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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

23
Out17

A rua uma guerra

Talis Andrade

Temeroso e ansioso

o pai espera a filha

As notícias do dia

assustam e angustiam

 

No poroso asfalto

as marcas de sangue

dos assaltos e sequestros

das chacinas e estupros

 

A rua uma guerra

sem trégua

reino cidadela

dos cavaleiros da morte

em suas estridentes

vibrantes motocicletas

 

Atravessar os bairros

o perigo de transpor

as barreiras as sentinelas

impostas pelo medo

 

As boates os bares

os restaurantes

campos de caça

em que rondam

traficantes e vampiros

 

Na mais inocente festa

o grande risco

de ultrapassar fileiras

de bêbados e drogados

assediadores

 

Os aidéticos os serial-killers

os corruptos negociantes da noite

não usam sinos

 

Todas os dias o infortúnio

o desafio de transitar incólume

o Recife em guerra

 

 

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A Poesia Desconhecida de Talis Andrade aqui 

 

03
Out17

De David Lopes Silva

Talis Andrade

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 Sodoma e Gomorra, gravura de Zoravia Bettiol

 


Movimento do olhar
Em vários aspectos
Tempo de fotos em preto e branco
Um close nas notas do meu silêncio
Imagem do tudo meio ao nada
Levanto as fases da vida

 

Recordações de imagens da minha morte
Poeta que deixar de ser poetas e livros
Clandestino otimista confessa a crítica
O tempo de escravo Sodoma simplesmente
Formas humanas o pensamento e o pensador
Descoberta visão do túmulo

 

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                  Morte de Sócrates, por Jacques-Louis David

 

 

Sócrates
O sábio que abriga reflexão silenciosa dos conflitos
Juízo no papel lá longe a preta igual a café de bom
E gostoso momentos que não volta dispersa pequenas parte
Estrelas pretas não interessa cor
Miro o olhar a diante distância lapidando meu coração
Escondido a natureza da razão tornar se absoluta
Pedra despida ao demônio idéia estético guarda-chuva

 

 

23
Set17

Cúpula da Pedra em Jerusalém

Talis Andrade

 

 

 

 

jerusalem 1.jpg

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dome-of-the-rock-2.jpg

 

 


Em Jerusalém uma pedra

 

Dos judeus a convicção
a criação do mundo
a partir de uma pedra

 

A pedra que estava Abraão
quando falou com Deus
A pedra de onde Maomé
ascendeu ao céu
para rezar com Deus

 

Em Jerusalém uma pedra
divide duas religiões
em uma guerra santa

 

Em Jerusalém uma pedra

 

 

---

Poesia do livro inédito O Judeu Errante. 

Leia mais poesia de Talis Andrade in Palavras de Ateop, editado por Rafael Rocha,

jornalista, poeta e romancista

17
Set17

O VENTO É SEMPRE ÁSPERO, por Adriano Marcena

Talis Andrade

adriano-marcena.jpg

 Adriano Marcena

 

 

Talis Andrade é amigo das palavras, primo da aliteração, sobrinho da alegoria, cunhado da versificação. Poeta-ser é conceber o desabafo da carne, músculos e entranhas. Talis não é inofensivo e sua receita po-ética não aceita adoçante, quando mais açúcar! É um poeta movido pela aspereza do diabetes simbólico recriando seu interior de homem-solitário escaldado pela vida boêmia literária. Fácil é perceber a fisgada certeira com que ele consegue apreender o fígado da poesia, o baço da palavra, a cefaléia da pontuação. Talis também é meio grego, não grego-romano, mas grego-pernambucano, pois ali está o cheiro dos trópicos apri- sionados ou escaneados no papel inofensivo. Todo poeta é covarde pelo simples fato de oprimir as folhas em branco diante de si. Entre a dor e o poeta reside a poesia, entre Talis e a vida existe o amor por uma leveza que se aprisiona ao vento, cortando as amantes, serrando os ouvidos, sufocando as virilhas, apalpando os desejos, esses crudelíssimos desejos, perdidos em monólogos madrugais. Entre o poeta e a dor o vento sopra como se pusesse os nervos para bailarem suavemente: o poeta é um nervo que não suporta nem o prenúncio do vento. “A flor do sexo/ a lascívia/ a amante entrando quarto a dentro dos antigos olhos/ a faca fria/ a bala quente/ a ronda dos ricos/ a mulher que tropeça pela casa/ os gritos que não nos deixam em paz/ a profana recordação/ o enforcado da rainha preso à teia da ilusão…” Talis quebra tabus grudados em poetas. De sua pena contemporânea desnuda-se, diante de nossas retinas, o próprio enforcado: suas artérias expostas à brisa consoladora, suas vísceras se decompõem, se reciclam em água humana, mas por trás do enforcado resiste e triunfa o poeta vivo, o poeta nu, o poeta do pó das letras, o poeta da dor sincera que finge existir, o poeta tentando encontrar o tinteiro e o mata-borrão para se defender, atemorizado, da leveza delicada da filha mais jovem do vento que lhe excita em pleno sol do meio-dia. Todo grande poeta tem medo do vento. Talis, é bom saber que você só está enforcado no livro. Sobre algum mangue soterrado, parabenizo pelo livro, poeta!

 

 

 

 

16
Set17

Juliana Amato

Talis Andrade

JAmato.jpg

 

hace um año que te fuiste
tan pronto irás, una vez más

 

neste exato momento me vejo num quarto
fechado
frestas abertas, a janela
você ainda criança atrás da cortina
observa

 

você, observo seu olhar
compreende:
não existe mãe no brasil
não existe casa, essa casa, aqui

 

 

há o futuro e há tudo
há milhares de rochas
pedras pontiagudas
traiçoeiras

 

pensa na sua casa
sua casa tão longe, aqui,
uma pedra quente
e lisa

 

 

06
Set17

de Sophia de Mello Breyner Andresen

Talis Andrade

sophia-de-mello-breyner-andresen.jpg

Bebido o luar



Bebido o luar, ébrios de horizontes,
Julgamos que viver era abraçar
O rumor dos pinhais, o azul dos montes
E todos os jardins verdes do mar.

 

Mas solitários somos e passamos,
Não são nossos os frutos nem as flores,
O céu e o mar apagam-se exteriores
E tornam-se os fantasmas que sonhamos.

 

Por que jardins que nós não colheremos,
Límpidos nas auroras a nascer,
Por que o céu e o mar se não seremos
Nunca os deuses capazes de os viver.

 

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