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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

14
Out20

Covid-19: França adota toque de recolher em Paris e mais oito metrópoles de 21h a 6h

Talis Andrade

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O presidente Emmanuel Macron anuncia toque de recolher na região de Paris e em oito metrópoles francesas, em entrevista em rede nacional no dia 14 de outubro de 2020.
 France 2


O presidente francês Emmanuel Macron anunciou nesta quarta-feira (14) as novas medidas do governo para conter a segunda onda da pandemia Covid-19, que já matou 33 mil pessoas no país. Um toque de recolher, que será aplicado em oito metrópoles francesas, além da capital, terá início à zero hora deste sábado (17) e vai durar pelo menos quatro semanas. As outras metrópoles atingidas são Grenoble, Lille, Lyon, Aix-Marselha, Rouen, Montpellier, Saint-Etienne e Toulouse.

Teatros, cinemas, bares e restaurantes terão de fechar imperativamente às 21h nestas cidades. A multa para quem for pego quebrando o toque de recolher é de 135 € (e de 1500 € em caso de reincidência). 

"O toque de recolher vai durar quatro semanas e iremos ao Parlamento para prorrogá-lo até 1º de dezembro. Seis semanas é o tempo que nos parece útil", disse o chefe de Estado em entrevista televisionado, especificando que a medida entraria em vigor no sábado à meia-noite

A decisão, explica o presidente, foi baseada em experiências feitas na Guiana Francesa e no departamento de Mayenne, que conseguiram frear a difusão do vírus. "No momento do confinamento, fomos um dos países que melhor acatou as medidas e é por isso que eu conto com os franceses como atores da luta contra a segunda onda", disse o presidente, chamando os cidadãos para a responsabilidade individual e coletiva. 

O chefe de Estado disse que não vai voltar a fechar escolas e empresas, como aconteceu no confinamento de março e abril. "No trabalho, nas escolas, colégios e universidades, a gente usa máscara e consegue se proteger. Mas é nos contatos mais festivos que a gente se contamina", disse o presidente, pedindo que os franceses evitem encontros "desnecessários" e não se reúnam em grupos de mais de seis pessoas em restaurantes e em lugares fechados. 

 
 

 

12
Out20

Essas mulheres psicólogas: o cipó e o jerimum

Talis Andrade

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Madame, vous confondez ceinture avec cul et vigne avec citrouille

(Sagesse populaire. Aparecida, quartier de Manaus) 

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por José Ribamar Bessa Freire/ Taquiprati

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Eu não confio em psicóloga mulher. Você confia? Entre um cirurgião e uma cirurgiã, quem você escolheria para te operar?   

A frase contundente, dita em francês pela mãe de uma colega de doutorado na EHESS de Paris, tinha o desplante de cobrar minha cumplicidade na negação da competência feminina em qualquer profissão. Foi em 1982. A filha Louise, envergonhada, se arrependeu de ter me apresentado sua mãe que, se fosse brasileira, votaria em Bolsonaro. Uma pobre coitada! Juro que deu vontade de contra-atacar em português do bairro de Aparecida:

- Minha senhora, não confunda cinto com bunda, nem cipó com jerimum.

Considerando o meu francês macarrônico, o tradutor oficial do Taquiprati, Pascal Foucher, regiamente pago, traduziu assim: 

Madame, vous confondez ceinture avec cul et vigne avec citrouille.  Só não fui grosseiro porque a “salade d’asperges aux pignons” que ela fez estava supimpa e também porque madame havia falhado, felizmente, na educação da filha que era – vejam só! – feminista e militante da Lutte Ouvrière liderada por uma mulher, a sindicalista Arlette Laguiller.

Por que lembrei agora dessa história? É que acabo de ler o belo artigo “Oito de outubro - Dia da psicóloga latino-americana: mulheres na luta” escrito por Ana Jacó, publicado na Rede Iberoamericana de Pesquisadores em História da Psicologia. A data, instituída em 2006 na Assembleia da União Latino-americana de Psicologia, é uma homenagem a Ernesto Che Guevara, assassinado neste dia e que se tornou símbolo da luta pela liberdade e contra o imperialismo.

As torturadas

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No entanto, Ana Jacó, que reverencia o Che, faz uma pergunta inquietante que desconcertaria a mãe da Louise: por que homenagear em pleno séc. XXI um homem, que não é da área de psicologia, numa profissão que é majoritariamente feminina? O próprio homenageado certamente faria o mesmo questionamento.

Diretora do Instituto de Psicologia da Uerj e com pós-doutorado em História e Historiografia da Psicologia na Universidade de Barcelona, Ana Jacó, apoiada em documentos e em uma bibliografia consistente, compõe trajetórias de luta de psicólogas e estudantes de psicologia que enfrentaram as ditaduras em diferentes países latinos, mas permanecem no olvido. Entre elas, as psicólogas brasileiras Iara Iavelberg, Pauline Reichstul e as estudantes de psicologia Marilene Villas-Boas Pinto e Aurora Maria Nascimento Furtado, assassinadas quando tinham pouco mais de vinte anos”.

Na clandestinidade ou na prisão, elas souberam usar o que haviam aprendido na formação profissional. “Lúcia Maria Salvia Coelho (um pouco mais velha, nascida em 1937) realizou acolhimento psicológico de presas que haviam acabado de ser torturadas, isto dentro da cela que dividiam, enquanto ela mesma estava presa”. Outro exemplo foi Iara que “defendeu o cuidado psicológico em relação aos militantes na luta armada” e “sugeriu que a organização criasse um local onde pudessem descansar das tensões a que eram submetidos”.

Não podia ficar de fora da lista a Madre Cristina, pioneira na criação de cursos de especialização para formação de psicólogos, que abrigou perseguidos políticos e apoiou o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra e as Diretas-já. Mas a autora cita ainda profissionais que enfrentaram a repressão em outros países como a argentina Beatriz Perosio, presidente da Associação de Psicólogos de Buenos Aires, sequestrada e “desaparecida” em agosto de 1978. A colombiana Viviana Muñoz Marin, que cuidava da transição à vida civil de ex-combatentes e foi assassinada em 2018.

Urucum e jenipapo

Rede Psicologos Indigenas.png

 

Essa história pode ser enriquecida com a abertura dos arquivos das ditaduras militares no nosso continente. Por isso, o artigo nos convida a lembrar outras mulheres de luta como Cecília Coimbra, doutora em Psicologia pela USP, diretora do Grupo Tortura Nunca Mais e docente da Universidade Federal Fluminense, que batalha pelo acesso à informação negada pelos militares. Se o torturador coronel Ulstra foi mesmo brilhante, um “herói” como quer Bolsonaro, porque não permitir que o povo brasileiro conheça seus feitos?

Cecília Coimbra continua atuante e apesar de ter sido barbaramente torturada não perdeu a alegria de viver. Em depoimento à Comissão da Verdade, ela identificou 11 torturadores que a submeteram a choques elétricos no bico dos seios, na vagina e por todo o corpo, enquanto gritavam palavrões. O delegado Mário Borges do DOPS/RJ berrava: “Fale sua puta comunista, com quantos você trepou”.

Em especial, a tortura perpetrada à mulher é violentamente machista. Inicialmente são os xingamentos, as palavras ofensivas e de baixo calão, ditas agressiva e violentamente como forma de nos anular – disse Cecilia em seu depoimento. Cecilia vive. Borges, que precisava de tratamento, está morto, menos um voto para Bolsonaro.

Por fim cabe destacar a recente criação, em maio de 2020, em plena pandemia, da Articulação Brasileira dos Psicólogos Indígenas (ABIPSI), “que luta por uma psicologia pintada de urucum e jenipapo”. Eles estão buscando “uma nova forma de pensar a psicologia e agir ativamente na construção de políticas públicas”, que levem em conta os códigos culturais indígenas.

Uma das psicólogas da ABIPSI, Itaynara, da etnia Tuxá - um povo com mais de duas mil pessoas que vivem na Bahia, Alagoas e Pernambuco - deu um chega-pra-lá na mãe de Louise ao escrever:

- “A inserção da mulher indígena na história trouxe incômodos ao sistema patriarcal, filho do colonialismo, que de uma forma sistemática e opressora, tenta deslegitimar e inferiorizar esse protagonismo e corpo geopolítico”. 

A psicóloga Tuxá chama ainda atenção para o fato de que a psicologia nasceu no berço do capital cultural monopolizado e construiu suas teorias e práticas a partir de uma realidade que não considerava a diversidade, contribuindo assim para tornar invisível qualquer sujeito que não se enquadrasse nessas exigências sociais.

De fato, não podemos confundir “ceinture avec cul et vigne avec citrouille”. Ofendido pessoalmente por me colocar na pele das minhas nove irmãs, todas elas competentes em suas áreas, respondi à mãe de Louise que conheço psicólogos competentes, incluindo dois sobrinhos, mas competência por competência, fico com as psicólogas, de preferência indígenas. Não entregaria minha alma a qualquer marmanjo.

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P.S. – Lucilene Marques, professora do Colégio Lato Sensu, de Manaus, morreu de Covid-19, nesta terça (6). Deixou esposo, irmã e sobrinhos. Os professores reivindicam a suspensão das aulas que foram retomadas no dia 6 de julho, de acordo com cronograma determinado pelo Estado. Enquanto isso, a Polícia Federal investiga desvio de recursos destinados ao combate à Covid-19 e superfaturamento de contratos, cujo principal suspeito é o vice-governador Carlos Almeida (PTB vixe vixe). Que sacripantas! O governador Wilson Lima (PSC vixe vixe) também é investigado. O inspirador de todos eles, Amazonino Mendes, que ameaça voltar para a Prefeitura, está garimpando votos entre as Louises de Manaus. Não terá um voto sequer das Lucilenes.

 
03
Out20

Filhos e órfãos de Mariana e Brumadinho enfrentam a infância interrompida por uma tragédia que não acabou

Talis Andrade

Desenho de uma criança de Brumadinho que criou a sua própria sirene, na expectativa de que se for necessário, ela irá tocar.Desenho de uma criança de Brumadinho que criou a sua própria sirene, na expectativa de que se for necessário, ela irá tocar

600 dias depois do último desastre de Minas, sobreviventes ainda lidam com as perdas, agravadas pelos efeitos da pandemia do coronavírus no Brasil. 82% deles têm sinais de estresse pós-traumático

 

por Heloísa Mendonça/ El País

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"Eu só quero a minha liberdade de volta”. O pedido é um dos mais comuns entre as crianças e adolescentes que viram suas vidas se transformarem há mais de 4 anos, quando a barragem de Fundão, da mineradora Samarco, se rompeu, formando um tsunami de rejeitos de minério que engoliu o vilarejo rural de Bento Rodrigues, em Mariana (Minas Gerais), e atingiu outros distritos da região. A avalanche de lama matou 19 pessoas e deixou um rastro de destruição ao longo de mais de 600 quilômetros da Bacia do Rio Doce até o litoral do Espírito Santo. Hoje é considerado o maior desastre ambiental da história do Brasil, e parece distante após outra avalanche, a do novo coronavírus, arrebatar o mundo ― mas não para os sobreviventes.

Após a tragédia, as famílias dos atingidos foram alocadas em casas alugadas em Mariana ― cidade de cerca de 60.000 habitantes ― e começaram a receber um auxílio financeiro de um salário mínimo, mais 20% por dependente e uma cesta básica. Recomeçar uma nova rotina, no entanto, não tem sido fácil para os jovens, que, não bastasse a tragédia de perder conhecidos ou ter de abandonar a cidade onde cresciam, ainda precisam lidar com as limitações impostas pela pandemia, que amplificam os sintomas de ansiedade, estresse e depressão.

 

Há um isolamento social muito grande por causa da diferença da vida rural que eles tinham para a urbana. Mesmo após 4 anos, essa mudança ainda é muito evidente. Os próprios pais também têm receio de permitir que as crianças brinquem livremente ou que os adolescentes saiam, com medo dos perigos da cidade”, explica a psicóloga Maira Almeida, coordenadora da equipe Conviver, projeto da secretaria saúde de Mariana para acompanhar e assistir aos atingidos pelo rompimento da barragem. Com cada ex-vizinho morando em um bairros diferente, houve ainda um distanciando físico das redes familiares e de amizades, limitando encontros.

Além da adaptação ao novo território, as crianças também sofrem com o preconceito e o bullying. “Ainda há uma hostilização por parte dos moradores de Mariana. No início, quando eles frequentavam as mesmas escolas, eles eram chamados de pé de lama e marilama. Muitas vezes, eram culpados pelo encerramento das atividades da Samarco. Grande parte das falas das crianças são uma reprodução das dos adultos”, explica a psicóloga. Antes do início da pandemia, apesar de os jovens das cidades atingidas estarem estudando em instituições de ensino próprias, havia relatos de que eles evitavam circular na cidade com o uniforme da Escola Municipal de Bento Rodrigues, por exemplo. “É um apagamento da própria identidade. O que dificulta também uma interação”, ressalta Almeida.

A tragédia também trouxe consequências sérias para a saúde mental dos jovens atingidos. Um estudo realizado em 2017, dois anos após o rompimento da barragem, mostrou que 82% deles apresentavam sinais de estresse pós-traumático. A pesquisa realizada pelo Núcleo de Pesquisa em Vulnerabilidade e Saúde, da UFMG, escutou 276 vítimas individualmente, sendo 42% crianças e adolescentes. Entre eles, 91,7% testemunharam o desastre e 8,3% receberam notícias traumáticas decorrentes do rompimento.

“Tivemos muitos casos de estresse no início. Mas hoje ele não é o mais emergente. E sim a questão da adaptação, do cerceamento. Há uma espécie de suspensão da infância. Eles falam que vão voltar a ser criança quando retornarem a Bento”, diz Almeida. A psicóloga trabalha muito, no entanto, com os jovens na aceitação de que não haverá um retorno ao vilarejo ou a qualquer outra comunidade que foi atingida, já que todos irão morar em um novo território.

A indefinição da data em que poderão finalmente recomeçar a vida em novas comunidades também gera ansiedade nos jovens ―isso sem mencionar os impactos da pandemia em suas expectativas. Os reassentamentos das famílias estavam previstos para 2019, conforme definido em um acordo assinado pela Samarco com o Governo de Minas. O prazo, porém, foi adiado para 27 de fevereiro de 2021, mas as famílias atingidas acreditam que a data pode ser modificada outra vez já que as obras parecem longe de terminar e a pandemia de coronavírus paralisou tudo mundo afora.

“Sempre que há esses adiamentos, a família mobiliza e acaba aparecendo na fala das crianças. A tentativa de adaptação na cidade já levou algumas famílias a se mudarem 14 vezes nesses quatro anos”, diz. Cerca de 70 profissionais ―entre médicos, enfermeiros, assistentes sociais e psicólogos― contratados pela Renova, fundação criada para arcar com as indenizações, compensação e reparação dos danos causados pela tragédia, atuam em Mariana e Barra Longa na assistência à população local. (Continua)

 

03
Out20

Naturalizamos o horror?

Talis Andrade

 

Por Maria Rita Kehl, nos sites da Fundação Lauro Campos, Marielle Franco e Altamiro Borges

É noite. Sinto que é noite/
não porque a treva descesse/
(bem me importa a face negra)/ mas porque dentro de mim/
no fundo de mim, o grito/
se calou, fez-se desânimo//

Sinto que nós somos noite/
que palpitamos no escuro/
e em noite nos dissolvemos/ Sinto que é noite no vento/ noite nas águas, na pedra/
E de que adianta uma lâmpada?/
E de que adianta uma voz?…

Carlos Drummond de Andrade, “Passagem da Noite”, em A rosa do Povo (1943-45)

Nós, humanos, nos acostumamos com tudo. Melhor: com quase tudo. Há vida humana adaptada ao frio do Ártico e ao sol do Saara, à mata Amazônica ou o que resta dela assim como às estepes russas. Há vida humana em palacetes e palafitas, em academias de ginástica e UTIS de hospital. E o pulso ainda pulsa. Há pessoas sequestradas por psicopatas durante décadas, há meninas e meninos estuprados pelo tio ou pelo patrão da mãe. Sem coragem de contar, porque podem levar a culpa pelo crime do adulto. E o pulso ainda pulsa.

Mas o Brasil – tenham dó! – tem caprichado no quesito do horror já faz tempo. Naturalizamos a escravidão, por exemplo. Durante mais de trezentos anos! E depois da abolição naturalizamos a miséria em que ficaram os negros até então escravizados: jogados nas ruas de uma hora para outra, sem trabalho, sem casa, sem ter o que comer. Pensem bem: o fazendeiro que explorava a mão de obra de, digamos, dois mil escravizados, ao se ver obrigado a pagar um salário de fome (até hoje?) aos que se tornaram trabalhadores livres, iria fazer o quê? Ficar no prejuízo? Claro que não.

Decidiram forçar ainda mais o ritmo de trabalho de uns duzentos ou trezentos mais fortes e mandar os outros para o olho da rua. Sem reparação, sem uma ajuda do governo para começar a vida, sem nada. Daí que naturalizamos também um novo preconceito: os negros são vagabundos. Quando não são ladrões. Ou, então, incompetentes. Não são capazes de aproveitar as oportunidades de progredir, acessíveis a todos os cidadãos de bem.

Até hoje moradores de rua, pedintes e assaltantes amadores (os profissionais moram nos Jardins ou em Brasília) são identificados pelos vários tons de pele entre bege e marrom. É raro encontrar um louro entre eles. O mesmo vale para os trabalhadores com “contratos” precários: todos afrodescendentes. Achamos normal. A carne mais barata do mercado é a carne preta. Para não cometer injustiças, nesse patamar estão também muitos nordestinos que chegaram à região Sudeste como retirantes de alguma seca. Às vezes acontece alguma zebra e um deles vira presidente da República. Cadeia nele.

Naturalizamos duas ditaduras, que se sucederam com intervalo democrático de, apenas, 19 anos entre elas. Daí que naturalizamos as prisões arbitrárias também. “Alguma ele fez!” – era o nome de uma série satírica do grande Carlos Estevão, na seção Pif Paf da antiga revista Cruzeiro. A legenda era o comentário covarde de pessoas de bem, que observavam um pobre coitado apanhando da polícia ou arrastado pelos meganhas sem nenhuma ordem (oficial) de prisão. Naturalizamos a tortura também, para sermos coerentes. Afinal, ao contrário dos outros países do Cone Sul, fomos gentis com “nossos” ditadores e seus escalões armados. Não julgamos ninguém. Quem morreu, morreu. Quem sumiu, sumiu. Choram Marias e Clarices na noite do Brasil.

Daí que naturalizamos também – por que não? – que nossas polícias, findo o período do terror de Estado, continuassem militarizadas. Como se estivessem em guerra. Contra quem? Oras: contra o povo. Mas não contra o povo todo – alguns, nessa história, sempre foram menos iguais que os outros. Os pobres, para começar. Entre eles, á claro, os negros. Esses elementos perigosos para a sociedade, cujos antepassados não vieram para cá a passeio. Aprendizes do período ditatorial prosseguiram com as práticas de tortura nas delegacias e presídio. De vez em quando some um Amarildo. De vez em quando um adolescente infrator é amarrado num poste, pela polícia ou por cidadãos de bem.

Tolerantes, mas nem tanto

Mas calma aí, nem tudo se admite assim, no jeitinho brasileiro: que uma presidenta mulher tenha sido eleita em 2010 já foi uma grande concessão. Pior, uma presidenta vítima de tortura no passado – bom, se ela não nos lembrar disso a gente pode deixar pra lá. Mas a coisa vai além: uma presidenta mulher, vítima de tortura no passado, que resolve colocar em votação no Congresso – e aprovar! – a instauração de uma Comissão da Verdade??? Aí também é demais. Por isso mesmo achamos normal que um capitão reformado (alguma ele fez?) tenha desafiado a Câmara dos Deputados ostentando, durante uma audiência pública, o livro de Carlos Alberto Brilhante Ustra, um dos torturadores mais cruéis daquele período. Parece que isso se chama quebra de decoro parlamentar, mas os colegas do provocador não quiseram ser intolerantes. “Brasileiro é bonzinho”, como dizia uma personagem representada por Kate Lyra no antigo programa Praça da Alegria.
 
Por isso, também achamos normal que a tal presidenta, que provocou os brios das pessoas de bem ao instaurar uma comissão para investigar crimes de lesa humanidade praticados naquele passado esquecido, tenha sofrido impeachment no meio do segundo mandato. Seu crime: “pedaladas fiscais”. Parece que antes de virar crime essa era uma prática comum e, às vezes, até necessária, e se constitui em antecipações de pagamentos por parte de bancos públicos para cobrir déficits do tesouro, reembolsáveis mais adiante.

Também achamos normal que o melhor presidente que o país já teve tenha sido preso – por que, mesmo? Ah, um pedalinho num sítio em Atibaia. Ah, um apartamento no Guarujá, calma lá!

Não é muita regalia para um filho de retirantes, torneiro mecânico, líder sindical? Um que tentou três vezes e se elegeu na quarta, com uma prioridade na qual até então ninguém tinha pensado: tirar o Brasil do mapa da fome… Que pretensão. Pior é que, durante algum tempo, conseguiu a façanha com a aprovação de uma lei que instituiu o Bolsa Família – essa, cujo usufruto, aliás, algumas famílias devolviam ao Estado, em prol de outros mais necessitados, tão logo conseguiam abrir um pequeno negócio, como um pequeno salão de beleza, um galinheiro, uma videolocadora…

Algumas dessas famílias chegaram a cometer o grande abuso de comprar passagens aéreas para visitar seus parentes espalhados pelo Brasil. As pessoas de bem às vezes reagiam. Não foi só uma vez que, na fila de embarque, ouvi o comentário indignado – esse aeroporto está parecendo uma rodoviária! Esse horror de conviver com pobres dentro do avião nunca foi naturalizado.

Além disso, o tal presidente persistente, por meio do Ministro da Educação, Tarso Genro, conseguiu aprovar pelo ProUni um programa de bolsas para alunos carentes. Entre estes, muitos trabalhavam na adolescência para ajudar as famílias e tinham menos tempo para estudar do que os candidatos das classes médias e altas. Outra lei provocativa foi a que instituiu as cotas para facilitar o acesso às universidades de jovens de famílias descendentes de escravizados.

Ana Luiza Escorel, professora da UFRJ, contou uma vez em conversa informal que os cotistas, no curso ministrado por ela, eram com muita frequência os mais empenhados. Faz sentido: a oportunidade de fazer um curso superior faria uma diferença muito maior na vida dos cotistas do que dos filhos das classes médias e altas. Esse mundo está perdido, Sinhá! Diria Tia Nastácia, que Emília chamava de “negra beiçuda” (credo!) nos livros de Monteiro Lobato.
 
Então, em 2018…

… naturalizamos, por que não?… as chamadas fake news. Até hoje, em alguma discussão política com motoristas de táxi – esses disseminadores voluntários ou involuntários de notícias falsas – eu me exalto quando o sujeito não quer nem ouvir que eu conheço o Fernando Haddad desde que ele era apenas o jovem estudante de Direito, filho de um comerciante de tecidos. Foram 80 diferentes fake news contra ele e sua candidata a vice, Manuela d’Ávila, na 1ª semana depois do 1º turno. A série das mentiras começou com um suposto apartamento de cobertura num prédio de alto padrão – o que não seria crime algum, se comprado com dinheiro obtido pelo morador. Só que o apartamento em que a família Haddad morava na época era de classe média, não de alto padrão. A mentira seguinte era a posse de uma Ferrari – com motorista! Se fosse verdade, seria uma ostentação pra lá de brega. Segue o circo de horrores: acusação de estupro de uma criança de doze anos; de ter em seu programa de governo o projeto de lançamento de um “kit gay” (?) nas escolas e de instituir “mamadeiras de piroca” (?) nas creches públicas. Por fim, a pior das notícias: o candidato do PT teria baseado seu projeto de governo num decálogo leninista em defesa da guerrilha. Hein??? Foi o coroamento de uma sequência de absurdos que só não foram cômicos porque o Judiciário deixou passar impune … e nos condenou a um final trágico.

Aqui estamos, pois. O tal apologista da tortura se tornou presidente do país. No segundo ano de seu mandato, a pandemia de coronavírus chegou ao Brasil. O machista intrépido, que afirmou ter tido uma filha mulher depois de três filhos homens porque fraquejou, achou que uma boa medida em prol da saúde de seus governados seria insultar o vírus. Começou por chamar o dito cujo de gripezinha. Para provar que estava com a razão, compareceu e continua a comparecer a manifestações de apoiadores sem usar a máscara protetora. Continua a fazer essas aparições demagógicas semanais, com chapéu de cowboy (hein?), cuspindo perdigotos amorosos entre os eleitores. O narcisista só consegue olhar o outro pela lente de sua autoimagem. Se ele teve o vírus e nem foi hospitalizado, por que essa frescura de máscaras e luvas? Coisa de boiola.

E os que não têm pão? Que comam bolo…

E já que ninguém está olhando, que tal liberar as florestas para o agronegócio? A Amazônia arde, o Pantanal queima. O vice-presidente também faz pouco caso. Para um governo cujo Ministro da Saúde recusou a entrega de remédios para populações indígenas, os incêndios na mata onde várias etnias vivem e de onde tiram seu sustento são uma espécie bem-vinda de fogo amigo. A Amazônia, maior bioma do mundo, não se regenera quando incendiada. O que não virar pasto um dia vai produzir um matinho secundário mixuruca. Amazônia, nunca mais? A economia, ou melhor, o lucro do agronegócio, tem segurado a moral da tropa governamental.

Por outro lado, a inexistência de políticas públicas para amparar os milhões de trabalhadores desempregados e comerciantes falidos atingidos pela pandemia tem despejado diariamente milhares de brasileiros para morar nas ruas. Os R$ 600 responsáveis pelo aumento da aprovação do presidente evitam que alguns morram de fome. Os que já estão nas ruas não têm como se cadastrar para receber o auxílio. A situação dessas famílias é agravada pelo fato de que, durante o lockdown, pouca gente circula na rua. Agora, aqueles que já sofriam a humilhação de ter de suplicar por uma moeda ou uma xícara de café com leite para aquecer o corpo, já não têm mais nem a quem pedir. As ruas, na melhor das hipóteses, estavam quase desertas porque muita gente respeitava o isolamento social. Agora, quando em São Paulo o surto deu uma pequena recuada, os “consumidores” voltaram a circular, mas com medo até de olhar nos olhos do morador de rua faminto. Contornam seus corpos sem olhá-los nos olhos: para se pouparem de algum mal-estar moral? Ou será que de fato não os veem?
 
Por uma razão ou por outra, devemos admitir que, sim, naturalizamos o horror. Com o lockdown é mais fácil ficar em casa e não olhar para o que se passa além da porta. É um dever cívico. A não ser… a não ser quando a moçada se cansa e resolve lotar as praias. Ou apostar tudo numa balada animadíssima, cheia de gente num lugar fechado – dançando, compartilhando copos de cerveja, gritando, soltando e aspirando perdigotos. O Brasil regrediu a 1968, depois a 1964, e agora a 1936:

Viva la muerte!

P.S. Uma pergunta, para terminar: por que o Queiroz depositou 89 mil na conta de Michele Bolsonaro?
 
16
Set20

Lula entrevista: “Podridão da Lava Jato enfraquece democracia"

Talis Andrade

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Em entrevista ao ‘Diário do Centro do Mundo’, ex-presidente reagiu à nova farsa montada pela operação sob forma de mais uma “denúncia” contra o Instituto Lula. ”Qual o crime eu cometi? Eu dei soberania a esse país. Esse país tinha orgulho quando eu governava, cresceu, acabou com a fome, melhorou a renda. O crime que eu cometi foi o “crime” da ousadia, de que era possível permitir que os pobres participassem do orçamento da Federação, que pudessem tomar café, almoçar e jantar todo dia”, lembrou o ex-presidente. “Como eu sei que eles querem anular essa parte da história do Brasil, meu papel é defender esse legado”, ressaltou

A nova farsa da Lava Jato, na forma de mais uma “denúncia” armada para atacar Lula, foi desmascarada nesta terça-feira (15) pelo ex-presidente, em entrevista ao ‘Diário do Centro do Mundo’ (DCM). Na conversa, que reuniu jornalistas de veículos progressistas e lideranças da esquerda mundial, Lula disse que a mais nova acusação de que o Instituto Lula lavou dinheiro da Odebrecht é mais uma tentativa de desviar o foco das ilegalidades cometidas pelos procuradores.

“[O procurador Deltan] Dallagnon montou uma quadrilha de perseguição, de afirmação da primeira mentira”, disse Lula, fazendo referência ao powerpoint apresentado com estardalhaço na imprensa em 2016, em especial na Rede Globo, que deu amplo espaço para a peça de ficção produzida pela força-tarefa contra ele. À época, Dallagnol fez um espetáculo midiático para apresentar a “tese” da acusação contra Lula por corrupção. “Eles estão presos àquela mentira, eles não têm como sair dela, envolveu muita gente na perspectiva de destruir o Lula”, afirmou.

Segundo Lula, o substituto de Dallagnol na operação, Alessandro Oliveira, não foi escolhido por ser imparcial. “Ele entrou porque compactua com a podridão e com as canalhices que Dallagnol fez, com o objetivo de destruir a industria naval, de óleo, gás, petróleo e de engenharia. Essa gente ainda vai ser condenada por crime de lesa-pátria, por destruído a base industrial desse país”, avaliou Lula. “É questão de tempo”.

“Qual o crime eu cometi? Eu dei soberania a esse país. Esse país tinha orgulho quando eu governava, cresceu , acabou com a fome, melhorou a renda”, pontuou o ex-presidente. “O crime que eu cometi foi o crime da ousadia, de que era possível permitir que os pobres participassem do orçamento da Federação, que pudessem tomar café, almoçar e jantar todo dia”, lembrou o ex-presidente. “Como eu sei que eles querem anular essa parte da história do brasil, meu papel é defender esse legado”.

Lula lembrou das tentativas da força-tarefa para enfraquecer o advogado Cristiano Zanin, que demonstrou, desde o início das investidas da Lava Jato contra o líder petista, o caráter político e persecutório da operação. “Estão fazendo a mesma canalhice com o Zanin”, observou.

“Essa podridão está enfraquecendo a democracia brasileira, está escancarando e desmoralizando a confiança que a sociedade aprendeu a ter no Ministério Público. Até quando o Poder judiciário será conivente com essa podridão?’, indagou. Lula lembrou que o julgamento do caso do powerpoint foi adiado 42 vezes, livrando procurador Deltan Dallagnol no Conselho Nacional do Ministério Público. “Isso é uma farsa, uma coisa mentirosa”, disse Lula. “Para mim, é questão de honra a minha inocência e a punição dessa parte podre do Ministério Público”.

Integração Latino-americana

Lula reforçou a importância da integração latino-americana como forma de resistência ao neoliberalismo golpista, que vem promovendo ataques à Região há décadas. Ele citou o caso da Bolívia, vítima de um golpe que derrubou Evo Morales do poder. “Fui o primeiro operário eleito e o Evo Morales foi o primeiro indígena. Ele fez uma administração estupenda, nunca na história da Bolívia, houve tanto crescimento econômico e o povo teve tanta ascensão social como no governo dele”, ressaltou.

“Na linhagem e na política da América Latina, pobre não pode subir um degrau na escada de ascensão social. Espero que o MAS, o partido do Evo, possa ganhar as eleições na Bolívia”.

7 de setembro

Lula teceu comentários sobre seu histórico discurso do dia 7 de setembro, que atingiu repercussão internacional, em comparação ao pífio pronunciamento presidencial. “O problema é que ele não tem o que falar, porque ele não tem compromisso com o Brasil, a não ser liberar porte de arma. Deveríamos ter um presidente que pensasse em livro, em carteira de trabalho, no salário mínimo, nas universidades, em ciência e tecnologia, na saúde e nas pessoas”, destacou.

Segundo Lula, por causa de Bolsonaro, uma parte da sociedade brasileira está tomada pelo ódio, por mentiras. “A Rede Globo e outros meios de comunicação têm responsabilidade com o que aconteceu nesse país”, argumentou. “Esse fascismo não nasceu de graça, isso vem na negação da política, dos partidos”, lamentou.

Coronavírus

Ele também condenou a condução do governo durante a crise sanitária que teve início em fevereiro no país. Segundo Lula, Bolsonaro deveria ter evitado o “genocídio” da pandemia do coronavírus. “Temos um país governado por um desgoverno, um país dominado pela cabeça conversadora de uma elite que não pensa no povo como ser humano, pensa como número”.

Fortalecimento da ONU

Durante a entrevista, Lula defendeu ainda o apoio dos governos à Organização Mundial da Saúde (OMS), que, na sua avaliação, fez um trabalho excepcional no combate à pandemia. “É uma pena que o governante americano, grosseiro e irresponsável como ele é, propôs retirar U$ 400 milhões de ajuda à OMS, quando na verdade deveria ter colocado R$ 400 milhões a mais”. Lula defendeu uma reformulação do sistema ONU, por meio do fortalecimento de suas agências e uma atividade mais responsável e atuante, com papel mais destacado no combate às desigualdades.

“Não temos fome porque falta alimento, temos fome porque falta dinheiro para que as pessoas tenham acesso ao alimento”, explicou. “É importante que o mundo volte a ser mais humanizado e solidário”. Para isso, argumentou Lula, a ONU precisa ter mais força de decisão para que suas resoluções sejam cumpridas por todos os países.

Eleições municipais

Lula voltou a defender que partidos do campo progressista possam lançar candidaturas próprias nas eleições municipais. “Eu acho isso um luxo no Brasil, que partidos possam lançar candidato”, disse. “Quem for para o segundo turno, que tenha o apoio dos outros. Deixem cada um disputar voto, fazer campanha, defender seu programa, ir na televisão”.

“Essa campanha é muito importante para o PT, o partido está apresentando candidatos em muitas cidades. Tenho dito que o PT tem história para contar ao povo, tem programa e tem legado para conversar com o povo”. Segundo Lula, o PT tem a chance de perguntar ao eleitor qual é o partido que mais defendeu o trabalhador no país. “O PT pode fazer essa pergunta: quem é que fez mais política de inclusão social do que o PT?”, questionou.

Pantanal em chamas

Falando sobre os incêndios que assolam o Pantanal, Lula também criticou a política do governo para o meio ambiente. Segundo o ex-presidente, Bolsonaro desmontou mecanismos de proteção ambiental, como políticas preventivas para evitar incêndios. Ele mencionou a demissão do diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Ricardo Galvão, no fim de 2019.

“Tentaram desmoralizar uma instituição de muita credibilidade internacional, desmontaram o Ibama”, criticou Lula, que também não poupou o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles: “ele não tem respeito pela natureza, pelos índios, negros, pelas matas, pelas florestas”, afirmou Lula. Para o ex-presidente, os incêndios não são causados por Bolsonaro, mas o quadro foi agravado “por causa dessa irresponsabilidade dele e da sua turma”.

Assange

Lula também se manifestou sobre o processo de extradição do ativista Julian Assange, fundador do ‘Wikileaks’, para os EUA, onde poderá ser condenado a 175 anos de prisão. “O Assange não pode ser extraditado, se as pessoas acreditam na democracia”, opinou Lula. Para ele, Assange deveria ser premiado pela revelação ao mundo de atrocidades cometidas pelos EUA e outras nações.

“Assange não merece ser punido, merece ser reconhecido como um homem que prestou um enorme serviço à humanidade, denunciando o genocídio das guerras, da mentira, da manipulação dos EUA”, afirmou Lula. Ele cobrou de associações internacionais de imprensa e organizações da sociedade civil uma posição clara em defesa de Assange e da liberdade de expressão. “[A extradição] não será o joelho de um policial sobre um homem negro, será o joelho de milhões de governantes do mundo sufocando o Assange para que ele morra em vida. Não temos o direito de permitir isso”.

 

16
Set20

Sem contestar, Exército paga quase triplo por insumo da cloroquina

Talis Andrade

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Os jornalistas Daniel Mota, Luiz Fernando Toledo, José Brito e Vital Neto da CNN, em São Paulo, informam que o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Celso de Mello encaminhou, em agosto, denúncia à Procuradoria-Geral da República (PGR) protocolada pela deputada federal Natália Bonavides (PT-RN), que pede a responsabilização dos ministros da Saúde, Eduardo Pazuello, e da Defesa, Fernando Azevedo, pela compra dos insumos e fabricação da cloroquina. 
 

Os contratos de compra de insumos de cloroquina também estão sob investigação no Tribunal de Contas da União (TCU), em processo que foi instaurado no mês de junho. A investigação partiu de uma representação encaminhada pelo subprocurador-geral do Ministério Público de Contas da União (MPU), Lucas Rocha Furtado.  

Na representação, o MP também pede que seja averiguada a responsabilidade do presidente Jair Bolsonaro. 

“Decida pela adoção das medidas necessárias a apurar a ocorrência de possível superfaturamento na compra de insumo pelo Comando do Exército para a fabricação do medicamento cloroquina sem que haja comprovação médica ou científica de que o medicamento seja útil para o tratamento da Covid-19, averiguando a responsabilidade direta do Presidente da República na orientação e determinação para o incremento dessa produção”, diz o subprocurador. 

À CNN, o TCU informou que o processo está em fase de instrução na unidade técnica e que após essa etapa, a investigação será encaminhado para o relator, ministro Benjamin Zymler.

Que interessante, o mesmo insumo classificado como superfaturado, ficou 167% mais alto, que o preço cobrado pela mesma instituição dois meses antes. 
 

Na semana passada, a Procuradoria-Geral da República também recebeu uma denúncia sobre a compra e analisa se vai instaurar inquérito. Para especialistas, a falta de justificativa para o aumento de preço dentro de um processo de compra pública pode configurar improbidade administrativa.

O Laboratório Químico e Farmacêutico do Exército já fabrica a cloroquina há anos para tratamento de malária, mas entrou em evidência em 2020 ao ampliar a produção para atender às demandas de distribuição do Ministério da Saúde de tratamento para a Covid-19. O remédio não tem eficácia comprovada contra a doença.

O grupo Sul Minas, representado pelas empresas Sul Minas Suplementos e Nutrição e Sul de Minas Ingredientes, forneceu ao Exército 300 kg de difosfato de cloroquina, a base do remédio, por R$ 488/kg no mês de março de 2020, mesmo preço de um registro licitado em 2019. Dois meses depois, em maio, a mesma empresa vendeu 600 kg do produto ao governo por R$ 1.304/kg, sob a alegação de que os custos internacionais subiram, já que ela não fabrica o insumo, mas somente o importa da Índia.

Marcelo Luis Mazzaro, um dos responsáveis pela empresa, alegou em carta ao laboratório no dia 21 de julho, depois da venda, que a fabricante e fornecedora do produto, a IPCA, teria elevado seu preço em 300% em março de 2020 e em 600% em abril, somado ao aumento de 300% no custo do frete internacional e a variação cambial de 45%.

Isso justificaria a diferença de preços. Os valores absolutos resultantes dessas variações não são apresentados. A primeira venda ao Exército, com valor ainda de R$ 488/kg, teria acontecido somente porque a empresa optou por não repassar esses aumentos à instituição à época, escreveu Mazzaro.

O Laboratório Químico e Farmacêutico do Exército já fabrica a cloroquina há anos para tratamento de malária, mas entrou em evidência em 2020 ao ampliar a produção para atender às demandas de distribuição do Ministério da Saúde de tratamento para a Covid-19. O remédio não tem eficácia comprovada contra a doença.

O grupo Sul Minas, representado pelas empresas Sul Minas Suplementos e Nutrição e Sul de Minas Ingredientes, forneceu ao Exército 300 kg de difosfato de cloroquina, a base do remédio, por R$ 488/kg no mês de março de 2020, mesmo preço de um registro licitado em 2019. Dois meses depois, em maio, a mesma empresa vendeu 600 kg do produto ao governo por R$ 1.304/kg, sob a alegação de que os custos internacionais subiram, já que ela não fabrica o insumo, mas somente o importa da Índia.

Marcelo Luis Mazzaro, um dos responsáveis pela empresa, alegou em carta ao laboratório no dia 21 de julho, depois da venda, que a fabricante e fornecedora do produto, a IPCA, teria elevado seu preço em 300% em março de 2020 e em 600% em abril, somado ao aumento de 300% no custo do frete internacional e a variação cambial de 45%.

Isso justificaria a diferença de preços. Os valores absolutos resultantes dessas variações não são apresentados. A primeira venda ao Exército, com valor ainda de R$ 488/kg, teria acontecido somente porque a empresa optou por não repassar esses aumentos à instituição à época, escreveu Mazzaro.

A negociação dos 600 kg ao preço mais caro se desenrolou em duas etapas, explicou a empresa. Na primeira, em 13 de abril de 2020, depois de ser procurada pelo Exército, a Sul Minas alegou inicialmente que não possuía nenhum estoque e ofereceu um preço de R$ 2,2 mil/kg para importar os insumos, mas o valor foi recusado. Na segunda vez, no dia 30, a empresa melhorou a oferta para R$ 1.304/kg.

A justificativa para a redução repentina no preço foi de que eles passaram a ter um estoque sobrando de 500 kg do material depois de o Instituto de Tecnologia em Fármacos (Farmanguinhos) ter cancelado uma licitação deste produto da qual a Sul Minas participaria. A CNN tentou obter esclarecimentos com a Farmanguinhos sobre o cancelamento, mas o laboratório disse apenas que a aquisição de cloroquina está sendo “reavaliada.”

Os 600 kg do insumo foram vendidos ao Exército em duas partes: os primeiros 100 kg, adquiridos pela empresa no mercado interno, no dia 13 de maio, e os outros 500 kg, da licitação cancelada com a Farmanguinhos, no dia 20. Em nenhuma dessas negociações o laboratório do Exército cobrou que a Sul Minas fornecesse notas de entrada do material no Brasil que comprovassem quanto a empresa pagou pelo produto ou a data em que fez essas importações e compras no mercado interno. Também não consultou os fabricantes na Índia para verificar qual foi a variação de preços do insumo que teriam afetado os custos cobrados pela empresa brasileira.

Os primeiros questionamentos formais do laboratório do Exército à empresa mineira só aconteceram em julho, depois que o certame virou alvo de questionamentos do TCU, cuja tramitação corre em sigilo, em resposta a um pedido formalizado pela CNN por meio da Lei de Acesso à Informação. Também há uma denúncia em análise pela Procuradoria-Geral da República (PGR) protocolada pela deputada federal Natália Bonavides (PT-RN), que pede a responsabilização dos ministros da Saúde e da Defesa pela compra dos insumos e fabricação do medicamento.

O e-mail do laboratório do Exército que pediu esclarecimentos à Sul Minas foi enviado no dia 20 de julho e a empresa respondeu no dia seguinte, dois meses depois de ter vendido o material ao governo. As tratativas, segundo o laboratório, teriam acontecido antes por telefone. A Sul Minas admitiu na resposta ao e-mail que efetuou as compras em março com a IPCA - informação que já havia sido dada durante o processo de venda -mas defendeu que já naquele mês os custos internacionais teriam subido. Não foi apresentada nenhuma prova sobre a alegação de aumento dos custos com a fabricante da Índia, com o argumento de que tais informações são um segredo comercial. O Exército não contestou a resposta e nem fez novas perguntas.

CNN esteve nas sedes da empresa, na pequena cidade de Campanha, no sul do Estado de Minas Gerais, mas seus representantes não quiseram gravar entrevista. A empresa afirmou que houve um grande aumento nos preços do produto na Índia, que teria variado de US$90 em 2019 para US$ 250 em 2020, além do aumento do frete e variação do dólar. Disse ainda que procurou oferecer a melhor proposta ao Exército dentro das condições de mercado. O grupo afirmou ainda que teve um ganho pequeno com a negociação, de cerca de 10% do valor total, e que quem é responsável pela gestão do dinheiro público é o Exército, caso haja qualquer indício de irregularidade na compra.

À CNN, o diretor de compliance da fabricante IPCA Harish Kamath disse que não pode responder por variações de preços no Brasil e que não tinha informações específicas, mas confirmou as alegações da Sul Minas de que houve variações no mercado por causa dos custos com frete aéreo e elevação de custos em geral. Afirmou ainda que a IPCA sofreu com dificuldades para comprar matéria-prima e que seus fornecedores chineses estão cobrando mais caro. O representante disse que não informaria os preços das transações com a Sul Minas ou qualquer cliente pois são informações protegidas por acordos de confidencialidade.

'Inexequível'

Por causa da pandemia da Covid-19, o processo de compra na administração pública no Brasil passou a permitir a dispensa de licitações na "aquisição de bens, serviços e insumos de saúde destinados ao enfrentamento da emergência de saúde pública de importância internacional decorrente do coronavírus."

Para adquirir os insumos da cloroquina, o Exército fez uma consulta de preços que avalia possibilidades como o painel de preços do governo federal, contratações similares, pesquisa em mídia especializada e pesquisa com fornecedores.

A única concorrente da Sul Minas que foi considerada no certame, procurada em 27 de abril pelo laboratório do Exército, foi a empresa MCassab, que fez uma oferta mais cara, de R$ 1,8 mil por quilo. A empresa concorrente da Sul Minas não tinha material em estoque para vender e disse, em sua proposta, que a venda estava sujeita à importação e aos prazos da fornecedora IPCA, na Índia. Procurada, a MCassab não quis comentar.

Já a pesquisa de preços no sistema do governo resultou em um registro de preço da própria Sul Minas, do ano anterior, de R$ 488, e foi descartada automaticamente pelo órgão público por considerar o valor “inexequível” diante da realidade do mercado, embora não haja, no processo, consulta aos preços praticados pelas empresas que fabricavam o material à época. 

O processo das compras incluiu ainda uma imagem de tela (printscreen) de um site chamado Made-in-China, que se descreve como fornecedor de "informações mais completas, precisas e atualizadas sobre produtos chineses e fornecedores chineses disponíveis de qualquer lugar em web”, com preço do insumo a US$ 300, valor mais alto que o negociado com a Sul Minas.

Para especialistas consultados pela reportagem, o Exército deveria pedir esclarecimentos por escrito à empresa do porquê desse aumento de preço ainda durante as negociações. Para a professora de direito administrativo da Damásio Educacional Patrícia Carla de Farias Teixeira, as variações deveriam ter sido justificadas por escrito no processo. “Em um contrato administrativo você pode até fazer contato por telefone, o que é normal. Mas tudo deve ser justificado, até para que não haja a responsabilidade do gestor por possíveis irregularidades. A administração pública é diferente da privada. É preciso justificar o porquê do aumento do preço. Todas as compras precisam ter vantajosidade”. Se comprovada irregularidade, segundo a especialista, o servidor responsável pela compra poderia responder por improbidade administrativa.

“Sem conhecer detalhes do processo, me parece que o Exército teria de ter negociado. Dizer que a mercadoria já estava no estoque da empresa desde março e tentar obter um preço melhor. Também poderiam fazer uma pesquisa mais ampla, procurar com outros fornecedores. Se eles só tomaram as providências de questionar os preços depois de o TCU apontar irregularidade, me parece um procedimento equivocado”, diz o professor de direito administrativo do Mackenzie Alexandre Levin. “A falta de economicidade na compra pública pode gerar responsabilização administrativa. A administração tem de comprar pelo menor preço possível O Exército é um órgão público como qualquer outro e tem de cumprir a legislação.” Ele reforça que a negociação está prevista na Lei 13.979, aprovada em fevereiro com medidas de enfrentamento à pandemia da Covid-19.

Para o advogado Ulisses Penachio, advogado especialista em direito público, o estoque de material não permitiria que o preço fosse mais caro.

“Não pode, inclusive porque se há coerência com o que está no portal (de registo de preços do governo federal) e o que está na proposta de menor valor, é impossível falar em inexequibilidade. Ainda mais, se o que você vende o que já está aqui, em estoque". Ele também contesta o fato de o Exército utilizar a justificativa da Sul Minas para o aumento de preços, mesmo sem nenhum detalhamento dos valores das importações que a empresa fez. “Se é com base apenas em declarações, você tem um processo administrativo de compra frágil. No direito administrativo, tudo tem que ter uma fundamentação técnica. Você não pode simplesmente dizer ‘é assim porque é assim’, não, é assim com base em elementos técnicos e em documentação probatória. Se não você fez o procedimento administrativo de compras, mas ele é frágil. Você não tem como sustentar se não tiver demonstração técnica disso”.Um especialista que trabalha contratos do setor público e pediu para não ser identificado disse que, diante da alta de preços e da suspeita de superfaturamento, o Exército deveria ter cobrado que a empresa abrisse os custos de importação. "Se há qualquer indício de que a empresa está superfaturando, deveriam pedir acesso à nota fiscal de compra do contratado para comparar com o valor que foi vendido", disse.

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27
Ago20

''É preciso repensar todo o modelo que temos de cuidados para os idosos''

Talis Andrade

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De acordo com José Soeiro, o Bloco irá apresentar um conjunto de propostas que visam a implementação de medidas imediatas para mitigar e conter a pandemia nos lares e a criação de um Plano Nacional de Desinstitucionalização das Pessoas Idosas

Por Bloco Esquerda Net/ Portugal

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Conforme explicou o deputado em declarações ao Expresso, o Bloco pretende, por um lado, responder no imediato à crise pandémica. Para esse efeito, quer ver garantida a presença no terreno de equipas multidisciplinares, que incluam profissionais do Serviço Nacional de Saúde, Segurança Social e Proteção civil, para verificar o cumprimento dos planos de contingência. Tal implica, consequentemente, contratar, com caráter de urgência, profissionais para reforço das equipas de fiscalização e inspeção da Segurança Social. A reabertura dos centros de dia deve, de acordo com José Soeiro, depender do cumprimento destes planos e ser precedida de testes à Covid para profissionais e utentes. Os profissionais que voltam de férias também devem ser testados.

Das propostas do Bloco constam ainda a ativação de espaços alternativos para acolher pessoas que estejam em lares sem condições e a domicialização de idosos quando tal for possível.

A par da operacionalização do programa de apoio às IPSS que contratem profissionais para lares, o deputado bloquista quer ver ainda implementado um plano de contratação de equipas de apoio domiciliário.

A “Segurança Social deve deixar de ser apenas financiadora para também providenciar” apoio, defendeu José Soeiro. Ressalvando que a proposta não tem a pretensão de abranger todos os idosos que estão institucionalizados, e nem acabar com as entidades que prestam estes cuidados, o dirigente bloquista vincou que não se entende porque há um “monopólio” privado de prestação de cuidados, sobretudo aos mais velhos. Neste sentido, José Soeiro quer ver criado um plano de desinstitucionalização das pessoas idosas (PDPI).

“É preciso aproveitar o dinheiro que virá para ser investido não só nos lares, mas também nas suas alternativas”, afirmou ao Expresso.

Para cumprir o objetivo de promover a desinstitucionalização dos mais velhos, o Bloco avança com várias propostas, entre as quais a existência de equipas locais de intervenção nas casas das pessoas mais velhas, de modo a garantir as adaptações infraestruturais nas habitações que permitam às pessoas permanecer o máximo de tempo na sua habitação.

Em causa está ainda um reforço substancial do apoio domiciliário, a ser alargado em número de trabalhadores envolvidos, no tipo de apoio prestado, nos horários e dias em que é prestado este serviço, incluindo os fins de semana. Enfatizando que deve passar a haver provisão pública de apoio domiciliário diretamente pela Segurança Social, José Soeiro assinala que esta medida deve incluir um plano de contratação de cerca de 30 mil trabalhadores para esta área.

“Defendemos que deve haver uma provisão pública do apoio domiciliário”, o que implica criar uma valência “que não existe”, apontou José Soeiro. “O Estado deve assumir esse papel nos cuidados em geral”, continuou.

O Bloco pretende também ver reformulado o conceito Centro de Dia e alargado o tempo de atendimento, prolongando-o na habitação do utente, no acompanhamento diário sete dias por semana, e ver assegurado o apoio aos cuidadores informais que acompanhem pessoas idosas dependentes.

Por fim, os bloquistas realçam a necessidade de apostar em respostas de autonomia, nomeadamente com um programa para a criação de projetos de co-housing e de respostas comunitárias, também nas aldeias, que garantam habitação autónoma.

“Este é o momento de um debate que vá além do imediato”

No artigo de opinião Lares: um inferno inevitável?, publicado esta sexta-feira no Expresso, José Soeiro traça o retrato dos cuidados formais para as pessoas mais velhas em Portugal, com somente 12,8% a beneficiar de uma resposta no âmbito da rede de equipamentos sociais (incluindo lares, apoio domiciliário e centros de dia).

“O Estado investe mais de 600 milhões de euros por ano em acordos de cooperação com IPSS para respostas sociais na área da velhice, mas elas funcionam num esquema de monopólio do setor social privado”, escreve, alertando ainda para o “volume preocupante de respostas clandestinas: cerca de 35 mil pessoas residem em 3.500 lares clandestinos. Ou seja, quase 30% dos cerca de 125 mil residentes em lares no nosso país vivem em instituições que funcionam sem enquadramento legal”.

No artigo, o deputado faz ainda referência às condições laborais dos trabalhadores dos lares, condenados a situações precárias, baixos salários e excessiva rotatividade, a par de pouco investimento em formação.

“Não vale a pena olhar para o lado”, alerta José Soeiro, defendendo que “é preciso repensar todo o modelo que temos de cuidados para os idosos”. A par de “medidas imediatas para mitigar e conter a pandemia nos lares”, o deputado considera que “este é o momento de um debate que vá além do imediato” e que aposte “noutros modelos institucionais (mais humanos, mais pequenos, mais respeitadores da biografia e da individualidade das pessoas) e sobretudo num plano de desinstitucionalização”. E é preciso “garantir a participação das próprias pessoas idosas em todo este debate”, aponta.

 

27
Ago20

Por que dizer 'tomei cloroquina e por isso me curei', como faz Bolsonaro, é uma 'falácia' e não prova nada

Talis Andrade

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por Juliana Gragnani
Da BBC News Brasil em Londres

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João estava com dor de cabeça. João tomou suco de laranja. A dor de cabeça de João passou.
Podemos afirmar que a dor de cabeça de João passou porque ele tomou suco de laranja?

A resposta é não.

Dizer que sim é criar uma falsa correlação de causa e efeito.

Pois alguém dizer que tomou cloroquina e, por causa disso, se curou da covid-19, como faz o presidente Jair Bolsonaro, é exatamente o mesmo.

Isso é o que se chama de "evidência anedótica", informal, sem valor científico. E o erro de lógica usado para se chegar nessa "evidência" é uma falácia lógica, chamado também de correlação coincidente ou, em latim, post hoc ergo propter hoc ("depois disso, logo, causado por isso"), explica o cientista David Grimes, autor do livro The Irrational Ape, sobre desinformação relacionada a ciência.

Essa falácia lógica é construída a partir da ideia de que dois eventos que acontecem em uma sequência cronológica estão ligados por meio de uma relação de causa e efeito. Outros exemplos: "Eu espirrei e, segundos depois, a luz caiu". A luz caiu por que eu espirrei? "Hoje de manhã nós dançamos. Mais tarde, choveu." Choveu porque dançamos?

"A gente tem uma pré-disposição para pensar de maneira temporal: 'se aconteceu A e depois aconteceu B, logo B foi causado por A'", diz Natalia Pasternak, doutora em microbiologia pela USP e presidente do Instituto Questão de Ciência. "É intuitivo pensar assim. De maneira genérica, não parece que está errado. O método científico é que é contraintuitivo e precisa ser aprendido."

"As pessoas não param para pensar que existem diversos outros fatores. Uma pessoa pode ter melhorado por causa do remédio, apesar do remédio, ou por causas nada a ver com o remédio. As pessoas atribuem facilmente relações de causa e efeito que não estão lá."

Se João tem uma dor de cabeça, toma um banho, bebe água, toma um chá de ervas, toma um medicamento, bebe suco de laranja, sai para caminhar, tira uma soneca… Qual dessas variáveis ajudou a curar a dor de cabeça? Ou então, será que nenhuma teve efeito para a dor de cabeça, que passou sem interferência dessas ações?

Seres humanos tendem a ser "cegos" para as diferentes variáveis, além de ter vieses de confirmação quando querem acreditar que determinada intervenção ou medicamento funciona para alguma doença, observa Grimes.

Mas casos individuais ou isolados não têm qualquer valor científico.

É porque sem controlar variáveis não dá para chegar à conclusão de que alguém melhorou por causa de um medicamento ou outra intervenção. "O que mais a pessoa fez nesse período da doença? A doença pode ter passada sozinha, como muitas passam. A pessoa pode ter começado a se alimentar melhor, parou de se alimentar com algo que estava fazendo mal e nem sabia, começou a dormir melhor, saiu de um período de estresse. Ou então, houve uma resolução espontânea da doença", enumera Pasternak.

Ela cita seu próprio exemplo: "Eu tive asma infantil, que passou na fase adulta. Imagina que depois de 5 ou 6 anos tendo uma criança asmática, minha mãe decidisse que ia me dar homeopatia. E, depois de um ano, a asma sumisse. Qual seria a conclusão da minha mãe? Que a homeopatia curou minha asma, quando provavelmente foi a puberdade, já que é uma doença tipicamente infantil".

"Isso vai dando força para essas narrativas de evidências anedóticas, com pessoas dizendo: 'eu conheço uma criança que tomou homeopatia e a asma passou'. Essas narrativas são muito fortes na sociedade porque são depoimentos de amigos, conhecidos, que viram isso acontecer", diz Pasternak. "A evidência anedótica sempre tem valor sentimental, emocional que é muito mais forte."

Nosso cérebro responde ao apelo das experiências pessoais, opina o comunicador de ciência Jonathan Jarry, do McGill Office for Science and Society, organização dedicada ao ensino de ciências na Universidade McGill, em Montreal, Canadá. "É por isso que a maneira como contamos histórias em livros e filmes funciona tão bem. Nós amamos uma boa história", diz ele à BBC News Brasil.

"Mas quando se trata de avaliar se um tratamento funciona ou não, as histórias podem confundir em vez de educar. Precisamos recorrer à ciência para remover as variáveis ​​contaminantes e chegar a uma resposta objetiva."

Para Grimes, "os humanos têm dificuldade de encontrar padrões". "As coisas mais vívidas para nossa memória são as anedotas, enquanto estatísticas médicas são entediantes e secas", diz.
As anedotas, diz Jarry, podem, sim, ser usada para gerar hipóteses — que então testamos rigorosamente — , mas elas não são de forma alguma conclusivas.

Isso porque há uma série de razões pelas quais alguém pode ter melhorado que nada têm a ver com o tratamento que afirmam ser a causa da cura.

"Do lado de fora, é fácil ver: você tem doença, recebeu uma intervenção (um medicamento) e depois ficou sem a doença. É muito fácil pensar que a intervenção causou a mudança na situação", diz Jarry. "Mas pode ser que a pessoa tenha feito vários tratamentos diferentes.

Depoimentos pessoais estão cheios de variáveis ​​que não controlamos, sobre as quais nem mesmo estamos pensando, e que podem afetar o resultado final. O papel da ciência é se livrar de tantas variáveis ​​quanto possível, limpar para que tudo o que restar seja exatamente o que nos interessa estudar."

Hoje, existem métodos científicos confiáveis para comprovar se um medicamento tem eficácia para uma doença, e esses métodos passam longe das evidências anedóticas repetidas por Bolsonaro (Continua)

 

22
Ago20

Médica brasileira viveu início de pandemia em hospital francês e compara: “faltou liderança central no Brasil”

Talis Andrade

 

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Silvano Mendes entrevista Otilia Lupi

 

FFI - A infectologista brasileira Otilia Lupi estava em Paris, atuando como médica visitante no serviço de Infectologia do hospital Pitié Salpetrière, uma das referências em termos de medicina na França, quando a pandemia de Covid-19 chegou na Europa. Ela acompanhou o início da gestão da crise sanitária no país europeu e compara com a situação brasileira, onde o surto chegou mais de um mês depois.

"Eu gostei de ter presenciado a chegada da pandemia na França porque tive a oportunidade de ver a complacência de um outro sistema acontecendo”, conta a médica. Ela insiste que são sistemas muito diferentes e que “não seria correto comparar. O colapso aqui é diferente do colapso no Brasil”. 

Otilia já sabia dessa diferença, mas viveu a situação dentro de uma das instituições francesas mais reputadas na luta contra doenças infecciosas, em um momento em que os próprios médicos do país descobriam o vírus que desembarcava na Europa. A infectologista da Fiocruz fazia um estágio de observação no Pitié Salpétrière quando os primeiros pacientes foram hospitalizados, entre fevereiro e março.

“No primeiro momento, eles lidaram com deficiências, que é uma situação crônica também para a gente no Brasil, em particular no Rio de Janeiro, onde eu trabalho e conheço bastante. Foi muito interessante ver como um sistema mais rico foi capaz de encarar a falta. A falta de máscaras, de leito, de médicos, de enfermeiros”, conta a médica, que estava no hospital francês quando o lockdown foi decretado, em 17 de março.

Colapso no Brasil é atender nos corredores ou sobre a pia

Otília lembra que nesse dia os médicos alertavam para o fato de que “faltava muita coisa”. No entanto, ela se recorda que, mesmo se os profissionais falavam em falta de leitos, ela constatou que o hospital ainda podia receber pacientes, algo muito distante de sua realidade no Rio de Janeiro. 

“No Brasil, quando falamos de falta de leito, isso significa que eu estou atendendo no corredor, sobre a pia ou na bancada. Essa é a realidade no Rio de Janeiro. Não é sempre, nem em todos os hospitais, mas eu já passei por essa situação”, compara. “Aqui, apesar de algumas dezenas ou até centenas de leitos prontos para receber pacientes, eu vi as pessoas reclamando que a projeção indicava que seriam necessários mais. Eles não aceitavam a simples possibilidade de, em algum momento no futuro, ter falta de leito.”

A preocupação dos profissionais tinha fundamento, pois se no início do surto todos os pacientes suspeitos de contaminação eram hospitalizados, rapidamente os médicos passaram a receber apenas os casos graves. E em algumas regiões do país faltaram leitos, ao ponto de pacientes serem transportados para hospitais mais vazios, públicos e privados, em outras partes do país ou mesmo em países vizinhos, de trem e até de avião. “É claro que eles tiveram a capacidade de ampliar essa recepção de pacientes de uma forma que tem a ver como recursos e planejamento”, pondera Otilia.

Confiança em um único chefe

A médica também se recorda que no início da pandemia os médicos franceses subestimaram a força do vírus e sua capacidade de contágio pelo mundo. “Eles achavam que iam saber lidar, que estavam acostumados e que ir ser mais uma onda de influenza. Não era consenso que seria um tsunami, mesmo entre os profissionais mais experientes”, conta. Mas logo o contexto se alterou. “Eles mudaram de discurso e passaram a acreditar que, de fato, estavam diante de uma situação nova”, relata. 

Essa adaptação de estratégia no combate ao vírus foi vista em vários países. No entanto, nem todos se organizaram da mesma maneira, como ressalta a médica brasileira. “Baseados em estruturas e conhecimentos de epidemias antigas, os franceses tiveram a capacidade de adequar essa mudança de estratégia, e isso foi muito importante. Claro que a capacidade de compras (de equipamentos) e de captar recursos é maior na França. Mas me chamou a atenção que isso tudo teve a ver com uma liderança central. E isso foi a grande diferença”, constata a médica. “Mesmo se eles mudaram alguns fundamentos básicos sobre a adoção de algumas medidas, eles foram capazes de se adequar a essas novidades, mas sem mudar de liderança. E isso eu acho que faltou ao Brasil”, compara. 

“O discurso foi mudando porque a gente foi aprendendo. Porém, mesmo que houvesse discordâncias e divergências, existia quem ditava a norma. E isso foi fundamental para que eles conseguissem passar esse colapso – para os parâmetros franceses . E, de fato, eles souberam seguir um chefe e isso fez uma enorme diferença, não só no sistema de saúde, mas também para a população”.

A França enfrenta atualmente uma nova fase de contaminações, com mais de 4 mil casos registrados por dia. No entanto, os números de mortes e hospitalizações seguem estáveis, o que leva a crer que o sistema de saúde francês encontrou uma forma de gerir o fluxo de pacientes, apesar de críticas no ápice da pandemia, quando o país foi comparado com vizinhos, como a Alemanha, elogiada desde o início pela gestão da pandemia.

O país tenta agora encontrar a solução para outro problema: a questão da prevenção adequada da população, para evitar novas contaminação nesse momento que já está sendo chamado por alguns de "segunda onda" da Covid-19.

30
Jul20

Vídeos com desinformação sobre a pandemia proliferam e causam mortes

Talis Andrade

 

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Lúcia Müzell entrevista Nina Santos
 

A pandemia de coronavírus trouxe à internet uma invasão de informações no mínimo duvidosas sobre a Covid-19, a sua gestão e eventual cura. O ambiente virtual, terreno fértil para as fake news, influencia o comportamento das pessoas neste momento tão delicado da história. O assunto foi tema da pesquisa "Ciência Contaminada”, que analisou mais de 11 mil vídeos disponíveis na rede, a respeito da pandemia.

A pesquisadora de Comunicação Nina Santos e seus colegas da Universidade Federal da Bahia (UFBA) identificaram quatro principais grupos de publicações no Youtube que incluem a palavra “coronavírus”: vídeos de cunho religioso, complotistas, médicos e de cientistas especializados ou jornalísticos que contêm comentários de especialistas. As conclusões a respeito dos três primeiros grupos são assustadoras. “Eles estão majoritariamente pautados em desinformação, com informações falsas ou imprecisas sobre a doença”, explica a doutora pelo Centro de Análise e Pesquisa Interdisciplinar sobre as Mídias, da Universidade Panthéon-Assas - Sorbonne, na França.

Entre os religiosos, que têm o pastor Silas Malafaia como principal porta-voz, o foco é atribuir a pandemia a uma “praga ou punição divina”, indica Nina. “Por adotarem esse tipo de discurso, acabam minimizando formas de combater e se prevenir do coronavírus”, nota a pesquisadora.

Médicos vendem produtos

Na segunda rede, estão os adeptos das teorias conspiratórias, seguidamente apoiadas em teorias globalistas. Estes vídeos centram o debate sobre o tema nas implicações políticas internacionais, como a hipótese de que o vírus foi criado propositalmente pela China para dominar o mundo, como de pano de fundo.

Na terceira, são os médicos que tomam a palavra – mas não para reforçar a mensagem majoritariamente adotada pela comunidade científica a respeito do combate à Covid-19, com medidas de isolamento. “Isso nos surpreendeu porque poderia ser uma boa notícia, mas na verdade esses médicos se apropriam desse momento para vender alguma coisa. Eles disseminam um discurso de fortalecimento da imunidade e da vida saudável, como se bastasse para combater a pandemia”, conta a professora. “Nas descrições dos seus vídeos, eles aproveitam para vender coisas: um e-book, um curso, um suplemento alimentar.”

A quarta rede, baseada em informação científica comprovada, é composta pelos veículos jornalísticos, que promovem cobertura e debates a respeito do assunto, com a presença de especialistas reconhecidos. “Algumas personalidades cresceram muito neste período, como Átila Iamarino e outros divulgadores científicos, que ajudam a tornar mais palatável a linguagem médica e da pandemia”, observa Nina.

Próxima etapa: hidroxicloroquina

A equipe da UFBA analisa, agora, um segundo relatório específico sobre a hidroxicloroquina, num momento em que o presidente Jair Bolsonaro utilizou, em ampla escala, a sua própria contaminação para fazer propaganda do medicamento. “Ao falar de fake news, é preciso entender que estamos em um momento de crise epistêmica, ou seja, a crise dos centros da sociedade que são capazes de produzir verdades, conhecimentos aceitos por todos. No momento em que temos uma grande crise entre esses atores, que não conseguem entrar num acordo sobre quem é capaz de decidir a verdade, fica muito difícil conseguirmos construir acordos democráticos”, analisa a pesquisadora, citando o exemplo dos dados oficiais de desmatamento da Amazônica, minimizados pelo próprio governo federal.

“O mais grave é que, numa situação de saúde e, especificamente, dessa pandemia, não apenas a gente tem uma dificuldade de construir acordos, mas a gente tem a defesa de discursos que são graves e notadamente falsos, sem nenhum tipo de sustentação científica. Numa situação de pandemia, isso leva a situações concretas como a morte das pessoas”, adverte Nina.

Uma pesquisa recente mostrou que, nos lugares onde Bolsonaro é mais apoiado, o índice de contágios pelo coronavírus é superior. Além disso, a cada vez que o presidente defende publicamente a reabertura da economia ou se reúne em grupo sem proteção contra o vírus, o número de casos de Covid-19 volta a subir nessas cidades.

Combate às fake news: uma necessidade de difícil aplicação

Nina Santos avalia que o combate às fake news deve vir de várias frentes – institucional, pelos governos e a justiça, mas também pelas próprias plataformas digitais. Entretanto, ela é receosa quanto à possibilidade de “privatização” do controle do que é falso ou verdadeiro na internet.

"As plataformas precisam tomar medidas, mas baseadas numa discussão e em guias do que deve ser considerado falso na rede, num acordo social mais amplo, porque senão a gente perde completamente o controle de como o debate público está sendo construído, do que pode ser incluído ou não”, pontua a professora.

Recentemente, a tese de doutorado de Nina Santos foi premiada como uma das melhores do ano de 2019 da universidade Sorbonne, uma das mais respeitadas da França.

 

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