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O CORRESPONDENTE

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27
Jul17

Doenças Sexualmente Transmissíveis na Adultez Tardia

Talis Andrade

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                                                                           THINKSTOCK

 

 

por Karina Cerqueira de Aranha Marinho de Andrade Lima

 

 

Os avanços nas ciências, principalmente na medicina, e tecnologias proporcionam melhor qualidade de vida e aumento da longevidade. A população acima dos 60 anos tem crescido. Segundo Harper (2014), o número de pessoas com idade acima de 65 anos irá aumentar de 23.7 milhões (em 2010) para 152.6 milhões em 2050. Os idosos maiores de 80 anos constituirão cerca de 12% da população. Triplicando a sua dimensão em 40 anos, no período de 2010 e 2050. Esta faixa da população está descobrindo novas experiências, inclusive pelo prolongamento da vida sexual possibilitado pela reposição hormonal, medicamentos para impotência e outros.

 

O que antes era um enorme tabu e desconhecido, hoje, as informações estão acessíveis a qualquer pessoa de qualquer idade. Cada vez mais estuda-se os benefícios que a sexualidade, nessa etapa da vida, traz para a saúde, para o bem--estar e para a satisfação geral.

 

Os idosos estão cada vez mais conscientes de seus direitos e necessidades. A sexualidade deixou de ser apenas uma forma de reprodução para torna-se uma forma de encontro, relação, comunicação ou expressão dos afetos (BUTLER; LEWIS, 1985).

 

Mesmo com o aumento da informação, ainda existe muito preconceito e pressão cultural. A sociedade, os profissionais de saúde, inclusive o próprio idoso, negam que exista vida sexual na velhice. Até pouco tempo atrás, nem se cogitava falar sobre sexo abertamente. Por isso, existe, ainda, muito receio e vergonha em se falar de preservativos, e principalmente, em comprá-los. A ocorrência de práticas sexuais inseguras contribui para que essa população se torne mais vulnerável às infecções pelo Vírus da Imunodeficiência Humana (VIH) e outras doenças sexualmente transmissíveis (DST), como a sífilis e a clamídia.

 

Em todo o mundo tem crescido os casos de DST e VIH nos idosos. Devido a escassez de estudos epidemiológicos, e de campanhas de prevenção exclusivas para maiores de 60 anos, somados à ampliação do período sexual ativo, processos fisiológicos do envelhecimento e aspectos comportamentais.

 

A Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (VIH)

 

 

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Não se conhece a origem do vírus. Sabe-se que existe semelhança com a família de retrovírus relacionada a primatas não-humanos (macacos verdes africanos), que vivem na África sub-Sahariana, chamada de vírus da imunodeficiência símia (SIV). Esta hipótese de introdução do SIV em humanos foi proposta por um antropologista que estudou a tribo Igjiwi oriunda do Zaire. Que observou, em rituais religiosos, o homem sacrificava o animal, fazendo a ingestão do seu sangue. Assim, o vírus SIV pode ter sido transmitido ao homem, sofrido mutação e atacado a espécie humana. Por isso, supõe-se que o VIH tenha origem no continente africano (Kuby, 2003).

 

VIH é a sigla do Vírus da Imunodeficiência Humana. Causador da SIDA (síndrome da imunodeficiência adquirida), atacando as células linfócitas T CD4+ responsáveis, em parte, pelo controlo do sistema imunológico. O vírus altera o DNA destes linfócitos fazendo cópias de si mesmo. Depois de se multiplicar, o VIH rompe os linfócitos em busca de outros para continuar a infecção. Como todo paradita, o VIH se replica dentro das células hospedeiras (Weiss, 2001). Existe o VIH-1 e o VIH-2.

 

Ter o VIH não é o mesmo que ter SIDA. A pessoa pode ter o VIH incubado e não apresentar os sintomas. Já a SIDA é o estágio mais avançado da doença por atacar as defesas do organismo, deixa-o mais vulnerável a diversas doenças. Quer seja um simples resfriado, e infecções mais graves como tuberculose ou cancro.

 

Não existe cura. Mas, possível ser soropositivo e viver com qualidade de vida, tomando os medicamentos indicados, e seguir corretamente as recomendações médicas.

 

O VIH é transmitido por várias formas, e principalmente, pelas relações sexuais desprotegidas, inclusive a anal e oral.

 

O primeiro caso de VIH foi identificado, em 1981, nos Estados Unidos. Pouco tempo depois, rapidamente, a doença tornou-se uma epidemia. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da UNAIDS (Joint United Nations Program on HIV/SIDA), cerca de 40 milhões de pessoas no mundo vivem com VIH/SIDA, dentre as quais 2,8 milhões têm 50 anos ou mais.

 

Segundo Maschio, Mottin, Balbino, Souza, Ribeiro, & Puchalski (2011), no Brasil, de 1980 até junho de 2009, foram diagnosticados 13.665 casos de VIH em pessoas com 60 anos ou mais. Destes, 8.959 em homens, e 4.696 em mulheres. O Ministério da Saúde do Brasil contabilizou 18.712 casos na faixa etária de 60 anos ou mais, no período de 1980 a junho de 2012.

 

No Reino Unido, a incidência dobrou no período compreendido entre os anos de 1996 e 2003, sendo que 11% dos casos de SIDA foram diagnosticados em pessoas com mais de 50 anos.

 

Nos Estados Unidos, embora em 1982 somente 7,5% dos diagnósticos de SIDA eram em pessoas com mais de 50 anos, em 2006, essa população representou 15,5% dos novos diagnósticos de VIH, 25% das pessoas vivendo com VIH, 20,5% dos diagnósticos de SIDA, 32% das pessoas vivendo com SIDA e 39% de todas as mortes provocadas pelo VIH/SIDA.

 

Na Austrália, o National Notifiable DiseasesSurveillance System revelou que de um total de 30.486 casos diagnosticados de infecção por VIH até 2011, 10% foram de pessoas com mais de 50 anos.

 

As estatísticas comprovam que o adulto tardio não tem prevenido ou não tem prevenido corretamente. No Instituto de Infectologia Emílio Ribas, em São Paulo, onde criaram um ambulatório exclusivo para pacientes da 3ª idade com VIH, foi realizada uma pesquisa com os pacientes do sexo masculino, e segundo o Dr Gorinchteyn (2011), 100% dos pacientes sabidamente soropositivos usavam preservativo. Num segundo momento, foi dada uma prótese peniana para que colocassem um preservativo, e 80% dos participantes erraram.

 

No caso das mulheres, nesta faixa etária, por estarem na menopausa e não poderem engravidar, têm a falsa impressão da inutilidade do preservativo.

 

Questões sociais e políticas também agravam a incidência. A sexualidade na adultez tardia é negada pela sociedade. Até nas consultas médicas este assunto muitas vezes é ignorado ou evitado. Há uma falta de identificação do idoso com as campanhas de prevenção do VIH e DSTs que, nos anos 80, tinha como “grupo de risco” quem fosse usuário de droga, homossexual e/ou tivesse muitos parceiros sexuais. Atualmente, as campanhas têm sempre como foco o jovem. E por isto, muitos idosos, ainda hoje, não se consideram como um doente em potencial.

 

Diagnosticar pacientes soropositivos nessa faixa etária um desafio, por apresentarem, muitas vezes, mais de um diagnóstico para um grupo já exposto a múltiplas patologias, o que reflete em diagnósticos tardios. [Continua]

 

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                                             Preservativo gigante colocado em um obelisco em Hyde Park, centro de Sydney

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