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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

01
Jun18

Estudantes negros enfrentam o racismo de professores e colegas em universidades

Talis Andrade

De xingamentos de ‘escravos’ a brincadeiras com os cabelos, negros convivem com ataques de racismo

 

juniao ponte.jpg

 

 

A estudante negra, que prefere não ser identificada, conta que, quando passou em publicidade e propaganda na Faculdade Cásper Líbero, na cidade de São Paulo, esperava se deparar com algum episódio racista quando pisasse naquele espaço — que, até poucos anos, era quase que exclusivamente branco, como todo o ensino superior do Brasil. “Por ser uma faculdade elitista, eu imaginei que sofreria algo”, diz. O que ela não esperava é que o racismo partisse de uma professora.

Durante uma aula, em 22 de março, folheando o álbum da Copa do Mundo de uma aluna, a professora comentou que na Croácia “só tem gente bonita” e, diante das imagens da seleção da Nigéria, disse que “queria saber como esse aqui faz pra pentear o cabelo, deve ser um ninho”, segundo o relato de alunos. No final da aula, a aluna e seus colegas procuraram a professora para questionar essa e outras falas dela que consideravam discriminatórias. Durante a conversa, a professora negou que fosse racista, disse que não havia racismo no Brasil (“tem até um outro negro na Cásper”) e ainda pôs a mão no cabelo da jovem, alegando “curiosidade”.

 

O episódio foi levado à direção da Cásper Líbero pelo coletivo de alunos Africásper. Nesta semana, a faculdade demitiu a professora, que não teve o nome divulgado. “Após analisar os apontamentos relatados pelo corpo discente e ouvir as partes envolvidas, a Faculdade Cásper Líbero optou pelo desligamento do docente por uso de expressões e atitudes inadequadas. A Faculdade reforça que repudia qualquer atitude de conotação discriminatória e preconceituosa, seja no espaço público ou privado”, afirmou a direção da faculdade, em nota divulgada nesta quinta-feira.

‘Um lugar que não é seu’

Episódios como esse têm se mostrado comuns no ambiente universitário, revelando o racismo dos mais escolarizados. Segundo dados obtidos pelo G1junto à Secretaria Estadual da Segurança Pública de São Pau lo, o estado registrou, entre 2016 e 2017, um caso de injúria racial em instituições de ensino a cada cinco dias.

 

O problema demora a ser percebido porque “parte da população entende que isso não deveria acontecer, porque o universo é composto por pessoas de nível de escolaridade mais elevado”, segundo Jefferson Mariano, doutor em desenvolvimento econômico, analista socioeconômico do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), professor universitário e homem negro.

 

Porém, com o ingresso de mais jovens negros nas universidades e faculdades — de acordo com o Ministério da Educação, desde que a política de cotas virou lei, em 2012, 150.000 estudantes negros ingressaram em entidades de ensino superior no País entre 2013 e 2015 —, a busca dos brancos por defenderem privilégios de raça se torna mais explícito. Na cabeça de muitas pessoas, segundo Mariano, “o negro passa a ocupar um lugar que não é seu”.

 

Mariano lembra que, no início da carreira, enfrentou casos explícitos de preconceito. “Lecionei no interior de São Paulo em cursos de Administração e já cheguei ouvir afirmações racistas de alunos, foi uma situação bastante complicada. Em turmas de economia, muitos alunos achavam que não havia o menor sentido discutir inserção do negro no mercado de trabalho, por exemplo”, conta. “No meu mestrado tive um problema sério. No fim do curso, uma das minhas notas sumiu. O professor errou, mas foi à secretaria questionar a minha índole. A minha sorte é que a secretária localizou meus trabalhos nos arquivos. O professor não se desculpou.”

 

Ainda assim, os ataques racistas no ensino superior são apenas mais um dos vários obstáculos enfrentados por quem, para chegar ali, teve que matar vários leões pelo caminho. “O fato de um menino negro conseguir completar o ciclo do ensino fundamental é um ato heroico”, afirma o professor, para quem “o negro fica sempre com a sensação de que está no lugar errado”. De acordo com estudo do IBGE, realizado em 2015, a porcentagem de jovens negros entre 18 e 24 anos que chegaram até a universidade era 12,8%. Entre brancos na mesma faixa etária a porcentagem é de 26,5%. Números que mostram, portanto, que o acesso de negros ao ensino superior ainda é abaixo da média.

 

Para um estudante negro chegar ao ensino superior, ele precisa, primeiro, sobreviver emocionalmente às outras etapas do ensino. “O negro sente o racismo na sua vida escolar desde o primeiro dia de aula. Já comentei que o pior lugar para um negro estar, aos sete anos de idade, é na escola. Não há lugar mais hostil”, afirma o pesquisador, que hoje leciona na Faculdade Cásper Líbero e na Saint Paul Escola de Negócios.

 

‘Racistas vão ter que pagar’

“Achei esse escravo no fumódromo! Quem for o dono, avisa!”, disse um aluno branco estudante da FGV (Faculdade Getúlio Vargas) ao se referir a um colega negro. A frase foi compartilhada em um grupo do WhatsApp com uma foto de João Gilberto Lima. O estudante soube do ocorrido por parte da própria coordenação do curso de administração pública, do qual faz parte. Ao saber o que tinha acontecido, João registrou boletim de ocorrência no 4º DP (Consolação), por injúria racial.

Comentários racistas feitos pelo aluno Gustavo Metropolo, da FGV (à direita)
Comentários racistas feitos pelo aluno Gustavo Metropolo, da FGV (à direita)
 

Segundo João, ele sabia desde o princípio que tinha que denunciar o caso formalmente. “Fiquei chocado com o que tinha acontecido, mas o meu maior sentimento foi o de indignação por aquilo estar acontecendo no ambiente da FGV”, afirmou o estudante à Ponte. O agressor foi suspenso por três meses da universidade pela comissão de ética. Atualmente, a congregação da instituição analisa se dará outras punições.

 

Segundo João, ele já tinha sofrido outros casos de racismo na vida, mas que nada tinha sido parecido com o que sofreu na universidade. Para ele, é preciso que as pessoas que sofrem com o racismo “tenham a coragem de denunciar”. “Eu não tenho a utopia de achar que as pessoas vão deixar de ser racistas. Eu não vou mudar a cabeça das pessoas nem o que elas pensam, mas a partir do momento que elas externalizarem isso, elas vão ter que pagar por isso conforme está previsto na lei”, conclui.

 

O racismo à brasileira vem muitas vezes disfarçado de brincadeira. “Aqui no Brasil, as pessoas ofendem a dignidade da população negra dizendo que se trata de piada, mas isso se trata de racismo”, analisa o professor Tiago Vinícius dos Santos, doutor em direitos humanos pela USP (Universidade de São Paulo).

 

Para que casos de racismo sejam investigados dentro da academia, o professor afirma que é preciso criar um órgão responsável para apurar denúncias. “É fundamental criar um centro de diversidade ou um departamento das universidades”, afirma. Sobre estudantes vítima de racismo, Santos afirma que é preciso que os alunos façam uma denúncia no campo institucional e também nas delegacias. Dessa forma, ele afirma que as denúncias não irão só penalizar aquele que praticou alguma ofensa, mas também irão servir como objeto de reflexão para as instituições. ‘Odeio pretos e pardos’

 

O que não faltam são instituições acadêmicas precisando refletir sobre seu papel. Em março, um professor do Instituto Federal de São Paulo publicou nas redes sociais um texto, que mais tarde classificaria como mal compreendido, em que proferia uma série de ofensas e concluía: “Odeio pretos e pardos”. Alunos do instituto fizeram a denúncia à diretoria e à reitoria do Instituto e organizaram pelo menos duas manifestações para cobrar a exoneração de José Guilherme de Almeida, que lecionava no curso de Geografia. O Instituto emitiu nota afirmando repúdio ao racismo e prometendo apurar o caso.

Professor apagou perfil nas redes sociais após a publicação.
Professor apagou perfil nas redes sociais após a publicação. REPRODUÇÃO/FACEBOOK
 

Dois estudantes da instituição relataram perseguições. José Guilherme teria reprovado Christopher de Lima Machado e Fábio Santos Souza em duas disciplinas apesar de ambos os estudantes terem notas suficientes para passar de ano. De acordo com Christopher, “ele faz questão de falar que os bandidos periféricos roubaram todos os Iphones que ele já teve”.

 

“Tive aulas com ele e é torturante”, diz Fábio. “Ele não aceita confronto de alunos contra as coisas que ele falava em aula. Sempre que havia confronto em sala de aula, os alunos negros sofriam represálias, mesmo que entre os envolvidos também tivessem brancos”, afirma. A Ponte tentou entrar em contato com o professor para que ele se posicionasse sobre os casos e as acusações, mas ele não respondeu às tentativas da reportagem.

 

Não é fácil para as instituições de ensino superior entenderem as questões relacionadas ao racismo. Em junho de 2017, a estudante de jornalismo Thamires Menezes ouviu de um professor da Universidade Tiradentes, em Aracaju (SE), que ela não poderia ser âncora de jornal por conta do cabelo afro, estilo black power, que ela usava na época. Thamires denunciou o caso, mas afirma que colegas, professores e direção da universidade começaram a ver a vítima como culpada. O acontecimento levou a aluna a abandonar o curso.

 

“Ainda estudei durante o período passado, fazendo meus trabalhos sozinha, mas vi que estava pagando faculdade em vão. O professor continua lá, a coordenadora também. O caso no Ministério Público foi arquivado e minha advogada sumiu. O processo nunca aconteceu e pronto. Fui lá tranquei o curso. O pior foi sair do estágio. Eu amava trabalhar lá”, lamenta.

Thamires Menezes e o cabelo que “não servia” para o telejornalismo
Thamires Menezes e o cabelo que “não servia” para o telejornalismo ARQUIVO PESSOAL
 

Agora, a estudante mudou de estado para terminar o curso. Há três meses, ela foi para Salvador e afirma que pretende voltar aos estudos no próximo período. Mesmo com o sofrimento que passou, ela afirma que encara tudo como um “novo desafio”.

 

Sobre o episódio, a Unit afirma que não houve racismo. “O ocorrido se deu em uma dinâmica comum de sala de aula, quando os alunos e professor discutiam sobre resumos da área de Comunicação que abordam acerca da postura do profissional em bancadas de telejornais, sem expressar qualquer opinião pessoal sobre a matéria. (…) Portanto, ficou constatada a inexistência de qualquer manifestação depreciativa, forma de discriminação ou preconceito, por qualquer motivo (sexo, idade, cor, preferências, convicções, etc.) por parte do professor em relação a aluna em questão”, afirma a universidade em nota. A Unit diz que “os fatos foram apurados internamente (pelos setores de Ouvidoria, que registra as reclamações, e Comissão de Ética, que atua na apuração das denúncias envolvendo docentes e discentes), pela autoridade policial de Sergipe e outros órgãos estatais, no âmbito de suas competências processuais”, sem que o crime fosse constatado.

 

Luta e vitória

Para Larissa Mendes, aluna da Escola Politécnica, unidade da USP que em 121 anos de existência formou apenas sete mulheres negras, o preconceito se manifestou de formas menos diretas. “Dentro da Poli o racismo se dá quase que da mesma forma que o Brasil como um todo: ninguém é diretamente racista”, conta. “Eu nunca ouvi nenhum comentário evidentemente racista, mas, sempre que eu descia do circular na Poli, as pessoas iam me empurrando, porque na cabeça delas eu não faço parte do perfil de pessoas que desce no ponto de ônibus da maior faculdade de engenharia do país.”

 

Larissa faz parte da Poli Negra, coletivo que impulsionou a discussão sobre cotas na faculdade, obrigando os alunos de lá a enxergarem que havia uma questão racial a ser debatida. “Até então, por mais que um ou outro aluno pobre e negro falasse alguma coisa, as pessoas achavam normal olhar pros lados e só ver gente igual a eles: brancos, ricos, vindos de bons colégios”, diz. Realizando diversas reuniões com os centros acadêmicos, a Poli Negra conseguiu impulsionar um plebiscito que, em 2017, apontou que 70% dos alunos apoiavam as cotas. No mesmo ano, quando o Conselho Universitário da USP aprovou a implantação de cotas sociais e raciais. “Foi uma vitória imensa”, conclui.racism

01
Jun18

Efeito Marielle: mulheres negras entram na política por legado da vereadora

Talis Andrade

Assassinato de Marielle Franco despertou em mulheres jovens, negras e periféricas o desejo de ir à luta e manter o legado da vereadora através de candidaturas

 

marielle.jpg

 

 

assassinato da vereadora carioca Marielle Franco (PSOL) chocou o Brasil pela brutalidade do crime e por ter representado um ataque direto a muitos símbolos: mulher, negra, lésbica e favelada. Mais do que uma pessoa, as balas feriram grupos e ideais. Um amigo de longa data dela, o geógrafo Lourenço Cezar, chegou a dizer à Ponte que a pessoa que disparou contra ela deveria ter conhecimentos de ciências sociais, já que, com os tiros, conseguiu atingir inúmeras pessoas de uma única vez.

A vereadora e o motorista Anderson Gomes foram assassinados na noite do dia 14 de março deste ano, logo depois que ela saiu de um evento em que discutia negritude, representatividade e feminismo. Os disparos da submetralhadora 9mm, segundo a investigação, tinham alvo certo: Marielle. Mas acabaram atingindo Anderson. Colegas do PSOL na Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro se comprometeram a manter viva a luta dela. Tanto que no dia 2/5, após negociação com a presidência da Casa, a bancada conseguiu aprovar cinco de pelo menos sete projetos de lei de autoria dela que tinham ficado por serem votados.

Mas há outro efeito, esse de médio e longo prazo, a partir da trágica morte de Marielle. Inspiradas pela história da vereadora carioca, mulheres negras decidiram entrar para a vida política como forma de levar adiante o legado de luta deixado por ela. Transcrevi trechos

 

 

01
Jun18

Delação Premiada, por MC Carol

Talis Andrade

 

intervenção militar.jpg

 




Troca de plantão, a bala come à vera
Ontem teve arrego, rolou baile na favela
Sete da manhã, muito tiro de meiota
Mataram uma criança indo pra escola

 

Na televisão a verdade não importa
É negro favelado, então tava de pistola
Na televisão a verdade não importa
É negro favelado, então tava de pistola

 

(Uma câmera de segurança flagrou um adolescente
Sendo baleado a queima roupa por policiais)

 

Cadê o Amarildo? Ninguém vai esquecer
Vocês não solucionaram a morte do DG
Afastamento da polícia é o único resultado
Não existe justiça se o assassino tá fardado

 

Na televisão a verdade não importa
É negro favelado, então tava de pistola
Na televisão a verdade não importa
É negro favelado, então tava de pistola

 

Três dias de tortura numa sala cheia de rato
É assim que eles tratam o bandido favelado
Bandido rico e poderoso tem cela separada
Tratamento VIP e delação premiada

 

(Porque que tinha luva no local antes da perícia chegar?
Porque que tinha sangue no muro? Ele foi torturado até a morte
DG do bonde da madrugada, pela PM da pacificação, até a morte)

 

Na televisão a verdade não importa
É negro favelado, então tava de pistola
Na televisão a verdade não importa
É negro favelado, então tava de pistola

 

Troca de plantão a bala come à vera
Ontem teve arrego, rolou baile na favela
Sete da manhã, muito tiro de meiota
Mataram uma criança indo pra escola

 

Cadê o Amarildo? Ninguém vai esquecer
Vocês não solucionaram a morte do DG
Afastamento da polícia é o único resultado
Não existe justiça se o assassino tá fardado

 

Três dias de tortura numa sala cheia de rato
É assim que eles tratam o bandido favelado
Bandido rico e poderoso tem cela separada
Tratamento VIP e delação premiada

 

Na televisão a verdade não importa
É negro favelado, então tava de pistola
Na televisão a verdade não importa
É negro favelado, então tava de pistola

 

 

01
Jun18

“A intervenção é uma farsa, assim como a UPP”

Talis Andrade

Nascida e criada no Morro do Preventório, em Niterói (RJ), a funkeira MC Carol, de 24 anos, falou ao Le Monde Diplomatique Brasil sobre feminismo, violência, racismo, política e música

 

MC-Carol.jpg

 

 

A política precisa de mulher preta, lá dentro, gritando

Marielle Franco

 

 

por Guilherme Henrique 

---

 

Nascida no Morro do Preventório, MC Carol foi abandonada pelos pais e criada com os bisavós até os 12 anos. Aos 14, foi expulsa de casa e obrigada a morar sozinha, em um barraco sem porta. “Tinha perdido a vontade de viver. Só queria ficar em casa, no escuro”, diz. Entregou-se à bebida e passou a viver de oportunidades escassas até os 16 anos, quando começou a compor e cantar funk.

 

Desde então, ela afirma que o gênero mudou e agora “está derrubando tudo”. “Não tinha funk em festa de 15 anos antigamente”, comenta, para justificar a composição tardia de “Não foi Cabral”, música de grande repercussão que explica a história do Brasil em uma letra “mais consciente”, como ela define.

 

No fim de março, MC Carol divulgou a canção “Marielle Franco”, em homenagem à amiga e vereadora. “A gente está correndo para produzir”, disse o empresário no dia da entrevista, agendada antes da morte de Marielle. A letra avisa que “Vocês não vão nos calar/ Mesmo sangrando a gente vai tá lá/ Pra marchar e gritar”, para em seguida citar o nome de mulheres vítimas da violência do Estado.

 

Ao Le Monde Diplomatique Brasil, MC Carol falou sobre seu feminismo particular, a disputa da mulher negra e periférica para ocupar os espaços públicos de poder, a violência no Rio de Janeiro e o medo após o assassinato de Marielle. “Nada se compara ao que estamos vivendo neste momento.”

 

Você já sentiu medo de andar na rua por ser mulher?

Eu sempre senti medo, mas nada comparado ao que vivemos agora. Sinto medo de andar de madrugada, por ser mulher e por ser negra. Eu tenho medo por escrever algumas coisas. Fiquei com receio de escrever a música “Delação premiada”. Agora estou apavorada, para ser sincera.

 

Como você tem visto a intervenção federal no Rio de Janeiro?

A intervenção é uma farsa, assim como a UPP [Unidade de Polícia Pacificadora, criada em 2008]. Não vai mudar nada.

 

Qual é a reação das pessoas na favela em relação à intervenção?

Sentimos muito medo, mas existem pessoas que estão revoltadas. Crianças que perderam irmãos, tios, amigos, pai, mãe nessa guerra. Como explicar para essa criança que existe um mundo legal lá fora? É muito complicado. Muitas pessoas se revoltaram, não se importam mais com nada, estão dispostas a matar ou morrer, e tudo vai continuar como está. É preciso focar as crianças. Na minha época, fiz aula de desenho, vôlei, futebol, natação, corrida. Hoje não tem mais nada. Pegaram a Casa Princesa Isabel, que fica em frente ao Morro do Preventório, onde tinha os esportes, e transformaram em uma escola bilíngue. Na minha comunidade, uma ou duas crianças estudam lá. Ou seja: o que as crianças pobres vão fazer o dia inteiro? Sabe qual é o esporte delas? Jogar sinuca dentro do bar. O que a criança vê dentro do bar? Bebida, droga e tudo que não é para a idade dela.

 

 

Como foi ir à FGV, uma faculdade elitista, para cantar “Não foi Cabral” e estar em um ambiente que, supostamente, não é pra você?

Fiquei insegura e chocada, porque era uma faculdade com escada rolante! Foi a primeira vez que entrei em uma universidade. Todo mundo me tratou bem. Eu não tinha percebido que não tinha negros na sala. Só fui prestar atenção depois, quando vi uma foto pós-evento e recebi milhares de comentários no meu Facebook. “Só tem branco aí, Carol”, diziam. Em um país em que a maioria é negra, como isso pode acontecer? Por que os negros são maioria nos presídios? Tem alguma coisa errada aí. [Transcrevi trechos]

 

 

 

 

 

01
Jun18

O submundo de Paulo Preto: ameaças a testemunhas e fuga da filha para exterior

Talis Andrade

aroeira paulo preto solto.jpg

 

por Mauro Lopes

---

Paulo Preto voltou à prisão nesta quarta-feira (30), por algumas horas. Ficamos sabendo que a razão seria a de “descumprimento de decisão judicial”. A expressão, corrente em todas as mídias, escondeu da opinião pública o tenebroso submundo do operador do PSDB, que faz o “lado b” dos tucanos causar calafrios.

 

Segundo a decisão judicial, a volta do tucano à gaiola foi necessária para "assegurar a instrução criminal". Palavras neutras, que nada revelam. Você não deve saber, mas o motivo da volta de Paulo Preto voltou à cadeia deve-se ao fato de recorrentemente ameaças testemunhas que deporiam contra ele.

 

O operador do PSDB tem R$ 121 milhões de bons motivos na Suíça para ameaçar as testemunhas do processo contra ele.

 

Em audiência no dia 18 de maio, segundo o Ministério Público Federal, uma testemunha cujo nome está sob segredo para sua segurança pessoal estava chorando quando "fez contato telefônico" com o MP "com medo de vir à audiência, pois temia que algo lhe acontecesse e temia encontrar os réus". Não bastou ameaçar uma das testemunhas. Paulo Preto ameaçou a mãe de uma investigada no processo. Mulheres, todas as ameaçadas pelo “macho” Paulo Preto.

 

É este o padrão de comportamento do ex-homem de ouro de Serra, Alckmin e Aloysio Nunes no processo a que responde por desvios de R$ 7,7 milhões em reassentamentos para obras do Rodoanel Trecho Sul, entre os anos de 2009 e 2011 (nos governos José Serra e Geraldo Alckmin). O valor seria pagamento de propina para o PSDB.

paulo e curriola .jpg

 

 

Se Paulo Preto ameaça testemunhas por “irrisórios” R$ 7,7 milhões, o que não faria por R$ 121 milhões.

 

Bem, então você pode pensar, “nossa, mas é uma surpresa essa coisa de coação de testemunhas, é muito grave, ainda bem que a Justiça agiu rapidamente”.

 

Pois é.

 

Mas o assunto já era conhecido nos tribunais. Não é a primeira vez que Paulo Preto ameaça testemunhas com o conhecimento do Poder Judiciário. Foi exatamente por este motivo que ele foi levado à cadeia em 5 de abril.

 

Mas quem foi em seu socorro? Ele mesmo, Gilmar Mendes, indicado ao STF por Fernando Henrique Cardoso e um dos principais quadros do PSDB no país, amigo-irmão de José Serra. No dia 11 de maio, Gilmar mandou soltar Paulo Preto porque, viu falta de "comprovação" das ameaças a testemunhas. Menos de uma semana depois de solto, o operador tucano voltou às ameaças.

 

E ainda teve a cara de pau (ou o bico de tucano) de conceder uma entrevista que foi um show de cinismo e fanfarronices, tripudiando sobre a Justiça, graças à proteção oferecida por Gilmar e todo o esquema do PSDB. Na entrevista, garantiu que ficaria de bico calado, para alívio da nação emplumada.

 

Basta de Paulo Preto?

 

Não. Tem mais.

 

Paulo Preto foi recolhido ao xilindró nesta quarta na companhia da filha, Tatiana Arana Souza Cremonini. Durante sua primeira estada na cadeia, de pouco mais de um mês, o terror dos tucanos quanto à delação de seu operar devia-se à preocupação de Paulo Preto exatamente com a filha e seu receio de ela ser arrastada ao processo. Ele estava a ponto de delatar para manter Tatiana longe de toda a história sórdida quando foi salvo pelo gongo Gilmar. Agora, ela está no olho do furacão.

paulo-preto-tatiana-filha.jpg

FREGUÊS - Paulo Preto, com a filha Tatiana: salvo por Gilmar Mendes outra vez (Jefferson Coppola/ VEJA)

 

Filha de tucano tucaninha é. São dois os motivos para a prisão de Tatiana Cremonini, a filha: ela vinha agenciando advogados para testemunhas de acusação, para transformar o processo contra o pai numa farsa; e preparava-se para embarcar em viagem às Ilhas Maldivas, paraíso fiscal localizado no Oceano Índico. Detalhe: o paraíso fiscal não tem acordo de extradição com o Brasil. Pelo visto, a tucana preparava-se para levantar asas e não mais voltar –para um paraíso fiscal, onde costumam-se guardar (esconder) milhões e milhões de dólares de operações ilegais. Viagem curiosa essa.

 

Bem, se você leu que Paulo Preto foi preso por uma inocente expressão, “descumprimento de decisão judicial”, ficou sem saber de nada.

 

Mas a história não acabou... Quem tem Gilmar Mendes tem tudo. O tucano-mor é a garantia de que os emplumados jamais conhecerão o inferno na terra. Enquanto finalizo este soube que há uma hora atrás Mendes mandou soltar Paulo Preto de novo. Ele poderá continuar a ameaçar testemunhas sem qualquer constrangimento. Mendes preza a família e não esqueceu da filha; ela também foi solta. Tem mais: Gilmar suspendeu um interrogatório de Preto que estava marcado para a próxima segunda-feira.

 

O submundo tucano é feito de jogo pesado. Muito pesado.

 

_aliedo gilmar e sua caneta.jpg

 

 

01
Jun18

A justiça espetáculo condena sem provas

Talis Andrade

Prisão de Lula prejudicial ao próprio

Estado Democrático de Direito

 

silvio luis ferreira da rocha.jpg

 

 

TV 247 - O doutor e juiz federal da terceira região de São Paulo, Silvio Luís Ferreira da Rocha, participou do programa “A Batalha das Ideias” desta quarta-feira (31) abordando o espetáculo do judiciário brasileiro quando investiga crimes de corrupção e os critérios utilizados na condenação de Luiz Inácio Lula da Silva. Para o juiz, não há provas irrefutáveis que o ex-presidente tenha praticado crimes.

 

Ferreira diz que existem dois modelos de magistrado. “O mais tradicional, quando o juiz se manifesta nos autos por intermédio das suas decisões, e outra proposta que dialoga com os meios de comunicação, além de fornecer esclarecimentos à mídia. Qual é o risco deste segundo modelo? Do juiz perder sua imparcialidade”, assevera.

 

O juiz condena a condução de certas investigações. “Quando um crime envolvendo corrupção é investigado, consequentemente torna-se um espetáculo para mídia e ganha destaque em toda sociedade, porque é algo incomum, mas o ideal seria não dar tal dimensão de atração, pois expõe a figura do investigado e a do réu, que ainda não teve a sua culpabilidade afirmada, ou seja, ataca a presunção de inocência, sendo prejudicial ao próprio Estado Democrático de Direito”, critica Ferreira.

 

Ele dá sequência às criticas condenando o formato das delações premiadas. “Ocorre à delação e a imprensa já sabe quem foi o delator, o que ele disse e quem foi o delatado”, relata Ferreira.

 

Ao analisar o processo que condenou o ex-presidente Lula, o magistrado considera que “não há provas irrefutáveis que Lula tenha praticado crime”, argumentando que deveria existir na peça acusatória provas concretas e não conceitos subjetivos. “A acusação o colocou como um chefe de uma organização criminosa na prática de atos de corrupção, naquele processo específico, Lula contaria com a ajuda de dois grandes operadores, que prestaram depoimentos e não incriminaram o ex-presidente. Na acusação de posse do Tripléx do Guarujá, deveria existir um registro de imóveis”, explica.

 

Confira a entrevista com o juiz Silvio Luís Ferreira da Rocha na TV 247

 

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