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O CORRESPONDENTE

O CORRESPONDENTE

17
Set17

O VENTO É SEMPRE ÁSPERO, por Adriano Marcena

Talis Andrade

adriano-marcena.jpg

 Adriano Marcena

 

 

Talis Andrade é amigo das palavras, primo da aliteração, sobrinho da alegoria, cunhado da versificação. Poeta-ser é conceber o desabafo da carne, músculos e entranhas. Talis não é inofensivo e sua receita po-ética não aceita adoçante, quando mais açúcar! É um poeta movido pela aspereza do diabetes simbólico recriando seu interior de homem-solitário escaldado pela vida boêmia literária. Fácil é perceber a fisgada certeira com que ele consegue apreender o fígado da poesia, o baço da palavra, a cefaléia da pontuação. Talis também é meio grego, não grego-romano, mas grego-pernambucano, pois ali está o cheiro dos trópicos apri- sionados ou escaneados no papel inofensivo. Todo poeta é covarde pelo simples fato de oprimir as folhas em branco diante de si. Entre a dor e o poeta reside a poesia, entre Talis e a vida existe o amor por uma leveza que se aprisiona ao vento, cortando as amantes, serrando os ouvidos, sufocando as virilhas, apalpando os desejos, esses crudelíssimos desejos, perdidos em monólogos madrugais. Entre o poeta e a dor o vento sopra como se pusesse os nervos para bailarem suavemente: o poeta é um nervo que não suporta nem o prenúncio do vento. “A flor do sexo/ a lascívia/ a amante entrando quarto a dentro dos antigos olhos/ a faca fria/ a bala quente/ a ronda dos ricos/ a mulher que tropeça pela casa/ os gritos que não nos deixam em paz/ a profana recordação/ o enforcado da rainha preso à teia da ilusão…” Talis quebra tabus grudados em poetas. De sua pena contemporânea desnuda-se, diante de nossas retinas, o próprio enforcado: suas artérias expostas à brisa consoladora, suas vísceras se decompõem, se reciclam em água humana, mas por trás do enforcado resiste e triunfa o poeta vivo, o poeta nu, o poeta do pó das letras, o poeta da dor sincera que finge existir, o poeta tentando encontrar o tinteiro e o mata-borrão para se defender, atemorizado, da leveza delicada da filha mais jovem do vento que lhe excita em pleno sol do meio-dia. Todo grande poeta tem medo do vento. Talis, é bom saber que você só está enforcado no livro. Sobre algum mangue soterrado, parabenizo pelo livro, poeta!

 

 

 

 

20
Ago17

de Stella Leonardos

Talis Andrade

EXERCÍCIO SOBRE “O EMPAREDADO”
(PROSA POÉTICA DE CRUZ E SOUSA)

cruz-e-sousa-aos-22.jpg

 


Quem nega que essas pedras emparedam
– tantas e tantas pedras cumuladas –
são cúmulos de céus apedrejados,
asas de astros partidos que se empedram?


Entre as penas do pássaro apresado
e cada pedra posta sobre pedra
repercute teu solo negregado.


Com tal ritmo, metal, sonoridade,
que consegues romper paredes pétreas,
que gravas na prisão a sombra grave
de um pássaro apenado e te libertas.

 

--

In Poetas Cantam Poetas

20
Ago17

Poema para Luiz Alberto Machado

Talis Andrade

luiz-alberto-machado-.jpg

 de Vânia Moreira Diniz



Enquanto teus versos falam de amor,
Da humanidade e teu dedicado carinho,
Sinto no caminhar de meus passos
A certeza da verdade que encerram.
Teus poemas, pétalas de doçura,
Ah teus poemas, teus poemas,
Revelam a doçura de tua alma
E neles quero me apoiar.
Teus poemas que me levam enleada
Para outras paragens de consolo,
Ensinando a verdade do sentimento,
E resgatando todo o amor.
Teus poemas são úmidos,
Lentamente, lentamente,
Caindo como doce orvalho
E deixando o coração em transe!
Teus poemas a acompanhar a vida,
Tenho por eles a ternura
Que suaviza o dia conturbado,
e dá a certeza do carinho!

 

---

In Poetas Cantam Poetas

11
Ago17

Ser Poeta Florbela Espanca

Talis Andrade

Florbela Espanca.jpg



Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Áquem e de Além Dor!

 

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

 

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!

 

E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!

 

 

23
Jul17

O grito de Cazuza

Talis Andrade

brasil-calle.jpg

O GRITO
por Talis Andrade



Cazuza via
além do tempo
além das máscaras
as artimanhas dos vendedores de espaço
no pássaro de aço
dos vendedores de ilusões
nos jardins de Tântalo
Cazuza ouvia o tintilar dos ossos
das caveiras no baile da Ilha Fiscal
Cazuza sentia o cheiro da corrompida carne
de um país ferido nas entranhas
Um triste Brasil que esconde a cara


Cazuza via além dos corpos
dos governantes que bebem e comem
nos palácios em forma de concha
Cazuza via os cortejos fúnebres
dobrando as esquinas iluminadas
pelas velas em intenção das almas


Cazuza via além do tempo
e da carne viva dos jovens
Que toda carne à luz azul
e negra das boates
mal esconde a cor lívida
dos cadáveres
Daí a irreverência o risco
as canções os gestos
de escândalo e morte

 

Na carne dorida carne
Cazuza sofria por antecipação
o idêntico destino da tribo de tietes
A carne tremente dos infantes
a carne tremente e sangrenta das donzelas
exibida nas passarelas
mal esconde a cor lívida
dos cadáveres
plúmbea cor
dos que estão na mira do esqueleto
o esqueleto armado
de arco e flecha

 

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Vide antologia Poetas Cantam Poetas

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