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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

07
Jan18

de Natasha Felix

Talis Andrade

natasha-felix.png

 

 

Números

 

1
conheci um homem com mãos pequenas
ele é bom pra mim.

 

2
decidi usar
aquela lingerie trançada que j. me comprou
antes que eu lhe lambesse o períneo
e ele arreganhasse as pernas
feito um caranguejo no jato de água quente

 

3
ontem usei
aquela lingerie trançada que j. me comprou
dessa vez com o homem de mãos pequenas

espero que ele me lamba o períneo
com o mesmo entusiasmo
com que me conta suas histórias de pescador

 

4
em dias ruins eu olho aquela lingerie
penso em colocar fogo nela
mas também penso
se colocar fogo nela
mas não nas mensagens do chat
seria uma atitude
um tanto incongruente.

 

5
não posso colocar fogo
em mensagens de texto
obviamente.

apenas deletá-las também
não ajuda a sustentar a ideia
anarquista da coisa toda

por isso

guardo a lingerie no fundo da gaveta

debaixo das meias

junto com as ligações perdidas

 

6
acredito no horóscopo e em telepatia
com a mesma força dos estribos contra o colchão
vazio

enquanto leio rayuela
faço da maga minha melhor amiga

a cabeça cheia de ácaros.

descolo o esparadrapo da webcam
num frenesi perigoso
ignoro a maior fobia dos anos 10 e
falo alto e danço afetadamente
como se j. me vigiasse
do outro lado.

 

7
hoje o homem com mãos pequenas
elogiou minha bunda flácida
os tons violeta dos tapas

ele dedica algumas noites a mim sem pressa
dedico algumas noites a ele também.

de certa maneira
fazemos como manda a bíblia

ele não me compra flores
nem me promete o próximo encontro
mas me lambe o períneo
e se arranja sobre minhas coxas
como se flutuasse,

o homem com mãos pequenas

ele é bom pra mim.

simulamos ambos a consistência de um carinho
fingimos que não há um abismo
além do sexo

ou apesar dele

creio que nos saímos muito bem
nesse contrato velado
sem muitos constrangimentos.

 

8
não é o pesadelo,
é o que vem depois

 

9
às vezes me esqueço que o homem de mãos pequenas
e j. não são o mesmo homem.

além do fato de que j. tem dedos longos de goleiro,
o homem de mãos pequenas
não grita comigo antes de dormir
nem me tira a voz através da compressão do pescoço
contra a parede cor de jambu.

às vezes quase me esqueço que j. não está mais aqui
e recorro ao colo da maga
afobada.

outras vezes
me esqueço completamente

o homem de mãos pequenas e j.
podem ser algum dia
o mesmo homem.

 

----

ÁLBUM Por que as poetisas são lindas? 

 

07
Jan18

De Mariana Payno

Talis Andrade

 

mariana mayno.png

 

 

NAUFRÁGIO

 

a gente sentia que
o seu lugar era perto do mar
e meu o calor das suas vísceras
doentes

 

deita seus olhos fechados sobre mim
consegue respirar o que restou?
deita fora o que não foi

 

embarca no tempo do náufrago

 

escuridão
passiva
arrancada
do colo das ondas

 

o mar não engole suas costas
mas quase
preferia morrer no mar?

 

a melancolia da água
a solidão das âncoras
o mapa dos polvos
o som surdo das algas
a anatomia das conchas no ouvido

 

minha última voz perdida
nas suas redes frouxas

 

você ouviu?

 

o seu lugar era perto do mar
e o que restou a gente deita fora
onde agora piso
às cegas
a fundo

 

afoga.

 

 

---

ALBUM Por que as poetisas são lindas?

 

 

 

 

10
Dez17

Liége Vaz poesia

Talis Andrade

Vaz.jpg

SUPERAÇÃO

 

Caminhei por desertos de espinhos longos

Que fizeram sangrar a minha carne dilacerada

Pisando nas pedras pontiagudas do chão de lama

Num tempo que transcorria sem sorrisos felizes

No poço fundo das amarguras de dor cortante.

 

Curvei-me sobre o céu sem o brilho dos astros

Muitas vezes olhando o vazio existencial

Procurando uma saída da escuridão…

 

Observei o mundo com toda a sua grandiosidade

Desenterrei os lodos que impregnavam a minha alma

Engavetados na mente sem a concretude do ânimo

Arrebatada por períodos de longa tristeza…

 

Então joguei-me em direção ao vazio da solidão incauta

Buscando reorganizar uma realidade de escape

Para o leito do esquecimento que me encontrava…

 

Reativei as memórias mais felizes da minha vida

Absorta no encantamento dessas vivências alegres

Então a luz da coroa do meio-dia brilhou no espelho da alma

Restaurando possibilidades para todas as lacunas…

 

Ergui-me pisando firme e sem tropeçar cambaleante

Derramei superação para os antigos males dos rios lágrimas

Corri ao encontro da felicidade…

 

30
Nov17

Movimento do olhar de David Lopes Silva

Talis Andrade

 

 

 

dunas Anita Rée deserto.jpg

Ilustração Anita Rée 

 

                                                                                                                                                                 

Em vários aspectos
Tempo de fotos em preto e branco
Um close nas notas do meu silêncio
Imagem do tudo meio ao nada
Levanto as fases da vida

 

Recordações de imagens da minha morte
Poeta que deixar de ser poetas e livros
Clandestino otimista confessa a crítica
O tempo de escravo Sodoma simplesmente
Formas humanas o pensamento e o pensador
Descoberta visão do túmulo

23
Out17

A rua uma guerra

Talis Andrade

Temeroso e ansioso

o pai espera a filha

As notícias do dia

assustam e angustiam

 

No poroso asfalto

as marcas de sangue

dos assaltos e sequestros

das chacinas e estupros

 

A rua uma guerra

sem trégua

reino cidadela

dos cavaleiros da morte

em suas estridentes

vibrantes motocicletas

 

Atravessar os bairros

o perigo de transpor

as barreiras as sentinelas

impostas pelo medo

 

As boates os bares

os restaurantes

campos de caça

em que rondam

traficantes e vampiros

 

Na mais inocente festa

o grande risco

de ultrapassar fileiras

de bêbados e drogados

assediadores

 

Os aidéticos os serial-killers

os corruptos negociantes da noite

não usam sinos

 

Todas os dias o infortúnio

o desafio de transitar incólume

o Recife em guerra

 

 

----

A Poesia Desconhecida de Talis Andrade aqui 

 

03
Out17

De David Lopes Silva

Talis Andrade

zoravia bettiol sodoma e gomorra.jpg

 Sodoma e Gomorra, gravura de Zoravia Bettiol

 


Movimento do olhar
Em vários aspectos
Tempo de fotos em preto e branco
Um close nas notas do meu silêncio
Imagem do tudo meio ao nada
Levanto as fases da vida

 

Recordações de imagens da minha morte
Poeta que deixar de ser poetas e livros
Clandestino otimista confessa a crítica
O tempo de escravo Sodoma simplesmente
Formas humanas o pensamento e o pensador
Descoberta visão do túmulo

 

mortedesocrates. Jacques-Louis David.jpg

                  Morte de Sócrates, por Jacques-Louis David

 

 

Sócrates
O sábio que abriga reflexão silenciosa dos conflitos
Juízo no papel lá longe a preta igual a café de bom
E gostoso momentos que não volta dispersa pequenas parte
Estrelas pretas não interessa cor
Miro o olhar a diante distância lapidando meu coração
Escondido a natureza da razão tornar se absoluta
Pedra despida ao demônio idéia estético guarda-chuva

 

 

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