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O CORRESPONDENTE

O CORRESPONDENTE

18
Ago17

Alfonsina Storni

Talis Andrade

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A carícia perdida


Sai-me dos dedos a carícia sem causa,
Sai-me dos dedos... No vento, ao passar,
A carícia que vaga sem destino nem fim,
A carícia perdida, quem a recolherá?
Posso amar esta noite com piedade infinita,
Posso amar ao primeiro que conseguir chegar.
Ninguém chega. Estão sós os floridos caminhos.
A carícia perdida, andará... andará...
Se nos olhos te beijarem esta noite, viajante,
Se estremece os ramos um doce suspirar,
Se te aperta os dedos uma mão pequena
Que te toma e te deixa, que te engana e se vai.
Se não vês essa mão, nem essa boca que beija,
Se é o ar quem tece a ilusão de beijar,
Ah, viajante, que tens como o céu os olhos,
No vento fundida, me reconhecerás?

 

---

 

Tradução de Carlos Seabra

18
Ago17

de Carla Carbatti

Talis Andrade

Carla.jpg

 

 


todo tocar é uma canção

 

enquanto acordo os pássaros
a mãe tece a mortalha do anoitecer
agora estamos fora
na linha curvilínea de uma folha que chora

 

que farei com minhas mãos
depois de tocarem aquilo que não se toca?

 

todo tocar é uma canção
- murmulha a mãe entre seus galhos e rascunhos
é isso que se perde, minha filha

 

e sua voz vibra as águas do meu punho

17
Ago17

Mar Becker

Talis Andrade

mar becker.jpg

 


quando morrem,

 

as mães deixam um enxame de bocas no mundo: um vulto de milhões de vozes que orbitam e sonham em torno dos corpos das filhas.

 

à noite,
como se cantassem.

 

são bocas que lembram halos de sétimo dia ou fendas em fumaça de incenso.

 

[santo, santo, santo,
rastilho pubiano, um pântano de pernas
de filhas

 

no corredor da missa.]

 

“porque este é meu corpo e este é meu sangue”.

 

durante o inverno as bocas-restos crescem, tomam um princípio de vingança e furam os corpos das filhas com a ponta de suas línguas.

 

entre as pernas.

 

---

(Mar Becker)

Marceli Andresa Becker

17
Ago17

Bia Lira

Talis Andrade

bia lira.jpg

 

 

 

 

Eu ia pegar o avião,

eu ia invadir tua sala de jantar

onde fica nossa fotografia,

eu ia te abraçar

pra matar saudade

até tu dormir,

eu ia pedir pra tu cuidar

de mim.

eu ia te manchar

com meu batom,

mas como estou longe

de ti,

eu fiz esse verso

que é pra tu

não me esquecer

 

 

 

16
Ago17

Ana Guadalupe

Talis Andrade

ana guadalupe.jpg


o aluguel & o sono


ao lado do respirar ruidoso asmático
do aluguel quase vencendo

 

o aluguel rouba os travesseiros
os edredons e os pesadelos
mas paga a casa onde fica a cama

 

concordamos que o sono é meio covarde
e o aluguel o cônjuge que oprime
o ano inteiro e todo dia quinze
sem querer e com muita vontade

 

 

 

doente e contemplando a saúde


doente de qualquer coisa e contemplando a saúde
percebo como eram bons todos os órgãos
silenciosos em pleno funcionamento
como serviam pra tudo as pernas
e braços mesmo quando doíam
e como eram dóceis os ossos
e como eram fáceis

 


a pior das conexões

 

até parece o horizonte
o papel de parede uma tela pintada
quando você vem surgindo

 

a gente vê no mesmo horizonte
o outro saltando e correndo num esporte
que envolve quedas e partes cortadas

 

na paisagem todas as perguntas interrompidas
eu querendo saber a sua cor preferida
você levantando e caindo como fruta

 

corro pra oferecer água da torneira
não sobra nada se um de nós
não volta

16
Ago17

Rita Maria Kalinovski

Talis Andrade

Rita poeta.jpg

 

 

DESTROÇOS DE NÓS

 

guerras são sazonais
como tangerinas.
descansam seus ódios
por um tempo
depois explodem
suas ganas
em destroços de pólen
em olhos de terror.
dores insaciáveis
mortesindevidas.
não entendo a guerra.
não entendo a paz.
para haver paz
é feita a guerra?
paz em tardes de grama
e sombra de árvore.
pios de pássaro
e cigarras insanas.
guerras quebram silêncios
movimentos lentos
xícaras sobre a mesa
mãos em agulhas de crochê.
guerras quebram
diálogos de mãos quentes.
guerras sujam
crianças com o pó da ira
a testa dos velhos
o regaço das jovens.
quem decide as guerras
não vai pra guerra.
somos resultado
de todas as guerras.

 

15
Ago17

Karine Kelly Pereira

Talis Andrade

karine kelly.jpg

 

 

Meu corpo não tem cor, idade, sexo ou pátria
restaram os pés ansiando pela dança
a mão trêmula que não cessa de escrever enquanto a poesia me berra por todos os poros e não deixa dormir
: eu obedeço.

 

 

---

Álbum Por que as poetisas são lindas?

15
Ago17

Afinidades de Eunice Boreal

Talis Andrade

 

eunice boreal.jpeg

 

 

 

Eu prefiro os libertários.

Os que reinventam a vida.

Os que superam a si mesmo.

Os que escolhem a ironia no lugar da agressão.

Eu prefiro aqueles que preferem o amor.

Aqueles que se permitem a surpresa perante os seus próprios desejos, mas não se reprimem.

Aqueles que rompem com a hipocrisia e desintegram os seus próprios pré-conceitos.

Eu prefiro aqueles que valorizam a diversidade, que respeitam todas as cores da humanidade, que

aprendem com as mitologias, que acreditam no que querem, mas não querem mandar no mundo.

Eu prefiro as potências criativas.

A dança sagrada do cosmo.

A vida que prefere a vida.

13
Ago17

Natasha Felix

Talis Andrade

natassha.jpg

 

 

 

meus peitos teus peitos
um cover do cash na playlist
de agora em diante as
músicas não existem.
somo um bilhete rasurado
na geladeira
hoje tá lá, amanhã um
ímã de pinguim.
todas as metáforas todas as
cartas de amor são ridículas
pra caralho
mas é que você assim
assumidamente
esparramada em mim mais
parece a visão duma tribo inteira queimando
os panos as espinhas dos peixes
as crianças
e o fogo é o fogo.

 

 

---

Álbum Por que as poetisas são lindas? 

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