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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

07
Out17

Aleluia do Santo Império do Brasil

Talis Andrade

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 Ilustração Wissam Assad

 

 

Como despiste, fingimento, encenação, desviamento e distração de temas sociais e políticos, o Facebook age identicamente ao MBL, Movimento do Brasil Ladrão, realizando puritanas campanhas em defesa da Tradição, Família e Propriedade. Que ajudaram a TFP coadjuvar o golpe militar.

 

Os pastores evangélicos adaptaram a beatice dos padres da missa em latim, realizando o "milagre" da cura gay para o golpe de Temer.

 

Em nada diferem as marchas católicas do povo que reza unido permanece unido, em 1964, das passeatas da paz dos evangélicos em 2016.

 

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Leia as Normas da Comunidade do Facebook:

 

"Restringimos a exposição de nudez. Algumas descrições de atos sexuais também podem ser removidas. As restrições relativas à exibição de nudez e de atividade sexual também se estendem aos conteúdos digitais, exceto quando a publicação do conteúdo se der por motivos educativos, humorísticos ou satíricos.
Removemos conteúdos que ameacem ou promovam exploração ou violência sexual. Isso inclui solicitação de material sexual, qualquer conteúdo sexual envolvendo menores, ameaças de compartilhamento de imagens íntimas e ofertas de serviços sexuais. Se for o caso, encaminhamos o conteúdo para as autoridades".

 

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 Ilustração Makhmud Eshonkulov 


"Para descobrir quais tipos de mensagens e publicações são permitidas, consulte os padrões da comunidade do Facebook".

 

Desculpas para a censura política, que o estadunidense Facebook um portal de relacionamento social, ou melhor, de relacionamento sexual, exibindo fotos de belos machos e fêmas para curtição, e secretas trocas de mensagens eróticas. Tudo pela realista e eficaz política dos ditadores, adaptada do movimento hippie: não faça guerra, faça o amor.

 

No Brasil da tradição do  incesto que não é crime, da cultura do estupro do patriarcalismo como base de uma ideologia colonial, feudal, rural, entreguista, o nacionalismo vem sendo condenado como xenofobia, a "Independência ou Morte" como atraso, negação da globalização, sendo a privatização da Amazônia propaganda da intervenção militar de generais como Mourão, e ninguém denuncia o trabalho escravo, o êxodo rural, o inchaço e multiplicação das favelas, o holocausto das 500 mil crianças prostitutas.  

 

 

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 Ilustração Luc Descheemaeker 

 

 

 

 

 

 

21
Ago17

A ronda da noite de Djalma Maranhão

Talis Andrade

 

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Estreladas noites Djalma passava
pel’A República dirigindo um jipão
que parecia um trator. O velho jipão
dos tempos da Grande Guerra
subia descia morros
dançava na areia fofa
das ruas que Djalma mandava ladrear.


O jipão seguia ziguezagueando
por desalinhadas ruas
ladeadas de casinhas de presépio.
Casinhas que a lua alumiava.
Ruas que exibiam os mistérios da noite
como uma mulher mostra os encantos
exclusivamente para o amante.
Ruas em que Djalma mandava levantar
postes de iluminação.


Djalma conhecia as quinas
as curvas das ruas estreitas.
Nos becos e botecos
saltava para um trago.
Djalma conhecia os moradores
as cantorias os amores
as aventuras dos pescadores.
Djalma bêbedo da paisagem
– o encantamento das dunas
estendendo o mar
transformado em areia.


Djalma bêbedo de saudade de Natal
contava histórias de quando preso
nas masmorras de Getúlio
parecendo previa carregadas nuvens
fechariam o tempo fechariam as casas.


Djalma levou consigo a saudade
para a escuridão do cárcere.
A evocação no exílio
lhe consumiu o coração.
Djalma voltou para Natal
dentro de um caixão.

 

---

Foto Jornalista Djalma Maranhão, quando prefeito de Natal

Mais poesia de Talis Andrade aqui

 

 

13
Ago17

de Ana Moravi

Talis Andrade

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na crueza que fuzila por causa de versos
o ditador desletrado em euforia celebra
não há execução que não seja uma festa
o poeta padeceu a ser confete de tragédias

 

rima o sangue em letras garrafais
musicado pelo coração que cala
uma sirene toca o hino de louvor
só os mortos não aplaudem o orador

 

mafiosos em acentos privilegiados
secam fontes irrigando seus trocados
gritam alto e mais a cada leilão
como bons comerciantes de balcão

 

leva o gringo que der mais
foto na capa e destaque nos jornais
felizes em pautar bombas, crises e crimes
sob o aplauso dos que se eximem

 

a américa cafetina geopolítica
demitiu a nanny russa islamita
por no passeio pelas ruas de moscou
decepar a cabeça da chiquita

 

surfista armilar cropando a lama
do tsunami no mar que é morro
brilhantes partículas minerais
cobriram os peixes num jorro


(sobre 5 ou 6 fatos extra-ordinários)

 

 

21
Jul17

Vinícius de Moraes hoje

Talis Andrade

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cd-vinicius-de-moraes-em-portugal-1969-selo-festa.

 

 


por Urariano Mota

 

Para estes dias de novo golpe no Brasil, vale a pena esta evocação e invocação de Vinícius de Moraes.

 

O crítico literário José Castello, numa entrevista, contou certa vez que o poeta maior Vinicius de Moraes apresentava um show em Lisboa em 13 de dezembro de 1968. Esse foi o dia em que os militares do Brasil acabavam de dar um golpe dentro do golpe com o Ato Institucional número 5. E o que lhe acontece? À saída do teatro, militantes da Juventude Salazarista, todos vestidos de terno e gravata, ficaram esperando a saída do poeta para hostilizá-lo. Eles relacionavam Vinicius à esquerda e ao comunismo. Mas o poeta não se deixou intimidar, e contrariando a orientação recebida, que evitasse o enfrentamento, eis que o poeta encarou os manifestantes recitando de improviso todo o seu poema Pátria Minha. Que vale a pena retomar:

 

Pátria minha

 

A minha pátria é como se não fosse, é íntima
Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo
É minha pátria. Por isso, no exílio
Assistindo dormir meu filho
Choro de saudades de minha pátria.

 

Se me perguntarem o que é a minha pátria direi:
Não sei. De fato, não sei
Como, por que e quando a minha pátria
Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água
Que elaboram e liquefazem a minha mágoa
Em longas lágrimas amargas.

 

Vontade de beijar os olhos de minha pátria
De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos...
Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias
De minha pátria, de minha pátria sem sapatos
E sem meias pátria minha
Tão pobrinha!

 

Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho
Pátria, eu semente que nasci do vento
Eu que não vou e não venho, eu que permaneço
Em contato com a dor do tempo, eu elemento
De ligação entre a ação o pensamento
Eu fio invisível no espaço de todo adeus
Eu, o sem Deus!

 

Tenho-te no entanto em mim como um gemido
De flor; tenho-te como um amor morrido
A quem se jurou; tenho-te como uma fé
Sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito
Nesta sala estrangeira com lareira
E sem pé-direito.

 

Ah, pátria minha, lembra-me uma noite no Maine, Nova Inglaterra
Quando tudo passou a ser infinito e nada terra
E eu vi alfa e beta de Centauro escalarem o monte até o céu
Muitos me surpreenderam parado no campo sem luz
À espera de ver surgir a Cruz do Sul
Que eu sabia, mas amanheceu...

 

Fonte de mel, bicho triste, pátria minha
Amada, idolatrada, salve, salve!
Que mais doce esperança acorrentada
O não poder dizer-te: aguarda...
Não tardo!

 

Quero rever-te, pátria minha, e para
Rever-te me esqueci de tudo
Fui cego, estropiado, surdo, mudo
Vi minha humilde morte cara a cara
Rasguei poemas, mulheres, horizontes
Fiquei simples, sem fontes.

 

Pátria minha... A minha pátria não é florão, nem ostenta
Lábaro não; a minha pátria é desolação
De caminhos, a minha pátria é terra sedenta
E praia branca; a minha pátria é o grande rio secular
Que bebe nuvem, come terra
E urina mar.

 

Mais do que a mais garrida a minha pátria tem
Uma quentura, um querer bem, um bem
Um libertas quae sera tamem
Que um dia traduzi num exame escrito:
‘Liberta que serás também’
E repito!

 

Ponho no vento o ouvido e escuto a brisa
Que brinca em teus cabelos e te alisa
Pátria minha, e perfuma o teu chão...
Que vontade de adormecer-me
Entre teus doces montes, pátria minha
Atento à fome em tuas entranhas
E ao batuque em teu coração.

 

Não te direi o nome, pátria minha
Teu nome é pátria amada, é patriazinha
Não rima com mãe gentil
Vives em mim como uma filha, que és
Uma ilha de ternura: a Ilha
Brasil, talvez.

 

Agora chamarei a amiga cotovia
E pedirei que peça ao rouxinol do dia
Que peça ao sabiá
Para levar-te presto este avigrama:
‘Pátria minha, saudades de quem te ama...

Vinicius de Moraes’ "

 

Segundo José Castello, então se deu uma cena incrível: os jovens salazaristas tiraram seus casacos e fizeram um tapete para que o poeta passasse.

 

A isso ligo o Vinícius no Portugal salazarista a estes pesados dias no Brasil. Antes como agora, o nos salva é a literatura. Assim, copio a seguir uma referência ao poeta em um trecho do meu próximo romance “A mais longa duração da juventude”. No livro, o personagem Zacarelli, quando está numa praia diante da jovem por quem está apaixonado, deste modo se declara a ela nos anos da ditadura:

 

“- Quem fala bem sobre o amor, fala bem da revolução. É claro, mesmo que não queira, todo poeta é comunista. Mas quando expressa bem o amor, ele é um revolucionário em essência. Vinícius de Moraes tem uma composição que é sublime. Aquela que fala ‘ó minha amada de olhos ateus, teus olhos são cais noturnos cheios de adeus”. Todo grande poeta socialista assinaria’.

 

Creio que o Vinícius em Lisboa concordaria.

 

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19
Jul17

‘Juízes tomaram o poder no Brasil’, denuncia mídia internacional

Talis Andrade

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por Esmael Morais

 

 

Para a mídia internacional, não há dúvidas de que juízes tomaram o poder no Brasil. Após a derruba da presidenta eleita Dilma Rousseff, a “toga” é quem toca a música na Terra de Santa Cruz mesmo sem possuir um único voto.


E os políticos – quando lhes convêm — dançam conforme o ritmo determinado pelo judiciário, haja vista sua atividade estar sob constante mira da criminalização.
O espanhol El País trouxe na capa deste domingo (16) a seguinte manchete: “Brasil, o país em que os juízes tomaram o poder“.


O diabo é que os jornais brasileiros escondem essa informação de seus leitores porque são cúmplices do golpe de Estado. Até quando? Só Deus sabe…


Le Soir, da Bélgica, o maior jornal em francês do país, também faz um retrato do juiz Sérgio Moro, que recentemente sentenciou o ex-presidente Lula a 9 anos e meio de prisão e, pasme, a 19 anos de banimento em cargos ou funções públicas.


O jurista Eugenio Raúl Zaffaroni, em artigo, denuncia a operação lava jato de Moro como um “Plano Condor” judicial. Segundo o renomado professor argentino, o objetivo é eliminar lideranças populares do Continente que ameacem eleitoralmente as corporações e traidores da pátria por meio de uma aliança entre judiciário e mídia. Veja arquivo sobre judiciário 

 

 

12
Jul17

A condenação de Lula é um escárnio

Talis Andrade

por Dilma Rousseff

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Dilma e Lula

 


A condenação de Luiz Inácio Lula da Silva, sem provas, a 9 anos e seis meses de prisão, é um escárnio. Uma flagrante injustiça e um absurdo jurídico que envergonham o Brasil. Lula é inocente e essa condenação fere profundamente a democracia.

 

Sem provas, cumprem o roteiro pautado por setores da grande imprensa. Há anos, Lula, o presidente da República mais popular na história do país e um dos mais importantes estadistas do mundo no século 21, vem sofrendo uma perseguição sem quartel.

 

Ontem, com indignação, assistimos à aprovação pelo Senado do fim da CLT. Uma monumental perda para os trabalhadores brasileiros.

 

Agora, assistimos essa ignominia que está sendo exercida contra o ex-presidente Lula com o objetivo de cassar seus direitos políticos.

 

O país não pode aceitar mais este passo na direção do Estado de Exceção. As garras dos golpistas tentam rasgar a história de um herói do povo brasileiro. Não conseguirão.

 

Lula é inocente. E o povo brasileiro saberá democraticamente resgatá-lo em 2018.

 

Nós iremos resistir.

 

 

28
Jun17

Jesus nunca usou a palavra pecado

Talis Andrade

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Jesus usava a palavra certa. Crime. Chamar um crime de pecado é querer suavizar,  camuflar, esconder um ato profundamente corrupto, repugnante, imundo, horrendo, indiscutivelmente nojento, segundo os padrões da moral vigente.

 

Sou pela volta dos pecados capitais, e assim sendo favorável à reforma trabalhista, pela felicidade do povo em geral.

 

Os crimes praticados contra o trabalhador começaram com o primeiro ato institucional da ditadura militar de 64, quando foi cassada a estabilidade no emprego. E o rasga da CLT continuou nos chamados governos democráticos de Fernando Henrique, criando os pejotas, a terceirização perpetrada por Joaquim Levy ministro de Dilma Rousseff, indicado pelo Bradesco.

 

O Henrique Meireles, que continua a política econômica adotada por Roberto Campos e Delfim Neto, é o mesmo Mei reles ou todo reles presidente do Banco Central nos tempos de Lula.

 

Pretender tirar todos os direitos trabalhistas não é reforma. Nunca foi.

A reforma costuma ser uma iniciativa ou um projecto que procura implantar uma inovação, uma melhoria nalgum sistema.

A reforma pretendida por Michel Temer, como chefe da Orcrim, visa beneficiar o patronato, as empresas multinacionais do império capitalista, os banqueiros agiotas conforme os ditames do FMI.

 

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OS PECADOS CAPITAIS DO SÉCULO XXI

 

Não vou citar o atual Papa Francisco, que a direita condena como "comunista" e "ateu". E sim um Papa chamado de "nazista", Bento XVI, alemão de nascença, e que pertenceu à juventude de Hitler, e combateu contra os Aliados na Segunda Grande Guerra.

Pontificou Bento que os humanos desenvolveram sete pecados capitais modernos. Eles são:

 

Pressa: Uma pessoa apressada não tem tempo para Deus.

Pela carga horária desejada por Temer, o trabalhador não tem tempo para descanso, para dedicar à família, o que explica o atual abandono de crianças e adolescentes, o que motiva suicídios.

Fica desmoralizada a invenção da lenda da baleia azul, existente apenas nos países em crise no Terceiro Mundo. A baleia azul assume os crimes do governo e outros.

 

Para Bento XVI, outro pecado capital Causar Pobreza: Retirar dinheiro dos outros por avareza. Prática comum da agiotagem bancária, dos prestamistas, do roubo do empréstimo consignado para funcionários públicos, que cobra os impagáveis

juros sobre juros, tal como acontece com a dívida externa do Brasil.

  

Também constitui pecado capital Ser muito rico: Causa desigualdade social, o que é inaceitável, pois todos são iguais perante Deus.

 

E causar Injustiça Social: Nada mais injusto que o nababesco, principesco salário acima do teto constitucional em um país que paga o salário mínimo do mínimo, e as existências de duas justiças, de duas polícias.

 

Existem mais dois pecados capitais:

Interferir no Meio Ambiente: Adicionar imperfeições na Criação de Deus. Permitir a multiplicação das favelas. Mil e cem favelas na Capital Rio de Janeiro. Mais de duas mil na Capital São Paulo. Nada mais absurdo que a construção de moradias indignas, principalmente em áreas de risco.

 

Interferir no próprio corpo: Usar drogas como acontece com as prostitutas infantis. Que entorpecem o corpo para suportar de oito a dez estupros diários. As vaginas pequenas e estreitas sangram. O sexo das meninas uma dolorida, uma ferida aberta.

 

O tráfico de órgãos rende bilhões. Vender parte do corpo `a medicina de vanguarda passou a ser um meio de vida ou morte.

 

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26
Jun17

2017 do poeta Rafael Rocha

Talis Andrade

Nas livrarias e premiações, este ano, três livros inéditos do poeta Rafael Rocha:

Poemas Escolhidos

Poemas dos Anos de Chumbo

e

 

AO TRIBUTO A BUCK.  rocha.jpg

felizes na dor (*)

 

ponham os copos na mesa
acendam seus cigarros
tem litro de cachaça e muita cerveja
para rolar esta noite
estão cansados?
não existe cansaço para os notívagos.
a eles é dada a solidão dos felizes na dor

duas horas da manhã
e vocês querendo mulheres e fodilanças?
eu serei bondoso mesmo que vocês fiquem bêbados.
se alguém pegar aquele violão
abandonado lá no canto
e resolver cantar uma canção qualquer
conseguiremos espantar nossas mágoas de ébrios

elas não virão hoje (puta merda!)
fiquem certos disso
elas são sombras decaídas e nos odeiam
por sermos tão honestos e sensíveis
e por bebermos a vida e por fumarmos a vida
ainda quero que alguém pegue o violão abandonado
e dê voz a uma canção cheia de putaria

e tu ainda diz - meu deus que grande farsa!?
- bebe o líquido amargo de tua cerveja, porra!
estás mais perto do nada que esse deus
esse abominável!

esse trágico comediante das esferas celestes
que prega a morte como culto
e deixa matar o próprio filho
para salvar os homens de suas merdas

na verdade, vos digo, na verdade
e agora sou eu o vosso profeta
“se quer saber onde está deus, pergunte a um bêbado”
(essa frase é do bukowski, outro amigo desta merda de vida!)
o bêbado tem mais consciência
da localização da mentira que um homem sóbrio

deixa que o violão toque sozinho
todas as canções do mundo
elas não cabem em nossas cabeças
que só pensam em mulheres
nos cigarros e nas cervejas
e nas ingratidões da vida
mas continuem a encher os copos
quero todos bêbados e voláteis
dançarinos de suas próprias infelicidades.

 

 

tereza


na rua chamada

imperatriz tereza cristina

morava a tereza

maltrapilha

a louca do bairro

da boa vista

cantora

de rua

e pedinte

dos botecos

fétidos

feia como

uma maldição

de bruxa

 

tereza

da rua imperatriz

todas as manhãs

ficava nua

e mergulhava

no rio capibaribe

às 7 da manhã

fazendo chuva

ou fazendo sol

ria e ria e ria

brincando na água

sem ligar

aos passantes

na ponte de ferro

e mostrava

o dedo médio

em riste

a quem mandasse

ela sair da água

 

tereza da imperatriz

lavava os peitos

a bunda

e a buceta

com a água do rio

e depois

saía cantando

pela lama

do manguezal

trazendo caranguejos

entre os dedos...

 

(um dia

tereza da imperatriz

sumiu nas águas

entre as baronesas

de uma enchente

e nunca mais foi vista).

 

 

final

 

casualmente

tinha de ter um poema mais velho que o diabo

para oferecer em algum altar

e infelizmente

tinha de terminar de poetar com uma palavra simples

obrigado! obrigado!

e agradecer os aplausos

verdadeiramente

tinha de falar gritando para esses obtusos e vadios

intelectuais inventados pelo poder

- uns merdas do pedaço!

digo, sim:

vão tomar no cu!

felizmente, sim!

tenho saco roxo para dizer isso!

vão se fuder!

se não gostam do que escrevo

felizmente, ah, felizmente!

estou livre de todos!

tenho uma estrada aberta só para mim!

e meus verdadeiros leitores me amam!

 

 

 

rafael rocha.jpg

 

Nota do editor: Dos livros Poemas Escolhidos e Poemas dos Anos de Chumbo já divulgamos alguns versos. Comprove a beleza in tags.

Do poema Felizes na Dor, o autor faz o seguinte comentário:

(*) Escrito e falado por mim na bela cidade do Recife no bar Mansão do Fera no louco ano de 1980, quando as merdas da vida eram mais reais que as merdas religiosas

 

 

 

23
Jun17

Soledad Barrett

Talis Andrade

 

 

soledad_barret274554.jpg

 

 

 

Mãe, me entristece te ver assim
o olhar quebrado dos teus olhos azul céu
em silêncio implorando que eu não parta.


Mãe, não sofras se não volto
me encontrarás em cada moça do povo
deste povo, daquele, daquele outro
do mais próximo, do mais longínquo
talvez cruze os mares, as montanhas
os cárceres, os céus
mas, Mãe, eu te asseguro,
que, sim, me encontrarás!
no olhar de uma criança feliz
de um jovem que estuda
de um camponês em sua terra
de um operário em sua fábrica
do traidor na forca
do guerrilheiro em seu posto
sempre, sempre me encontrarás!

Mãe, não fiques triste,
tua filha te quer.

 

 

---

Álbum Por que as poetisas são lindas?

Último poema de Soledad Barrett, antes de ser torturada e assassinada no Recife, durante a ditadura militar.

Tradução do romancista Urariano Mota, romancista e biógrafo da poetisa mártir 

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