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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

31
Jan19

“No Rio de Janeiro a milícia não é um poder paralelo. É o Estado”

Talis Andrade

 

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“Cinco décadas de grupo de extermínio resultaram em 70% de votação em Bolsonaro na Baixada”.

Sociólogo que estuda as milícias há 26 anos explica as relações entre legisladores e milicianos

 

por Mariana Simões

Na semana passada, a operação “Os Intocáveis” prendeu integrantes da milícia que opera em Rio das Pedras, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Um dos alvos da operação foi o ex-capitão da PM Adriano Magalhães da Nóbrega, acusado de chefiar a milícia de Rio das Pedras e integrar o grupo de extermínio Escritório do Crime — atualmente investigado pela morte de Marielle Franco. Sua mãe e sua esposa já trabalharam no gabinete de Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). Flávio também havia homenageado Adriano com a Medalha Tiradentes, a maior honraria concedida pela Alerj.

Mas a notícia não surpreendeu o autor do livro Dos Barões ao extermínio: a história da violência na Baixada Fluminense, José Cláudio Souza Alves. Sociólogo e ex-pró-reitor de Extensão da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), José Cláudio estuda as milícias há 26 anos. Em entrevista à Pública, ele resume, com veemência: “A milícia é o Estado.”

“São formadas pelos próprios agentes do Estado. É um matador, é um miliciano que é deputado, que é vereador. É um miliciano que é Secretário de Meio Ambiente. Sem essa conexão direta com a estrutura do Estado não haveria milícia na atuação que ela tem hoje,” acrescenta.

Segundo José Cláudio, é comum familiares de milicianos serem empregados em gabinetes de deputados e vereadores. “Isso é muito comum. Esse vínculo lhe dá poder naquela comunidade. Ele vai ser chamado agora na comunidade: ‘Olha é o cara que tem um poder junto lá ao deputado, qualquer coisa a gente resolve, fala com ele, que ele fala com a mãe e com a esposa e elas falam diretamente com o Flávio e isso é resolvido’”.

Nessa entrevista, ele explica a origem desses grupos e suas ligações com a política: “Cinco décadas de grupo de extermínio resultaram em 70% de votação em Bolsonaro na Baixada”.

Leia os principais trechos.

 

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Pergunta. Como nasceram as milícias do Rio de Janeiro?

Resposta. Isso estourou na época da ditadura militar com muita força. Em 1967 surge a Polícia Militar nos moldes atuais, de força ostensiva e auxiliar aos militares naquela época. E a partir daí há o surgimento dos esquadrões da morte. No final dos anos 1960, as milícias surgiram como grupos de extermínio compostos por Policiais Militares e outros agentes de segurança que atuavam como matadores de aluguel.

Esses esquadrões da morte vão estar funcionando a pleno vapor nos anos 1970. Depois começa a surgir a atuação de civis como lideranças de grupos de extermínio, mas sempre em uma relação com os agentes do Estado. Isso ao longo dos anos 1980. Com a democracia, esses mesmos matadores dos anos 1980 começam a se eleger nos anos 1990. Se elegem prefeitos, vereadores, deputados.

De 1995 até 2000, você tem o protótipo do que seriam as milícias na Baixada, Zona Oeste e no Rio de Janeiro. Elas estão associadas a ocupações urbanas de terras. São lideranças que estão emergindo dessas ocupações e estão ligadas diretamente à questão das terras na Baixada Fluminense. A partir dos anos 2000, esses milicianos já estão se constituindo como são hoje. São Policiais Militares, Policiais Civis, bombeiros, agentes de segurança, e atuam em áreas onde antes tinha a presença do tráfico, em uma relação de confronto com o tráfico. Mas ao mesmo tempo estabelecem uma estrutura de poder calcado na cobrança de taxas, na venda de serviços e bens urbanos como água, aterro, terrenos.

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Segundo José Cláudio, sociólogo e ex-pró-reitor de Extensão da UFRRJ, é comum familiares de milicianos serem empregados em gabinetes de deputados e vereadores
 

P. Há apoio da população às milícias?

R. A milícia surge com o discurso que veio para se contrapor ao tráfico. E esse discurso ainda cola. Só que com o tempo a população vai vendo que quem se contrapõe a eles, eles matam. E eles passam a controlar os vários comércios. Então a população já começa a ficar assustada e já não apoia tanto. É sempre assim a história das milícias.

 

P. Qual a história de Rio das Pedras?

R. Rio das Pedras é uma comunidade em expansão onde vivem nordestinos muito pobres. Existem terrenos lá que você não pode construir porque são inadequados, são muito movediços. Então só tem uma faixa específica de terra onde você pode construir. São terras irregulares, devolutas da União, ou terras de particulares que não conseguiram se manter naquele espaço. Então a milícia passa a controlar, toma e legaliza — às vezes até via Prefeitura mesmo, pagando IPTU desses imóveis. Como o sistema fundiário não é regulado, facilmente os milicianos têm acesso a informações e vão tomar essas áreas. E passam a vendê-las.

 

P. Rio das Pedras foi a primeira milícia do Rio?

R. Não é bem assim. Ao meu ver a milícia surgiu em diferentes lugares ao mesmo tempo, simultaneamente. Então tem Rio das Pedras, mas tem Zona Oeste do Rio e tem, por exemplo, Duque de Caxias, na Baixada Fluminense.

Eu percebo dos anos 1995 a 2000, grosso modo, um período de emergência dessas ocupações urbanas de terras, ainda não no protótipo de milícias, mas com lideranças comunitárias próximas ao que seria um controle pela violência, um controle político mais autoritário.

Só que Rio das Pedras ela emerge mais rapidamente. Então ali começa esse vínculo da cobrança de taxa, que nas outras ainda não tinha. E são os comerciantes que pagam a eles.

É uma comunidade miserável, empobrecida, que está se constituindo a partir de uma rede migratória de nordestinos. E ela fica diante de um grupo de milicianos que estão sendo chamados para dar proteção, impedir que o tráfico entre. Mas na verdade é para proteger os interesses comerciais desses lojistas que estão se instalado lá em Rio das Pedras e estão financiando esses caras.

 

P. Hoje são quantas as milícias do Rio de Janeiro?

R. Eu tenho noção de que são muitas. Por exemplo, são várias que atuam em São Bento e no Pilar, que é o segundo maior distrito de Duque de Caxias. Tem em Nova Iguaçu, tem em Queimada. Praticamente cada município da Baixada Fluminense você tem a presença de milícias. Seropédica, por exemplo, hoje é uma cidade dominada por milicianos. Eles controlam taxas de segurança que cobram do comércio. Aqui tem os areais, de onde se extrai muita areia — e muitos são clandestinos. Então eles também cobram dali. Moto-táxi tem que pagar 80 reais por semana para funcionar. Pipoqueiro paga 50 reais por semana. É uma loucura.

Dizem que é para a segurança, proteção, eles estão supostamente protegendo esse comércio. Mas depois controlam a distribuição de água, de gás, de cigarro, de bebida. E há histórias de assassinato de gente que não aceitou, por exemplo.

Além disso, eles são pagos para fazer execuções sumárias. Então há um mercado que movimenta milhões já há algum tempo.

Eles também lidam com tráfico de drogas, com algumas facções especificas. O Terceiro Comando Puro funciona aqui em algumas cidades da baixada a partir de acordos com milicianos. Eles fazem acordo com o tráfico e vão ganhar dinheiro também disso. Cobram aluguel de áreas. É a mesma relação que a polícia tem com o tráfico: só funciona ali se você pagar suborno.

 

P. Na cobertura feita pelos jornais sobre a operação “Os Intocáveis”, eles citam o Escritório da Morte, um grupo de extermínio que é contratado para matar. Isso é comum?

R. Sim. Nunca ouvi falar de milícia que não tivesse a prática de execução sumária. Normalmente a milícia tem uma equipe ou um grupo responsável por execuções sumárias. O comerciante que não quiser pagar, o morador que não se sujeitar a pagamento do imóvel que ele comprou, qualquer negócio e discordância com os interesses da milícia, esse braço armado é acionado e vai matar.

A novidade da milícia é o leque de serviços que eles abrem além da execução sumária e da segurança. Aí é tudo: água, botijão de gás, “gatonet”, transporte clandestino de pessoas, terra, terrenos, imóveis. A milícia não fica agora fixa em grandes comerciantes ou grandes empresários. Ela pulveriza isso. Eles vão sofisticando também na administração do gerenciamento.

 

P. Em que outros negócios ilegais os milicianos atuam?

R. Lá em Duque de Caxias eles roubam petróleo dos oleodutos da Petrobras e fazem mini destilarias nas casas das pessoas. Tudo ilegal, com um risco imenso. Aí vendem combustível adulterado. Eles fazem aterros clandestinos no meio daquela região com dragas e tratores e vão enterrando o lixo de quem pagar. É 1.000 reais por caminhão. Não importa a origem. Pode ser lixo contaminante, lixo industrial, lixo hospitalar. Eles fazem aterros clandestinos nesta região.

 

P. A milícia tem controle também sobre bens públicos, como aterros, e eles se apropriam desses espaços para fazer atividades ilegais…

R. A base de uma milícia é o controle militarizado de áreas geográficas. Então o espaço urbano, em si se transforma em uma fonte de ganho. Se você controla militarmente, com armas por meio da violência esse espaço urbano, você vai então ganhar dinheiro com esse espaço urbano. De que maneira? Você vende imóveis. Por exemplo, você tem um programa do governo federal chamado Minha Casa Minha Vida. Você constrói habitações. Aí a milícia vai e controla militarmente aquela área e vai determinar quem é que vai ocupar a casa. E inclusive vai cobrar taxa desses moradores.

Em outra área eles estão vendendo imóveis e estão ganhando dinheiro com essa terra, que é terra da União ou terra de particulares. Então esse controle militarizado desses espaços, é a base da milícia. Aí como eles sabem dessas informações? Eles sabem dentro da estrutura do Estado.

Você pode ter um respaldo político para fazer isso. Vou dar um exemplo para você. Em Duque de Caxias, um número razoável de escolas públicas não é abastecido pelo sistema de água da CEDAE. A água não chega lá. Como que essas escolas funcionam? Elas compram caminhões pipa de água. Quem é o vendedor? Quem é que ganhou a licitação para distribuição de água em um preço absurdo por meio desses caminhões pipa? Gente ligado aos milicianos. Então aí você tem um vínculo com os serviços públicos — e é uma grana pesada — a que passa pelo interesse político daquele grupo dentro daquela prefeitura que vai se beneficiar de uma informação e vai ganhar dinheiro com isso.

A Baixada e o Rio de Janeiro são grandes laboratórios de ilicitudes e de ilegalidades que se associam para fortalecer uma estrutura de poder político, econômico, cultural, geograficamente estabelecido e calcado na violência, no controle armado.

 

P. A milícia surgiu no Rio de Janeiro pela ausência do Estado?

R. Há uma continuidade do Estado. O matador se elege, o miliciano se elege. Ele tem relações diretas com o Estado. Ele é o agente do Estado. Ele é o Estado. Então não me venha falar que existe uma ausência de Estado. É o Estado que determina quem vai operar o controle militarizado e a segurança daquela área. Porque são os próprios agentes do Estado. É um matador, é um miliciano que é deputado, que é vereador, é um miliciano que é Secretário de Meio Ambiente.

Eu sempre digo: não use isso porque não é poder paralelo. É o poder do próprio Estado.

Eu estou falando de um Estado que avança em operações ilegais e se torna mais poderoso do que ele é na esfera legal. Porque ele vai agora determinar sobre a sua vida de uma forma totalitária. E você não consegue se contrapor a ela.

 

P. Mas, por outro lado, quem elege os políticos milicianos é a população….

R. Não venha dizer que o morador é conivente, é cúmplice do crime. Esse pessoal elegeu o Flávio Bolsonaro, que agora se descobriu que ele tem possivelmente vínculos com esses grupos? Elegeu. Mas que condições que essas pessoas vivem para chegar nisso? Essas populações são submetidas a condições de miséria, de pobreza e de violência que se impõem sobre elas.

Cinco décadas de grupo de extermínio resultaram em 70% de votação em Bolsonaro na Baixada.

Três gestões do PT no governo federal, 14 anos no poder, não arranharam essa estrutura. Deram Bolsa Família, vários grupos políticos se vincularam ao PT e se beneficiaram, mas o PT não alterou em nada essa estrutura. O PT fez aliança eleitoral, buscou apoio desses grupos.

 

P. Como você mencionou a história do Flávio Bolsonaro: o que liga o gabinete de um político a um miliciano, como foi no caso dele com a mãe e a esposa do Adriano Magalhães da Nóbrega?

R. O discurso da família Bolsonaro, a começar pelo pai já há algum tempo, e posteriormente o pai projetando nos filhos politicamente. Eles são os herdeiros do discurso de um delegado Sivuca [José Guilherme Godinho Sivuca Ferreira, eleito deputado federal pelo PFL em 1990], que é o cara que cunhou a expressão “Bandido bom é bandido morto”, de um Emir Larangeira [eleito deputado estadual em 1990], do pessoal da velha guarda, do braço político dos grupos de extermínio.

Esse discurso se perpetuou e se consolidou. É claro que os milicianos vão respaldar esse discurso e vão se fortalecer a partir dele. É o plano de segurança pública defendida na campanha eleitoral do Bolsonaro. Ele diz o seguinte: Policiais Militares são os heróis da nação. Policial Militar tem que ser apoiado, respaldado, vai ganhar placa de herói.

E será respaldado pela lei, através do excludente de ilicitude. Está lá no programa do Bolsonaro. Então você tem setores que desde a ditadura militar sempre operaram na ilegalidade, na execução sumária, vão escutar esse discurso. É música para o ouvido deles.

Não é à toa que o Flávio Bolsonaro fez menções na Assembleia legislativa, deu honrarias para dois desses milicianos presos.

 

P. Para além desse discurso simbólico, você vê também uma ligação financeira dos milicianos com os políticos?

R. Você tem uma operação por dentro da estrutura oficial política. Por exemplo, em Duque de Caxias você tem registro geral de imóveis de terra que são da União. Tem milicianos que vão levantar no cadastro geral de imóveis da prefeitura, os imóveis que estão irregulares, sem pagamento há muito tempo de IPTU. Esse miliciano começa a pagar o IPTU, parcela a dívida, quita e pede para transferir para o nome dele aquele imóvel. A prefeitura transfere. É um processo simples isso. Aí depois aquele proprietário não vai ter nunca coragem de exigir aquele imóvel de volta, porque está controlado militarmente.

Sem esses elementos, sem esses indivíduos, sem essa conexão direta com a estrutura do Estado, não haveria milícia na atuação que ela tem hoje. É determinante. Por isso que eu digo, que não é paralelo, é o Estado.

E tem políticos que estão sendo eleitos com essa grana. A grana da milícia vai financiar o poder de um político como Flávio Bolsonaro e o poder político de um Flávio Bolsonaro vai favorecer o ganho de dinheiro do miliciano. Isso roda em duas mãos. É determinante então que essa estrutura seja assim. Ela só se perpetua porque é assim.

 

P. É comum casos como a mãe e a esposa de Adriano Magalhães de Nóbrega, que foram contratadas como assessoras no gabinete de Flávio Bolsonaro?

R. Sim. Isso é muito comum. Você cria um vínculo de poder e de grana com essas pessoas. Esse cara, a partir de sua esposa e de sua mãe, cria um vínculo imediato com o Flávio Bolsonaro e isso lhe dá força. Essas duas pessoas estão fazendo um elo imediato, pessoal, familiar do Adriano com Flávio Bolsonaro. Esse vínculo lhe dá poder naquela comunidade. Ele vai ser chamado agora na comunidade “Olha é o cara que tem um poder junto lá ao deputado, qualquer coisa a gente resolve, fala com ele, que ele fala com a mãe e com a esposa e eles falam diretamente com o Flávio e isso é resolvido”.

Assim você está criando uma estrutura de poder, que é familiar. Veja bem: é o que eles defendem. Eles [os Bolsonaro] defendem a estrutura familiar. E se você investigar um pouco mais vai ser religioso também. São igrejas evangélicas, eles têm vínculo com essa estrutura. Então é uma estrutura perfeita, ela é tradicional, conservadora, ela tem a linguagem religiosa, que é linguagem de grande credibilidade.

Isso também demonstra uma forma de atuar dessas pessoas. Eles não atuam pelo ocultamento. O Adriano, Flávio Bolsonaro, o próprio Bolsonaro, os matadores da Baixada. Todos esses grupos que lidam com a violência, com a execução sumária, com o crime organizado, eles não atuam com baixo perfil.

No Brasil o que você tem é a superexposição. Eu chego e já digo. “Eu sou o cara, eu sou o matador, eu tenho vínculos com fulano, beltrano e sicrano. Eu ocupo este cargo”. Que é pra deixar bem claro se você for tentar alguma coisa é isso que você vai enfrentar.

 

É a base total do medo. E não é só do medo: é real.

 

P. Sobre esse capital político, eles têm o poder inclusive de manipular o voto da população durante o período das eleições? Existe uma rede organizada para isso?

R. Na verdade, as milícias vendem votações inteiras de comunidade. Aqui na Baixada como um todo, Zona Oeste. Fecham pacote. Eles têm controle. Eles têm controle preciso de título de eleitor, local de votação de cada título de eleitor, quantos votos vai ter ali. Eles são capazes de identificar quem não votou neles.

 

P. Mas não está havendo ações de desmontagem dessa estrutura, como se viu em Rio das Pedras?

R. Assim, a Operação Intocáveis pode estar dentro de um perfil mais de uma operação mais histórica. Mas eu tenho sido muito crítico a esse tipo de operação. Como a milícia é uma rede, uma rede muito grande, para cada um preso você tem 100 para entrar no lugar. Porque se você mantém a estrutura funcionando, economicamente, politicamente ela vai se perpetuar.

Ninguém toca nesses caras. Em geral, só estão tocando no tráfico. E tráfico não é o mais poderoso. Milícia é mais poderosa do que o tráfico. Milícia se elege, tráfico não se elege. A base econômica da milícia está em expansão, não é tocada, não é arranhada. Traficante não, vive morrendo e sendo morto e matando. Milícia é o Estado.

Inclusive, tem isso. Você olha para a cara dos milicianos presos, há uma tendência a serem brancos. Não há uma tendência a serem negros. Vai aparecer um ou outro no meio, um moreno, pardo. E não são magros, são bem alimentados. Eu tenho certeza de que a classe da qual pertencem os milicianos é uma classe diferenciada da classe do tráfico. Não são tão pobres assim. Não são tão negros assim. Não são tão periféricos assim.

 

P. Para além desse vínculo político de poder existe também algum elo financeiro? Como que os milicianos movimentam dinheiro através dessas conexões com políticos? Qual era, por exemplo, o papel do Queiroz ali no Gabinete do Flávio Bolsonaro?

R. Ah, sim, você viu que ele tem uma movimentação suspeita alta. Tem 7 milhões [de reais]. Aí você vai por dedução. Pode ser que esse cara fazia uma ponte. Ele era um assessor, mas ao mesmo tempo ele cumpria duas funções. Ele ganha um respaldo político do Flávio Bolsonaro. Ele faz o elo direto da milícia com esse gabinete. Dos interesses dessa milícia e dos que são servidos por essa milícia direito com esse gabinete. Ao mesmo tempo ele cresce na estrutura da milícia.

Não sei qual é o histórico dele. Mas de repente ele já estava na estrutura da milícia e já movimentando dinheiro. Então, por exemplo, se ele for uma frente, um cara que está na organização, por exemplo, de cobrança de taxa de segurança, ele está movimentando dinheiro. Muito dinheiro. Aí de repente ele vai movimentar parte desse dinheiro dentro da sua conta pessoal. É uma estrutura de organização que ele criou. Então esses 7 milhões [de reais] pode ser isso.

 

P. Isso também pode ser apenas uma transação entre várias?

R. Isso é uma ponta. Isso é uma ponta de um iceberg. O que eu gostaria muito é que se investigasse isso. Você chegaria em algo muito maior.

Sobre o caso da Marielle. O caso voltou aos holofotes essa semana porque os milicianos, que foram presos na operação “Os Intocáveis” integravam o Escritório do Crime, grupo suspeito de envolvimento na morte da Marielle. No final do ano passado, o secretário de Segurança Pública do Rio, Richard Nunes, afirmou que o assassinato teria relação com grilagem de terras. Você acha que a morte dela se deu porque ela atrapalhava os negócios dos milicianos?

Tem dois vínculos. Há esse vínculo de incomodar e prejudicar o interesse deles. Ela tinha poder para prejudicar, puxar uma CPI, exigir uma investigação para obrigar o Estado e a mídia como um todo a se voltar para isso. Se ela reproduzisse o que o Marcelo Freixo fez em 2008, dentro da Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro, ela daria essa expressão. Ela tinha o respaldo do Marcelo, então há uma base política que sustenta Marielle, uma base não comprometida, não vendida. Então ela é uma figura que ameaça.

E o outro elemento é ela ser mulher. E ela ser uma mulher de uma atuação bastante intensa, verdadeira e não amedrontável. Ela encarava, enfrentava. Ela nunca se subordinou. E eles não suportam mulheres com esse perfil, essa é a verdade.

Marielle Franco, Patrícia Acioli, que foi assassinada também, e Tânia Maria Sales Moreira que foi promotora aqui em Duque de Caxias que era jurada de morte, mas morreu de câncer. Essas três, elas têm esse perfil. São mulheres com muita coragem, muita determinação, muita verdade do lado delas, elas não se subordinam, não se submetem. Esse tipo de mulher esses caras não suportam. Eles vão eliminar. Há uma misoginia total aí que eles não aceitam que qualquer mulher os trate assim.

Desde o início eu cantei a pedra: quem matou são grupos de extermínio e estão muito associados a milicianos. É a prática desses grupos.

 

31
Jan19

De testes de DNA à convocação de policiais aposentados, magnitude da tragédia pressiona Brumadinho

Talis Andrade

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Vista aérea do Cemitério Parque das Rosas, em Brumadinho. DOUGLAS MAGNO

 

Quanto mais os corpos permanecem na lama, mais difícil é a identificação das vítimas.

Polícia Civil terá base para recolher material para exames de DNA e da arcada dentária

Desesperada em busca de notícias do irmão, Vanessa da Cruz foi na manhã desta terça-feira ao Instituto Médico Legal (IML) de Belo Horizonte. Desde sexta-feira ela não sabe nada de Adriano Wagner da Cruz de Oliveira, que trabalha como mecânico de uma empresa terceirizada na Mina Córrego do Feijão, em Brumadinho, onde a barragem da mineradora Vale rompeu espalhando lama e morte a apenas 60 km da capital mineira. “Estamos agoniados, com as mãos atadas. Mas vim hoje porque quero que isso acabe logo, já são cinco dias que estamos na espera, no desespero”, disse na frente do IML, para onde os corpos das vítimas da tragédia estão sendo encaminhados –84 mortes foram confirmadas e, segundo o balanço mais recente, ainda há 276 desaparecidos. Vanessa foi ao IML para pedir que antecipassem seu exame de DNA para ajudar na identificação de Adriano. “Se essa foi a vontade de Deus, quero que isso acabe da forma certa, quero poder enterrar o meu irmão”, completou com a voz embargada.

O drama das famílias só cresce enquanto também aumenta a pressão nos serviços públicos obrigados a atender uma tragédia dessa magnitude. Brumadinho vive uma corrida contra o tempo. Cada segundo importa não apenas para se localizar sobreviventes, mas também para se identificar as vítimas. "A Polícia Civil empreende esforços para a identificação de todas as vítimas. Mas com o passar do tempo, alguns [fatores] dificultadores vão surgir", afirmou o delegado Luiz Carlos Ferreira, em uma entrevista coletiva na tarde de segunda, 28 de janeiro. Ele aponta, por exemplo, que quanto maior a demora, mais difícil é manter as impressões digitais, que foram utilizadas até agora para identificar os corpos das pessoas que morreram. A partir da próxima quarta, um posto de atendimento será montado para que os parentes de desaparecidospossam fornecer dados como material para a comparação de DNA e radiografias e relatórios odontológicos para possibilitar a identificação de vítimas pela arcada dentária.

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O número elevado de vítimas do rompimento da barragem da mineradora Valetambém impõe desafios estruturais para o trabalho de identificação dos corpos.Como o número de mortos e desaparecidos passam de 300, foi necessário um reforço de conteiners frigoríficos para manter os corpos no IML de Belo Horizonte. Uma força tarefa foi montada no local, com o cadastro de policiais aposentados que estão se voluntariando para auxiliar os que estão na ativa. Na manhã desta terça, quatro peritos de Brasília chegaram ao Instituto Médico Legal para auxiliar os 88 profissionais que atuam na identificação e liberação dos corpos das vítimas do desastre.

A Polícia Militar também suspendeu todas as atividades de sua academia de polícia para reforçar o policiamento em Brumadinho, onde há boatos de saques em casas que foram esvaziadas após o rompimento da barragem. A polícia diz que nenhum caso foi registrado oficialmente, mas afirma que o patrulhamento na área rural foi ampliado e uma base comunitária extra foi montada para o registro de ocorrências. O município de cerca de 40.000 moradores tem 250 policiais destacados no momento, além de um patrulhamento constante feito por helicópteros.

A disputa contra o tempo também aumenta a ansiedade das famílias, que se mantêm em compasso de espera. Qualquer mínimo sinal é capaz de trazer expectativas que se frustram logo depois. No fim da tarde de segunda, um forte choro de um grupo de familiares de uma desaparecida tomou conta da Estação de Conhecimento, o local em que os parentes das vítimas do rompimento da barragem da Vale, em Brumadinho, estão recebendo assistência e passam o dia aguardando notícias dos resgates. Desta vez, as lágrimas eram de alegria, já que os parentes de Nathália de Oliveira Porto de Araújo diziam ter conseguido a localização do celular da estagiária de administração e isso os fazia acreditar que ela estava viva. A família gritava de emoção e agradecia a Deus. A boa notícia acendeu a esperança das dezenas de familiares de outros desaparecidos que estavam no local. Minutos depois, no entanto, os familiares foram informados que ela não tinha sido encontrada.

Quem se agarra à esperança também é a mãe do mecânico Adriano Wagner da Cruz de Oliveira. Vanessa da Cruz, no IML de BH nesta terça, explica que a mãe viajou para Brumadinho logo que soube do rompimento da barragem da Vale e continua no local para ter mais informações do filho. Ela também acredita, segundo Vanessa, que uma boa notícia pode chegar. Morador de Nova Lima, na Grande BH, Adriano tem uma filha de 16 anos que está grávida e em choque com o desaparecimento do pai. Vanessa relembrava como estava o irmão na última vez que o viu: barba longa, brinco... Tentava pensar em algo diferente que pudesse ajudar os médicos a identificá-lo. Remexer nas lembranças aumentava sua dor. “Até agora não consigo acreditar no que está acontecendo”, lamentava.

A nova rotina de tristeza e ansiedade é também marcada por informações desencontradas, além de  falsas informações sobre localizações de pessoas que chegaram até o Corpo de Bombeiros. Segundo o porta-voz da corporação, Pedro Aihara, pelo menos três boatos circularam em Brumadinho. “Fomos muito prejudicados no dia de hoje com veiculação de informações falsas. Tivemos notícias que algumas pessoas estariam perdidas em áreas de mata, inclusive com pessoas passando coordenadas. Deslocamos equipes para os locais, mas nada foi constatado”, disse. Aihara explicou ainda que muitas vezes os celulares dos desaparecidos continuam em funcionamento e podem emitir sinal mesmo não estando com a pessoa. “Às vezes, um parente ligou para a pessoa e o celular pode ter chamado, mas não significa que ela esteja viva”, explicou.

 

 

29
Jan19

SERGIO MORO VIROU UM SOLDADO RASO DO BOLSONARISMO

Talis Andrade

O presidente tem ligações com as milícias do Rio de Janeiro

 

NOS ÚLTIMOS ANOS, Sergio Moro se tornou o grande herói brasileiro do combate à corrupção. Ganhou prêmios, deu muitas entrevistas, viajou pelo mundo contando seus feitos, enfim, se sentiu muito bem no papel de salvador da pátria. Depois de se dedicar em apressar a prisão do candidato que liderava as pesquisas presidenciais e, consequentemente, pavimentar o caminho para o desfile vitorioso da extrema direita, topou fazer parte do novo governo.

 

Mas o nosso herói já conhecia o histórico da família Bolsonaro na distribuição de tetas para amigos e parentes no serviço público. Sabia que Jair Bolsonaro encaminhou R$ 200 mil recebidos da JBS para o partido mais investigado pela Lava Jato. Sabia que a Wal do Açaí era uma funcionária fantasma. Sabia que o presidente sonegou e incentivava a população a sonegar impostos. E também sabia da simpatia dele e de seus filhos pelas milícias. Bolsonaro chegou a defender grupos de extermínio da Bahia em plena Câmara dos Deputados. Como diria Jair, basta fazer uma “retrospectiva do passado” para concluir que o juiz topou integrar um governo cujas credenciais éticas do seu líder eram amplamente conhecidas. Moro sabia de tudo.

 

27
Jan19

Marielle assombra Flávio Bolsonaro mais morta do que viva

Talis Andrade

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Não se pode voltar a matar os mortos, mas sua memória, sua força de denúncia, seu legado ainda continuam vivos. Nos julgam e nos perseguem

23
Jan19

Imprensa mundial fala em “fiasco” após discurso de Bolsonaro em Davos

Talis Andrade
 
 
 

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Por RFI
 
Bolsonaro tentou vender um “novo Brasil” em Davos. Esta frase ecoou nos tuítes dos mais diversos órgãos de imprensa que cobriram e/ou comentaram a participação do presidente brasileiro no Fórum Econômico Mundial, na tarde desta terça-feira (22). Mas as reações dos jornalistas no Twitter não foram das melhores.
 

Em francês, Sylvie Kauffmann, diretora editorial e colunista do Le Monde e colaboradora do NY Times escreveu “Fiasco de Bolsonaro em Davos, incapaz de responder concretamente às questões de Klaus Schwab. 15 min. de generalidades”.

 

Sylvie Kauffmann@SylvieKauffmann
 

Flop de Bolsonaro à Davos,incapable de répondre concrètement aux questions de Klaus Schwab. 15 mn de generalités #WEF2019

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“Bolsonaro não combinou com a multidão de Davos. Um discurso de campanha curto, muito geral, depois evita dar respostas concretas às perguntas de Klaus Schwab. Definitivamente, nenhum aplauso de pé”, tuitou ela, agora em inglês.

 

Para Heather Long, do The Washington Post, o discurdo do brasileiro foi um “grande fracasso”. “O presidente brasileiro Bolsonaro falou por menos de 15 minutos. Grande fracasso. Ele tinha o mundo inteiro assistindo e sua melhor linha era dizer às pessoas para irem de férias ao Brasil. Bolsonaro é classificado como ‘Trump sul-americano’, mas ele parecia morno.

mas ele parecia morno.

 

Heather Long@byHeatherLong
 

And...that's a wrap. Brazilian President Bolsonaro spoke for less than 15 minutes. Big fail. He had the entire world watching and his best line was to tell people to come vacation in Brazil.

Bolsonaro is billed as "South American Trump" but he appeared tepid.#Davos #WEF19

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"Manual de Trump"

A jornalista em seguida volta a compará-lo a Trump: “O presidente brasileiro Bolsonaro em #Davos promete o manual econômico de Trump no Brasil: ‘Vamos trabalhar para reduzir a carga tributária, simplificar as regras para aqueles que desejam produzir e tornar mais fácil para os empresários investir e criar empregos’”.

A agência de notícias Reuters estampou a manchete: "Jair Bolsonaro do Brasil joga fora o tapete de boas vindas para grandes empresas e grandes investidores em #Davos”.

Já o jornal Financial Times escreveu “[De] Extrema direita, Bolsonaro procura tranquilizar os céticos”.

O jornal britânico The Guardian estampou: “Jair Bolsonaro alarma ativistas do clima com discurso pró-negócios”.

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18
Jan19

‘Carta branca’ à violência policial vai agravar situação da segurança, diz ONG internacional

Talis Andrade

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Relatório anual da Human Rights Watch feito em 90 países destaca mortes por policiais no Brasil, em especial no Rio, e diz que propostas de Jair Bolsonaro, que "endossou a prática de tortura", podem ter efeito contrário

 

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por Marina Rossi

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violência policial, contra as mulheres e o recorde de homicídios foram alguns dos destaques negativos do Brasil na 29ª edição do relatório mundial da Human Rights Watch (HRW), ONG internacional de defesa dos direitos humanos. O documento, publicado nesta quinta-feira, consiste na revisão anual das práticas de direitos humanos em mais de 90 países e territórios, incluindo o Brasil.

O relatório inicia seu capítulo sobre o Brasil destacando a violência política e as ameaças contra jornalistas que marcaram a eleição de Jair Bolsonaro no ano passado.

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A HRW define o presidente eleito como alguém “que endossou a prática de tortura e outros abusos e fez declarações abertamente racistas, homofóbicas e misóginas”. Por isso, a chegada do capitão reformado ao poder é vista com preocupação pela ONG. “Estamos muito preocupados com a retórica utilizada por Bolsonaro durante a eleição”, afirmou, por telefone, José Miguel Vivanco, diretor para as Américas da HRW. “É a primeira vez nesta região que se elege democraticamente um líder com discurso contra os direitos humanos.”

Embora o relatório apresente dados anteriores à era Bolsonaro, Vivanco alerta que as medidas já tomadas pelo novo presidente nestas primeiras semanas de governo não sinalizam para uma mudança na escalada de violência e nas violações registradas no país nos últimos anos. “Definitivamente a medida que facilita a posse de armas [assinada nesta terça-feira pelo presidente] não vai reduzir a violência”, diz Vivanco.

Para ele, um dos dados mais alarmantes trazidos pelo documento é o número de mortes provocadas por policiais no Rio de Janeiro. No ano passado, quando o Estado passou praticamente o ano inteiro sob intervenção federal, foram mortas pelas mãos de policiais 1.444 pessoas, entre janeiro e novembro, um recorde desde que se tem esse tipo de registro. “Em um Estado com uma população de 17 milhões de habitantes, as estatísticas oficiais mostram que a violência segue crescendo dramaticamente”, diz Vivanco. “Os números mostram a gravidade do tema da violência policial. E a resposta não é a militarização”. O assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL) e do motorista Anderson Gomes são destacados no relatório entre as vítimas de homicídio no Rio de Janeiro no ano passado. Até o momento, não houve solução do caso.

A ONG também diz que a proposta de Bolsonaro na campanha de dar "carta branca" aos policiais para matar em serviço deve agravar a situação de segurança. De acordo com o relatório, as mortes provocadas por agentes podem provocar uma espiral: os homicídios tidos como execuções extrajudiciais colocam as comunidades contra a polícia, complicam as investigações e colocam os próprios policiais em risco, ao atrair possíveis represálias de grupos criminosos. Segundo a HRW, o ministro da Justiça, Sergio Moro, afirmou à ONG que o Governo Bolsonaro trabalha em um projeto de lei para "esclarecer" em quais condições um policial pode evocar legítima defesa se cometer um homicídio.

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Fora do Rio de Janeiro, os índices também não são otimistas. Em 2017, a violência atingiu um novo recorde, com cerca de 64.000 homicídios no Brasil. Desses casos, poucos são investigados: o relatório destaca que o Ministério Público apresenta denúncia em apenas dois em cada dez homicídios. Entre policiais, 367 foram mortos durante serviço ou folga naquele ano. Ao mesmo tempo, em todo o país, policiais em serviço e fora de serviço mataram 5.144 pessoas, 20% a mais que em 2016.

A organização alerta para os homicídios cometidos pela polícia como forma de execuções extrajudiciais. Em São Paulo, o ouvidor da polícia examinou centenas de homicídios cometidos por integrantes da corporação em 2017, e concluiu que houve uso excessivo de força em três quartos dos casos, por vezes contra pessoas desarmadas. A HRW ainda denuncia que o Governo brasileiro não publicou um relatório anual sobre a letalidade policial e mortes de policiais, conforme orientou a Corte Interamericana de Direitos Humanos, em uma decisão de 2017.

Ainda sobre a violência policial, um ponto para o qual a ONG já havia chamado a atenção é sobre uma lei de 2017 que transferiu da Justiça comum para a Justiça militar o julgamento de membros das Forças Armadas acusados de cometerem execuções extrajudiciais contra civis. O mesmo ocorre para policiais militares acusados de tortura e outros crimes: são julgados pela justiça militar, embora os homicídios cometidos por eles ainda permaneçam sob a jurisdição civil. “Isso significa que as Forças Armadas e a Polícia Militar investigam seus próprios integrantes quando acusados de cometer crimes”, diz o documento, algo que vai na contramão do que as normas internacionais determinam.

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Militar do Exército atua na intervenção do Rio de Janeiro, em agosto do ano passado. R. MORAES REUTERS
 

Violência de gênero

O relatório também dá destaque ao não cumprimento da determinação do Supremo Tribunal Federal de conceder prisão domiciliar a mulheres grávidas, mães de crianças de até 12 anos ou de crianças ou adultos com deficiência, presas preventivamente por crimes não violentos, exceto em situações “excepcionalíssimas”. Embora o Ministério da Justiça tenha estimado que a decisão poderia ser aplicada a 10.693 mulheres, os juízes concederam a prisão domiciliar a apenas 426 detentas até 1º de maio, prazo estabelecido pelo STF para o cumprimento da decisão. O relatório denuncia que juízes “fizeram uso generalizado das situações 'excepcionalíssimas' para manter as mulheres na cadeia”.

A rede de proteção às mulheres também sofreu enfraquecimento. O orçamento da Secretaria Nacional de Políticas para Mulheres sofreu queda brusca, de 73 milhões de reais em 2014, para 47,3 milhões em 2017. Além de redução dos gastos da pasta, os equipamentos também encolheram. Entre 2016 e 2017 foram reduzidos o número de centros especializados de atendimento às mulheres - que prestam apoio jurídico e psicológico, por exemplo (de 256 para 241), de delegacias da mulher ou núcleos de atendimento da mulher em delegacias não especializadas (de 504 para 497), e de abrigos (de 97 para 74). “Em um país com mais de 200 milhões de habitantes, só existem 74 abrigos de proteção para mulheres e crianças”, diz José Miguel. “Isso reflete a falta de prioridade em relação à violência contra a mulher”. Nessa esteira, o governador de São Paulo João Doria (PSDB) vetou, nesta semana, um projeto de lei que previa o atendimento por 24 horas das 133 delegacias da mulher do Estado. Pelo Twitter, Doria, afirmou que o projeto apresentado era “inconstitucional”, e que iria “ajustar, aprovar e ampliar o projeto proposto”.

15
Jan19

Carnaval do Recife

Talis Andrade

por Leonardo Antônio Dantas Silva

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"O frevo como música tem sua origem no repertório das bandas militares em atividade na segunda metade do século XIX no Recife.

O maxixe, o tango brasileiro, a quadrilha, o galope e, mais particularmente, o dobrado e a polca, combinaram-se, fundiram-se, dando como resultado o frevo, criação do Carnaval do Recife ainda hoje em franca evolução musical e coreográfica.

Da pronúncia popular do verbo ferver originou-se o vocábulo frevo, no que são concordes todos os estudiosos do assunto.

Lembro, porém, a observação de José Antônio Gonsalves de Mello, em depoimento pessoal, quando assinala a presença daquele verbo, em sua forma de pronúncia usada pelas camadas menos letradas da população, frever, em autos populares.

Exemplo dessas manifestações, ainda no século XVIII, nos é dado por Francisco Pacífico do Amaral, em Escavações (Recife 1884), ao relatar as festas em homenagem ao governador José César de Menezes, ocorridas em 19 de março de 1775, quando dois “eremitas”, Antão e Bernabé, cantam dentre tantas essas quadrinhas:

Dizei bem, vá de função,
Ferva o meu Padre a folia
Bebamos, que a tudo chegam
As esmolas da caixinha.

O mesmo pesquisador chama a atenção para o conto de Luís de Guimarães Júnior (1845-1898), publicado no Diario de Pernambuco de 8 de fevereiro de 1871, sob o título “A alma do outro mundo. Conto do Norte”.

O conto tem o subúrbio recifense do Ibura como cenário, tecendo o seu autor, então estudante da Faculdade de Direito do Recife, comentários sobre o que ele denomina de “samba do Norte”:

"O samba de roda do Norte é uma coisa digna de ver. As toadas das cantigas em desafio prendem d’alma e provocam os sentidos. Há certa poesia selvagem naquelas danças características, entrecortadas de moda e trovas, que revela exuberantemente o mundo de sentimento da alma rude e ingênua do povo!"

No seu texto, o autor transcreve várias estrofes dos cânticos, fazendo referências a Tertuliano, a quem chama pelo apelido, Teto, descrevendo-o como “um rapaz magro, amorenado, como por lá diziam, de olhos vivos e cintura delgada.

Morava em Olinda; nas redondezas de 40 léguas não se começava um samba sem ele chegar.

— ‘Ferva o samba minha gente! Entra na roda, Teto!’ — Dançava como um corisco e pulava como um macaco! Corta jaca, Teto! O passo da tesoura! O passo do tesouro! O caranguejo!”.

— Corta jaca, Teto!
— O passo da tesoura! O passo da tesoura!
— O caranguejo!

Teto entrou e lançou ao chão com uma agilidade graciosa e chapelinho de palha. Estava em mangas de camisa e trazia uma gravata de seda vermelha, que ondulava-lhe ao pescoço, como a bandeira inglesa no mastro grande de uma fragata! As guitarras gemeram; as facas atacaram as botijas, os violões e as violas uniram-se ao ruidoso concerto com as suas longas e plangentes notas:

Batam bem nessa viola,
Deixem as cordas quebrar
Que eu quero espalhar saudades
Quero penas espalhar!

Derivado de fervorescente, efervescente, ferver — palavras então conhecidas popularmente como frevorescente, efrevescente e frever —, o frevo lembra ainda, segundo Luís da Câmara Cascudo, in Locuções tradicionais no Brasil (1977), “confusão, movimentação desusada, rebuliço, agitação popular”, ou ainda, para Pereira da Costa, in Vocabulário Pernambucano, “apertões de grande massa popular no vaivém em direções opostas, como pelo Carnaval , e nos acompanhamentos de procissões, passeatas e desfilar de clubes Carnavalescos”.

No meio dos clubes Carnavalescos, porém, o vocábulo frevo já se encontrava presente em 1907, segundo demonstra Evandro Rabello em artigo sobre o cronista carnavalesco, Osvaldo de Almeida, publicado no Diario de Pernambuco de 11 de fevereiro de 1990. Naquele ano, 1907, o Clube Carnavalesco Empalhadores do Feitosa publica no Jornal Pequeno, edição do sábado de Carnaval, 9 de fevereiro, o repertório da agremiação onde aparece O Frevo como uma das marchas a ser executadas pela orquestra:

"Empalhadores do Feitosa, em sua sede que se acha com uma ornamentação belíssima, fez ontem esse apreciado clube o seu ensaio geral, saindo após em bonita passeata, a fim de buscar o seu estandarte que se acha em casa do sr. Alfredo Bezerra, sócio emérito do referido clube. O repertório é o seguinte:"

"Marchas - Priminha, Empalhadores, Delícias, Amorosa, O Frevo, O Sol, Dois Pensamentos e Luís Monte, José de Lyra, Imprensa e Honorários; Ária - José da Luz; Tango - Pimentão. Agradecemos o convite que nos foi enviado para o segundo dia de Carnaval."

Para o Carnaval de 1907 o Clube Empalhadores do Feitosa contratou como orquestra a primeira fração da Banda da Polícia Militar, realizando o seu ensaio geral na quinta-feira, dia 7 de fevereiro, no Hipódromo, onde se encontrava a sua sede, fazendo no primeiro dia de Carnaval uma visita à povoação da Torre, seguindo depois para o seu “passeio” pelos bairros do centro do Recife.

Em sua edição de 22 de fevereiro de 1909, o Jornal Pequeno traz ocupando a sua primeira página uma interessante xilogravura de autor desconhecido com a frase Olha o Frevo, anunciando desta maneira os festejos Carnavalescos daquele ano. Tal ilustração, encontrada pelo autor destas notas, passou a ser usada quando da criação do primeiro Baile da Saudade no Carnaval de 1973; festa que se repetiu por dezoito anos, sendo proclamada a mais animada prévia do Carnaval Pernambucano.

"Olha o Frevo", veio a ser popularizada a partir de então, figurando em todos os convites e impressos do Baile da Saudade, bem como na série de cinco LPs, sob o mesmo título, editados pela Fábrica de Discos Rozenblit no Recife.

Pereira da Costa, em seu Vocabulário Pernambucano, assim comenta: “O termo frevo, vulgaríssimo entre nós, apareceu no Carnaval de 1909: Olha o Frevo! -- era a frase de entusiasmo que se ouvia no delírio da confusão e apertões do povo unido, compacto, ou em marcha acompanhando os clubes”.

Na segunda década do século vinte o vocábulo e seus derivados aparecem com frequência no noticiário Carnavalesco da imprensa do Recife:

• “O apertão do frevo, nesse descomunal amplexo de toda uma multidão que se desliza, se cola, se encontra, se roça, se entrechoca, se agarra” (Jornal do Recife, nº 65, 1916).

• Ou nesses versinhos: “O frevo que mais consola, / O que mais nos arrebata, / É o frevo que se rebola / Ao lado de uma mulata” (Diario de Pernambuco nº66, 1916).

• “Os rapazes souberam arranjar uma orquestra tão boazinha, que vem dar uma vida extrapiramidal ao rebuliço do frevo” (O Estado de Pernambuco nº 48, 1914).

• “O clube levará um dos seus carros com uma pipa do saboroso binho berde para distribuir com o pessoal da frevança” (Jornal Pequeno nº 39, 1917).

• “Do mundo a gente se esquece / Pinta a manta, pinta o bode, / E se o frevar recrudesce / Mais a gente se sacode” (Diario de Pernambuco nº 66, 1916).

Por sua vez, Rodolfo Garcia, no seu Dicionário de Brasileirismos (Peculiaridades Pernambucanas) , transcrevendo o nº 32 de A Província, Recife: 2 de fevereiro de 1913, aponta o original registro:

O Frevo, palavra exótica
Tudo que é bom diz, exprime,
É inigualável, sublime,
Termo raro, bom que dói...
Vale por um dicionário,
Traduz delírio, festança,
Tudo salta, tudo dança,
Tudo come, tudo rói"
O frevo como música tem sua origem no repertório das bandas militares em atividade na segunda metade do século XIX no Recife.

O maxixe, o tango brasileiro, a quadrilha, o galope e, mais particularmente, o dobrado e a polca, combinaram-se, fundiram-se, dando como resultado o frevo, criação do Carnaval do Recife ainda hoje em franca evolução musical e coreográfica.

Da pronúncia popular do verbo ferver originou-se o vocábulo frevo, no que são concordes todos os estudiosos do assunto.

Lembro, porém, a observação de José Antônio Gonsalves de Mello, em depoimento pessoal, quando assinala a presença daquele verbo, em sua forma de pronúncia usada pelas camadas menos letradas da população, frever, em autos populares.

Exemplo dessas manifestações, ainda no século XVIII, nos é dado por Francisco Pacífico do Amaral, em Escavações (Recife 1884), ao relatar as festas em homenagem ao governador José César de Menezes, ocorridas em 19 de março de 1775, quando dois “eremitas”, Antão e Bernabé, cantam dentre tantas essas quadrinhas:

Dizei bem, vá de função,
Ferva o meu Padre a folia
Bebamos, que a tudo chegam
As esmolas da caixinha.

O mesmo pesquisador chama a atenção para o conto de Luís de Guimarães Júnior (1845-1898), publicado no Diario de Pernambuco de 8 de fevereiro de 1871, sob o título “A alma do outro mundo. Conto do Norte”.

O conto tem o subúrbio recifense do Ibura como cenário, tecendo o seu autor, então estudante da Faculdade de Direito do Recife, comentários sobre o que ele denomina de “samba do Norte”:

"O samba de roda do Norte é uma coisa digna de ver. As toadas das cantigas em desafio prendem d’alma e provocam os sentidos. Há certa poesia selvagem naquelas danças características, entrecortadas de moda e trovas, que revela exuberantemente o mundo de sentimento da alma rude e ingênua do povo!"

No seu texto, o autor transcreve várias estrofes dos cânticos, fazendo referências a Tertuliano, a quem chama pelo apelido, Teto, descrevendo-o como “um rapaz magro, amorenado, como por lá diziam, de olhos vivos e cintura delgada.

Morava em Olinda; nas redondezas de 40 léguas não se começava um samba sem ele chegar.

— ‘Ferva o samba minha gente! Entra na roda, Teto!’ — Dançava como um corisco e pulava como um macaco! Corta jaca, Teto! O passo da tesoura! O passo do tesouro! O caranguejo!”.

— Corta jaca, Teto!
— O passo da tesoura! O passo da tesoura!
— O caranguejo!

Teto entrou e lançou ao chão com uma agilidade graciosa e chapelinho de palha. Estava em mangas de camisa e trazia uma gravata de seda vermelha, que ondulava-lhe ao pescoço, como a bandeira inglesa no mastro grande de uma fragata! As guitarras gemeram; as facas atacaram as botijas, os violões e as violas uniram-se ao ruidoso concerto com as suas longas e plangentes notas:

Batam bem nessa viola,
Deixem as cordas quebrar
Que eu quero espalhar saudades
Quero penas espalhar!

Derivado de fervorescente, efervescente, ferver — palavras então conhecidas popularmente como frevorescente, efrevescente e frever —, o frevo lembra ainda, segundo Luís da Câmara Cascudo, in Locuções tradicionais no Brasil (1977), “confusão, movimentação desusada, rebuliço, agitação popular”, ou ainda, para Pereira da Costa, in Vocabulário Pernambucano, “apertões de grande massa popular no vaivém em direções opostas, como pelo Carnaval , e nos acompanhamentos de procissões, passeatas e desfilar de clubes Carnavalescos”.

No meio dos clubes Carnavalescos, porém, o vocábulo frevo já se encontrava presente em 1907, segundo demonstra Evandro Rabello em artigo sobre o cronista carnavalesco, Osvaldo de Almeida, publicado no Diario de Pernambuco de 11 de fevereiro de 1990. Naquele ano, 1907, o Clube Carnavalesco Empalhadores do Feitosa publica no Jornal Pequeno, edição do sábado de Carnaval, 9 de fevereiro, o repertório da agremiação onde aparece O Frevo como uma das marchas a ser executadas pela orquestra:

"Empalhadores do Feitosa, em sua sede que se acha com uma ornamentação belíssima, fez ontem esse apreciado clube o seu ensaio geral, saindo após em bonita passeata, a fim de buscar o seu estandarte que se acha em casa do sr. Alfredo Bezerra, sócio emérito do referido clube. O repertório é o seguinte:"

"Marchas - Priminha, Empalhadores, Delícias, Amorosa, O Frevo, O Sol, Dois Pensamentos e Luís Monte, José de Lyra, Imprensa e Honorários; Ária - José da Luz; Tango - Pimentão. Agradecemos o convite que nos foi enviado para o segundo dia de Carnaval."

Para o Carnaval de 1907 o Clube Empalhadores do Feitosa contratou como orquestra a primeira fração da Banda da Polícia Militar, realizando o seu ensaio geral na quinta-feira, dia 7 de fevereiro, no Hipódromo, onde se encontrava a sua sede, fazendo no primeiro dia de Carnaval uma visita à povoação da Torre, seguindo depois para o seu “passeio” pelos bairros do centro do Recife.

Em sua edição de 22 de fevereiro de 1909, o Jornal Pequeno traz ocupando a sua primeira página uma interessante xilogravura de autor desconhecido com a frase Olha o Frevo, anunciando desta maneira os festejos Carnavalescos daquele ano. Tal ilustração, encontrada pelo autor destas notas, passou a ser usada quando da criação do primeiro Baile da Saudade no Carnaval de 1973; festa que se repetiu por dezoito anos, sendo proclamada a mais animada prévia do Carnaval Pernambucano.

"Olha o Frevo", veio a ser popularizada a partir de então, figurando em todos os convites e impressos do Baile da Saudade, bem como na série de cinco LPs, sob o mesmo título, editados pela Fábrica de Discos Rozenblit no Recife.

Pereira da Costa, em seu Vocabulário Pernambucano, assim comenta: “O termo frevo, vulgaríssimo entre nós, apareceu no Carnaval de 1909: Olha o Frevo! -- era a frase de entusiasmo que se ouvia no delírio da confusão e apertões do povo unido, compacto, ou em marcha acompanhando os clubes”.

Na segunda década do século vinte o vocábulo e seus derivados aparecem com frequência no noticiário Carnavalesco da imprensa do Recife:

• “O apertão do frevo, nesse descomunal amplexo de toda uma multidão que se desliza, se cola, se encontra, se roça, se entrechoca, se agarra” (Jornal do Recife, nº 65, 1916).

• Ou nesses versinhos: “O frevo que mais consola, / O que mais nos arrebata, / É o frevo que se rebola / Ao lado de uma mulata” (Diario de Pernambuco nº66, 1916).

• “Os rapazes souberam arranjar uma orquestra tão boazinha, que vem dar uma vida extrapiramidal ao rebuliço do frevo” (O Estado de Pernambuco nº 48, 1914).

• “O clube levará um dos seus carros com uma pipa do saboroso binho berde para distribuir com o pessoal da frevança” (Jornal Pequeno nº 39, 1917).

• “Do mundo a gente se esquece / Pinta a manta, pinta o bode, / E se o frevar recrudesce / Mais a gente se sacode” (Diario de Pernambuco nº 66, 1916).

Por sua vez, Rodolfo Garcia, no seu Dicionário de Brasileirismos (Peculiaridades Pernambucanas) , transcrevendo o nº 32 de A Província, Recife: 2 de fevereiro de 1913, aponta o original registro:

O Frevo, palavra exótica
Tudo que é bom diz, exprime,
É inigualável, sublime,
Termo raro, bom que dói...
Vale por um dicionário,
Traduz delírio, festança,
Tudo salta, tudo dança,
Tudo come, tudo rói

12
Jan19

Revista francesa L’Express dá destaque aos novos “políticos extravagantes” do Brasil

Talis Andrade
 
Por RFI
 
Revista francesa L’Express dá destaque aos novos “políticos extravagantes” do Brasil
 
Revista disse que Bolsonaro não é exceção no cenário político brasileiro Fotomontagem RFI
 
 

A revista francesa L’Express publicou nesta semana perfis de políticos que saíram vencedores nas eleições de 2018 no Brasil. A matéria dá destaque ao fato de que o presidente eleito, Jair Bolsonaro, que chamou atenção da comunidade internacional pelo discurso sexista, racista e homofóbico, está longe de ser "uma exceção" no cenário político brasileiro atual, segundo a publicação.

"Vários candidatos extravagantes foram eleitos deputados federais, estaduais ou governadores", diz a revista. "Pouco conhecidos dos brasileiros antes da campanha eleitoral, essas personalidades atípicas foram guiadas pela onda de 'renovação' e 'cansaço' que levou o ex-capitão do Exército à presidência do país. [...] É o caso do novo governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel. Adepto de um discurso forte na cidade dominada pela violência, Witzel sugeriu o uso de armas e até mesmo de drones para abater os criminosos nas favelas", afirma L’Express.

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a camisa do estudante .jpg

Dois jovens, dois destinos. O filho trans do governador e o filho da favelada, morto por bala perdida em uma favela do Rio

 

A publicação lembra que o partido de Bolsonaro, o PSL, passou de um parlamentar desde as últimas eleições a 52 em 2018, tornando-se o segundo maior partido na Câmara dos Deputados. Entre os eleitos, "há quem se veste com roupas de estampa militar, como é o caso de Daniel Silveira, que, durante a campanha eleitoral foi fotografado destruindo uma placa em homenagem a Marielle Franco, veredora do Rio assassinada em março de 2018".

PSL de BOLSONARO marielle.jpg

 

Assim como ajudou Bolsonaro, as redes sociais foram vitais para o resto dos eleitos em 2018, como a policial Kátia Sastre, de São Paulo, que viralizou ao atirar em um assaltante na frente da escola de seu filho. "Ela se tornou a 15ª deputada federal mais bem votada do Brasil", conta a revista L’Express.

fuzila bandido .png

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A internet também foi o que conduziu o youtuber Marcio Labre ao cargo de deputado do Estado do Rio de Janeiro, assim como o sargento Fahur, policial do Paraná, que conta com 3,2 milhões de seguidores em sua página no Facebook, onde ele classifica os pobres de "vagabundos" que "merecem receber um tiro".

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Sistema eleitoral de caricaturas

A lista não para: L’Express cita Kim Kataguiri, de 22 anos, um dos fundadores do Movimento Brasil Livre, eleito deputado; assim como Luiz Philippe de Orleans e Bragança, da família imperial brasileira, sem se esquecer, é claro, de Alexandre Frota, ex-ator pornô. A cantora gospel Flordelis, eleita deputada federal, é apontada pela revista como uma das principais representantes da bancada Bala, Boi e Bíblia (BBB). O lobby evangélico no Congresso, lembra L’Express, passou de 75 a 84 eleitos.

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O clã Bolsonaro não foi esquecido pela revista semanal: o filho mais velho de Jair, Flávio, ex-deputado, entrou no Senado; Eduardo, que apoia a pena de morte, tornou-se o deputado mais votado da história do país, com 1,84 milhão de votos; enquanto Carlos, que gerenciou a campanha do presidente eleito, conserva seu cargo de vereador no Rio de Janeiro.

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A revista francesa diz que o processo eleitoral brasileiro abre portas às candidaturas "folclóricas", com o sistema proporcional, que permite aos partidos mais votados a atribuição de uma parte dos votos a outros candidatos. A tarefa, agora, é conter o desemprego, regulamentar a questão das aposentadorias e solucionar os problemas ligados à economia, algo um pouco mais difícil do que viralizar na internet, segundo a L’Express.

 

11
Jan19

BOLSONARO VAI LIBERAR DUAS ARMAS POR PESSOA

Talis Andrade

Turma de Sergio Moro já redigiu decreto

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Sergio Moro não perdeu tempo. Para agradar o capitão presidente, Sergio Moro botou o Ministério da Justiça e da Segurança para virar dez dias na redação do decreto que facilita a posse de armamento de fogo e prevê que o interessado possa ter até duas armas.

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247 - O presidente Jair Bolsonaro deve assinar nos próximos dias o decreto que facilita a posse de armamento de fogo e prevê que o interessado possa ter até duas armas, de acordo com uma versão preliminar do texto. O limite ainda pode ser ampliado caso seja comprovada a necessidade. A previsão é que o texto seja publicado na próxima semana.

Pesquisa Datafolha divulgada em agosto apontou que 58% dos eleitores do Brasil acreditam que a posse de armas deve continuar proibida. Outro levantamento, divulgado este mês de janeiro, mostrou 56% dos entrevistados se disseram contrários ao porte legal estendido a todos os cidadãos - posse é quando a pessoa mantém sob sua guarda uma arma de fogo, podendo ser em casa ou no trabalho, por exemplo. Porte de arma possibilita ao cidadão sair na rua com a arma junto ao corpo.

Se ficar comprovada a "efetiva necessidade" de armamento, poderão ter direito a duas armas: agentes públicos de segurança e de administração penitenciária, e agentes públicos envolvidos no exercício de atividades de poder de polícia administrativa ou de correição em caráter permanente.

Também poderão ter acesso a armamento residentes em áreas urbanas com altos índices de violência - mais de dez homicídios por 100 mil habitantes; titulares ou responsáveis legais de estabelecimentos comerciais; colecionadores, atiradores e caçadores, devidamente registrados no Comando do Exército.

Segundo o STB, que divulgou o teor do texto com a possibilidade de duas armas por pessoa, o governo deve manter regras já existentes, como ter 25 anos de idade ou mais e não possuir antecedentes criminais. Continuam obrigatórios o exame psicológico e realizar curso em clube de tiro continuarão obrigatórios.

De acordo com as regras atuais, podem ser adquiridas espingardas calibre 20, 28, 36, 32 e 12; revólveres calibres 22, 36 e 38; rifles calibre 22; carabinas calibre 38; e pistolas calibres 32, 22 e 380. O cidadão também poderá comprar munições e carregadores.

arma.jpg

 

11
Jan19

De Jussara Salazar

Talis Andrade

jussara vestido.jpg

 

 

a língua das facas


não há poema
apedrejaram a estátua do bandeira
e os tambores soaram às seis da manhã
não há palavra
e quero palavras macias
palavras antigas e suaves
como os tapetes da mesquita
que flutuaram sob meus pés
naquele domingo de março
não há letra suficiente
os signos falam uma língua de facas
os signos foram destruídos
os signos foram esquecidos
os signos fugiram pelas ruas
e ninguém mais consegue decifrá-los
estamos balbuciando sons
como numa infância
com sua mudez de aprendizes
como numa infância
de brinquedos quebrados
de caminhos partidos
como "veredas que se bifurcam"

 

img tema Pia-Lotta Rock

 

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