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22
Jan18

Papa desafia bispos a denunciar abusos contra o povo

Talis Andrade

Francisco evocou problemas como a corrupção, os paraísos fiscais e a sobrelotação das prisões

 

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Lima, 21 (Ecclesia) – O Papa Francisco desafiou os bispos católicos do Peru a denunciar todos os “abusos” contra o povo, dando como exemplo a figura de São Toríbio de Mogrovejo (1538-1606), arcebispo de Lima.


“Nas suas visitas, pôde constatar os abusos e excessos que sofriam as populações nativas, não hesitando, em 1585, a excomungar o governador de Cajatambo, enfrentando todo um sistema de corrupção e uma rede de interesses”, recordou.


“A caridade deve ser sempre acompanhada pela justiça, e não há autêntica evangelização que não anuncie e denuncie toda a falta contra a vida dos nossos irmãos, especialmente dos mais vulneráveis”, acrescentou.


O Papa realçou a necessidade de “evangelizar o mundo da política”, lamentando os efeitos da corrupção na América Latina e o “fenómeno dos paraísos fiscais”.


A conversa com os bispos aludiu ao escândalo que envolveu a brasileira Odebrecht, a qual admitiu pagar subornos a responsáveis políticos, como um exemplo de ganância.


Francisco, que esta manhã cumprimentou alguns reclusos, em privado, alertou ainda para a sobrelotação das prisões, considerando que as mesmas funcionam como “escolas de corrupção”.


“A política está doente, está muito doente”, considerou, numa passagem improvisada.


O pontífice, admirador de São Toríbio de Mogrovejo – que nasceu em Espanha e estudou em Coimbra -, falou deste arcebispo como alguém que se mostrou sempre “ciente de que o bem espiritual nunca se pode separar do justo bem material e, menos ainda, quando se põem em risco a integridade e a dignidade das pessoas”.


Para Francisco, continua a ser necessário uma “profecia episcopal que não tem medo de denunciar os abusos e excessos cometidos contra o seu povo”.


O Papa apresentou São Toríbio como o “homem que soube chegar à outra margem”, deixando as comodidades do paço episcopal para percorrer o território que lhe estava confiado.


“Hoje chamá-lo-íamos um bispo «de estrada». Um bispo com as solas consumidas pelo muito andar”, precisou.
Francisco recordou que este arcebispo defendeu a ordenação de padres mestiços e procurou que os catecismos fossem traduzidos em quéchua e aymara, “visitando e vivendo com o seu povo” para aprender a falar a língua dos outros.


“Como é urgente esta visão para nós, pastores do século XXI, que – só para dar um exemplo – temos de aprender uma linguagem completamente nova, como é a digital! Conhecer a linguagem atual dos nossos jovens, das nossas famílias, das crianças”.

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