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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

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O CORRESPONDENTE

28
Jul20

4- As classes dominantes e o Governo Bolsonaro

Talis Andrade

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IV - Retrato do Brasil, em impasse perigoso

por Luiz Filgueiras e Graça Druck 

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Contudo, de um ponto de vista que vá além dos acontecimentos políticos mais visíveis e aparentes, é fundamental reconhecer os movimentos conjunturais das classes sociais dominantes e suas distintas frações – que viabilizaram a vitória eleitoral de Bolsonaro, identificando as que continuam acompanhando-o irrestritamente e aquelas que passaram a se opor e criticar, mas que ainda apoiam, seletivamente, o seu governo. Essa é uma variável decisiva para o desenlace do processo, mas muito mais difícil de ser compreendida.

A pandemia trouxe à tona duas posições e comportamentos antagônicos, que cortoaram a sociedade de cima a baixo, inclusive no que concerne a distintas frações do capital: de um lado, os favoráveis ao isolamento social, que reconhecem que se pode contemplar tanto o combate à pandemia (objetivo primário) quanto a defesa da economia e, de outro, a defesa prioritária do funcionamento pleno da economia, combinada com o “isolamento vertical” (isolamento apenas dos grupos de risco). Como de praxe, os interesses imediatos das distintas frações do capital (no caso, prejudicados ou favorecidos, de um lado, pela pandemia e o isolamento social e, de outro, pelas medidas do governo ou a ausência delas) definiram os seus respectivos posicionamentos e comportamentos.

No que se refere ao que se poderia reconhecer como sendo o capital comercial e de serviços, que abrange um enorme e heterogêneo espectro de atividades e negócios – historicamente com a predominância de relações de trabalho mais precárias que na manufatura –, o apoio a uma ou a outra posição não pode ser identificado claramente a partir exclusivamente desse recorte – como se o mesmo constituísse um bloco monolítico. Embora haja uma tendência maior desses capitais de se alinharem com a segunda posição – especialmente os segmentos de pequenos e médios empresários, em virtude da maior dificuldade para enfrentar a crise –, existem também parcelas importantes que apoiam a primeira posição e são críticos de Bolsonaro e de seu governo.

O mesmo vale para distintos segmentos do agronegócio e da indústria, nos quais também não se consegue identificar um comportamento homogêneo dos capitais aí presentes; o que decorre da pulverização de interesses diferenciados relacionados ao tipo de atividade desenvolvida (tipo de produto e destino da produção) e ao tamanho e origem (nacional, estrangeiro ou associado) dos capitais.

Talvez apenas no caso do capital financeiro estrito senso se possa identificar o que se poderia chamar de um comportamento mais homogêneo, de natureza pragmática, que apoia e critica pontualmente, conforme o governo Bolsonaro facilite ou dificulte o encaminhamento da agenda neoliberal; e que na pandemia, por razões quase que óbvias (possibilidade de funcionar com trabalho remoto e manterem as relações com os clientes-consumidores através de plataformas digitais), apoiou o isolamento social.

No que concerne ao grande capital em geral (independentemente de sua origem e do setor de atividade no qual atua), uma primeira constatação: a defesa e execução das reformas e políticas econômico-sociais neoliberais, com a destruição dos direitos sociais e trabalhistas conquistados desde os anos 1930 e ampliados na Constituinte de 1988, unificam todas as frações da grande burguesia, sem exceção. Esse consenso soldou os seus mais diversos interesses no apoio, quase unânime, ao golpe judicial-parlamentar-midiático que construiu e executou o impeachment da presidente Dilma Roussef e, na sequência, sustentou o governo Temer e apoiou a eleição de Jair Bolsonaro – o neofascista neoliberal de ocasião. Esse consenso se constitui na principal razão que explica a resiliência de Bolsonaro e de seu governo, apesar de todas as barbaridades e insanidades já cometidas.

Uma segunda constatação, decorrente da anterior: a derrubada de Bolsonaro não é uma questão de princípio, nem inevitável, para qualquer fração da grande burguesia (outra razão explicativa para a sua resiliência e de seu governo); na verdade, o “melhor dos mundos” para qualquer uma delas seria mantê-lo até 2022, desde que ele se aquiete, suspenda a “guerra cultural” e pare com as ameaças mais explícitas às instituições e ao Estado de Direito. Em suma, desde que venha a ser possível enquadrá-lo e domá-lo, desde que ele não dificulte, não atrase e nem atrapalhe o encaminhamento da agenda neoliberal (reformas e políticas). A ameaça crescente de criminalização dele e de sua família, com a consequente possibilidade de abertura de um processo de impeachment, objetivamente se constitui em uma arma para controlá-lo; funcionando como uma espécie de chantagem.

No final de junho Bolsonaro, claramente amedrontado, começou a emitir sinais, e suposta intenção, de compor com os outros poderes da República. Caso isso não se viabilize, o que é provável, tendo em vista a natureza e o comportamento histórico do fascista (com recuos táticos momentâneos para poder recompor suas forças e depois retomar o ataque), o vice-Presidente Mourão pode se constituir no “Plano B” do grande capital. A pior saída para as classes dominantes seria a cassação da chapa Bolsonaro-Mourão, em virtude de fraudes cometidas na eleição de 2018; porque implicaria uma indesejável nova eleição, que anteciparia a disputa programada para 2022.

Isso nos remete a uma terceira constatação, decorrente das duas anteriores e que também explica a resiliência de Bolsonaro e de seu governo: o inimigo maior, estratégico, da grande burguesia é a esquerda antifascista e, principalmente, antineoliberal. O golpe de 2016, apesar de expressar uma disputa entre distintas frações da burguesia, foi, sobretudo, contra a esquerda, no seu sentido mais amplo, e pela retomada da agenda neoliberal. A eleição e o governo de Bolsonaro foram o seu desdobramento necessário. É por isso que os prepostos do grande capital – na mídia, no judiciário e no Congresso – criticam ou apoiam e aprovam, seletivamente, o comportamento de Bolsonaro e as ações de seu governo: duras críticas àquelas relacionadas à “guerra cultural” e ao autoritarismo mais explícito, mas efusivo e entusiástico apoio às medidas econômicas “pró-mercado” – como a recente aprovação pelo Congresso Nacional da possibilidade (para alguns a obrigatoriedade) de privatização da área de saneamento básico do país (água, esgoto etc.).

A constatação anterior também explica porque não há qualquer autocrítica do grande capital, e mesmo da classe média alta, com relação ao golpe efetivado com o impeachment fraudulento da então presidente Dilma Roussef; e muito menos o reconhecimento de que Bolsonaro e o seu governo foram o seu corolário necessário – mesmo quando os seus prepostos se dizem arrependidos de terem votado e acreditado no fascista, com muitos deles fingindo que não sabiam ou não tinham ideia de suas intenções e do que ele seria capaz. Assim, o comportamento padrão é sempre o de imputar ao PT e a seus governos a responsabilidade pelos eventos que desembocaram na eleição de Bolsonaro e no seu governo ou, no máximo, assumir uma explicação qualquer ad hoc; não há qualquer dilema de consciência ou de culpa com relação à crescente tragédia sanitária que vem ocorrendo, que tem tido a contribuição fundamental de Bolsonaro e o seu governo. (Continua)

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