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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

24
Jan21

Para além do impeachment

Talis Andrade

 

 

  • por MARCIO SOTELO FELIPPE

     

    O impeachment de Bolsonaro é absolutamente necessário para cessar o estado de anomia político-moral que ceifa a vida de brasileiros. Cada dia que passa significa a morte de milhares deles. As mãos manchadas de sangue não são mais só as do capitão. São de todas as forças que se movem por interesses políticos, por cálculos estratégicos (“deixa sangrar que ganhamos em 2022” etc.), por interesses pessoais e mesquinhos objetivamente coniventes com a barbárie eugenista do presidente.

    É preciso, no entanto, ir além da questão do impeachment. É preciso responder à pergunta: como isso foi possível? Porque Bolsonaro jamais dissimulou. Ao longo de sua abjeta vida e de sua ridícula trajetória política, ele nunca escondeu o culto à morte, o gosto pela tortura, a frustração porque a ditadura não matou 30 mil pessoas em vez de 430, a admiração pelo homem que enfiava ratos e baratas na vagina de mulheres.

    Como isso foi possível? A resposta está na compreensão do fascismo. Do que é a sua essência. Bolsonaro jamais escondeu o que era e o que pretendia, tal como Hitler e Mussolini. Hitler cumpriu rigorosamente o programa do Mein Kampf, publicado anos antes de sua ascensão ao poder. Bolsonaro cumpriu seu programa com a contingência da pandemia

    A fala do fascista é essencial para levá-lo ao poder. Não se tratam de bravatas ou palavras ao léu como costumeira e ingenuamente se interpreta. O fascista busca se legitimar por meio do apelo a certa massa suscetível ao ressentimento social e por meio do apelo à pequena-burguesia, ou classe média, perdida entre o pavor da proletarização (que se torna pavor dos proletários, de seus partidos e de seus movimentos) e a sua própria representação no imaginário da grande burguesia. O ressentimento transforma-se em ódio. Essa massa cresce com desqualificados, escroques, oportunistas, lúmpens, também amealhados entre os trabalhadores.

    O discurso de um líder fascista expressa a ideologia que cimenta o irracional dessa massa. Por isso ele precisa dizê-la. Ele nada fará sem essa torpe legitimidade. Após dizê-la, tem que cumpri-la para que essa legitimidade se transforme em poderosa força social. A liderança e a massa se nutrem reciprocamente da anomia moral que daí surge.

    É por isso que o fascismo, em regra, prescinde de golpes dados na calada da noite por tanques que irrompem pelas ruas e tropas que tomam os centros estratégicos do poder. Eles simplesmente chegam ao poder pelo voto, como Hitler e Mussolini, Trump e Bolsonaro. No poder, a sua base de massa paralisa, imobiliza a parcela sadia da sociedade. Uma combinação fatal entre coerção e consenso.

    O fascismo é sempre possível porque em toda sociedade há uma massa que pode ser galvanizada pelo apelo à irracionalidade, que pode se mover fascinada pela anomia moral que lhe permite dar vazão a impulsos primários, que lhe permite se situar em uma sociedade que não lhe reserva lugar algum e que não consegue construir a racionalidade que lhe aponte caminhos.

    A quem isso tudo serve? O que disse até aqui procura explicar como o fascismo alcança o poder, como ele opera, mas não ainda o que é o fascismo. Não há fascismo sem capitalismo. Horkheimer disse certa vez que “quem não quer falar do capitalismo deveria calar-se sobre o fascismo”. O fascismo é uma das formas de dominação do capitalismo. A ruptura com as instituições clássicas do Estado representativo legitimada por essa combinação de coerção e consenso que o fascismo proporciona resolve crises de acumulação e/ou de dominação.

    Não teria havido Bolsonaro, sua massa inculta, selvagem, negacionista, eugenista, assim como não teria havido Hitler, Mussolini ou Trump sem a poderosa força do capital monopolista, do capitalismo financeiro, sem o domínio dos meios de comunicação, sem o aparelhamento ideológico que o poder econômico consegue comprar, cooptar ou impor por seus mecanismos de controle.

    Não basta, pois, embora necessário como imperativo categórico, lutar pelo impeachment. É preciso dizer que estamos morrendo não exatamente por causa do vírus, mas pelo que o capitalismo faz com o vírus. Estamos morrendo no Brasil porque o grande capital quis um fascista na presidência da República, porque o grande capital não quer tirá-lo da presidência da República, e não quer porque seu projeto ainda não foi concluído. Se esse projeto está custando 200 mil vidas pouco importa. Chegaremos a 500 mil e não continuará importando.

 

24
Jan21

Com quantos cadáveres se faz um genocídio?

Talis Andrade

 

Por Domingos Barroso da Costa e Tarso Genro

A pergunta que introduz este texto parece-nos bastante pertinente diante da realidade de que coletivamente se padece na contemporaneidade brasileira. Afinal de contas, já vamos convivendo há cerca de um ano com a pandemia do novo coronavírus e, enquanto estas reflexões são desenvolvidas, já contabilizamos mais de 210.000 brasileiros mortos, o que nos aproxima do número absurdo de 1 morto em razão da Covid-19 a cada 1.000 brasileiros, sem qualquer expectativa de rápida contenção dessas cifras. Pelo contrário, o negacionismo que funda a postura de nosso governo federal face à pandemia e o falso dilema a partir do qual procura legitimar suas omissões indicam que nosso calvário tende a se prolongar indefinidamente, a absoluta ausência de planejamento confiável para a proteção e vacinação de nossa população corroborando nossas mais sombrias expectativas[i].

Na verdade o que está se configurando é uma provocação dolosa de genocídio, já flagrada por recente pesquisa promovida pela USP. Esta provocação dolosa, a partir de uma visão perversa de imunização da população (que seria garantida pelas defesas naturais de cada organismo individual) pretenderia obstar a irradiação da doença, depois de expandi-la de forma planejada. Trata-se de uma visão sanitária análoga à purificação racial proposta pelo nazismo, que elimina planejadamente uma parte da população racialmente “impura”, para celebrar as virtudes saudáveis (e arianas) da unidade superior da nação.

Fato é que o Brasil ocupa hoje a segunda posição mundial no ranking macabro do número de mortos pela Covid-19, tendo à sua frente apenas os EUA[ii], não se podendo atribuir ao acaso a semelhança entre as (im)posturas dos governos de ambos os países e sua liderança nessa corrida pela morte[iii]. Tanto aqui, quanto lá – numa relação de servilismo histriônico do vassalo em relação ao senhor –, os chefes do Executivo federal dedicaram-se à construção de narrativas negacionistas em relação à ciência e a tudo que pudesse detê-los em seus esforços de esgotamento máximo das barreiras civilizatórias, marcadamente a favor de uma expansão bárbara dos interesses do mercado e de seus próprios. E, assim, aceleraram o quanto puderam os processos de devastação do meio ambiente, dos direitos humanos e,

especialmente no caso do Brasil, de direitos trabalhistas – iniciada há mais tempo –, previdenciários, enfim do que resta do Estado de bem-estar social esboçado na Constituição de 1988.

Nesse contexto, confrontados com o obstáculo real representado pela pandemia, para contrabandear seus propósitos, ambos os (des)governos apressaram-se em constranger a população valendo-se de um falso dilema, em que a preservação da vida estaria condicionada à preservação da economia, do que se infere a óbvia inversão da relação de acessoriedade que se estabelece entre esses dois valores. Como bem lembra Joel Birman[i], com referência a Lacan[ii], tal inversão de valores remete às possibilidades que se abrem diante do seguinte imperativo, a expressar a abordagem do assaltante – com potencial de latrocida – à sua vítima: “a bolsa ou a vida!”. Ora, seja para o sujeito, seja para as sociedades, só há uma escolha possível diante de uma tal ameaça: a vida. E isso por um motivo óbvio: só pode gozar da bolsa – ainda que se perca o objeto, que é substituível por equivalentes – quem está vivo. Aliás, sem a vida humana, sequer existe a bolsa enquanto produto cultural que é – seja quando representa um saco em que se guardam coisas, seja quando reporta à bolsa de valores, templo maior do deus Mercado[iii] e do culto que lhe dedica o capitalismo financeiro.

Essa foi a lógica seguida por alguns países da Ásia e da própria Europa, cuja experiência demonstra que tanto melhor e mais rápida é a reação da economia quanto mais cedo se tomam e mais rigorosas são as medidas de isolamento social horizontal em contenção ao avanço da pandemia e preservação da vida. Trata-se, no mínimo, da escolha mais efetiva quando se tem em vista a redução dos muitos danos, inclusive econômicos, que inevitavelmente advirão como saldo da devastação promovida pela Covid-19.

Ocorre que o capitalismo em sua versão neoliberal selvagem – em que discursos demagógicos relativos aos costumes procuram camuflar uma pleonexia[iv] irrefreável – quer tudo pra si e pra já. São esses os ditames a que intransigentemente servem Estados Unidos e Brasil, de modo que a prevenção radical à propagação do novo coronavírus nos moldes acima descritos não foi a opção adotada por esses países, que, abertamente – com doses maiores ou menores de sadismo –, preferiram a bolsa – e as bolsas – às vidas que constituem sua população, com especial sacrifício daquelas postas às margens de suas economias que quotidianamente as expõem como matáveis, em dinâmica bem trabalhada por Achille Mbembe sob o nome de necropolítica[i].

Retomando Birman:

[…] o discurso político de assunção do imperativo da bolsa, no lugar do imperativo da vida, implica a recusa, pelo sujeito do reconhecimento, de algo que se impõe no registro perceptivo, isto é, no plano da realidade. Com efeito, com essa recusa, não foi reconhecido o imperativo éticofundamental da vida, que foi sacrificada em nome de cálculos políticos espúrios por parte de muitos governantes no contexto social pandêmico, de forma que o sadismo e a crueldade se impuseram efetivamente conjugados na escolha do imperativo econômico.[i]

As implicações da opção pela bolsa em detrimento da vida são muitas e graves, sendo deletérias à própria ideia de Estado. Afinal, reconhecida a vida humana como imperativo ético fundamental – tal qual faz Birman no excerto acima transcrito –, a exposição de uma população inteira à morte leva de arrasto à sepultura o próprio Estado que a promove, seja por ação, seja por omissão. Ao descumprir seu fundamento máximo – na medida em que se afirma como pressuposto dos demais –, que é assegurar a vida de seus cidadãos, o Estado colapsa e, numa alquimia sadeana, converte-se em anti-Estado. E é a isso que assistimos no Brasil: à conversão do Estado Democrático de Direito afirmado pela Constituição de 1988 em um anti-Estado sadeano, com a consequente ruína das instituições às quais caberia conter as ações e omissões governamentais que a tanto conduzissem, mas que parecem estuporadas diante do absurdo normalizado neste país cujo governo maior expõe sua população diariamente à indignidade e à morte, especialmente a parcela mais vulnerável em termos sociais e econômicos.

Ao invés de adotar as medidas de isolamento horizontal amplamente recomendadas pelas instituições competentes, o governo federal desse anti-Estado a que se reduziu o Brasil preferiu investir em uma espécie de doutrina macarthista tropical, que se dissemina a partir de uma narrativa amplamente negacionista de fortes traços paranoides, cuja trama, cerzida pela mentira, comporta desde discursos oficiais que recusam ou minimizam a pandemia, até a prescrição, pelo próprio chefe do Executivo federal e de seu ministro da saúde – um general, frise-se –, de um combo de medicamentos para o tratamento precoce da Covid-19, que, se não têm

efeitos curativos comprovados, por outro lado podem apresentar efeitos colaterais potencialmente graves e mais que atestados, especialmente no que diz respeito à cloroquina e à hidroxicloroquina.

Mas não é só. Além de prescrever medicamentos cuja ineficácia é afirmada pela própria ANVISA[i], o presidente dessa antirrepública em que se converteu o Brasil e seus sequazes proscreviam a vacinação, discurso subitamente alterado na medida em que a imunização foi convertida em importante capital político numa disputa estabelecida entre o atual chefe do Executivo federal e o governador do Estado de São Paulo, a qual tem em perspectiva a eleição presidencial de 2022.

E os desvios anticientíficos em relação às medidas adequadas ao combate eficaz à pandemia do novo coronavírus não param por aí. Também incluem o abandono dos pequenos e médios empreendedores, bem como da população pobre, a quem não foram destinados em medida suficiente os devidos auxílios e subvenções, com o que terminaram lançados à necessidade e, logo, compelidos à atividade, o que implica a continuidade da circulação das massas e, consequentemente, a rápida e descontrolada progressão da pandemia.

Trata-se de uma dinâmica perversa em que o Estado se afasta justo no momento em que deveria se afirmar, com o que abandona o cidadão à própria sorte e à sistemática do capitalismo neoliberal, de modo a promover a consumação da própria profecia. Afinal, sem o amparo do ente que deveria protegê-lo em situações extremas, assegurando seus direitos fundamentais, resta ao indivíduo tentar conciliar os termos excludentes do paradoxo e lutar pela bolsa, na tentativa de preservar a própria vida. E vale ressaltar que é o Estado que, ao abandonar o cidadão, lhe impõe a preservação da bolsa como condição de sobrevivência. Desvelam-se, então, as engrenagens desse anti-Estado que serve aos interesses de uma meta-estrutura à qual se dá o nome de Mercado, em cujo altar oferece em sacrifício seus cidadãos, que, compelidos a movimentar a economia – a defender a bolsa – para garantir a própria sobrevivência, terminam expostos à morte. Tem-se, aí, uma perversão completa e acabada da relação que legitima a existência do Estado, na medida em que o cidadão, ao invés de ter seus direitos fundamentais por ele assegurados, termina por ele instrumentalizado e posto a serviço de interesses que lhe são estranhos e inclusive contrários. Trata-se de uma espécie de Estado feitor, a serviço do Senhor Mercado.

Como muitos vêm apontando há bastante tempo, tudo indica que são muitos os crimes praticados ao longo do percurso até aqui resumidamente relatado, sejam comuns, sejam de responsabilidade. Aliás, eles antecedem a eleição. Quem não se lembra da cena em que o atual presidente, em campanha no Acre, segurava um pedestal como se fosse uma arma e açulava seus seguidores a “metralhar a petralhada”?[i] Em um contexto político no qual muitas agressões contra militantes de esquerda foram relatadas, incluindo uma agressão a relho no Rio Grande do Sul[ii], plenamente defensável a subsunção de uma tal conduta à prevista no art. 286 do Código Penal[iii]. Do mesmo modo, ainda no Título X da Parte Especial desse Código, parece-nos plausível o enquadramento, no tipo previsto no art. 287[iv], do enaltecimento apologético que o chefe do Executivo federal promove desde sempre e sem pudores em relação ao conhecido torturador Brilhante Ustra e seus atos criminosos.

Já no curso do mandato, ao propagandear tratamentos já declarados ineficazes pelas autoridades competentes em relação ao novo coronavírus e promover seguidas aglomerações, nas quais sequer utiliza máscara de proteção, bastante razoável a subsunção dos vários atos praticados pelo presidente de nossa antirrepública aos tipos previstos nos arts. 131, 132 e 268 do Código Penal[v].

No que concerne aos ditos crimes de responsabilidade, somente em razão das ações e omissões até aqui relatadas em violação ao dever de combater com eficácia a pandemia do novo coronavírus, muitas são as possibilidades de enquadramento. Para além das sabotagens narrativas às medidas de proteção à população e ao gasto com medicamentos ineficazes, temos os seguidos ataques à China, à democracia e ao Judiciário como exemplos de ações que se amoldam a condutas caracterizadoras de crimes de responsabilidade. Aliás, consideradas as muitas imposturas do chefe do Executivo federal, são vastas as possibilidades defensáveis de subsunção de suas condutas às previstas na Lei nº 1.079/50.

Fato é que, em outras circunstâncias, acusações sem justa causa[vi] foram motivo eficaz para a deposição de uma presidenta eleita, nada havendo que justifique essa absurda desigualdade de tratamento em contexto tão grave como o ora enfrentado.

Posto isso, retomamos o título deste texto para afirmar a plausibilidade de se sustentar que as ações e omissões descritas[vii] foram – e são – determinantes à morte de milhares de brasileiros, se não de todos os 210.000, ao menos de grande parte desse número absurdo, que não considera as cifras ocultas pela subnotificação, mas, mesmo assim, nos coloca em segundo lugar no infame ranking mundial de mortes pela Covid-19. E ao serem praticadas – no mínimo com assunção plena de risco evidenciada pelo contexto de pandemia – em detrimento de todo um grupo nacional, atingindo a vida de seus cidadãos, sua integridade física e mental, além de os submeterem intencionalmente a condições de existência capazes de ocasionar-lhes a destruição física total ou parcial, as condutas a que nos referimos, comissivas ou omissivas, se mostram adequáveis às previstas nas alíneas ab e c do art. 1º da Lei nº 2.889/56[i], caracterizando, portanto, o delito de genocídio, em toda sua hediondez afirmada pelo inciso I do parágrafo único do art. 1º da Lei nº 8.072/90.

O cenário é calamitoso e convoca a união de todos que se oponham ao atual estado de coisas a fim de tentar conter os incomensuráveis danos impostos à sociedade brasileira, que nos encerram nas trevas de uma demagogia vulgar. Para tanto, o impedimento e a responsabilização dos responsáveis pelo genocídio que se descortina é urgente. Motivos para a apuração de responsabilidades sobram, alguns deles tendo sido aqui expostos.

No fim das contas, a luta é no sentido de retomar o processo civilizatório e fazê-lo prevalecer sobre a barbárie; de oxigenar a vida e desarmar a morte, proteger e imunizar a população antes que outras centenas de milhares de cidadãos sejam lançadas às ruas para perecer, privados de ar e com a bolsa nas mãos.

Ferrajoli, no seu clássico “Democracia e Garantismo” – no capítulo que trata do Direito e da Dor – faz a distinção entre as figuras da “dor sofrida” e da “dor infligida”, uma natural, outra decorrente da ação humana. Aduz aquele Mestre que “todos os direitos fundamentais são configuráveis como direitos à exclusão ou à redução da dor”; e o direito à liberdade, à vida e à integridade pessoal, são direitos atinentes “a prevenir a dor infligida.”  

Retomar o processo civilizatório no nosso Brasil mortificado pelas dores  da sanha demolidora do “mito” significa retirá-lo do poder, baseados na Lei e na Ordem, para submetê-lo aos Tribunais competentes. E daí alçar o país à condição de uma democracia constitucional estável, definitivamente imunizada das tentações doentias do fascismo e da naturalização das mentiras em sequência, que destroem o destino comum fundado na tolerância e na igualdade.


[1] Mestre em Psicologia (PUC-Minas). Especialista em Criminologia (PUC-Minas) e Direito Público (UNIGRANRIO). Graduado em Direito (UFMG).

[1] Ex-Ministro da Justiça, da Educação e ex-Governador do Rio Grande do Sul.

[1] Como amplamente noticiado, e a evidenciar todo o cinismo que envolve o descaso do Executivo federal em relação à saúde da população brasileira, lembramos que o governo federal chegou a anunciar o início da imunização com vacinas que não foram efetivamente adquiridas da Índia. A pirotécnica operação logística propalada não tardou a se converter em pantomima. Por todas: https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/noticia/2021/01/16/apos-fracasso-na-importacao-de-vacina-aviao-que-iria-a-india-decola-de-viracopos-para-levar-oxigenio-ate-manaus.ghtml

[1] https://valorinveste.globo.com/mercados/internacional-e-commodities/noticia/2021/01/03/coronavirus-hoje-mundo-tem-11-milhao-de-novos-casos-em-2021-e-176-mil-mortes.ghtml

[1] Referimo-nos à administração Trump.

[1] BIRMAN, Joel. O trauma na pandemia do coronavírus. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2020.

[1] LACAN, Jacques. O seminário. Livro 11, Os quatro conceitos da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar., 1988.

[1] DUFOUR, Dany-Robert. O divino mercado: a revolução cultural liberal. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2008.

[1] DUFOUR, Dany-Robert. Pléonexie. [dict.: “Vouloir posséder toujours plus] Lormont : Le Bord de léau, 2015.

[1] MBEMBE, Achille. Necropolítica: biopoder, soberania, estado de exceção, política da morte. São Paulo: n-1 edições, 2020.

[1] Op. cit. p. 44.

[1] Por todas: https://g1.globo.com/bemestar/coronavirus/noticia/2021/01/17/diretores-da-anvisa-dizem-que-vacina-e-necessaria-porque-nao-ha-tratamento-precoce-contra-a-covid.ghtml

[1] Por todas: https://exame.com/brasil/vamos-fuzilar-a-petralhada-diz-bolsonaro-em-campanha-no-acre/

[1] Por todas: https://www.sul21.com.br/lula-pelo-rs/2018/03/mst-a-silenciosa-linha-de-frente-de-seguranca-da-caravana-de-lula/

[1]  Art. 286 – Incitar, publicamente, a prática de crime:

Pena – detenção, de três a seis meses, ou multa.

[1] Art. 287 – Fazer, publicamente, apologia de fato criminoso ou de autor de crime:

Pena – detenção, de três a seis meses, ou multa.

[1] Art. 131 – Praticar, com o fim de transmitir a outrem moléstia grave de que está contaminado, ato capaz de produzir o contágio:

Pena – reclusão, de um a quatro anos, e multa.

Art. 132 – Expor a vida ou a saúde de outrem a perigo direto e iminente:

Pena – detenção, de três meses a um ano, se o fato não constitui crime mais grave.

Art. 268 – Infringir determinação do poder público, destinada a impedir introdução ou propagação de doença contagiosa:

Pena – detenção, de um mês a um ano, e multa.

[1] Nesse sentido, dentre tantos outros: GOMES, Ciro. Por que o golpe acontece?. In: JINKINGS, Ivana; DORIA, Kim; CLETO, Murilo (orgs.). Por que gritamos golpe?: para entender o impeachment e a crise política no Brasil. Coord. São Paulo: Boitempo, 2016. p. 39-41.RAMOS, Beatriz Vargas; PRANDO, Camila. Algo além do rito do processo de impeachment. In: PRONER, Carol; CITTADINO, Gisele; TENENBAUM, Marcio; RAMOS FILHO, Wilson (orgs.). A resistência ao golpe de 2016. Bauru: Canal 6, 2016. p. 53-56; RAMOS, Beatriz Vargas; MOREIRA, Luiz. Ingredientes de um golpe parlamentar. PRONER, Carol; CITTADINO, Gisele; TENENBAUM, Marcio; RAMOS FILHO, Wilson (orgs.). A resistência ao golpe de 2016. Bauru: Canal 6, 2016. p. 57-60.

[1] Às quais acrescentamos as muitas omissões identificáveis como causas concorrentes para a calamidade que atinge o sistema de saúde de Manaus, em que cidadãos morrem pela falta de oxigênio que se pode atribuir ao absoluto descaso do poder público em todas suas esferas, especialmente diante das informações que dão conta da ciência prévia da União quanto aos limites do abastecimento e sua escassez crítica. Por todas: https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2021/01/governo-bolsonaro-ignorou-alertas-em-serie-sobre-falta-de-oxigenio-em-manaus.shtml

[1] Art. 1º Quem, com a intenção de destruir, no todo ou em parte, grupo nacional, étnico, racial ou religioso, como tal:

  1. a) matar membros do grupo;
  2. b) causar lesão grave à integridade física ou mental de membros do grupo;
  3. c) submeter intencionalmente o grupo a condições de existência capazes de ocasionar-lhe a destruição física total ou parcial;

 
24
Jan21

História da ex-guerrilheira Maria Auxiliadora vira filme

Talis Andrade

 

 

por Denise Assis

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“Sou boi marcado, fui aprendiz de feiticeira… Eu era criança e idealista. Hoje sou adulta e materialista, mas continuo sonhando. Dentro da minha represa não tem lei nesse mundo que vai impedir o boi de voar.” A frase é da ex-guerrilheira Maria Auxiliadora Lara Barcelos, a Dora, citada no discurso de posse da ex-presidente Dilma Rousseff, juntamente com Carlos Alberto de Freitas, o Beto. Emocionada, Dilma os homenageou, dizendo que gostaria de tê-los ao seu lado naquele momento.

Para resgatar essa história pouco conhecida, a atriz e criadora Sara Antunes mergulhou na trajetória dessa aguerrida mineira, estudante de medicina e guerrilheira, criando o curta “De Dora, por Sara”, que estreou na Mostra de Cinema de Tiradentes e segue até 31 de janeiro disponível no link do festival. Sara montou também o espetáculo digital Dora, que estreia dia 5 de março, pela plataforma Vimeo.

Aos 23 anos, Maria Auxiliadora entrou para a luta armada contra a ditadura, como integrante da organização Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares). Foi presa no dia 21 de novembro de 1969, com Antônio Roberto Espinoza e Chael Charles Schreier. Dora, ou Dodora – como era chamada -, e Chael foram vítimas de torturas severas. Ela passou por choques elétricos e palmatórias nos seios e Chael morreu, por conta dos pontapés e socos que levou, 24 horas após os maus tratos.

Por tudo isto, foi incluída na lista dos presos trocados – num total de 70 militantes de esquerda – aceitos pelo Chile, do presidente Salvador Allende. Com o golpe que levou Allende à morte e muitos exilados à prisão, conseguiu sair e viveu na Bélgica, França e, em 1974, fixou-se na Alemanha, onde viveu até 1976, quando atormentada pelos traumas do passado, se jogou nos trilhos do metrô, aos 31 anos.

Para realizar este trabalho, Sara conta que “a pesquisa é como um caleidoscópio fragmentado, mesclando trechos de cartas, imagens de arquivos e relatos autobiográficos da atriz”.

Angela Bicalho, mãe da cineasta, faz uma participação especial, traçando um paralelo entre a vida de Dora e a trajetória familiar da diretora. Dora, mineira como os pais de Sara, nasceu no mesmo ano em que sua mãe e se envolveu na resistência à ditadura, tendo sido presa e exilada, assim como aconteceu também com o pai da Sara, Inácio Bueno.

De posse de um material histórico inédito, confiado pelos familiares à atriz e cineasta, Sara traça um percurso de registro de memória e afirmação das trajetórias femininas na política.  “Neste projeto, não pretendo mitificar heróis, também não se trata de uma homenagem, mas acho importante debruçar sobre a história do país do ponto de vista de quem participou dela. Principalmente, as mulheres”, afirma.

Sara detalha que “em seus dias na prisão Dora foi exposta a diferentes tipos de violações, sobretudo de cunho desmoralizante frente à sua condição de mulher. Entre ser colocada em exposição como objeto para visitação de militares curiosos e degradação moral diante dos companheiros. Dora denunciou as violências sofridas na ocasião de seu julgamento, na Justiça Militar”.

Sobre a importância de trazer Dora à cena, explica: “ao reconstruirmos a subjetividade de períodos traumáticos que deixaram marcas profundas na história deste país, confrontamos a política da amnésia com que se pretende, reiteradamente, apagar um passado incômodo para criar campos de ignorância histórica que, novamente, convocam abertamente forças repressoras. Dora é um projeto importante de reparação histórica, de pretensão multidisciplinar em que as lutas femininas do Brasil estão em foco”, resume Sara.

Conteúdos confiados à Sara, pela família, geraram diferentes obras

Desde que tomou conhecimento da história de Dora que Sara vem gestando a ideia de um espetáculo, com estreia prevista para 2020. Com a pandemia o projeto ganhou novas possibilidades e nasceu o curta “De Dora por Sara”, filmado e dirigido em parceria com Henrique Landulfo, que estreou na mostra de Tiradentes (em janeiro de 2021). Para Sara, trata-se de um projeto transmídia. “Ele não foi pensando assim, mas se transformou pela necessidade do momento. Nasceu como cinema, será apresentado como teatro no formato on-line e, futuramente, quando for possível, pretendo levar para o teatro presencial. São obras distintas, mas complementares”, detalha.

Esse projeto é a continuação de uma pesquisa que a atriz vem fazendo sobre história e representação das mulheres no Brasil como nas criações: “Hysteria”, “Hygiene”, “Negrinha”, “Guerrilheiras”, ou “Para a Terra Não há Desaparecidos” e “Leopoldina, Independência e Morte”.

“Em um momento como o que vivemos, de negação da história, trazer o documento real, o arquivo e os fatos, é de suma importância. Temos aqui o registro e compartilhamento em grande escala, e a chance de fazermos o ato teatral se transformar em ativação de memória social, ponte entre tempos, potencializando o corpo feminino em luta. É uma oportunidade imensa de registrarmos outro olhar para as mulheres da história brasileira e promover um encontro que nos foi negado e segue sendo”, conclui.

 

 

 

24
Jan21

Crônica de um genocídio anunciado

Talis Andrade

 

Por Frei Betto, em seu site:

Tudo indica que o Brasil será o último país a ter a sua população imunizada contra a Covid-19 e, em breve, haverá de superar os EUA em número de mortos, devido ao descaso do governo Bolsonaro. Nesta terceira semana de janeiro, já temos mais de 112 mil vítimas fatais. A cada dia, mais de mil pessoas morrem contaminadas pelo coronavírus. 

Bolsonaro sofre de tanatomania, tendência patológica de satisfação com a morte alheia. Agora a situação se agrava com a falta de oxigênio e leitos nos hospitais. Terrível paradoxo: falta oxigênio aos pacientes dos estados do Amazonas e do Pará, ambos na Amazônia, tida como pulmão do planeta. Muitos morrem por asfixia. E ironia do destino: Maduro, execrado pelo governo, reabastece o Amazonas de oxigênio.

Todo esse quadro necrófilo resulta da inoperância de um presidente e de um governo genocidas. O Brasil tem Ministério da Saúde, mas não tem ministro. Desde a posse de Bolsonaro, em janeiro de 2019, os dois médicos que ocuparam o cargo não permaneceram por não concordarem com a indiferença do presidente diante da pandemia e por ele recomendar recursos preventivos sem comprovação científica, como a cloroquina. O atual ministro, general Pazuello, não é médico, e pouco depois de ser empossado admitiu que, até então, desconhecia o SUS, Sistema Único de Saúde, que atende gratuitamente a população e é considerado exemplar. Agora, porém, o SUS está de mãos atadas por falta de vacinas e profissionais de saúde.

No início da pandemia, enquanto o mundo se alarmava, Bolsonaro declarava que se tratava de uma “gripezinha”. Recusou-se a coordenar a mobilização dos brasileiros para evitar a disseminação da doença. E incentivou, com seu exemplo, as aglomerações, criticou o uso de máscara (chegou a proibir a entrada no palácio de quem estivesse de máscara) e desaconselhou medidas preventivas, como o isolamento, a lavagem cuidadosa das mãos e sua higienização frequente com álcool em gel. Foi preciso a Suprema Corte facultar a governadores e prefeitos o direito de desempenhar essa coordenação. 

Como Bolsonaro saboreia o macabro cheiro da morte, jamais se preocupou com a vacinação do povo brasileiro. Deu a entender que a Covid-19 mata preferencialmente os pobres (o que economizaria recursos das políticas sociais), os portadores de comorbidades e os idosos (o que reduziria o déficit do SUS e os gastos com a Previdência Social). Contudo, devido à pressão popular, o governo se viu obrigado a correr atrás das vacinas.

As vacinas até agora disponíveis são produzidas em dois países, Índia e China, há meses destratados pela família Bolsonaro. O chanceler Ernesto Araújo, adepto do terraplanismo, declarou que a China havia produzido intencionalmente o “comunavírus”. Aliado aos países ricos, o Brasil se recusou a apoiar a proposta da Índia na OMC para quebrar a patente das vacinas. Em outubro de 2020, Bolsonaro assegurou: “Alerto que não compraremos vacina da China”. Seu filho, o deputado federal Eduardo Bolsonaro, em novembro, acusou o governo chinês de utilizar a tecnologia 5G para espionar. 

As poucas vacinas que chegaram ao nosso país, menos de 10 milhões de doses para a população de 212 milhões, vieram da China e foram compradas pelo Instituto Butantan, renomada instituição científica de São Paulo. A Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), do Rio, tenta comprar da China o IFA (Insumo Farmacêutico Ativo) sem que haja, até agora, confirmação de possibilidade de entrega. 

É preciso que todos saibam do genocídio promovido pelo governo Bolsonaro. Mais de 50 pedidos de impeachment do presidente estão parados nas gavetas do Congresso Nacional. Vivemos, hoje, num país que não tem governo, não tem política de saúde, não tem suficientes vacinas, cilindros de oxigênio e leitos nos hospitais, não tem leis favoráveis ao lockdown e contrárias às aglomerações. Precisamos todos nos mobilizar para salvar o Brasil e os brasileiros.

24
Jan21

O genocídio documentado de Bolsonaro

Talis Andrade

 

 

Por Jeferson Miola, em seu blog:

O crime de genocídio cometido por Bolsonaro e seus militares está documentado no estudo Mapeamento e análise das normas jurídicas de resposta à COVID-19 no Brasil, elaborado pelo CEPEDISA [Centro de Pesquisas e Estudos de Direito Sanitário] da Faculdade de Saúde Pública da USP com a ONG Conectas Direitos Humanos, e coordenado pela professora da Faculdade de Saúde Pública da USP Deisy Ventura.

Este abrangente trabalho, publicado no Boletim Direitos na Pandemia nº 10 do CEPEDISA, catalogou e analisou 3.049 normas concernentes à pandemia expedidas pelo governo federal entre março de 2020 e janeiro de 2021, assim como declarações de agentes públicos acerca do tema, sobretudo o presidente Bolsonaro.

Para os autores, esta “inflação normativa reflete o descalabro da resposta brasileira à pandemia”, e “corrobora a ideia de que onde há o excesso de normas há pouco direito”.

“O que nossa pesquisa revelou é a existência de uma estratégia institucional de propagação do vírus, promovida pelo governo brasileiro sob a liderança da Presidência da República”, concluem.

Esta estratégia institucional se materializa com a intervenção do governo Bolsonaro em três planos: [1º] por meio da enorme profusão [inflação] de atos normativos federais, [2º] através da sabotagem e “obstrução às respostas dos governos estaduais e municipais à pandemia”, e [3º] mediante “propaganda contra a saúde pública” com “notícias falsas e informações técnicas sem comprovação científica, com o propósito de desacreditar as autoridades sanitárias, enfraquecer a adesão popular às recomendações de saúde baseadas em evidências científicas, e promover o ativismo político contra as medidas de saúde pública”.

O relatório da pesquisa afirma que “os resultados afastam a persistente interpretação de que haveria incompetência e negligência da parte do governo federal na gestão da pandemia. Bem ao contrário, a sistematização de dados, ainda que incompletos em razão da falta de espaço para tantos eventos, revela o empenho e a eficiência da atuação da União em prol da ampla disseminação do vírus no território nacional” – ação dolosa, portanto.

A pesquisa fez um inventário da abundância de normas – portarias, resoluções, instruções normativas, medidas provisórias, decisões, leis, decretos – numa linha cronológica desde o início da pandemia.

Os atos oficiais deste período, alguns alterados/anulados judicialmente ou pelo Legislativo, estabelecem o nexo das medidas governamentais com o atentado contra a saúde e a vida humana, em especial das populações indígenas, quilombolas e demais povos tradicionais.

A denúncia de crime de genocídio, cada vez mais repetida no debate público e inclusive vocalizada pelo ministro da Suprema Corte Gilmar Mendes, fica consubstanciada com este estudo do CEPEDISA/Conectas.

O desmanche da excelência técnica e institucional do SUS e a colonização do ministério da saúde por militares e figuras notoriamente ineptas, incompetentes e irresponsáveis – como o general-ministro da morte – mantidas nos cargos mesmo com os sinais gritantes de fracasso e com os efeitos mortíferos da gestão, deixa claro que não há improviso. Trata-se de um plano metódico do governo para alcançar tais fins.

O estudo recorda que o estágio ridículo da vacinação no Brasil, muito atrasado em relação a mais de 60 países do planeta, não é obra do acaso, mas consequência das escolhas criminosas do próprio Bolsonaro.

Em 15 de agosto passado, ele recusou proposta do laboratório Pfizer que previa entregar lotes de imunizantes a partir de 20 de dezembro. E, em 20 de outubro, Bolsonaro desautorizou a compra de 46 milhões de doses da Coronavac pelo ministério da saúde.

Embora o Brasil possua 2,7% da população mundial, responde por 10,4% do total de mortes por Covid de todo o mundo – um verdadeiro morticínio programado, porque dezenas de milhares destas vidas humanas perdidas poderiam ter sido salvas, se o governo não tivesse a intenção, com as políticas e decisões criminosas que adotou, de deixá-las morrer.

O genocídio está documentado. Na linha de frente desta guerra de extermínio estão um ex-capitão e um general ainda vinculado ao serviço ativo do Exército Brasileiro; realidade que inevitavelmente vincula as Forças Armadas de modo direto ao morticínio.

Para interromper a continuidade desta hecatombe é urgente o impeachment do Bolsonaro e o imediato retorno dos militares aos quartéis, de onde nunca deveriam ter saído para conspirar contra a democracia, destruir a soberania nacional e atentar contra a vida do povo brasileiro.
 
24
Jan21

PGR abre inquérito contra Pazuello. Parabéns, generais!

Talis Andrade

 

 

por Fernando Brito

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O Procurador Geral da República, Augusto Aras, não resistiu à pressão da corporação – e do que é seu dever, afinal – e pediu a abertura de inquérito sobre as responsabilidades do ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, na catástrofe de Manaus.

Vai ser um espetáculo de nudez na praça, onde se vão mesclar omissão, desídia, charlatanismo e todas as vergonhas que marcaram e marcam o arrogante e infeliz papel de um ministro que só tem como programa a obediência canina às loucuras de seu chefe, Jair Bolsonaro.

Acolhido o pedido pelo Supremo Tribunal Federal, o passo inicial será a devassa das operações do Ministério pela Polícia Federal – inclusive na “Missão Cloroquina” enviada à capital amazonense e sobre os avisos – formais e documentados – de que o desastre e as mortes de pacientes por sufocamento viriam.

Por exemplo, como explicar que oxigênio não veio, mas chegaram 120 mil caixas de cloroquina e hidroxicloroquina para serem despejadas goela abaixo dos doentes.

E é inevitável, pela mobilização de meios que seria necessária das três Forças, que sejam os militares que se vejam arrastados para dentro deste episódio trágico por permitirem que Jair Bolsonaro se servisse de um general da ativa para impor às estruturas de Saúde do país alguém que estivesse disposto a seguir sua política genocida, pró-morte e charlatã.

Por falta de aviso não foi e, agora, estão todos metidos numa sinuca de bico.

Bolsonaro não pode trocar de ministro nem Pazuello pode passar à reserva sem que qualquer dos dois atos se configure como, antes mesmo de uma confissão de culpa, uma demonstração de covardia.

E os generais, que elevaram um louco, sedento de poder, à Presidência da República e que agarraram-se, como carrapatos, às oportunidades políticas que ganharam com isso.

Era mais que avisado e aqui mesmo se disse que Pazuello apodrecia na praça e levava o Exército com ele.

A omissão dos comandantes militares – afinal, o ministro é um general da ativa – e a apropriação das Forças Armadas como ferramenta de poder, mesmo que isso significasse deixar o país entregue aos delírios negacionistas e desumanos de um sujeito que, afinal, nem para tenente do Exército servia.

Ou será que, em lugar de adminitir as baixas que seu mau comando está causando, irão investir contra o poder civil, pela audácia de achar que um general está, como qualquer um, sujeito a leis e à Constituição?

Ou vão querer que o general que ignorou o sufocar agônico de brasileiros é bom demais para sentar num banco da polícia e dar explicações?

24
Jan21

Impeachment de Bolsonaro ganhou mais exposição agora do que em dois anos

Talis Andrade

 

 

por Janio de Freitas

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Temores e dúvidas sobre permanência do presidente esvaneceram em grande escala após tragédia em Manaus

Na Folha

O impeachment não apenas como solução, mas sobretudo como necessidade, avançou mais e ganhou mais exposição nos últimos dias do que nos dois anos de Bolsonaro até a tragédia pandêmica em Manaus.

Temores e dúvidas esvaneceram em grande escala, pulverizados pela visão imaginada das mortes por asfixia à falta de oxigênio hospitalar, causada por incúria e suspeita indiferença do governo Bolsonaro. E, por horror ou por cautelas tardias, nem foram ainda relatadas, como devido, essas mortes em hospitais, casas, em fila para socorro.

Bolsonaro combate o avanço do impeachment, de início, com gigantesca atividade de corrupção política. É o velho compra-e-vende de deputados, agora para eleger o futuro presidente da Câmara, em fevereiro.

Nessa operação encontram-se, ao lado de velhos embolsadores antes desprezados pelos militares, generais como Luiz Eduardo Ramos, na função de coordenador político e intermediário com os congressistas.

Eleger um tipo como Arthur Lira é, para Bolsonaro, a melhor garantia de bloqueio ao impeachment na Câmara, o primeiro estágio. É a permanência comprada com dinheiro público de cargos ou verbas. Além da sempre patriótica caixinha empresarial.

Há, no entanto, destituições que só a custo muito alto, em variados males e mais ainda em vidas, poderiam aguardar o possível impeachment. Um desses é gritante. Seja qual for ainda a permanência do general Eduardo Pazuello como ministro da Saúde, por isso haverá muito mais vidas brasileiras em risco. Senão perdidas.

A responsabilidade desse general pela tragédia em Manaus é inequívoca. Seu reconhecimento de que foi prevenido do então próximo esgotamento do oxigênio diz muito, mas não tudo. Além de advertências sobre o problema durante sua estada na cidade, dias antes do colapso hospitalar, a Força Nacional do SUS convocada pelo próprio general informou-o até da data de eclosão da tragédia —o oxigênio a zero.

Levantamento do repórter Vinicius Sassine, na Folha, permite constatar que relatórios e pedidos de providências, quase diários, informaram Pazuello desde ao menos uma semana antes do colapso total.

A fornecedora, White Martins, fez também sua advertência: a necessidade crescia além da capacidade de fornecimento imediato. Apesar disso, o secretário de Atenção Especializada em Saúde (!) do ministério, Luiz Otavio Franco Duarte, claro que um coronel, quis culpar e autuar a fornecedora. Era como se Pazuello e Bolsonaro de nada soubessem. Nenhuma providência em tempo de evitar as mortes terríveis e o desespero inapagável dos médicos, enfermeiros, atendentes.

Os casos de Covid-19 continuam crescentes no Amazonas, agora também no interior, onde não há sequer um leito de UTI. Pior, está previsto o agravamento da crise já nas próximas semanas e ao longo de fevereiro. Mas a precaução adotada por Pazuello é a nomeação de novo superintendente das ações do Ministério da Saúde no estado, Ricardo Loureiro. Coronel, naturalmente. Da infantaria, ordinário marche.

Não é menos comprometedor de Bolsonaro e do general Pazuello a recomendação, no site do ministério, de tratamento da Covid-19 com cloroquina. E seu uso em “tratamento precoce”, portanto, em “tratamento” do que ainda não é doença. Retirar o aplicativo no mesmo dia em que foi notícia de jornais é, claro, o reconhecimento da impropriedade do tratamento recomendado. Os efeitos dessa vigarice criminosa, porém, circulam por aí na companhia dos vírus inatacados.

A saída do general Eduardo Pazuello é uma necessidade da vida. E é muito pouco pelo que ele deve em vidas.

A permanência de Pazuello será um desafio a mais de Bolsonaro ao Estado de Direito, às representações institucionais da Constituição e ao que reste de dignidade no país. Mas será também útil contribuição à onda que se forma.

poderosa entrevista do ex-ministro Carlos Ayres Britto à Folha, sendo ele uma das perdas do Supremo muito lastimadas, continua revertendo reservas ao impeachment e liberando vozes e escritos. É o lado ainda vivo do país, nestes tempos de duas epidemias letais.

24
Jan21

Jesem Orellana: ‘Quem opta pelo controle da epidemia dentro do hospital opta pela morte, e não por salvar vidas’

Talis Andrade

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A crise que explodiu na semana passada na cidade de Manaus por conta da falta de oxigênio medicinal para manter vivos os pacientes internados com covid-19 colocou em evidência problemas que se arrastam desde muito antes de a pandemia do novo coronavírus chegar ao país, bem como os equívocos relacionados à gestão dessa crise em vários níveis. É o que diz o epidemiologista Jesem Orellana, do Instituto Leônidas e Maria Deane, a Fiocruz Amazônia, que vinha alertando para a iminência do colapso do sistema de saúde em meio ao que ele considera ser uma segunda onda de casos do novo coronavírus no estado do Amazonas já há algum tempo. Questões relacionadas ao acesso desigual a serviços de saúde e à desigualdade social em Manaus, ao fraco controle social no SUS, à corrupção, à baixa adesão da população às medidas de isolamento social – muito por influência de um discurso negacionista sobre a gravidade do problema, inclusive no âmbito científico -, e uma “nítida e indiscutível ineficácia na gestão” da crise, somaram-se para compor um cenário trágico, que para ele não pode ser explicado apenas pela falta de oxigênio medicinal

 

André Antunes entrevista Jesem Orellana

 

Como a crise a que assistimos no Amazonas poderia ter sido evitada?

O que acontece para a gente observar esse cenário que termina com essa crise do oxigênio medicinal? É importante ter atenção para essa palavra “termina”, porque vamos pensar numa cascata de acontecimentos sequencialmente ordenados, e que se iniciam, inclusive, antes da epidemia. Nós estamos falando de determinantes sociais e de acesso a serviços de saúde que são anteriores à epidemia. Estamos falando de um processo complexo de corrupção na área da saúde, corrupção recente, inclusive, que tem investigações da Polícia Federal e do Ministério Público Federal, como a Operação Sangria, em curso, que nasceram dentro da epidemia. E também de um fraquíssimo controle social. Nós temos esses elementos pré-epidemia que tornam o cenário de Manaus amplamente favorável não só a qualquer crise causada por doença infecciosa, mas a vários problemas de saúde pública. Deveríamos ter uma participação, por exemplo, do Conselho Municipal, do Conselho Estadual de Saúde, do Conselho de secretários municipais e estaduais de saúde ajudando a fazer o Sistema Único de Saúde e a dar uma resposta mais adequada em termos de saúde pública. Mas isso não acontece. Temos o problema de acesso desigual a serviços de saúde e a grande desigualdade social, marcada pelos 53% da população de Manaus que vivem em condições de moradia precária, que o IBGE chama de aglomerados subnormais, as palafitas, favelas, invasões, etc. Então, você pega esses elementos pré-epidemia e junta a eles uma nítida e indiscutível ineficácia na gestão, a baixa adesão da população às medidas necessárias à mitigação do novo coronavírus, fortemente influenciadas pelo discurso negacionista da gravidade da epidemia, inclusive em âmbito científico. Há um conjunto de elementos que ajuda a explicar por que Manaus conseguiu chocar a humanidade por duas vezes consecutivas com picos de mortalidade, levando milhares de pessoas a óbito.

A gente precisa fazer uma leitura da epidemia de acordo com o sistema e a forma de gestão vigente no Brasil, que não começou em 2020, mas com a implantação do Sistema Único de Saúde, cuja gestão é tripartite, ou seja, a responsabilidade sempre vai ser compartilhada por governo federal, governo estadual e governos municipais. Portanto,é desonesto, é anacrônico você assumir que a culpa é somente da prefeitura ou do governo estadual ou do governo federal. Por exemplo, você ouvir o presidente e o vice-presidente da República dizerem que não sabiam dos acontecimentos em Manaus, que esses acontecimentos foram surpreendentemente raros e causaram uma surpresa inesperada na população manauara e, de certa forma, na humanidade, é algo completamente descabível. Porque a gente sabe que, por exemplo, toda internação hospitalar é chancelada pelo estado e pelo município, e quem paga essa conta, geralmente, é a União. Então, não tem como você dizer que a União não sabia que o número de hospitalizações vinha aumentando galopantemente desde o final de setembro em Manaus. Como você não imagina que a demanda de oxigênio vai aumentar se você está declarando repetidas vezes, desde novembro, que você está mudando as fases do plano de contingência do estado, que a demanda hospitalar está cada vez maior e que, a qualquer momento, você não vai ter simplesmente como acolher esses pacientes? E é o que acontece em meados de dezembro. Não estamos falando de janeiro de 2021. Em meados de dezembro o governo do Amazonas começa a improvisar leitos. Sabe como? Eles pegam os almoxarifados, transferem para contêineres fora do hospital e improvisam macas e leitos de internação. Fecham leitos clínicos de outras especialidades para abrir leitos clínicos das especialidades de pneumologia, de doenças respiratórias. Ou seja, você cria dois problemas: primeiro, que não vai ter recursos humanos suficientes para lidar com esse tipo de paciente. Você não pode pegar um obstetra e colocar para tratar de doença infecciosa. Ele é médico? Precisa saber? Precisa, mas a especialidade dele não é essa. É igual você assumir que um mecânico pode consertar, ao mesmo tempo, injeção eletrônica e ar-condicionado de um carro. Não é assim que funciona. Então, você dizer que não sabia dessa situação é algo que está cada vez mais claro que não é verdade. Inclusive, a Procuradoria Geral da República começa a envolver diretamente o Ministério da Saúde nessa questão.

 

Em que medida a nova variante do vírus Sars-Cov 2, causador da covid-19, identificada em turistas japoneses que voltavam da Amazônia pode ter contribuído para esse quadro?

Esse é um ponto importante. Essa cepa foi identificada pelo Ministério da Saúde do Japão. O que significa isso em termos de vigilância genômica laboratorial? É a contraprova da falência da nossa estratégia de vigilância laboratorial e genômica no Amazonas. É como alguém chegar na sua casa e falar assim: “Eu sei que você mora aqui há 20 anos, mas eu vou te dar uma dica: sua casa vai cair sobre a tua cabeça”. Foi quase isso que o Ministério da Saúde do Japão fez. Inclusive, o primeiro caso de reinfecção pelo novo coronavírus relatado na literatura, em um artigo assinado pelo Felipe Naveca como autor principal, se dá com duas cepas diferentes. Você começa a encontrar pistas de que a reinfecção, provavelmente, deve ser maior do que a gente imaginava.

 

Por quê?

Se você parar para pegar o número de reinfecções documentadas, é um número irrisório: 0,0001% em relação ao que você poderia encontrar. Qual o motivo disso? Os critérios da Organização Mundial da Saúde, apesar de serem bastante confiáveis, ao mesmo tempo, se tornam operacionalmente inviáveis em governos como o nosso. Porque eles pedem que, para fazer uma confirmação de reinfecção, você tenha uma análise filogenética na primeira amostra de PCR, que aguarde uma janela de tempo grande, para depois fazer outro PCR que mostre um resultado não detectável para o RNA viral do novo coronavírus. Depois, mais outra janela temporária, pede outra análise filogenética para comprovar que se tratam de cepas diferentes e não uma continuidade de uma mesma infecção, uma mesma experiência de adoecimento pela covid-19. Se você parar para pensar na situação de Manaus e do Amazonas, em julho de 2020, acredite se quiser, se fez menos de 3,8 mil exames PCR numa população de quase 5 milhões de habitantes. É um número patético, irrisório, que mostra para a Organização Mundial da Saúde que é impossível usar os critérios que ela propõe para confirmar reinfecção em contextos tão precários, de tão fraca que é a vigilância genômica. O que estou dizendo com tudo isso? Que a reinfecção deve ser muito maior do que a gente imagina. Quantos por cento? Não sei, mas, com certeza, não é esse 0,0001%. Ela tem um papel junto com essa nova variante para tornar o quadro mais grave, com certeza; também não sabemos ainda qual a porcentagem de contribuição disso, precisamos estudar, fazer coortes prospectivas para termos um pouco mais de certeza em relação a isso. Mas que ela tem influência, tem.

 

Já há indícios de que esses casos de reinfecção estejam se espraiando para outros estados a partir do Amazonas?

No momento não temos nenhuma confirmação laboratorial. O que nós temos é uma grande preocupação sobre isso. Eu dei várias entrevistas falando sobre mais um erro do governo federal, em conjunto com o governo estadual do Amazonas: transferir literalmente o problema da epidemia para outros estados. Quando você transfere pacientes excedentes de Manaus para outras unidades da federação do país, você está criando pelo menos três tipos de problemas. O primeiro é que você pode perder a vida desse paciente durante o trajeto Manaus-cidade destino. O segundo é que você pode, eventualmente, perder a estatística desse indivíduo caso ele vá a óbito – já tem casos de óbito de pessoas que saíram de Manaus e morreram em outras cidades. E o terceiro, e talvez mais dramático, é que você pode estar levando a nova cepa para lugares que ainda não tinham contato com ela. E, aparentemente ela tem maior infectividade do que as cepas até então documentadas no estado do Amazonas. Isso é algo sobre o que a gente precisa refletir bastante. O nosso principal problema, além da falta de oxigênio, é a falta de anestésico, falta de antibiótico, falta de analgésico para controlar a dor de gente que não consegue respirar sem oxigênio; nosso problema é falta de profissionais de saúde qualificados. O nosso problema principal não é dentro do hospital, está fora do hospital, sempre esteve. E não é só em Manaus, é no mundo todo. A epidemia não pode ser controlada dentro do hospital. Quem foca no hospital está assumindo a política de contar mortos e não de salvar vidas.

Quando você dá entrada numa UTI e é entubado com covid-19, sua chance de sobrevivência é menor do que um terço. Se você não implica a gestão municipal e a gestão estadual a implementarem medidas de controle da epidemia na comunidade, nós vamos continuar enchendo os hospitais de gente, vamos continuar tendo falta de oxigênio, vamos continuar vendo centenas de pessoas serem sepultadas por dia. Aliás, o número de sepultamentos em Manaus hoje (20), ontem (19) e antes de ontem (18) ficou quase cinco vezes maior do que série histórica nos mostra nesse período. Ninguém fala nisso. Sabe por quê? Está todo mundo achando que o problema de Manaus é oxigênio. A Venezuela já mandou oxigênio, os artistas já mandaram oxigênio, a China já mandou oxigênio, o governo federal já mandou oxigênio, pronto, está resolvido. Não está, isso é só uma cortina de fumaça.

 

Como está a situação atualmente em Manaus em relação à semana passada?

A mesma coisa. Nós continuamos tendo problemas de superlotação nos hospitais, muita gente morrendo em casa. Nesse momento nós estamos com uma média de 27 óbitos em domicílio ao dia, ou seja, por desassistência, muita gente morrendo sufocada em casa. Esse é outro ponto que as pessoas não querem enxergar. Quando a gente noticiou um caso em que seis pessoas morreram simultaneamente dentro do Hospital Universitário Getúlio Vargas, asfixiadas, as pessoas ficaram horrorizadas. Eu fiquei assim: vocês estão horrorizados com o quê? Naquela época era uma média de 12 a 15 óbitos em domicílio. Agora, essa média dobrou praticamente, está em 27. E as pessoas não estão nem aí. Eu não consigo entender. As pessoas se impressionam com seis pessoas que morreram sem oxigênio no HUGV, mas não estão nem aí para as dezenas que morreram só nos últimos cinco dias asfixiadas em casa, sem assistência médica. Isso não está restrito pra nós, em Manaus: ontem (19) nós denunciamos para a imprensa nacional a morte de sete pacientes por asfixia no Hospital Regional de Coari, no interior do Amazonas. A razão: mais um erro do governo estadual no envio de cilindros de oxigênio para a cidade. Teve oxigênio até às 6 horas da manhã, acabou o oxigênio, as pessoas morreram sufocadas.

 

E quanto a medidas de isolamento social, estão sendo implementadas em meio a essa crise?

Você teria que pegar as imagens de Manaus a você mesmo concluir. Não tem nada de diferente, as pessoas continuam circulando. Tem um decreto com toque de recolher das 7 horas da noite às 6 horas da manhã. Só que esse vírus não é igual um vírus de computador, que é programado para se infiltrar na rede tal, para atacar o e-mail. O vírus corre livremente. Pode até diminuir a circulação dele entre 7 da noite e 6 horas da manhã. E depois? Você acha que ele vai ficar descansando? Ele não para, é incansável. E vou dizer mais: aquelas pessoas que deixaram de ir ao supermercado, que deixaram de fazer compras, que deixaram de fazer uma série de coisas entre 7 da noite e 6 da manhã, não vão deixar de comprar, vão se aglomerar nas padarias, nas farmácias, nos supermercados, nas feiras, no comércio, que ainda funciona. Então, é um tiro no pé. A única solução que nós teremos para Manaus de curto prazo é um lockdown rigoroso, de pelo menos 21 dias, porque aí você consegue reorganizar não só a resposta frente ao controle da epidemia na comunidade, como também do próprio Plano Municipal de Vacinação. Mas ninguém quer fazer isso, ninguém está interessado. A política de contar mortes prevalece, ninguém está preocupado em salvar vidas.

Se esse lockdown tivesse sido feito lá em setembro e, a partir daí, você tivesse outros desdobramentos para dar continuidade à contenção viral, provavelmente nem estaríamos ouvindo falar em tragédia sanitária em Manaus, em nova cepa.

 

O lockdown é hoje a única alternativa para conter essa crise, na sua opinião?

Não tem outra. O nosso problema não é a questão do oxigênio, o nosso problema é a produção de casos novos de infecção pelo novo coronavirus com essa nova variante na população, que não para de crescer. A pessoa se infecta hoje, daqui a 20 dias ela vai precisar de oxigênio. Não adianta abrir leito, não adianta mandar gente para fora, não adianta trazer oxigênio se você não interrompe a transmissão comunitária. Então, não tem expectativa no curto prazo. A única expectativa que a gente tem é um lockdown rigoroso, que pode começar a ter efeito daqui a duas, três semanas. A gente continua no precipício. Por acaso a gente viu diminuir a demanda hospitalar em Manaus? Não. Você, por acaso, viu diminuir a quantidade de mortos em Manaus? Não. Você, por acaso, viu interromper a contaminação comunitária? Não. Então o problema continua. Só que está todo mundo cego, achando que o problema de Manaus é oxigênio.

O único apelo que eu faço é a gente tentar tirar uma lição dessa experiência de Manaus, não só no Brasil, mas também na humanidade. As pessoas precisam entender, os tomadores de decisão, a sociedade, a ciência, inclusive, ter cada vez mais claro isso na sua narrativa, a gente já tem isso muito claro na nossa prática acadêmica de que epidemia só pode ser controlada fora do hospital e não dentro do hospital. Quem opta pelo controle da epidemia dentro do hospital, opta pela morte e não por salvar vidas. Isso é o mais importante.

24
Jan21

Sindicato aciona tribunais de todo o país para saber data da vacinação de idosos contra Covid-19

Talis Andrade

GOVERNO GENOCIDA COLOCA EM RISCO A VIDA DA CLASSE TRABALHADORA - Sintsprev  MG

 

Ações judiciais foram protocoladas em estados e no DF para que governantes deem informações sobre a imunização do público da terceira idade

 

Sindicato Nacional dos Aposentados, Pensionistas e Idosos da Força Sindical (Sindnapi) iniciou pedidos judiciais em todo o país para que os governantes estaduais deem informações mais claras sobre a vacinação contra a Covid-19 de pessoas com idade acima de 60 anos.

As ações foram protocoladas no Distrito Federal e em todos os estados, exceto Roraima, de acordo com a coordenadora do Departamento Jurídico do Sindnapi, Tônia Galleti. O processo em Roraima não foi registrado porque a equipe do sindicato ainda não acessou o sistema do tribunal local.

“Nós entendemos que a primeira prioridade, sem sombra de dúvidas, sejam os profissionais da saúde. Mas não há porque a população idosa e aposentada acima de 60 anos ser excluída desse calendário vacinal. Além disso, tem a questão da informação desencontrada”, disse Tônia à coluna Grande Angular.

Segundo a sindicalista, idosos já têm se dirigido às unidades de saúde em busca da vacina contra o novo coronavírus. “Chegando lá, não são atendidos e correm risco de pegar a Covid-19”, comentou. O Sindnapi tem 250 mil associados em todo o país, de acordo com Tônia.

Capital do país

No Distrito Federal, o processo foi distribuído à 4ª Vara da Fazenda Pública na terça-feira (19/1). O Sindnapi pediu determinação da Justiça para que o Governo do Distrito Federal (GDF) informe quais medidas efetivas são tomadas para a vacinação e qual é o calendário definitivo para o início da imunização no grupo geral de pessoas com mais de 60 anos.

O sindicato frisou, na petição inicial enviada à Justiça do DF, que 74,2% de todas as vítimas de Covid-19 no país são idosos, conforme dados oficiais. “Ou seja, o coronavírus já matou 142.049 pessoas acima de 60 anos, de acordo com o boletim mais recente do Ministério da Saúde.”

“A maioria dos estados sequer disponibilizou seus calendários e logísticas a serem realizadas para conseguir imunizar a população idosa regional, tal situação já vem causando confusão”, pontuou.

“Entendemos que a necessidade de explicitar os moldes de vacinação para a categoria idoso se faz extremamente necessária para que não seja gerada expectativa de uma vacinação imediata, que pode não vir a acontecer tão rapidamente, ou, ainda, que haja o relaxamento da prevenção e do isolamento”, pontuou.

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23
Jan21

Diplomacia contra o Brasil

Talis Andrade

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por Gulnar Azevedo e Silva e Reinaldo Guimarães /Abrasco

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Ainda em meados de 2020, os acordos de compra de imunizantes — feitos de modo independente pela Fiocruz e pelo Instituto Butantan, com cláusulas de fabricação local da vacina contra Covid-19 —colocavam o Brasil numa situação privilegiada entre os países em desenvolvimento. Esses dois acordos, somados ao compromisso brasileiro junto ao mecanismo OMS/Covax, garantiriam pouco mais de 300 milhões de doses das duas vacinas para o Programa Nacional de Imunização (PNI) do SUS.

Enquanto as duas instituições públicas brasileiras, com larga experiência na produção de vacinas, trabalhavam nesse sentido, o governo brasileiro, tendo à frente o presidente da República, seus filhos e o ministro das Relações Exteriores, se empenhavam numa guerra ideológica contra a China, inspirada por Trump. Foram mais de uma dezena de ataques a nosso maior mercado de exportação, tendo como alvos a compra de terras, outros investimentos produtivos como a tecnologia 5G e, por fim, a vacina do Butantan.

Em janeiro de 2020, ocorreu uma reunião da Organização Mundial do Comércio sobre os direitos de propriedade de vacinas anti-Covid-19. Nela, ao contrário da grande maioria dos países em desenvolvimento, o governo brasileiro alinhou-se aos países ricos detentores de patentes farmacêuticas contra uma proposta da Índia, apoiada pela OMS, que estabelecia o licenciamento voluntário de todas as vacinas contra a Covid-19.

Com esse retrospecto no relacionamento com Índia e China, associado a um real desequilíbrio entre a capacidade produtiva global de vacinas e a demanda colocada pela pandemia, estamos agora na incerteza em relação ao cronograma de entrega das duas vacinas ao Brasil. Enquanto Fiocruz e Butantan desenharam, a tempo e a hora, uma estratégia de defesa do país no enfrentamento da pandemia, o governo federal e o Itamaraty operaram o que talvez possa ser chamado de maior fiasco diplomático de toda a sua história.

Os indianos começaram a campanha nacional de vacinação no momento em que o Brasil reivindicava o favor de comprar dois milhões de doses da vacina da AstraZeneca da empresa Serum, o que resultou no vexame do avião que nem decolou. E, logo em seguida, a Índia iniciou a exportação dessa vacina para países vizinhos com relevância geopolítica. Somente ontem as doses chegaram ao Brasil.

A China é a principal fornecedora de princípios ativos de medicamentos e vacinas para todo o mundo. A Sinovac vinha mantendo o cronograma de fornecimento do ingrediente farmacêutico ativo (IFA) ao Butantan, mas recentemente anunciou um possível atraso em entregas futuras. Talvez pelo excesso de demanda, mas é possível especular que haja algo mais. Após os ataques irresponsáveis do Brasil nos últimos dois anos, os chineses talvez estejam seguindo seus traços culturais mais marcantes e ancestrais: paciência e pragmatismo.

Há duas vacinas seguras aprovadas pela Anvisa e todo um país à espera para que vidas sejam salvas. Não merecemos uma diplomacia que nos levará a mais mortes.

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