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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

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25
Out17

O roteiro de negligências que matou a turista espanhola na Rocinha

Talis Andrade

 

 

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                                                  María Esperanza Jiménez Ruiz

 

 

Polícia Civil pediu a prisão preventiva do tenente por homicídio doloso, mas juiz negou

 

 

por María Martín

 

 

María Esperanza Jiménez pagou 140 reais pelo passeio que acabou com sua vida. Era uma parte pequena dentro de uma viagem que passou por Bogotá, Buenos Aires e Foz do Iguaçu, e que devia ter terminando no Peru. Mas María Esperanza, de 67 anos, queria conhecer uma favela carioca. No último dia 20, ela, seu irmão e a cunhada desembarcaram no Rio de Janeiro; no domingo pediram para a guia responsável pelas suas atividades turísticas, Rosângela Reñones, uma visita a uma comunidade. Esperanza era a “mais empolgada” com o plano, disse à polícia Carlo Zaninetta, o motorista italiano responsável pelo trajeto. Era pela Rocinha, uma favela conflagrada, mas os espanhóis não sabiam isso. Na segunda-feria, María Esperanza foi morta pelo disparo de um policial militar.

 

Rosângela era a subcontratada de uma empresa locadora de carros com motorista, a Carioca Rio Tour, subcontratada pela Brasil Operadora que, por sua vez, era subcontratada da Exoticca, a agência espanhola que organizou toda a viagem da Espanha. “Nossos clientes reservaram uma viagem combinada Argentina, Brasil e Peru. Todos os serviços do Brasil foram contratados com a empresa local com a qual trabalhamos: Brasil Operadora. Nunca foi oferecido nem da Exoticca nem da Brasil Operadora um passeio às favela. E mais, a Brasil Operadora sempre nos desaconselhou a realizar esse passeio precisamente pelo risco que implica. É por isso que desconhecemos a empresa Carioca Rio Tour e desconhecemos como María Esperanza e seus acompanhantes concretizaram esta atividade”, disse a agência de viagens espanhola a este jornal.

 

No passeio na favela, suspeitas da polícia

 

Depois de recolher o grupo num hotel de Botafogo, o motorista levou os turistas à parte baixa da favela e combinou de aguardá-los enquanto eles passeavam pelas vielas de uma das maiores favelas de América Latina. Durante o tour, e por conta do tiroteio ocorrido uma hora antes, os espanhóis e a guia encontraram muito mais policiais do habitual, o que, paradoxalmente, os confortou, disseram em depoimento. 

 

Com o grupo no carro, o motorista foi pegar a curva do Largo do Boiadeiro, uma região comercial, embora também ponto de venda de drogas, quando três policiais deram a ordem para que ele parasse. O veículo não parou. Entre os agentes estava o soldado Luís Eduardo de Noronha, que disparou para o alto, e o tenente Davi dos Santos Ribeiro, que atingiu duas vezes o veículo matando Esperanza com um tiro no pescoço. O oficial se defendeu dizendo que atirou no chão. Os dois chegaram a ser presos em flagrante nesta segunda.

 

O policial não deveria ter disparado

 

Não há protocolo policial que justifique o procedimento adotado pelos agentes, embora a Polícia Militar do Rio venha enfrentado vários episódios nos quais fica evidente que há abordagens nas quais dispara antes de perguntar. Em outubro de 2015, por exemplo, a PM matou dois rapazes que estavam em uma moto ao confundir um macaco hidráulico com um fuzil.

 

Nesta terça-feira, a Polícia Civil pediu a prisão preventiva do tenente por homicídio doloso [com intenção de matar] qualificado, mas um juiz negou sua prisão.

 

Ninguém no carro viu o sinal dos agentes. Só souberam que algo não ia bem quando ouviram o primeiro tiro. Depois, um segundo e, depois, um terceiro, que fez tremer o veículo. A van branca que ia na frente acelerou, e o italiano, por instinto, também. Uns 30 metros depois cerca de 15 policiais o detiveram. “Sai do carro, filho da puta, desce, desce!”, gritaram. “Por que não parou?! Estávamos correndo atrás de você gritando para você parar!”. Só quando o irmão de Esperanza foi sair do veículo, percebeu que ela tombou no banco. No hospital Miguel Couto apenas certificaram o óbito. “Foi uma situação realmente surreal, sem sentido nenhum, e estou muito abalado”, escreveu o motorista ao EL PAÍS, após se recusar a falar sobre o caso.

 

A morte de Esperanza, a quarta de um turista estrangeiro numa favela do Rio no último ano, escancarou uma sequência de negligencias. As de uma operadora turística que coloca em risco seus clientes, e as da polícia militar do Rio – a que mais mata e a que mais morre do Brasil – que, apesar de o carro dos espanhóis não apresentar nenhum risco, atirou. Transcrevi trechos. Leia mais 

 

 

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