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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil. As melhores charges. Compartilhe

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O CORRESPONDENTE

01
Ago23

Amazônia – garimpo, mercúrio e genocídio indígena

Talis Andrade
Imagem: Tom Fisk

O garimpo de ouro é ilegal em terras indígenas, o descarte de mercúrio na natureza é criminoso, os indígenas são protegidos pela Constituição Brasileira, mas o genocídio segue ininterrupto na Amazônia Legal

por Samuel Kilsztajn

A Terra É Redonda

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No século XVI, os portugueses invadiram e colonizaram as terras do Brasil e promoveram o genocídio dos povos indígenas que habitavam a região. Até meados do século XX, os juruás (brancos alienígenas) haviam se restringido a ocupar, basicamente, apenas o litoral do país. Contudo, com a internacionalização do capital produtivo que se seguiu à Segunda Guerra Mundial, os alienígenas resolveram transferir a capital do país para o interior, de modo a tomar posse do Centro-Oeste e da bacia Amazônica.

Quando a capital foi transferida do Rio de Janeiro para Brasília, diversas etnias indígenas, que haviam sobrevivido às perseguições e ao genocídio perpetrado pelos europeus desde o “descobrimento” do Brasil, tiveram que enfrentar a apropriação de terras que até então não haviam sido cobiçadas pelos juruás. Os invasores, com seus cartórios e títulos de propriedade espúrios, inverteram a ordem dos fatores, comportando-se como se os intrusos fossem os milenares habitantes destas terras.

O genocídio dos indígenas, iniciado no século XVI, ganhou então novo ímpeto. O que para os juruás era ocupar um espaço vazio com um museu futurista a céu aberto, para os indígenas foi o grande assalto às suas terras na segunda metade do século XX, que abriu caminho para a rodovia Transamazônica, durante a ditadura militar, e constitui hoje o pesadelo que sangra vivo na Amazônia legal. No compasso da Transamazônica, o meu colega Antônio Delfim Netto, por meio de incentivos fiscais, distribuiu glebas na Amazônia para as grandes empresas do país, como terras devolutas, embora fossem habitadas por indígenas e sertanejos que possuíam a terra, mas não possuíam títulos de propriedade.

O garimpo é ilegal em terras indígenas e o mercúrio é largamente utilizado na amálgama com o ouro na lavagem do minério na Amazônia. O mercúrio, metabolizado pelos peixes, ao ser ingerido por animais e seres humanos se acumula no sistema nervoso e é altamente tóxico, levando à perda da coordenação motora, danos irreversíveis na reprodução e, em casos extremos, à morte. A intoxicação por mercúrio é conhecida como doença de Minamata, diagnosticada em 1956 em vítimas da contaminação de águas residuais da indústria química japonesa Chisso.

Além do garimpo em terras indígenas ser ilegal, o mercúrio utilizado pelo garimpo do ouro provém do comércio também ilegal agenciado por redes de tráfico internacional. A Constituição Brasileira reconhece o direito dos povos originários de manter sua identidade e, portanto, deveria proteger os indígenas da invasão e exposição ao ávido mercado do garimpo de ouro, que tem arregimentado parte da população indígena na defesa de sua extração.

Estudos da Fiocruz constatam elevados níveis de mercúrio entre os povos Yanomami. O neurologista Erik Jennings, da Secretaria Especial de Saúde Indígena, analisou os níveis de mercúrio no sangue de mais de uma centena de moradores do Alto Tapajós. A ONG Repórter Brasil divulgou os resultados da pesquisa de Erik, com 99% da população examinada apresentando níveis superiores ao considerado seguro pela Organização Mundial da Saúde, alguns com nível até 15 vezes superior ao recomendado. Repórter Brasil também lançou recentemente o documentário Relatos de um correspondente de guerra na Amazônia de Daniel Camargos e Ana Aranha em homenagem a Dom Phillips e Bruno Pereira, assassinados em junho de 2022. O Pulitzer Center on Crisis Reporting, através do programa Rainforest Journalism Fund, com inscrições sempre abertas para novas propostas, tem financiado os custos de viagens de jornalistas, escritores e cineastas e divulgado os trabalhos que retratam a grave situação da Amazônia. O documentário Amazônia, a nova Minamata? de Jorge Bodanzky e Nuno Godolphim denuncia o impacto destrutivo do garimpo de ouro e a contaminação por mercúrio do Vale do Tapajós, território dos Munduruku, que ameaça todos os povos indígenas da Amazônia.

O império da mercadoria, que transborda as relações produtivas, transforma tudo em mercadoria, até montanhas, rios, honra etc. Krenak conta que foi procurado por uma grande rede de supermercados para que intermediasse a produção de 10 mil balaios. A rede de supermercados achava que estava fazendo um favor aos indígenas, oferecendo trabalho a eles, mas o Krenak se recusou dizendo que os indígenas não são idiotas, não são adeptos do fordismo.

A doutrina do progresso é um engodo. A mercadoria sempre justifica o progresso técnico, escondendo-se atrás do dever de atender as necessidades dos pobres, eternamente mantidos pobres para que continuem justificando o progresso. O destino dos pobres é passar necessidades básicas em meio à opulência e ao desperdício dos ricos, que vivem cercados por uma parafernália de novos produtos supérfluos de última geração. Estamos atravessando a Era da distopia, uma sociedade do espetáculo, do consumo, do desperdício e da produção de lixo que convive com uma população que revira o lixo das grandes cidades em busca de alimentos e de materiais recicláveis para revenda.

Pedro Álvares Cabral e seus companheiros não solicitaram visto de entrada às autoridades indígenas para desembarcar nas terras do Brasil. Não solicitaram visto, apropriaram-se das terras dos nativos e ainda saíram caçando seus habitantes, uma atitude muito pouco cortês e nada civilizada desses europeus, muitas vezes justificada com o pretexto de civilizar os indígenas, impondo à força sua verdade sobre a deles. Uma atitude, poderíamos dizer, até selvagem por parte desses imigrantes. Os povos autodenominados civilizados carregam em seu imaginário que sua cultura é superior e invejável, e que todos os povos assim chamados primitivos gostariam de ser civilizados como eles.

Leonardo Boff disse que não nos satisfaz o meio-ambiente, pois queremos o ambiente inteiro. Entre as riquezas da Amazônia, o que eu mais gostaria que fosse preservado é a cultura desses povos originários das terras do Brasil, que continuam militando pela vida, apesar de cinco séculos de assalto e genocídio. Nunca me identifiquei como economista, apesar da vida, por capricho, ter me graduado e qualificado como mestre, doutor e titular em economia; mas faço questão de usar todas estas minhas credenciais para me declarar contra o progresso econômico. E, como não sou nativo, também faço questão de utilizar o nome Samuel Juruá na minha apresentação e correspondência com os indígenas. Faço votos para que possamos todos aprender com esses “primitivos” a nos desfazer do peso e dos grilhões da mercadoria, faço votos para que possamos voltar a nos integrar à terra, às plantas, aos animais e à vida comunitária.

E para onde vai todo esse ouro extraído do subsolo da Amazônia? Por incrível que pareça, depois de extraído, depois de todos os estragos que causa, esse festival de horror, o ouro volta para o subsolo, para o subsolo dos bancos centrais, porque é muito pesado para ser depositado nos pisos superiores de suas sedes. E quando o Banca d’Italia vende ouro para o Deutsche Bundesbank, o ouro não viaja de navio nem de trem; tampouco é carregado da pilha de lingotes da Itália para a pilha de lingotes da Alemanha depositadas em um dos muitos bancos centrais, digamos o Federal Reserve. Basta trocar a plaquinha da pilha de lingotes com o nome Banca d’Italia por uma plaquinha onde se lê Deutsche Bundesbank e estamos conversados.

01
Ago23

"Tarcisio tem que ser responsabilizado pela chacina do Guarujá. Ele avalizou o massacre", diz Alex Solnik

Talis Andrade

Meu jeito de ser

Meu jeito de ser

 

“É a Alesp que tem que abrir um inquérito, um impeachment, uma investigação a respeito da atuação do governador em São Paulo”, sugeriu o jornalista em entrevista à TV 247

 

Em uma entrevista ao Bom Dia da TV 247, o jornalista Alex Solnik fez duras críticas ao governador de São Paulo, Tarcisio de Freitas, em relação à recente chacina ocorrida no Guarujá. Segundo Solnik, o governador deve ser responsabilizado pelo ocorrido.

Solnik afirmou sua preocupação com os acontecimentos e a importância de uma resposta adequada por parte das autoridades. "Tarcisio tem que ser responsabilizado pela chacina do Guarujá. Ele avalizou o massacre." Em suas declarações, Solnik defendeu a abertura de uma investigação pela Assembleia Legislativa, destacando o papel do deputado Eduardo Suplicy na Comissão de Direitos Humanos: "O deputado Eduardo Suplicy [...] já anunciou uma viagem ao Guarujá para conversar com os moradores e tenho certeza que a partir dessa ação a Assembleia Legislativa vai tomar uma atitude dura contra o governador, para que isso não mais se repita. A punição tem que ser muito grave."

Solnik completou: “Estou esperando a Assembleia Legislativa de São Paulo atuar para investigar o governador, porque ele elogiou a chacina. Ele precisa dizer qual é a posição dele a respeito da segurança pública em São Paulo. É a Assembleia Legislativa que tem que abrir um inquérito, um impeachment, uma investigação a respeito da atuação do governador em São Paulo”.

O caso em questão refere-se à Operação Escudo, desencadeada após o assassinato do policial Patrick Bastos Reis. Durante a operação, ocorreram denúncias de excesso policial, resultando em mortes de civis. Uma comissão formada pela Ouvidoria das Polícias do Estado de São Paulo, pela Comissão de Direitos Humanos da OAB e pelo Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana está atualmente no Guarujá para investigar as alegações de abusos cometidos durante a ação.

Em resposta às críticas, o governador Tarcisio afirmou estar "extremamente satisfeito" com a atuação da polícia em resposta à morte do policial da Rota. Ele ressaltou a importância de agir contra as agressões aos policiais e prometeu investigar os fatos.

 

01
Ago23

Para Nikolas Ferreira piada sobre nazismo, negros, holocausto é liberdade de expressão

Talis Andrade

nazista__emanuele_del_rosso.jpg

 

Internautas pediram a cassação do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) após o parlamentar defender piadas sobre negros ou nazismo. No Twitter, as críticas ao congressista chegaram ao trending topic (tópico em tendência), um dos assuntos mais comentados da rede social. 

O deputado federal André Janones (Avante-MG) afirmou que vai cobrar da Procuradoria-Geral da República (PGR) providências contra o parlamentar bolsonarista. 

“Qualquer apologia ao nazismo, ainda que disfarçada sob a manta do “direito de expressão”, deve ser punido com cassação de mandato, inelegibilidade e, a depender da gravidade do caso, com PRISÃO!”, afirmou Janones, que escreveu:

"A fala do Deputado Federal Nikolas Ferreira, onde ele defende indiretamente o nazismo e relativiza o holocausto, apenas confirma o que venho falando TODOS OS DIAS: o bolsonarismo precisa ser criminalizado URGENTEMENTE, exatamente como a Alemanha fez com o Nazismo".

Em entrevista ao podcast “Irmãos Dias”, Nikolas Ferreira disse que a liberdade de expressão assegura aos comediantes a possibilidade de fazer piadas relacionadas ao holocausto e envolvendo pessoas negras. Segundo o parlamentar, a regulação de discursos que possam promover ódio contra grupos sociais deve ser uma responsabilidade compartilhada pela própria sociedade.

“A liberdade de expressão é uma discussão muito mais profunda do que as pessoas acreditam. Você tem um autor que relata que existem judeus que não são contrários a uma tese que foi feita por um estudioso que colocou o holocausto como se fosse mentiroso. Se for parar para pensar, o holocausto aconteceu, nós vamos deixar gente falar que o holocausto não aconteceu e ficar influenciando pessoas? A própria comunidade judaica deu a liberdade para esse cara falar isso, porque? Segundo ele, a liberdade de expressão é plena em uma sociedade que se autorregula, não é censurando as coisas, deixando que as coisas aconteçam e que as pessoas consigam analisar que aquilo é um absurdo”, inicia o parlamentar.

 “Nos EUA, por exemplo, tem o partido nazista, não tem relevância nenhuma. As pessoas vão olhar e falar: ‘isso é ridículo, não vou fazer parte daquilo’, mas tem também o outro lado: toda a liberdade tem o seu limite, você não tem uma liberdade de expressão para poder chegar dentro de um hospital e fazer uma piada com uma pessoa com síndrome de down, porque ali não é o ambiente e nem o local para isso”, acrescentou o bolsonarista.

Os colunistas Alberto Bombig e José Roberto de Toledo debateram sobre os limites da liberdade de expressão para parlamentares ao repercutirem o caso do deputado Nikolas Ferreira.

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