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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil

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O CORRESPONDENTE

25
Nov20

"Limparam o sangue e voltaram às atividades normais": militante pede responsabilização do Carrefour

Talis Andrade

Limparam o sangue e voltaram às atividades normais": militante pede  responsabilização do Carrefour - RFI Convida

 
 
por Cristiane Capuchinho /RFI
 

Na véspera do dia da Consciência Negra, João Alberto Silveira Freitas, 40 anos, foi espancado e morto dentro de um supermercado da rede Carrefour em Porto Alegre. O assassinato, filmado por um celular, causou indignação e protestos em todo o Brasil. Quatro dias depois da morte, a loja voltou a funcionar. "Limparam o sangue e voltaram às atividades normais", conta Matheus Gomes, vereador eleito em Porto Alegre e ativista do movimento negro na cidade. Para ele, essa é mais uma tentativa de apagamento de um caso exemplar da violência racial no Brasil.

Desde a semana passada, um grande número de manifestações ganharam as ruas das principais cidades do país para protestar contra a morte de Beto Freitas. A reação popular teve resposta da direção do Carrefour, que chamou a morte de uma "tragédia incalculável" e promete investir R$ 25 milhões para combater o "racismo estrutural".

Na segunda (23), contudo, as portas da loja em que Beto Freitas foi morto, em Passo D’Areia, na zona norte da capital do Rio Grande do Sul, foram reabertas. "A gente ficou abismado com a reabertura da loja", diz o vereador eleito Matheus Gomes. Para ele, a retomada das atividades no local de um crime brutal, sem qualquer tipo de ação em relação ao que aconteceu, é uma tentativa de apagar a memória do crime e de fugir de um debate sobre violência racial.

"Um crime de tamanha brutalidade, na minha opinião, não faz sentido sequer que ela continue aberta, exposta ao público dessa forma. Deveria virar um memorial da cultura e da luta antirracismo", afirma.

O ativista lembra que esta não é a primeira vez que há relatos de violência contra lojas do Carrefour em Porto Alegre. "Há denúncias macabras que afirmam a existência de uma sala dentro das dependências do Carrefour em que há tortura de pessoas acusadas de furtos", conta.

Ele cita o caso de uma publicitária acusada de furto dentro de uma loja do hipermercado. A mulher, que estava acompanhada de sua família, foi levada a uma sala e teve de ficar nua diante da segurança para provar que não tinha cometido um crime. O caso foi levado à Justiça e, segundo uma reportagem do jornal Matinal News, o Carrefour foi condenado a pagar R$ 35 mil por danos morais. A empresa, no entanto, ainda recorre da decisão.

Há ainda casos de violência de seguranças dentro de lojas do Carrefour no Rio de Janeiro, onde uma mulher foi estuprada com um pedaço de madeira, e em Osasco (SP), onde um homem apanhou por ser acusado de roubar o próprio carro. A lista não exaustiva de violências é a explicação, na opinião de Gomes, para a forte reação  popular que levou milhares de pessoas às ruas com o caso de Beto.

"O que aconteceu com João Alberto é uma expressão de um racismo cotidiano que nós vivenciamos aqui no Brasil. A cada ida a um mercado ou a um estabelecimento comercial, um homem ou uma mulher negra vive uma tensão permanente porque nós somos sempre vistos como um elemento suspeito", testemunha o vereador eleito pelo PSOL. "Toda pessoa negra já vivenciou uma situação em que foi perseguida dentro de um estabelecimento comercial."

A ONU (Organização das Nações Unidas) percebe no caso essa exemplaridade destacada por Matheus. A morte de João Alberto é "uma clara ilustração da persistente discriminação estrutural e do racismo enfrentados pelas pessoas de ascendência africana", disse nesta terça-feira o porta-voz do Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos, Ravina Shamdasani.

Segurança privada do patrimônio, e não da vida

Em todos os casos de violência nas lojas do Carrefour listados acima, a empresa afirmou que afastaria os responsáveis pelos atos de violência e romperia contratos. O vereador, contudo, salienta que o problema vai além da ação pontual.

"Os aparelhos de segurança privada vivem em uma fronteira muito tênue entre o que é legal e o que é ilegal. Se analisarmos a condição de um dos assassinos do Beto, ele era um policial temporário que não poderia estar prestando aquele serviço daquela forma, mas estava lá trabalhando, fazendo um bico. Isso já mostra como se desenvolve este ciclo vicioso. Muitos que trabalham nestas empresas de segurança privada são agentes de segurança pública que vão complementar sua renda. É um problema que precisamos analisar na totalidade", afirma.

Para ele, há brechas na legislação que permitem que as empresas atuem de maneira ilegal sem um controle próximo de suas ações. "Certamente, um dos legados que teremos de tirar do assassinato do Beto é a construção de novas legislações para reger o funcionamento das empresas de segurança privada. Elas não podem continuar atuando dessa forma, isso é inaceitável. Toda a lógica de atuação delas coloca em primeiro lugar a defesa e a proteção do patrimônio, só que isso faz com que a vida das pessoas fique em segundo plano. E essa é a lógica que autoriza, em última instância, que um homem como o Beto seja espancado até a morte dentro de um estabelecimento comercial", explicita Matheus Gomes.

Responsabilização financeira

Em relação à multinacional francesa, Matheus Gomes afirma que o grupo de políticos locais que acompanha o caso e a família está considerando quais serão as propostas apresentadas à sede do Carrefour, mas defende que além de uma ação local, deva haver uma responsabilização civil e financeira proporcional ao tamanho da empresa.

"O Carrefour, uma multinacional francesa, teve um lucro no Brasil de mais de R$ 700 milhões só no segundo trimestre de 2020. No caso da moça que foi injustificadamente acusada de roubo e humilhada nas dependências do Carrefour, o dano material foi de R$ 35 mil e eles ainda recorreram", argumenta.

"Estamos hoje em um momento crucial, estratégico deste debate porque as pessoas estão enxergando da pior maneira possível o tamanho da desigualdade", afirma o vereador eleito pelo PSOL na capital do Rio Grande do Sul.

R$ 25 milhões para combate ao racismo

Após os diversos protestos, o Grupo Carrefour Brasil fez um comunicado oficial na segunda-feira informando o investimento em ações contra o racismo estrutural. No texto, o grupo afirmar estar "fortemente comprometido em lutar pelo combate ao racismo estrutural no país e promover ações afirmativas para a inclusão social e econômica de negros e negras na sociedade". A empresa diz ainda que reverterá todo o resultado das vendas realizadas em todos os hipermercados da rede no país no dia 20 de novembro a doações.

“Sabemos que não podemos reparar a perda da vida do senhor João Alberto. Este movimento é o primeiro passo da empresa para que o combate ao preconceito e racismo estrutural, que é urgente no Brasil, ganhe ainda mais força e apoio da sociedade. Acreditamos que poderemos evoluir e contribuir para a construção de uma sociedade mais inclusiva e igualitária”, afirma na nota Noël Prioux, CEO do Grupo Carrefour Brasil.

 

25
Nov20

Carrefour fica com imagem "manchada de sangue" após morte João Alberto, estima Le Monde

Talis Andrade

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RFI - O jornal Le Monde mostra nesta quarta-feira (25) como o grupo francês Carrefour "está contra a parede" no Brasil, sem conseguir evitar os protestos que acusam a empresa de "assassina", após a morte brutal do soldador João Alberto Silveira Freitas. O crime envolvendo o cliente negro aconteceu na última quinta-feira (19) em uma unidade da zona norte de Porto Alegre.

Le Monde relata que milhares de brasileiros têm saído às ruas, em várias capitais, aos gritos de "Carrefour assassino". Em meio à campanha municipal, além dessas manifestações populares, "o grupo francês também é alvo de críticas de quase toda a classe política, com exceção de Jair Bolsonaro, que se cala sobre o assunto", reporta o jornal francês.

"Guilherme Boulos, candidato de esquerda a prefeito de São Paulo, qualificou o drama de 'puro racismo'. O juiz do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moares falou em 'homicídio bárbaro'. Para José Vicente, uma personalidade do movimento afro-brasileiro, o assassinato de João Alberto seria 'ainda mais selvagem' do que o de George Floyd nos Estados Unidos. (...) Mais preocupante para o grupo: uma petição on-line pedindo um boicote ao Carrefour coletou mais de 16.000 assinaturas. (...) Diariamente, a imprensa noticia novos 'escândalos do Carrefour': atos diários de racismo, espancamento de negros, casos de tortura ou de estupro cometidos por agentes de segurança, que são comparados a 'milícias' a serviço dos brancos."

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"O grupo, que tem um logotipo conhecido em todo o mundo, com duas setas, uma azul e outra vermelha, desenhando um C, vê essa última flecha transformada em uma poça de sangue nas redes sociais", relata o jornal. Por enquanto, nem as desculpas oficiais, nem a criação de um fundo de R$ 25 milhões (€ 3,9 milhões) para lutar contra o racismo no Brasil, nem o rompimento do contrato com a empresa de segurança Vector, onde trabalhavam os dois vigias acusados pelo assassinato, foram suficientes para apagar o incêndio, explica o correspondente no Rio de Janeiro.

Le Monde ouviu Stéphane Engelhard, secretário-geral do Carrefour Brasil. O executivo afirma que "o racismo é um problema social, no país fortemente marcado pela escravidão”. Engelhard diz que o mais importante é entender o que aconteceu, dialogar com as instâncias e associações, e trabalhar para construir "uma sociedade melhor”.

Supervisora é presa e será investigada por coautoria de homicídio

O jornal gratuito 20 Minutos relata que a polícia prendeu na terça-feira (24) a supervisora da loja, Adriana Alves Dutra, como suposta "coautora" do homicídio de João Alberto. A funcionária, que foi vista filmando a cena, teria mentido em seu primeiro depoimento aos investigadores, ao dizer que não ouviu quando a vítima pediu ajuda e ocultando que um dos seguranças trabalhava no local. Em um vídeo, ela é vista avisando à vítima que ela deveria se acalmar para ser liberada, ou dizendo que João não seria solto até a chegada da polícia.

Diante da queda das ações do grupo francês na Bolsa de Valores de São Paulo, 12 fornecedores do Carrefour, entre eles gigantes como Coca Cola, Danone, Pepsico, Heineken, JBS, General Mills, Kellogg's, L'Oréal e Nestlé, anunciaram uma coalizão que se propõe a tomar iniciativas "para combater o racismo estrutural" no Brasil, que aboliu a escravidão em 1888.

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24
Nov20

O racismo nosso de cada dia

Talis Andrade

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por Cristina Serra

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Mal celebramos o avanço da diversidade (ainda que insuficiente) nas eleições de 2020, vem o cotidiano violento do Brasil e nos dá um soco no estômago com o assassinato de João Alberto Freitas por dois seguranças brancos a serviço do Carrefour, em Porto Alegre. O sangue no chão, os gritos da vítima e a sequência de agressões nos lembram que ter a pele negra, no Brasil, é uma sentença de morte. 

Todos os componentes da cena mostram o quanto o racismo está entranhado na medula da nossa sociedade. Uma funcionária filma o assassinato com naturalidade e tenta impedir que outra pessoa continue gravando. Em off, dá para ouvir vozes justificando o espancamento. Nada justifica o assassinato de João a sangue frio no supermercado. Aceitar a lei da selva nos dilacera como sociedade e é um atestado do nosso fracasso civilizatório.

O assassinato de João está permeado de ironias amargas. Foi na capital gaúcha que, nos anos 1970, o movimento negro se articulou para instituir o Dia da Consciência Negra em 20 de novembro, data da morte de Zumbi, em 1695, líder da resistência no quilombo de Palmares. 

O crime ocorreu na loja de uma corporação global que, no Brasil, é reincidente em casos semelhantes de violência contra negros. Mais uma ironia é que a rede tenha planejado lançar uma campanha manifestando o “orgulho” de ter clientes “de todas as raças e etnias”. Será que a matriz, na França, tem algo a dizer sobre o tratamento aos clientes no Brasil? Em episódios anteriores, a rede rompeu o contrato com a empresa de segurança em questão e/ou demitiu funcionários e ficou por isso mesmo. Não basta. A rede e as empresas de segurança são co-responsáveis por esses crimes. É a impunidade que reproduz o ciclo de violência. 

Nesta eleição, a primeira vereadora negra eleita em Joinville (SC), Ana Lúcia Martins, recebeu ameaças de morte. Ela respondeu com a determinação que deve nos guiar no combate ao racismo: “Nós iremos até o fim. Ninguém vai nos impedir de ocupar esse lugar”. 

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24
Nov20

Responsabilidade civil e consciência racial da magistratura

Talis Andrade

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Por Karla Aveline de Oliveira e Edileny Tomé da Mata

ConJur - A manifestação de raiva e indignação com a morte de João Alberto Silveira Freitas no interior do supermercado Carrefour pode ser feita desde a ordem, a razão, ou mediante a expressão do sentimento, cumprindo, assim, as premissas clássicas do liberalismo (mente/corpo). Nós preferimos ir além por entendermos que o racismo deve ser visto sob os diversos prismas que conformam a sociedade, afastando-se, assim, da falácia jurídica, ou seja, na crença de que apenas o âmbito jurídico pode garantir direitos. Essa a opção de Mbembe, denominada também de visceralidade, ou o uso da expressão dos nossos sentimentos em forma de razão e indignação. Conceição Evaristo já denominou de escrevivência o ato de escrever o que vivenciamos como grupo racial e racializado.

Os vídeos onde se vê seguranças espancando até à morte João Alberto, homem negro, companheiro de Milena e pai de quatro filhos, no estacionamento de uma das lojas da rede de supermercados Carrefour, constitui-se em um padrão da realidade vivenciada pela população negra brasileira. A cena não deixa nada a desejar à descrição de qualquer outra ocorrida no período escravocrata no Brasil.

A marcação, a vigilância e o controle dos corpos negros nos espaços públicos e privados constitui-se em exemplo suficiente de como se inviabiliza o princípio liberal de liberdade de locomoção e circulação, e, por conseguinte, a igualdade formal entre todos os cidadãos no Brasil, entre outros contextos onde residem seres racializados. O motivo principal é que os nossos corpos sempre foram vistos e percebidos na esfera pública como ameaça, perigo, descontrole da ordem convencional preestabelecida por âmbitos institucionais governados e coordenados por indivíduos de raça branca. Essa construção e difusão da figura do homem negro como indolente, violento e perigoso redunda em diversos outros indicadores sociais os quais demonstram que, na sociedade brasileira, há um lugar específico para a população negra, qual seja, sem emprego ou subocupada, sem ocupar cargos de poder ou de saber, morta ou encarcerada, desumanizada, hierarquizada e sob intenso controle social.

Apesar da superação do conceito da superioridade racial desde o ponto de vista biológico, a raça continua sendo o elemento chave na determinação da superioridade e inferioridade entre as pessoas, sobretudo desde a conjunção modernidade/colonialidade (escravidão e colonização).

Aníbal Quijano, ao falar sobre colonialidade do poder, discorre sobre a diferença colonial, a qual consiste, em apertada síntese, em uma marcação de grupos de pessoas ou populações, identificados por suas faltas ou excessos, usando essas diferenças como elementos de classificação de inferioridade em relação a quem as classifica. A colonização foi a matriz que permitiu estabelecer essas diferenças e justificar a cristianização com a lógica de classificar e de hierarquizar as pessoas do planeta de acordo com suas línguas, religiões, nacionalidades, cor de pele, grau de inteligência etc.

Desse modo, a questão do racismo não se traduz somente em uma questão de cor de pele ou de cor de sangue e, sim, em uma questão de humanidade, pois um grupo de pessoas definiu o que é humanidade e o que não é. Nessa ótica, alguns são considerados néant (Fanon) ou nadies (Galeano), marcando-se bem as fronteiras da humanidade e contradizendo, assim, os princípios do humanismo a priori. A morte de João Alberto deve ser vista como a manifestação de uma violência branca que se vêm incrementando nos últimos anos devido à legitimidade ou cegueira das violências estruturais que são proferidas desde o governo brasileiro, entre outros, em nível mundial.

Quando se pensa na responsabilização civil do Carrefour e no processo cível daí decorrente, convém destacar que todas essas concepções racistas capturam as subjetividades dos julgadores e julgadoras, constroem uma forma de pensar que organiza as relações de poder entre os sujeitos de direito e os operadores do Direito e, por isso, devem ser visibilizadas, ainda mais quando se sabe que o Poder Judiciário brasileiro compõe-se, majoritariamente, por homens e mulheres brancos e que, por outro lado, a população preta/parda corresponde a 54% da população brasileira. A correlação entre órgãos judiciais e população se distancia ainda mais no cenário sul-rio-grandense, onde 97% dos magistrados são brancos e a população negra corresponde a pouco menos de 20% do total.

Expor a falácia da "neutralidade do órgão judicial" escancara o fato de que o fenômeno jurídico é produto da atividade humana, pertence à cultura e, como fenômeno cultural, não pode ser compreendido como mera técnica, ao contrário, para seu melhor entendimento se permite e se exige uma aproximação histórica, ciente de que a finalidade do processo não se constitui em simples realização do Direito material e, sim, na concretização da Justiça material e na pacificação social. O Direito entendido como uma técnica de domínio social que não se constitui neutra e determina a priori quem pode produzir a lei, quem pode interpretá-la e quais parâmetros serão fixados para interpretar e aplicar a lei, demonstra como os/as magistrados/as possuem grande poder, pois, não apenas dizem qual o direito mais adequado para cada caso, mas conformam atitudes e regulam relações sociais de acordo com um sentido ideológico e político próprio e determinado.

Por tal razão, pensar o assassinato de João Alberto como sendo mais uma das milhares de mortes de homens negros no país constitui-se tarefa primeira de todo/toda magistrado/a que analisar eventual pedido de responsabilidade civil a ser ajuizado perante a rede de supermercados Carrefour, pois a causa estrutural evidente, ou seja, o racismo que conduz a todo esse contexto desigual e violento deixa de ser, costumeiramente, enunciado nas decisões que enfrentam idênticos fatos, por razões conscientes ou, até mesmo, inconscientes.

Tendo em conta as questões subjetivas que conformam a branquitude brasileira e a inexistência de neutralidade racial na condução de processos judiciais, conferindo especial ênfase ao silenciamento de tudo o que diga respeito, diretamente, à população negra, apresenta-se impositivo afastar o mito da democracia racial, já que a falácia do "todos somos iguais", brancos ou negros, invisibiliza, por completo, toda e qualquer discussão a respeito de raça e racismo, seja no âmbito da Justiça, seja na própria sociedade, gerando, a partir daí diversas outras situações de desigualdade e exclusão. Nesse contexto, especial ênfase há de se dar à consciência racial, conceito trabalhado na teoria crítica racial, junto com branquitude, microagressão (produzida pelo Direito), interseccionalidade, entre outros, o qual, ao reconhecer as diferenças sociais entre raças, recusa a noção de objetividade da lei (que enxergaria o indivíduo para além de/independente de sua raça) e recusa a ideia de que o direito não deve levar em conta a raça.

Espera-se que o Poder Judiciário sul-rio-grandense, constituído, em sua ampla maioria, de pessoas brancas, ao analisar o presente caso, leve em conta o contexto social, racial, cultural, político, do Brasil e do Rio Grande do Sul para compreender, a partir da lógica racista estrutural e institucional implementada desde os tempos coloniais, como se (re)produzem as violências sociais e raciais que culminaram com a morte de João Alberto, por asfixia, no interior das dependências do Carrefour.

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24
Nov20

Entidades defendem boicote ao Carrefour

Talis Andrade

 

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Rede Brasil Atual - Entidades que representam a sociedade civil, como o Instituto de Defesa do Consumidor (Idec) e a Coalização Negra de Direitos, defendem que o caso de racismo contra João Alberto Silveira Freitas, o Beto, agredido até a morte por dois seguranças de unidade do Carrefour no bairro de Passo D’Areia, na capital gaúcha, seja investigado. Em nota, o Idec também conclama os consumidores a promoverem um boicote ao Carrefour “até que sejam apresentadas e implementadas medidas estruturais para eliminar práticas de racismo”.

Para o Instituto, o Carrefour deve responder, nas esferas competentes, pelos atos racistas e de violência que ocorreram no estabelecimento e os órgãos de defesa do consumidor também devem aplicar as sanções previstas no Código de Defesa do Consumidor. Já a Coalizão Negra por Direitos entrou com representação no Ministério Público Federal (MPF) e no Ministério Público do Rio Grande do Sul (MPRS) cobrando a investigação da morte de João Alberto.

Esta sexta-feira foi marcada por protestos e pela revolta que culminou com ataque a uma unidade da rede na região da Avenida Paulista, em São Paulo, no início da noite desta sexta-feira (20).

O crime contra João Alberto também dominou as redes sociais durante todo o dia de ontem, em que se celebrou a Consciência Negra e a luta antirracista no país.

A loja paulistana do Carrefour foi atacada após a 17ª Marcha da Consciência Negra de São Paulo, que se concentrou no vão do MASP (Museu de Arte de São Paulo). Centenas de manifestantes se dirigiram àquela unidade do supermercado, na rua Pamplona.

Segundo relatos, o hipermercado, que funciona no térreo de um shopping, estava fechando as portas quando o protesto se aproximava. Vidros foram quebrados, os bloqueios foram derrubados, e algumas prateleiras tiveram seus produtos derrubados ao chão. Houve ainda um princípio de incêndio, rapidamente debelado. Não há relato de feridos

 
O caso

Segundo a Brigada Militar do Rio Grande do Sul, as agressões que mataram Beto, 40 anos, cometidas por um policial militar e um segurança, teriam começado após um desentendimento entre a vítima e uma funcionária do local. Ele chegou a ser socorrido por uma equipe do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), mas morreu no local. 

Os dois agressores foram presos em flagrante e foram denunciados por homicídio qualificado. O policial envolvido na agressão é “temporário” e estava fora do horário de trabalho. Em nota, o Carrefour prometeu romper contrato com a empresa de segurança terceirizada do local e afirmou que adotará medidas cabíveis para responsabilizar os envolvidos e definiu o ato como criminoso.

Histórico de violações

Apesar de anunciar “rigorosa apuração interna” do caso e que “nenhum tipo de violência e intolerância é admissível”, o Carrefour carrega um histórico de violência e descaso envolvendo clientes e os próprios funcionários.

O mais recente noticiado pela imprensa havia ocorrido em agosto deste ano. Um promotor de vendas de uma unidade do supermercado no Recife morreu durante o trabalho. Moisés Santos, de 53 anos, foi coberto com guarda-sóis e cercado por caixas, para que a loja seguisse em funcionamento e seu corpo permaneceu no local por cerca de quatro horas, até ser retirado pelo Instituto Médico Legal (IML).
 

CNN chama manifestantes de vândalos

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A hipocrisia racista da mídia

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por Fernando Brito

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Uma vergonha a manchete do site da Folha, outra vergonha a manchete de sua edição de papel.

Na primeira diz que “Beto Freitas foi pai precoce, filho presente e marido errático“, como se alguma das três características tivessem relação com o fato de que ele foi bárbara e prolongadamente espancado e asfixiado até à morte”. A nós, mais velhos, lembra a época em que se discutia o comportamento de Ângela Diniz, quando só importava que ela tinha sido assassinada a tiros por Doca Street, no caso que ficou conhecido pela esdrúxula “teoria da legítima defesa da honra".

Não tem a menor importância se Beto era bom ou mau pai, marido fiel ou infiel, bom filho ou desatento aos pais: simplesmente não podia ser morto, e discutir como ele se portava em sua vida familiar é, além de cruel, desviar o foco para um tenebroso desvio, o de que, por seu comportamento, “merecia” morrer espancado e sem ar.

No jornal impresso, a Folha, um aproveitamento perverso do fato de que 2 de cada 3 policiais mortos são pretos ou pardos, como se a violência de que policiais são vítimas fosse de natureza racista, e não de que os atinge especialmente por serem o que, sem altas patentes, são quem se atira para a política de confrontos que seus comandantes aceitam e apoiam.

Não é preciso, para haver racismo, que o agressor – físico ou moral – seja branco. Achar que alguém é inferior – ou até bandido – pela cor de sua pele é racismo mesmo que venha de alguém com pele igual e não falta quem absorva a mentalidade dominante e agrida pessoas por isso.

PMs com certeza irão dar uma “dura” em um rapaz negro com muito mais frequência que num garoto branco e, entre estes, mais nos que estiverem pobremente vestidos.

É muito mais importante fazer o que fez, no mesmo jornal, Vinícius Torres Freire, que toca naquilo que se destacou ontem aqui: a responsabilidade das empresas sobre o verdadeiro exército de seguranças que mantêm:

Não é a primeira do Carrefour nem de supermercados e shoppings, onde volta e meia há um capanga da segurança da “sustentabilidade” dando um mata-leão em outro alguém do povaréu, tanto faz se tenha furtado um biscoito ou não. Estão preocupados com vidas à beira de uma represa da morte? Com o imigrante ou o terceirizado escravizado? Com o homem negro que morre na loja ou na “sala de massagem” (de tortura)? “Chupa o sangue” de quem barbariza, talvez o seu próprio, ou para de conversinha. Enfim, é preciso rever também a terceirização irresponsável.​

Só que desta vez doeu e a aparição ontem do presidente local do francês Carrefour , Noel Prioux, tenho certeza, se deu diante dos sinais que tiveram do dano que a morte de Beto causou aos seus negócios.

Dano que vão buscar recuperar em marketing e marketing se faz na mídia, a poder de dinheiro, como faz a Vale nos casos das barragens rompidas em Mariana e Brumadinho.

No final, acabam todos felizes e quase santos, com sua “responsabilidade social” e sua “sustentabilidade”, embora Beto, o “marido errático” da Folha, esteja morto.

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23
Nov20

Assassinato de João Alberto tem mais responsáveis (vídeos)

Talis Andrade

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Beto foi com a companheira Milena (à esq.) ao Carrefour Imagem: Arquivo pessoal

 

por Marcelo Auler

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Apesar de apenas duas pessoas terem sido presas em flagrante pela morte de João Alberto Silveira Freitas, o Beto, de 40 anos, no supermercado Carrefour, no bairro Passo de Areia, em Porto Alegre, eles não são os únicos responsáveis que devem responder pelo crime. O homicídio, que a polícia civil classifica de triplamente qualificado – por motivo fútil, asfixia e recurso que impossibilitou a defesa da vítima – tem prováveis coautores.

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Giovane Gaspar da Silva, segurança, policial, filiado ao MDB, que participou das agressões 

 

Oficialmente, a Polícia Civil do Rio Grande do Sul mantém presos como responsáveis pela morte de Beto o policial militar temporário Giovane Gaspar da Silva e o segurança terceirizado Magno Braz Borges. São os dois que aparecem nos diversos vídeos que viralizaram espancando, imobilizando e, possivelmente, sufocando o cliente negro que faleceu no estacionamento do Carrefour, na noite de quinta-feira (19/11).

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Magno Braz Borges, segurança que participou das agressões a Beto 

Na realidade, porém, o crime pode ter mais alguns responsáveis. É o caso de Adriana Alves Dutra, agente de fiscalização do supermercado, que aparece na cena do crime filmando toda a agressão sem nada fazer para impedi-la. Além de se omitir diante do espancamento que filmava, ela tentou impedir que um homem, de 41 anos, que trabalha como entregar de mercadorias no próprio Carrefour, também filmasse as cenas. Chegou a ameaçá-lo, conforme consta do vídeo feito pelo entregador que foi entrevistado por Tiago Boff, do jornal Zero Hora – Entregador que filmou agressões no Carrefour diz que seguranças tentaram apagar vídeo e relata ter sofrido ameaças:

Não faz isso! Não faz isso! Não faz isso senão eu vou te queimar na loja”, ameaçou Adriana, como registrou o vídeo feito pelo entregador, que pode ser visto na reportagem de Boff.

Como explicou o entregador de mercadoria que pediu ao repórter para não ser identificado, ele foi pressionado a apagar o que filmou. Mas não o fez: “Tive que guardar o celular. E eles queriam que eu apagasse o vídeo. Eu disse que não ia apagar. Eu pretendia usar o vídeo para defender o senhor, mas infelizmente aconteceu o que aconteceu“.

Quem não impediu, também reponde pelo crime

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Os dois espancadores e o cadáver de Beto

A possível participação de Adriana em todo o episódio ainda está sendo investigada pela polícia, como admitiu ao jornal Correio do Povo – Polícia Civil investiga motivação para agressões e morte de cliente de hipermercado de Porto Alegre– a delegada Roberta Bertoldo, titular da 2ª Delegacia de Polícia de Homicídios e Proteção à Pessoa (2ªDPHPP) da Polícia Civil:

Quem não impediu a agressão responde também ao meu ver… A moça de camisa branca é a fiscal com a qual a vítima teria se desentendido, mas não está confirmado isso ainda. Ela não impediu as agressões e ainda ameaçou pessoas para que não filmassem”, explicou a titular da delegacia ao jornal.

Mas a dúvida que a delegada alega ainda precisar esclarecer não existe para o Procurador de Justiça aposentado, professor de Direito, Cézar Roberto Bitencourt, Doutor em Direito Penal pela Universidade de Sevilha, Espanha:

Aquela funcionária não é simplesmente testemunha do crime. Pelo contrário. Ela é coautora do crime. Ela coordenou a agressão. Ela chamou os seguranças, mandou retirarem (o cliente), acompanhou e comandou, inclusive empurrava, botava as mãos nas costas. Note que ela está do lado, ela era chefe. Ela poderia ter dito, parem! Chega! Acabava. Porque ela tinha autoridade sobre os seguranças, poderia interromper. Ela tinha o domínio do fato. Por isso ela não é simples partícipe, não era meramente participante. Ela é coautora do homicídio. Tem que ser indiciada e denunciada por homicídio qualificado, em concurso com os outros dois“. (Transcrevi trechos)

 

23
Nov20

Assassino do Carrefour continua filiado ao MDB de Porto Alegre (vídeos)

Talis Andrade

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Policial e segurança privada e filiado ao MDB

por Jeferson Miola

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O policial militar “temporário” Giovane Gaspar da Silva é um dos assassinos do Carrefour que mataram o cidadão negro João Alberto Silveira Freitas, o Beto, na noite de 19 de novembro.

Giovane é filiado desde março de 2013 ao MDB do candidato a prefeito de Porto Alegre Sebastião Melo.

Evidentemente que não se pode responsabilizar nem o candidato Melo nem seu Partido pelo bárbaro assassinato cometido por um dos seus filiados.

O que é inaceitável, contudo, é que, depois de 4 dias do crime, o assassino ainda continua regularmente filiado ao MDB de Porto Alegre, conforme certidão do TSE.

O MDB não anunciou nenhuma providência a este respeito. O assassino não foi expulso, e segue filiado ao Partido.

Neste momento em que o país inteiro cobra das instituições, da justiça, dos políticos e de toda sociedade respostas antirracistas assertivas, é inaceitável que, transcorridos 4 dias, nem o MDB nem o candidato Sebastião Melo tenham adotado qualquer atitude em relação ao correligionário implicado neste crime monstruoso.

 

 

23
Nov20

Beto estava ‘marcado’ e morte não foi ‘casual’

Talis Andrade

PM de São Paulo imobiliza homem negro que participava de manifestação contra a morte de um jovem da comunidade do Moinho.

PM de São Paulo imobiliza homem negro que participava de manifestação contra a morte de um jovem da comunidade do Moinho.ROVENA ROSA / AGÊNCIA BRASIL

por Fernando Brito

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O novo vídeo obtido pela Gaúcha ZH, divulgado na noite de ontem, mostra que o assassinato de João Alberto Freitas Silveira não foi provocado por uma confusão fortuita. Sem cena, tá? A gente te avisou da outra vez“, diz um outro segurança, de um total de pelo menos cinco funcionários do Carrefour presentes na cena do crime, três dos quais participaram da imobilização fatal da vítima.

Isto induz a uma grande possibilidade de que a primeira agressão física, a de João aos seguranças do supermercado ter sido uma reação ao popular “esculacho”, prática de humilhação nada rara entre policiais e assemelhados diante de alguém sobre quem percebem ter superioridade na situação.

O uso de técnicas perigosas de imobilização – joelho no pescoço do suposto oponente – também deixa claro que os seguranças tinham preparo para essa prática, usada por diversas organizações policiais, como você pode ver na foto de uma ação da PM de São Paulo publicada pelo El País. Também está na página 80 do manual oficial da polícia de Minas Gerais, sem nenhum comentário sobre seu risco fatal.

O famoso “eu não consigo respirar” é, assim, uma ação que faz parte dos treinamentos de agentes de segurança.

Há, portanto, muito mais gente envolvida no caso do que os dois seguranças autuados pelo crime: os que os treinaram para este tipo de comportamento, abordagem e ação e os que, com visível posição de chefia nas cenas que assistimos permitiram que um homem já nitidamente dominado continuasse a ser brutalizado sem defesa possível.

Que, ao menos, a morte daquele homem desencadeie uma rejeição social àquilo que, durante anos, foi aceito e estimulado por mídia e governantes: as ações desnecessariamente violentas de agentes de segurança, que, agora, pela profusão de câmeras e de vídeos, aparecem diante dos olhos de todos, enquanto ficava antes apenas flagrante quendo se vivia nas periferias e comunidades pobres.

bolsonaro beto negro assassinado racismo.jpg

 

 

22
Nov20

Agressões e abusos: rotina no Carrefour, onde negros merecem o pior

Talis Andrade

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por Fernando Brito

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O slogan comercial do Carrefour – “Todos Merecem o Melhor” – ganhou um tom de macabra ironia com o que parece ser uma prática recorrente da empresa (e de inúmeras outras) como a barbárie de Porto Alegre chamando a atenção para o histórico de abusos de seus seguranças.

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Folha relembra o caso de um “homem negro e deficiente agredido em 2018” por ter aberto uma lata de cerveja e há outros casos piores, como o relatado no Twitter  pela juíza Cristiana de Faria Cordeiro, hoje na Vara Criminal de Mesquita, na Baixada Fluminense, que relata ter acompanhado a audiência de custódia de uma mulher, dependente química, que além de espancada foi estuprada por segurança da rede de supermercados.

Uma mulher, negra, lésbica, pobre, dependente química, foi presa por supostamente furtar comida numa filial do Carrefour, no Rio.(…) Ela foi levada para uma salinha onde foi brutalmente espancada com um pedaço de madeira, inclusive. Não teve coragem de nos contar o mais cruel, e só falou para a psicóloga que a atendeu antes de ser liberada: foi sodomizada, estuprada, como 'lição e castigo”.

Uma rede que faturou no Brasil, ano passado, R$ 62 bilhões, não pode se sentir surpresa e chocada depois de dezenas de casos bárbaros como esse. Há na Wikipédia uma longa coleção de links para os seus abusos.

Porque ela sabe que é uma das que alimenta o mercado parapolicial das empresas de segurança, em geral controladas por oficiais da polícia e do Exército, mas também por pessoas de menor patente, como é o caso da que contratou em Porto Alegre, que tem ao menos três policiais entre seus sócios.

Uma promiscuidade que vêm de berço: foi em 1969 que o governo militar permitiu a abertura de guardas bancárias privadas e tente você adivinhar quem pegou a “boquinha”…

Claro que, a grande maioria dos 550 mil seguranças privados do país (com emprego formal, pois há um número muito maior trabalhando em “bicos”), a grande maioria é de trabalhadores, que ganham mal e trabalham sem apoio treinamento e supervisão, geralmente exclusivo para os que lidam com transporte de valores.

Mas, todos sabem, empresas de segurança se tornaram biombos para negócios escusos e para o encobrimento de arsenais milicianos, porque e a fiscalização da Polícia Federal, quando não lhes é cúmplice, é incapaz de zelar por sua qualidade, que dirá por sua moderação e urbanidade.

Mas esta capacidade o Carrefour tinha e, infelizmente, só concorrerá à culpa do assassinato de João Alberto Freitas no aspecto civil, nada que alguns poucos milhares de reais não resolvam.

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Não é crível que uma empresa deste porte não possa ter pessoal treinado para agir com educação, dissuasão e limites ou que seus empregados (ainda que terceirizados) não sejam duramente advertidos contra excessos.

Se todos merecem o melhor, algo diz, pelos casos repetidos, que no Carrefour os negros “merecem o pior”.

 

22
Nov20

'Dois seguranças batendo num homem negro com covardia. Não tem justificativa', diz amigo de homem morto no Carrefour

Talis Andrade

João Alberto Silveira Freitas morreu na noite da última quinta-feira (19) - Arquivo pessoalConhecido como Beto, João Alberto Silveira Freitas, de 40 anos, foi espancado por dois seguranças em Porto Alegre

 

BBC News - O homem que foi espancado e morto por seguranças em um supermercado Carrefour, João Alberto Silveira Freitas, de 40 anos, tinha "postura de durão, mas coração mole" e era "brincalhão e malandro", segundo seus amigos.

João Alberto, conhecido pelos amigos como Beto e Nego Beto, um homem negro, foi morto por seguranças após ser surrado e imobilizado no supermercado na zona norte de Porto Alegre. A morte aconteceu às vésperas do Dia da Consciência Negra, celebrado na sexta-feira, 20 de novembro, data atribuída à morte de Zumbi dos Palmares, em 1695.

O segurança e o PM temporário envolvidos no caso foram presos, suspeitos de homicídio doloso. Amigos, familiares e integrantes do movimento negro estão organizando um protesto em frente ao supermercado nesta tarde, às 18h. Estão revoltados.

"Dois seguranças batendo num homem negro com covardia. Não tem justificativa", diz o amigo Márcio Cardoso, de 29 anos.

O espancamento e a morte foram gravados, e vídeos estão circulando nas redes sociais. A morte tem sido comparada à de George Floyd, que morreu neste ano ao ser sufocado por policiais nos Estados Unidos, e cuja morte provocou uma onda de protestos no país.

Em nota, o Carrefour chamou a morte de "brutal" e afirmou que tomará medidas para "responsabilizar os envolvidos neste ato criminoso".

"O Carrefour lamenta profundamente o caso. Ao tomar conhecimento deste inexplicável episódio, iniciamos uma rigorosa apuração interna e, imediatamente, tomamos as providências cabíveis para que os responsáveis sejam punidos legalmente."

 


'Cara difícil' e 'carinhoso'


Freitas vivia de bicos, segundo os amigos. Já tinha trabalhado como motoboy, em empresa de transportadora, e passado por vários trabalhos.

"Era trabalhador, honesto. É o que mais deixa a gente revoltado", diz Cardoso.

Para ele, o amigo era "um cara sério, com postura de durão, mas com coração mole". "Tinha uma postura de escudo, forte, mas quem conhece, quem andou com ele, sabe que ele tinha coração mole, era um cara carinhoso."

A amizade dos dois se formou na arquibancada do Clube São José, da zona norte de Porto Alegre, de quem os dois eram torcedores.

"A gente se encontrava sempre por ali, sempre animados", conta ele.

"O Beto era bem conhecido no bairro, no Iapi, bem da rapaziada mesmo. A gente gostava de tomar uma cervejinha junto depois do jogo. Fui pego de surpresa."

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Imagem de agressão no Carrefour, com três funcionários ao redor de homem; caso está sendo comparado com o de George Floyd, sufocado por policiais nos EUA


Os amigos sempre frequentavam aquela mesma unidade do supermercado Carrefour, que fica próxima ao estádio Passo d'Areia, sede do clube para que torciam (a distância é de 1km, 13 minutos caminhando). Além disso, diz ele, Freitas com frequência fazia compras no supermercado com a família porque morava ao lado.

"Várias vezes já estive com ele ali, e a gente já sabe como é o tratamento. Eu, branco, não sinto o mesmo tratamento quando entro ali sozinho. E sempre que eu estava acompanhando amigos negros era esse tipo de olhar, parece que quer correr a gente dali", diz Cardoso.

"Estou muito abalado. Não tinha nada no corpo dele de mercadoria e, mesmo se tivesse, não justificaria."

Freitas era um "cara difícil, brigão, que incomodava um pouco", diz André Gomes, um amigo de infância, "mas não existe motivo para fazer o que foi feito".

"Não sei o que aconteceu no Carrefour pra chegar a essa ponto. Se ele já estava dominado, não existe qualquer motivo para tratá-lo dessa forma."Os dois se conheciam do Batuque, religião afrobrasileira a que eram devotos, desde pequenos, com suas famílias. "Tínhamos a mesma mãe de santo durante muitos anos, éramos da mesma casa de religião. Passamos a nossa infância andando juntos, brincando." Ali, Freitas tornou-se tamboreiro.

"Ele sempre foi muito brincalhão, muito esperto, malandro", diz o amigo. Separados ultimamente por causa da pandemia de coronavírus, os dois costumavam se encontrar de vez em quando para tomar uma cerveja juntos.

"A gente ria, lembrava das coisas que a gente fazia quando era criança", lamenta o amigo.Os dois se conheciam do Batuque, religião afrobrasileira a que eram devotos, desde pequenos, com suas famílias. "Tínhamos a mesma mãe de santo durante muitos anos, éramos da mesma casa de religião. Passamos a nossa infância andando juntos, brincando." Ali, Freitas tornou-se tamboreiro.

"Ele sempre foi muito brincalhão, muito esperto, malandro", diz o amigo. Separados ultimamente por causa da pandemia de coronavírus, os dois costumavam se encontrar de vez em quando para tomar uma cerveja juntos.

"A gente ria, lembrava das coisas que a gente fazia quando era criança", lamenta o amigo.Mensagens de protesto contra morte de João Alberto

Protesto em frente ao Carrefour está marcado para a tarde desta sexta (20)
Espancamento


Nos vídeos que circulam nas redes sociais, é possível ver Freitas sendo espancado no rosto por um homem diversas vezes, enquanto outro tenta segurá-lo. Uma mulher fica ao lado deles, e parece estar gravando a cena. Funcionários do SAMU (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) foram até o local e fizeram massagem cardíaca, mas ele não resistiu.

A agressão teria acontecido depois que Freitas fez um gesto interpretado pela caixa do supermercado como uma tentativa de agressão, segundo o site GaúchaZH. Ela chamou seguranças (um segurança de uma empresa terceirizada e um PM temporário que, segundo informações preliminares, estava trabalhando no local) que levaram Freitas para o estacionamento, onde foi espancado até a morte.

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A Brigada Militar, como é chamada a Polícia Militar do Rio Grande do Sul, afirmou em nota que prendeu todos os envolvidos no supermercado, "inclusive o PM temporário, cuja conduta fora do horário de trabalho será avaliada com todos os rigores da lei" (leia íntegra no final). Afirmou ainda que o PM não estava em serviço policial.

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