortal da democracia. Exemplos históricos abundam. 

A chamada “República de Curitiba” tornou-se um Estado autoritário dentro do Estado democrático. Regia-se por regras próprias, independentemente de quaisquer controles democráticos. Por pouco não conseguiu até orçamento específico, com base em multa ultrajante obtida pela operação nos EUA contra a Petrobras. 

Em todo esse processo destrutivo e antidemocrático, a Lava Jato contou com um grande aliado de peso: a imprensa oligopolizada. De fato, nossa gloriosa imprensa, com raras exceções, recusou-se a fazer o que Glenn e outros do Intercept estão fazendo: jornalismo. Não questionaram nada, não investigaram nada. Limitaram-se a reproduzir, como bem treinados papagaios, todas as informações que Deltan e Moro tinham interesse em divulgar. 

Na realidade, a nossa grande imprensa foi mera porta-voz da Lava Jato e seus “heróis” antidemocráticos. Além do interesse político na inviabilização de governos populares, talvez houvesse também, nesse papel de submissão extrema, o anseio por uma blindagem contra investigações sobre sonegação fiscal e “otras cositas más”.  

Porém, o pretérito perfeito talvez não seja o tempo de verbo adequado. 

A julgar pela patética entrevista do Roda Viva, boa parte da nossa imprensa ainda é mera porta-voz de “lavajateiros” criminosos. 

Porta-voz que tem o desplante de perguntar se Glenn atuou um filme pornográfico.

Pornografia pura. 

02
Set19

O Ministério Público foge de Queiroz

Talis Andrade

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por Ricardo Mezavila

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Fabrício Queiroz não fez como Greta Garbo que acabou no Irajá, como no texto escrito por Fernando Mello que dramatiza uma relação homoerótica conturbada entre um enfermeiro idoso e um jovem desabrigado do interior do Rio de Janeiro. Queiroz acabou no Morumbi, a menos de quinze quilômetros do Departamento da Polícia Federal.

Antes de se tornar marchinha de carnaval, o anônimo operador da família Bolsonaro morava em uma modesta casa no bairro da Taquara, zona oeste do Rio, e quando o escândalo veio à tona se escondeu na favela de Rio das Pedras. As investigações sobre suas movimentações financeiras evoluíram e foram descobertas as rachadinhas e os depósitos na conta de Michelle Bolsonaro, a partir de então Queiroz elevou seu padrão financeiro, fez tratamento no Hospital Albert Einstein e mora de aluguel no bairro do Morumbi.

Alguns dias se passaram desde a descoberta do paradeiro do ex-assessor do senador Flávio Bolsonaro e responsável pela conexão entre o governo e as milícias do Rio de Janeiro. As autoridades nada fizeram, como se estivessem zelando por sua segurança e, principalmente, pelo seu silêncio.

Será que erramos todos quando dizíamos que o Queiroz estava fugindo da justiça? Será que não é a justiça que está fugindo do Queiroz? Contudo, a ação dos jornalistas da revista Veja deve ser parabenizada, há tempos não se faz jornalismo investigativo no Brasil com repercussão.

 

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