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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

02
Set20

"A PM é a instituição mais genocida do Brasil"

Talis Andrade

protesto violencia poliicial.jpg

Protesto contra violência policial no Rio de Janeiro: "vítimas são na grande maioria a população negra, jovem, favelada"

 

por Marcio Damasceno/ DW

A fabricante de armas Heckler & Koch (H&K), uma das maiores do ramo na Alemanha, anunciou na quinta-feira (27/08) que não exportará mais armamento para o Brasil, citando como motivos "as mudanças políticas" no país, "especialmente as agitações políticas antes das eleições presidenciais e a dura ação da polícia contra a população", conforme afirmou o porta-voz da empresa em reunião anual de acionistas.

O anúncio confirmou a decisão divulgada na reunião de acionistas da H&K do ano passado, de "não fornecer mais armas para o país depois da eleição de Jair Bolsonaro". A medida foi divulgada após questionamentos da Associação de Acionistas Críticos da Alemanha, entidade que forma uma rede de organizações alemãs que compram ações de empresas para cobrar delas respeito a temas como direitos humanos e meio ambiente, entre outros.

Na opinião do ativista Christian Russau, membro do conselho de direção da ONG, essa é uma pequena vitória para um objetivo ainda maior: a proibição da venda de armas alemãs para o Brasil.

"A Polícia Militar no Brasil é, na minha visão, a instituição mais genocida do país, e as vítimas são na grande maioria a população negra, jovem, favelada. Enquanto ainda faltar um controle democrático e efetivo das ações dessa polícia, não deveria ter exportações de armas da Alemanha", diz Russau.

Em entrevista à DW Brasil, o cientista político e escritor explica como a associação atua e quais os principais problemas abordados pela ONG sobre o papel de empresas alemãs em possíveis violações e abusos no Brasil.

 

DW Brasil: Pode-se dizer que a suspensão da venda de armamentos ao Brasil pela Heckler & Koch é uma vitória da Associação de Acionistas Críticos da Alemanha?

Christian Russau: É a vitória de muitos grupos que durante muitos anos criticaram a H&K por causa das armas que eles exportaram, por exemplo, para o México, algo proibido pela legislação alemã. Esses grupos fizeram muita pressão, então a imagem da empresa nos últimos anos vinha piorando bastante.

Pode ser que, considerando que as vendas para o Brasil não representam tanto financeiramente, a companhia tenha avaliado que a má imagem não era algo que compensasse nesse caso. Então eles talvez tenham preferido, dessa vez, fazer papel de bonzinhos.

Isso é para nós uma pequena vitória. Claro que queríamos que o Brasil fosse banido pelo Estado alemão de receber armas. A empresa Sig Sauer tem planos de fechar aqui e abrir uma joint venture no Brasil. Achamos que, segundo as leis de exportação alemãs, isso deveria ser proibido e também que a Glock, da Áustria, não deveria mais fornecer armas para o Brasil. Mas para que isso ocorra, os ativistas da Áustria deveriam fazer pressão sobre a Glock.

 

Por que a Alemanha deveria proibir a venda de armas de empresas alemãs ao Brasil?

A Polícia Militar no Brasil é, na minha visão, a instituição mais genocida do país, e as vítimas são na grande maioria a população negra, jovem, favelada. Enquanto ainda faltar um controle democrático e efetivo das ações dessa polícia, não deveria ter exportações de armas da Alemanha.

 

Como a associação tem agido em relação ao atual governo brasileiro?

Poucos meses antes das eleições, houve uma sabatina na Confederação Nacional da Indústria (CNI), e lançamos uma nota protestando contra o comportamento da CNI, elogiando um político que tem comportamento e discurso fascista, algo totalmente perigoso. Criticamos especialmente as empresas alemãs, que não são membros da CNI, mas, pelas suas filiais brasileiras, são membros das entidades empresariais estaduais.

Criticamos que as empresas alemãs estejam no Brasil fazendo negócios e até mesmo elogiando o governo Bolsonaro, dizendo que os ministérios da Economia e Infraestrutura estão levando o país para frente e que é necessário flexibilização das leis ambientais, desmantelar o sistema de licença prévia, licença de instalação e operação, algo que é muito importante para garantir o direito das pessoas e das comunidades que estão na área de grandes empreendimentos. 

Então, fazemos as campanhas criticando, esperando que algumas delas acordem e comecem a se distanciar ativamente de um governo literalmente fascista, como avalio o governo Bolsonaro.

 

Pode citar algum exemplo de outros avanços já conseguidos no que diz respeito ao Brasil?

Tivemos sucesso, por exemplo, no caso da Allianz, que é uma das maiores seguradoras do mundo e fez uma parte do seguro da hidrelétrica Belo Monte. Em 2013, questionamos o papel da empresa na Belo Monte, em relação às consequências ambientais e também violações de direitos humanos. Desde então, a Allianz se comprometeu a não assegurar projetos em que o direito à Consulta Prévia, Livre e Informada (CPLI) dos povos indígenas não é respeitado.

Com isso, vários projetos na Amazônia, por exemplo, podem deixar de ser assegurados pela Allianz, se são empreendimentos em que a CPLI não é respeitada. E se soubermos que a Allianz está envolvida neles, poderemos protestar fortemente.

A ideia é que isso se dissemine para outras seguradoras, e que essas empresas tenham mais dificuldade em conseguir seguro, e mais dificuldades em conseguir financiamentos para empreendimentos e, dessa forma, mudar algo gradualmente. Somos nitidamente fracos porque só temos uma ação de cada empresa, mas podemos tentar algumas coisas. (Transcrevi trechos)

01
Set20

Saída de Dallagnol antecipa fim da Lava Jato

Talis Andrade

lava jato moro cabeça 1.jpeg

 

 

por Alex Solnik

- - -

O procurador Deltan Dallagnol percebeu o cenário desfarovável e resolveu se antecipar ao procurador Augusto Aras. Antes que este anuncie a dissolução da força tarefa e, portanto, o fim da Operação Lava Jato, provavelmente na próxima semana, ele pediu o boné. Saiu para não ser saído.

Sem Moro, a Lava Jato perdeu metade do poder. Agora fica sem os 50% que restavam. Ou seja: com seu gesto, Dallagnol também antecipou o anúncio do fim da Lava Jato.

Sem Moro e sem Dallangol não tem Lava Jato.

Malgrado as desgraças em série que a Lava Jato produziu para a indústria e para a democracia brasileiras, já vai tarde, portanto, é impossível deixar de enxergar um movimento político pró governo no cerco de Aras ao feudo Moro-Dallagnol.

Certamente Aras não foi movido por sentimento de lealdade ao estado de direito que levava surras da Lava Jato e sim por lealdade ao presidente da República, o que, convenhamos não é papel de um Procurador Geral da República.

Acabar com a Lava Jato era o sonho de consumo de líderes do Centrão que foram ou são alvos da operação. Ficarão eternamente gratos a Bolsonaro.

Como teriam ficado gratos a Dilma. E não a teriam derrubado.

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01
Set20

Deltan joga a toalha

Talis Andrade

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por Fernando Brito

- - -

É evidente que, se problemas de saúde na família há, devem ser respeitados, como os de qualquer pessoa.

Mas essa não é a razão da saída de Deltan Dallagnol da Força Tarefa da Operação Lava Jato em Curitiba.

Deltan já tinha mais reclamações contra suas arbitrariedade do que seu escudo de blindagem judicial e midiática poderiam suportar.

Aliás, desde que partejou aquela estranhíssima fundação que deixaria sob o comando dos procuradores fundos bilionários pagos pela Petrobras, até mesmo em sua corporação togada passou a ser questionado.

No julgamento do Conselho Nacional do Ministério Público da terça-feira, safou-se por conta de um voto mutante do conselheiro Sebastião Caixeta que primeiro reconhecei a necessidade de abrir um processo administrativo disciplinar contra ele mas, com o julgamento já adiantado, em outros votos, “esclareceu” que o processo era merecido, mas intempestivo, por força das penas mais brandes terem prescrito. Prescrição, claro, alcançada pelos 42 adiamentos que o processo sofreu no CNMP.

Seu futuro parece ser a advocacia privada para grandes grupos ou uma nada improvável carreira política.

A saída de Deltan, entretanto, é uma benção para o seu patriarca, Sergio Moro. Deixa-o como “o último dos moicanos” da Lava Jato que, na prática, passa a ser dirigida por Augusto Aras e, portanto, sensível aos desejos do bolsonarismo.

Aras, aliás, tem conduzido para o seu campo de interesses a anomalia da delação premiada e parece pronto a esticar seus cordéis em outras direções.

Há razões para temer que, recuando Moro de suas pretensões políticas, resolva-se deixar a cabeça de Lula como prêmio da “pax togada” entre as corporações judiciais.

01
Set20

Dallagnol foi o primeiro alvo das nossas revelações, lembra Glenn Greenwald

Talis Andrade

dallagnol doudo por jaba no ceará .jpeg

 

 

O jornalista Glenn Greenwald, editor do Intercept, não acredita que o procurador Deltan Dallagnol tenha deixado o comando da Lava Jato em razão de problemas de saúde na família, como foi oficialmente alegado. Em posts no Twitter, ele afirmou que Dallagnol foi o primeiro alvo das revelações da Vaza Jato, série de reportagens que demonstrou abusos na condução da operação. 

A autodenominada Lava Jato, ou Liga da Justiça da República de Curitiba, acabou de podre. Basta investigar os traficantes de moedas Dario Messer e Tacla Duran que pagaram propinas para procuradores. 

"Essa é a famosa saída de fininho", comentou Tacla Duran. 

aroeira moro dallagnol.jpg

01
Set20

Qual é a régua desse juiz que mediu o tamanho do GGN?

Talis Andrade

 

Com a sentença esse juiz deu publicidade aos fatos publicados no jornal, muito maior que até então alcançara, já é matéria no exterior

 

 

 

01
Set20

“Cala a boca já morreu”: Associação Brasileira de Imprensa repudia censura a Luis Nassif e GGN

Talis Andrade

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A ABI, Associação Brasileira de Imprensa, emitiu uma nota pública apoiando o GGN contra a censura judicial imposta a 11 reportagens assinadas por Luis Nassif e a repórter Patrícia Faermann, que comprovam as negociatas do banco BTG Pactual de André Esteves, e fundado por Paulo Guedes.

Negociatas bilionárias com a Prefeitura de São Paulo e, notadamente, o Banco do Brasil.

Sob pena de multa de R$ 10 mil por dia, o site foi obrigado a remover todo o conteúdo do ar. O GGN vai recorrer da decisão.

Na nota assinada pelo presidente Paulo Jerônimo, a ABI informa que “por acreditar e defender o ‘cala boca já morreu’, da ministra Cármen Lúcia, do STF, está buscando, por meio de sua assessoria jurídica, ingressas na ação, na condição de ‘amicus curiae’, para defender o direito à liberdade de expressão do jornalista Luis Nassif.”

01
Set20

Abraji condena censura ao GGN e diz esperar revisão

Talis Andrade

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A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) lamentou, nesta segunda (31), a censura ao GGN, determinada pela Vara Civil do Rio de Janeiro, para retirar matérias que mostram as negociatas do banco BTG Pactual (banco fundado por Paulo Guedes) e as relações promíscuas da Lava Jato de Curitiba.

A Abraji condena a sentença de Leonardo Grandmasson Ferreira Chaves (foto) e espera que o magistrado ou alguma instância jurídica superior reveja a decisão. 

A Abraji lamenta que, apesar dos avanços conquistados pelo nosso regime democrático, um juiz possa determinar uma medida extrema como impedir a circulação de reportagens por meio da antecipação de tutela. 

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Abraji lamenta censura ao jornalista Luis Nassif

Na sexta-feira, 25.ago.2020, o juiz Leonardo Grandmasson Ferreira Chaves, da 32ª Vara Cível da cidade do Rio de Janeiro, determinou que o site GGN, editado pelo jornalista Luis Nassif, retirasse do ar todas as reportagens relacionadas ao banco BTG Pactual. 

Desde o início do ano, o GGN vem publicando reportagens sobre supostas irregularidades em ações do BTG Pactual e em licitações envolvendo a empresa Zona Azul. As matérias e os artigos foram assinados por Luis Nassif e pela repórter Patrícia Faermann.

No pedido enviado à Justiça, os advogados do banco afirmam que as reportagens “têm por objetivo desacreditar a idoneidade do banco”.

No despacho, o juiz estabeleceu uma multa diária de R$ 10 mil em caso de descumprimento. E afirma que “o réu possui diversas matérias retratando o Banco BTG Pactual, todas adotando uma linha relacionando o banco a grandes escândalos, corrupção, etc, parecendo, pelo conjunto da obra, uma espécie de campanha orquestrada para difamar o banco.”   

O magistrado não entrou no mérito das apurações levantadas pela equipe do GGN e concluiu que as reportagens devem ser excluídas por “transbordarem os limites da liberdade de expressão”.

A Abraji lamenta que, apesar dos avanços conquistados pelo nosso regime democrático, um juiz possa determinar uma medida extrema como impedir a circulação de reportagens por meio da antecipação de tutela. Buscar reparação judicial é direito de empresas e cidadãos, mas censurar conteúdo jornalístico fere a liberdade de expressão assegurada pelo artigo 5º da Constituição. A Abraji condena a sentença de Leonardo Grandmasson Ferreira Chaves e espera que o magistrado ou alguma instância jurídica superior reveja a decisão.

Diretoria da Abraji, 31 de agosto de 2020.
 

01
Set20

Janio de Freitas, uma lição para os jovens (e nem tão jovens) jornalistas

Talis Andrade

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Para um velho jornalista, embora muito distante de um decano de nossos comentaristas políticos como é Janio de Freitas, é um bálsamo saber que o emprego não te obriga seu caráter a capitular ante o vício, nem a dureza de suas posições não implica na grosseria e na agressão verbal.

Janio reage, hoje, contra a agressão tola e estúpida feita pela Folha à ex-presidente Dilma Rousseff, com o editorial “Jair Roussef”, fazendo uma comparação, além de insultante, totalmente despropositada.

Janio não repisa os argumentos que, destaca, foram bem levantados por Cristina Serra, em artigo na própria Folha (reproduzido aqui neste blog ) e por Conrado Hübner Mendes e Nelson Barbosa, também no jornal.

Faz, antes, a crônica das contradições que vive o jornal paulista, que pretende ser moderno e plural, mas que cede à tentação da mesquinharia por suas “quedas de asa à direita”, como define o colunista.

A queixa contra o desprestígio que a Folha vota a ele próprio, Janio, durante 30 anos um sinônimo do jornal, é feita com elegância triste, quase que a de um epitáfio: “Sou, por exemplo, uma prova (ainda) viva, entre muitas, de que censura é inconciliável com os cânones da Folha. Já foi observado por inúmeros leitores, no entanto, que determinados comentaristas não são chamados à Primeira Página, ou o são rarissimamente. Embora possam ter frequente presença entre os mais lidos, no jornal e na internet.”

É e será enquanto o tempo permitir, a lembrar que nas páginas tão coloridas dos jornais de hoje, é preciso quem saiba colocar com traços finos e e cortantes, o preto no branco, como ele faz.

A Folha no Erramos; editorial ‘Jair Rousseff’
trouxe de volta o tratamento de ‘ditabranda’

Janio de Freitas, na Folha

O jornalismo das últimas décadas, entre nós, vem fechando olhos e ouvidos para o leitor, cada vez mais. Com a consequência automática de tiragens em permanente queda livre e apelo ilusório à soma das versões impressas e digital, para socorrer os slogans. Na própria soma, está uma prova do descaso, que lhe deu o preguiçoso nome de audiência, referente a nada mais do que audição, captação de sons.

Da parte dos leitores, os equívocos vêm, em grande parte, de insatisfações e indignações que se retroalimentam porque, aqui, o jornalismo não se ocupa da imprensa como notícia normal. Um caso exemplar se tornou, na Folha, tabu que assumo a responsabilidade de romper, como outros que este jornal no passado me permitiu desrespeitar.

Trata-se do empréstimo, não sei se apenas episódico, de veículos da Folha à repressão na ditadura. Desde a redemocratização, essa colaboração substantiva e indigna é uma tinta pegajosa e indelével lançada contra a Folha, com justos motivos. Como sentença moral restaurada a cada atitude reprovável por determinados segmentos leitores.

À Folha não falta soberba, mas não vem daí a falta de explicação satisfatória para o erro. A impessoalidade do jornal e o seu silêncio levaram o ônus aos dois controladores da empresa, Octavio Frias e Carlos Caldeira Filho.

O primeiro, incumbindo-se sobretudo da atividade editorial; o outro, voltado mais para setores administrativos. A Caldeira credita-se a criação e comando de um modelar serviço de transporte e entrega de jornais, incomparável na imprensa brasileira da época, pela modernidade e dimensão da frota. Da qual saíram os veículos para o serviço sórdido.

Nunca ouvi que alguma vez Caldeira tenha clareado o ocorrido. Frias, muito menos. Mais onerado do que o sócio, dada a maior notoriedade da condução editorial, em 1993 a morte de Caldeira tornou Frias o alvo único. Um equívoco, além de intocado, ampliado. Não tem por que permanecer.

Da ditadura ainda tão presente ao presente ameaçado de sua volta: o editorial “Jair Rousseff”, no sábado (22), trouxe de volta a muitos leitores o tratamento de “ditabranda” certa vez aplicado, também em editorial, aos anos de tortura e assassinato nos quartéis.

Deste erro afrontoso adveio outro equívoco traumatizante nas relações entre o jornal e imensa parte da então centenas de milhares de leitores. Difundiu-se que Otavio Frias Filho, já diretor de Redação, foi o autor do editorial. Ou, em versão mais arriscada, quem determinou o uso do termo.

O que houve não era novidade, um editorialista revestindo com a autoridade do jornal o que, pode-se presumir por outros motivos, era ou é um conceito seu. Do jornal que publicara, e continuou publicando, tantas revelações de crimes de militares e da ditadura em geral, é que tal conceito não era.

A exemplo de Octavio pai, Otavio Filho guardou silêncio a respeito do editorial. Não há dúvida de que a imputação incabível o feriu. E acirrou indisposições suas com algumas figuras públicas e com posições à esquerda. Equívoco contra equívoco. Injustiça contra injustiça.

Para o bem e para o mal, com segurança do ato ou não, é incomum jornalistas ultrapassarem as reais ou presumidas opiniões e posições desejadas para o jornal, a TV e o rádio pelas respectivas cúpulas. Mas há transgressões e transgressões.

Sou, por exemplo, uma prova (ainda) viva, entre muitas, de que censura é inconciliável com os cânones da Folha. Já foi observado por inúmeros leitores, no entanto, que determinados comentaristas não são chamados à Primeira Página, ou o são rarissimamente. Embora possam ter frequente presença entre os mais lidos, no jornal e na internet.

Entre estes autores, em comum, a crítica ao conservadorismo, ao neoliberalismo, às fraquezas morais e à política no Judiciário e no Ministério Público, matéria-prima dos admirados comentários de Conrado Hübner Mendes e Celso Rocha de Barros. A discriminação é censura. É, no caso, autoritarismo clandestino, porque imposto onde é repudiado por princípio. Perde o jornal.

A procedência do editorial “Jair Rousseff” pode ter sido, também, o abuso de função. Como pode ter sido um aprofundamento, no pior rumo, da queda de asa para a direita introduzida ainda por Otavio Frias Filho. Se a Folha não esclarecer, o tempo, e não muito, o fará. Seja como for, não é, não pode ser próprio de um jornal, e deste nem como hipótese, o presente de maquiar a miséria humana de Bolsonaro juntando-lhe o nome ao de uma vida de dignidade que ninguém pôde atingir —Dilma Rousseff.

Por isso, peço licença a Cristina Serra para subscrever o bravo e brilhante artigo em que situa Dilma, Bolsonaro e o editorial nos termos justos e merecidos. Estendo o pedido a Conrado Hübner Mendes e a Nelson Barbosa, que apontou as imprecisões do editorial para servir ao seu título. Assim como o editorial será, são artigos para a história. Aos quais se junta a excelente carta da própria Dilma Rousseff à Folha.

Mas não se pode ignorar — nem entender, creio — o que se passa para que seja o mesmo jornal no erro ignominioso daquele título e na ética impecável da publicação, em suas íntegras, dos artigos de reprovação enérgica e sem concessão.

 

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