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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

16
Set17

Juliana Amato

Talis Andrade

JAmato.jpg

 

hace um año que te fuiste
tan pronto irás, una vez más

 

neste exato momento me vejo num quarto
fechado
frestas abertas, a janela
você ainda criança atrás da cortina
observa

 

você, observo seu olhar
compreende:
não existe mãe no brasil
não existe casa, essa casa, aqui

 

 

há o futuro e há tudo
há milhares de rochas
pedras pontiagudas
traiçoeiras

 

pensa na sua casa
sua casa tão longe, aqui,
uma pedra quente
e lisa

 

 

06
Set17

de Sophia de Mello Breyner Andresen

Talis Andrade

sophia-de-mello-breyner-andresen.jpg

Bebido o luar



Bebido o luar, ébrios de horizontes,
Julgamos que viver era abraçar
O rumor dos pinhais, o azul dos montes
E todos os jardins verdes do mar.

 

Mas solitários somos e passamos,
Não são nossos os frutos nem as flores,
O céu e o mar apagam-se exteriores
E tornam-se os fantasmas que sonhamos.

 

Por que jardins que nós não colheremos,
Límpidos nas auroras a nascer,
Por que o céu e o mar se não seremos
Nunca os deuses capazes de os viver.

 

06
Set17

De Adriane Garcia

Talis Andrade

enfant picasso.jpg

 

 

 

A ditadura dos coitados

 

Cuidado com os coitados
Esses que nada podem
Podem tudo

 

É por causa deles
Que os teus ombros
Doem.

 

 


Transição

 

Mataram o menino
Na trincheira
O menino cor de rosa
Que pintava o cabelo
De azul
O menino do riso
Largo
Feito uma fatia
Da lua
Quem o visse pela
Rua
Teria dúvidas
Se não era
A menina ou o menino
Mais bonito do mundo.

 

 

---

Ilustração L'Énfant ao Pigeon, Picasso

 

 

04
Set17

Beijo de penitência

Talis Andrade

cecchi.jpg

 


Beijei teus lábios
como se beija
a própria boca
refletida em um frio
espelho de prata

Frio beijo de penitência
no sexo repisado
e sem graça
Incômoda dívida
que se paga
na mesma cama
cada fim de semana
Compulsório sexo
de quem não tem
outra parceira
Sexo que se faz
por se estar tonto
A comportada bebedeira
dentro de casa
Sexo que se faz
como um autômato
com a técnica
dos profissionais
e a pressa
de quem bate o ponto

 

---

Ilustração: Adriano Cecchi

Mais poesia de Talis Andrade aqui 

01
Set17

de Patrícia Alves

Talis Andrade

 

patrícia alves.jpg

 

 

 

Eu vejo na televisão
a violência assolar meu povo com prescrição
e ganhar nisso, o sistema, seu condão
RA-TÁ-TÁ-TÁ
Foi mais um
ladrão?

 

Mas quem criou essa lei de cão?
Que desmerece o favelado
e roga pelo patrão
que chega no reservado
e lava a calçada com o sangue dos meus irmãos
E se não tem deste, escorrendo nas feridas da chibata,
tem nas mãos

 

E se foi mais um dia
Quem vai se importar com o futuro da menina no sinal?
Sangrando nos meios das pernas
com a boca sufocada no pau

 

E dona Maria que lava roupa sem parar no quintal
guerreando todo dia em busca do ganha pão
De longe dá pra ver a desorientação do cidadão
que no corre obrigatório pelo capital
acaba esquecendo o valor do irmão

 

Hoje eu não vou falar das rosas, não
que a familía do neguim não teve dinheiro nem pro caixão
que dirá pra delicadeza tal
que nunca foi encontrada nos seus dias de pulsação

 

 

__

Seleta e apresentação de Nina Rizzi 

 

 

01
Set17

de Nydia Bonetti

Talis Andrade

bonetti.jpg

 

queria sol
e um céu pequeno sobre minha cabeça
trilha possível
um chão sereno sob meus pés descalços
flores à margem nem precisava

eu as recriaria

§

 

quero estar só – me deixem
como aquela amora temporã
no galho

mais alto

§

 

sangram os velhos muros:- boleros
e trincas
(feridas abertas pelo tempo)
nas descalçadas
me vejo
menina
desenhando céus
com risca
de giz
na minha amarelinha sem infernos
que a primeira chuva forte

apagaria

§

 

silêncio e raso passa o rio
não posso ouvi-lo
pressinto
a canção das águas
que se despedem das nascentes
e seguem - ávidas

de lua e mar

§

 

Sorver
das águas claras
numa manhã de sol - nascente
sentir
que a vida ainda pode
ser

 

---

In Sumi-ê, Editora Patuá, 2013

 

30
Ago17

de Prisca Agustoni

Talis Andrade

prisca.jpg

Meus dedos deslizam ágeis
produzem vibrações
sobre teu desejo

 

há curvas, linhas retas
regiões perigosas no corpo
que não posso alcançar,

 

há palavras e zonas de sombra
contidas na distância
que preciso acionar.

 

É quase um jogo
meus dedos na tela
enquanto as crianças
pulam amarelinha
no pátio da escola

 

bem agora.

 

21
Ago17

Evocação de Natal

Talis Andrade

por Djalma Maranhão

 

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                                          Foto Adelmaro Cavelcanti Cinha Júnior

 

 


Não te esquecerei, Natal!
Os olhos do sol transpondo as dunas,
Iluminando a cidade
Que dormiu embalada
Pelo sussurro das águas do Potengi.

dunas.jpg

 


(…)


Não te esquecerei, Natal!
No lirismo de teus poetas;
O quase bárbaro Itajubá
E o quase gênio Otoniel
E também o alucinado Milton Siqueira.
Jorge Fernandes esbanjando poesia
Na mesa de um bar
Era a imagem viva de um Verlaine.

milton siqueira .jpg

 


(…)


Não te esquecerei, Natal!
A vocação libertária do teu povo,
A pregação caudilhesca de Zé da Penha,
Alguns políticos enganando o povo,
Que um dia ganhará conscientização.


(…)


Anoto para o futuro as lutas de hoje
Dos jovens sacerdotes
Plasmados por Dom Eugênio e Dom Nivaldo,
Para os duros embates sociais
Na fidelidade às Encíclicas de João XXIII,
Herdeiros do sacrifício de Frei Miguelinho.


(…)


Não te esquecerei, Natal!
A velha Simôa,
Mais imoral que uma antologia de Bocage,
Chico Santeiro, O Aleijadinho potiguar,
Esculpindo os seus bonecos de madeira,
Com uma ponta de canivete.

Patrono..JPG

 


(…)


Não te esquecerei, Natal!
Encontro os teus pescadores no Ano do Centenário,
Com a mesma audácia dos irmãos Polinésios,
Numa jangada de velas esfarrapadas,
Levando a mensagem do Potengi a Baia Guanabara.


(…)


Água de coco com aguardente,
Era e continua sendo o melhor uísque nacional.
E o menestrel escravo Fabião das Queimadas,
Que libertou a si e a própria mãe,
Ganhando dinheiro, cantando e tocando rabeca.

fabiao.jpg

 Fabião das Queimadas


(…)


Não te esquecerei, Natal!
A revolução liberal de 1930,
Meu batismo nas lutas sociais.
Fanfarras agitando, agitando,
Muitos discursos, poucos tiros.


(…)


A voz do fogo do seus tribunos,
Ontem, contra o colonialismo,
Hoje frente ao imperialismo.


Não te esquecerei, Natal!

 

---

Poema escrito no Uruguai.

Transcrevi trechos 

 

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