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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

28
Jun17

A arte de governar

Talis Andrade

Ficaria satisfeito com uma agenda básica: (1) o trinômio, educação/conhecimento/inovação; (2) instituições democráticas/inclusão; (3) governo que funcione. E antes que esqueça: adicionar ao PIB, indicador de quantidade, o felicitômetro, indicador de qualidade.

 

gustavo-krause.jpg

 

por Gustavo Krause

 

 

 

O desuso do “Manifesto das sete artes”, publicado em 1923, que reconheceu o cinema como a sétima arte (hoje, são identificadas 11), deixa-me àvontade para incluir mais uma, a arte de governar.

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Muita gente vai torcer o nariz diante de tamanha ousadia. As pessoas, em geral, estão ressabiadas com o governo, qualquer governo, em especial o nosso, perito em malasartes e aívem um cara escrever sobre a arte de governar.

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Justifico. A expressão “arte” admite uma licença na linguagem coloquial que amplia seu sentido original e permite o uso para traduzir a combinação de elementos concretos e abstratos capazes de qualificar o fazer humano (cultura). De outra parte, governar éuma ação intensa, transformadora e de tal complexidade cuja força pode produzir o belo e o trágico. Nela estão contidos o exercício do poder, o jogo da política e a misteriosa essência do ser humano em toda sua grandeza e miséria.

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De outra parte, nunca é demais lembrar que a inseparável relação entre governo e política avaliza conceitos clássicos que mencionam “ciência da governação dos Estados”; “Arte e prática da governação das sociedades humanas”; e definições que acrescentam à arte e à ciência “a ética do bem comum”.

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Com efeito, o tempo das disputas eleitorais anima a reflexão sobre a arte de governar, reflexões, aliás, antigas, profundas e suficientes para abarrotar muitas bibliotecas.

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O apelo à concisão impõe o risco de me limitar a duas luminosas lições.

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A primeira vem da civilização grega, particularmente do pensamento aristotélico, que exaltava a moderação como a virtude excelsa do homem porque, distante dos extremos, encontra o justo no caminho do meio. É o contraponto dos excessos. Como toda virtude, é silenciosa e passível de ser adquirida. Virtude laica e religiosa que ensina ser moderado em tudo, sobretudo, na arte de governar, no perigoso manejo do poder, este fenômeno social que se resume no domínio de homens sobre homens.

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A outra lição vem do mais admirado e injuriado pensador, o florentino Nicolau Maquiavel. Maquiavel não era maquiavélico. Maquiavel foi um realista pessimista. Recomendava prudência e rejeição à ingenuidade, ou seja, recomendava o pessimismo preventivo que se traduz na seguinte linha de conduta: admitir o mal não significa desejá-lo, mas reconhecer que ele é tão provável quanto o bem desejado. Mirou no Príncipe, mas abriu os olhos do povo para o que é, para a natureza e o exercício do poder, abstraídas as prescrições do dever ser.

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Em resumo: a virtude da moderação e o pessimismo preventivo devem ser companhias permanentes de quem governa. Uma revela o grande desafio do ser; o outro ajuda a superar o desafio do fazer.

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Nas democracias, os governantes são eleitos na esperança de que cumpram os desígnios dos cidadãos. Não é difícil identificar carências e demandas sociais; não é difícil prometer políticas públicas e programas de governo devidamente embalados pelos modernos recursos do marketing político e do espetáculo midiático. A dificuldade fundamental do governante reside no pretenso dilema: atender o imediatismo das necessidades ou governar para as futuras gerações?

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A meu ver, o dilema é falso. Nem o populismo imediatista, nem o idealismo atemporal, isoladamente, dão sustentação ao bom governo.

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A propósito, governar não esgota o seu significado em gerir, administrar organizações, entre elas, o Estado; governar é dar rumos, dirigir, pilotar uma embarcação com o leme da clarividência de modo a abrir caminhos em direção a um porto seguro.

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Desta forma, a arte de governar exige a virtude da moderação no uso do poder, a visão equilibrada entre o agora e o depois, a resiliência diante de turbulências e tempestades.

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Com as eleições na porta e superada a fase das estranhas alianças (tratadas, aliás, com palavras que ferem ouvidos pudicos), está na hora de os candidatos demonstrarem que é possível, com uma visão de mundo, ideias e propostas viáveis governar com engenho e arte.

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No meu caso, ficaria satisfeito com uma agenda básica: (1) o trinômio, educação/conhecimento/inovação; (2) instituições democráticas/inclusão; (3) governo que funcione. E antes que esqueça: adicionar ao PIB, indicador de quantidade, o felicitômetro, indicador de qualidade.

 

 

 

27
Jun17

Nei Duclós

Talis Andrade

nei.jpg

 

 

 

OUTUBRO

Trago a nova: eu mudo
lento, e é tudo
Sinto ser assim
por estações: aos turnos

Posso voltar
ao ponto de partida
mas luto

Sei que vem outubro
Flores, fruto de seiva
romperão no mundo
(Trabalho duro:
sugar de pedras
rasgar os caules
colher ar puro)

Lento e bruto
eu mudo
Sei que vem
Outubro

 

AMOR ESTRANHO

 

Eu sou um poeta estranho
Não fumo, não jogo
não tomo banho

A não ser que seja água
que você apanhe
A não ser que seja fumo
que você prepare
A não ser que seja carta
e você ganhe

Você é um amor estranho
Não come, não passeia
não reclama

A não ser que seja eu
quem compre a carne
A não ser que seja praia
e eu te ame
A não ser que seja dor
e eu me cale

 

HEROÍSMO

 

Não importa o poema
O que a palavra manipula
Nem mesmo a vida
que tão escassa nos condena
Mas sim a paz do olhar sobre a tormenta
precária voz que se debate entre as dunas

Repetir não é o crime desta escuta
Pois procurar é retribuir ao conhecido
a segurança de Teseu no labirinto

Nao é um truque o amor de quem aprova
o heroísmo pelo fio de uma promessa
de que a luta contra a criatura
será coberta sob a graça da aventura

27
Jun17

Regina Azevedo

Talis Andrade

Regina Azevedo.jpg

mas especialmente os olhos de Deus
voltados pra quem pede dinheiro em seu nome
voltados pra quem mata em seu nome
voltados pra quem expulsa os filhos de casa em seu nome
voltados pra quem tem empresas em seu nome

 

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Álbum Por que as poetisas são lindas?

27
Jun17

Angélica Freitas

Talis Andrade

angelica-freitas-1.jpeg

 eu durmo comigo abraçada comigo

não há noite tão longa em que não durma comigo

como um trovador agarrado ao alaúde eu durmo comigo

eu durmo comigo debaixo da noite estrelada

eu durmo comigo enquanto os outros fazem aniversário

eu durmo comigo às vezes de óculos

e mesmo no escuro sei que estou dormindo comigo

e quem quiser dormir comigo vai ter que dormir ao lado

 

 

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Álbum Por que as poetisas são lindas? 

27
Jun17

A criança que foi morta a tiros por soldados em Nyanga

Talis Andrade

por Ingrid Jonker

 

jonker-ingrid-6.jpg

 

Tradução de Maria Helena D´Eugênio


A criança não está morta!
Ela levanta os punhos junto à sua mãe.
Quem grita África! brada o anseio da liberdade e da estepe,
dos corações entre cordões de isolamento.
A criança levanta os punhos junto ao seu pai.
Na marcha das gerações.
Quem grita África! brada o anseio da justiça e do sangue,
nas ruas, com o orgulho em prontidão para luta.
A criança não está morta!
Não em Langa, nem em Nyanga
Não em Orlando, nem em Sharpeville
Nem na delegacia de polícia em Filipos,
Onde jaz com uma bala no cérebro.
A criança é a sombra escura dos soldados
em prontidão com fuzis sarracenos e cassetetes
A criança está presente em todas as assembléias e tribunais
Surge aos pares, nas janelas das casas e nos corações das mães
Aquela criança, que só queria brincar sob o sol de Nyanga, está em toda parte!
Tornou-se um homem que marcha por toda a África
O filho crescido, um gigante que atravessa o mundo

Sem dar um só passo

 

 


The child who was shot dead by soldiers at Nyanga

por Ingrid Jonker


(Tradução para o inglês do original em Africâner)

 

The child is not dead
The child lifts his fists against his mother
Who shouts Afrika ! shouts the breath
Of freedom and the veld
In the locations of the cordoned heart
The child lifts his fists against his father
in the march of the generations
who shouts Afrika ! shout the breath
of righteousness and blood
in the streets of his embattled pride
The child is not dead
not at Langa nor at Nyanga
not at Orlando nor at Sharpeville
nor at the police station at Philippi
where he lies with a bullet through his brain
The child is the dark shadow of the soldiers
on guard with rifles Saracens and batons
the child is present at all assemblies and law-givings
the child peers through the windows of houses and into the hearts of mothers
this child who just wanted to play in the sun at Nyanga is everywhere
the child grown to a man treks through all Africa
the child grown into a giant journeys through the whole world
Without a pass.

 

Borboletas Negras.jpg

 

Veja o trailer do filme Borboletas Negras, legendado em português, que romancea a vida de Ingrid Jonker


https://www.youtube.com/watch?v=s6AF30r3H-o

 

In blog de Eliana Ada Gasparini

26
Jun17

de Fernando Monteiro

Talis Andrade

 

fernando_monteiro2.jpg

 

 

A PORTA (ENTREABERTA)

Quando o sinal obscuro
separa um da multidão
e das quatro paredes
onde dormiria a alma incolor,
ele adquire sua nitidez e sua névoa
aos olhos dos outros:
— tanto que lá está,
entreaberta,
a porta do quarto
e a indeterminação de fascínio temeroso
não deixa prosseguir
o tímido amigo
admitido ao seu silêncio uma vez
(amargurando o incómodo calor
no peito,
que ficou também parado
a meio caminho da raiva
e da devoção)

Não entra, ele;
permanece fora,
alongando a pergunta
a qualquer um mais perto,
se devem entrar ou não,
enquanto procura que lhe baste
a visão do pulso descansado
e uma secção do dorso
(que passa pela feminilidade,
mas se afirma másculo
à mirada atenta
— percurso inquietante e indispensável
de sua graça)

onde pousa,
afinado
(antes da mão juvenil,
vincada precocemente
como por pensamentos
que também se espraiassem por ela)
marcado
por leve claridade da pele
onde não está a correia do relógio,
descuido ou descanso
como um selo
de sua estranha disposição de humildade,
suportação do mundo
e paciência
para com os homens opacos,
que são massa insuportável
ao gume de seu sonho
afiado nos olhos
("muito azuis", foi a cor
confundida com isso)
...........................................

O instante permitido à indecisão
e articulação da pergunta
se esgotaria,
não entrando ninguém,
como estava tácito.
E ele continuou separado,
entre as quatro paredes
que não o continham.


---

In Antologia de Antonio Miranda

26
Jun17

Prosa de poetas

Talis Andrade

por Gustavo Krause

gustavo-krause.jpg

 

 

 

Afinal, quem és tu?

 

– Eu sou o homem atrás do bigode (Drummond).

 

– É pouco. Quero saber mais a teu respeito.

 

– Eu sou como eu sou, vidente, e vivo tranqüilamente todas as horas do fim (Torquato Neto).

 

– Já sei, como os poetas, és criatura melancólica, uma encarnação da tristeza.

 

– Não sou alegre nem sou triste: sou poeta (Cecília Meireles).

 

– Ah! Certamente, estás farto do lirismo comedido... Político. Raquítico. Sifilítico (Manuel Bandeira).

 

– Quero antes o lirismo dos loucos. O lirismo dos bêbados. O lirismo difícil e pungente dos bêbados... Não quero mais saber do lirismo que não é libertação (Manuel Bandeira). Tenho a sensação de que me colaram no tempo, me puseram uma alma viva e um corpo desconjuntado... gosto de todos, não gosto de ninguém, batalho com os espíritos do ar... O mundo samba na minha cabeça... Almas desesperadas eu vos amo. Almas insatisfeitas, ardentes. Detesto os que se tapeiam, os que brincam de cabra-cega com a vida, os homens “práticos”... Viva São Francisco e vários suicidas e amantes suicidas, os soldados que perderam a batalha, as mães bem mães, as fêmeas bem fêmeas, os doidos bem doidos (Murilo Mendes).

 

– E aí, eu te pergunto: quando nada mais resistir que valha a pena de viver e a dor de amar... Quando pelo desuso da navalha a barba livremente caminhar e até Deus em silêncio se afastar deixando-te sozinho na batalha? (Carlos Pena Filho).

 

– Na solidão e sua porta, ainda tenho uma saída: entrar no acaso e amar o transitório (Carlos Pena Filho); ou uma única coisa a fazer que é tocar um tango argentino (Manuel Bandeira).

 

– Para que, então, fomos feitos?

 

– Para lembrar e ser lembrados, para chorar e fazer chorar, para enterrar os nossos mortos... Assim será a nossa vida: Um caminho entre dois túmulos – Por isso precisamos velar, falar baixo, pisar leve, ver a noite dormir em silêncio (Vinicius de Moraes).

 

– Queres me dizer que é crua a vida. Alça de tripa e de metal... É crua e dura a vida. Como um naco de víbora... A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos. Ou pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima, olho d’água, bebida? A vida é líquida e o todo se dignifica quando a vida é líquida? (Hilda Hilst).

 

– Mas a bunda, hein? Que engraçada! Está sempre sorrindo, nunca é trágica... A bunda basta-se... A bunda são duas luas gêmeas em rotundo meneio. Anda por si na cadência mimosa, no milagre de ser duas em uma, plenamente. A bunda é a bunda, redunda. (Drummond). Felizmente ela existe. Felizmente existe o álcool na vida e nos três dias de carnaval éter de lança-perfume (Manuel Bandeira).

 

– A minha proposta é: vamos apalpar as intimidades do mundo e para tanto é preciso saber que o esplendor da manhã não se abre com uma faca. Qual o lado da noite que umedece primeiro... Que desaprender 8 horas por dia ensina princípios... Desinventar objetos. (Manoel de Barros).

 

– Não só. Vamos continuar fazendo poemas. Quem faz um poema abre uma janela. Respira, tu que estás numa cela abafada, esse ar que entra por ela. Por isso é que os poemas têm ritmos – para que possas profundamente respirar. Quem faz um poema salva um afogado (Mario Quintana). E como não invocar o vício da poesia: o corpo que entorpece ao ar de versos? (João Cabral de Melo Neto).

 

P.S. “Ler poesia é ato de inauguração pessoal, pisar leve no chão... Ler novamente um poema que amamos é como lavar o rosto pela manhã” (Ítalo Moriconi).

 

 

 

 

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