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O CORRESPONDENTE

O CORRESPONDENTE

16
Ago17

Ana Guadalupe

Talis Andrade

ana guadalupe.jpg


o aluguel & o sono


ao lado do respirar ruidoso asmático
do aluguel quase vencendo

 

o aluguel rouba os travesseiros
os edredons e os pesadelos
mas paga a casa onde fica a cama

 

concordamos que o sono é meio covarde
e o aluguel o cônjuge que oprime
o ano inteiro e todo dia quinze
sem querer e com muita vontade

 

 

 

doente e contemplando a saúde


doente de qualquer coisa e contemplando a saúde
percebo como eram bons todos os órgãos
silenciosos em pleno funcionamento
como serviam pra tudo as pernas
e braços mesmo quando doíam
e como eram dóceis os ossos
e como eram fáceis

 


a pior das conexões

 

até parece o horizonte
o papel de parede uma tela pintada
quando você vem surgindo

 

a gente vê no mesmo horizonte
o outro saltando e correndo num esporte
que envolve quedas e partes cortadas

 

na paisagem todas as perguntas interrompidas
eu querendo saber a sua cor preferida
você levantando e caindo como fruta

 

corro pra oferecer água da torneira
não sobra nada se um de nós
não volta

16
Ago17

Paixão Segundo Urariano

Talis Andrade

por Memélia Moreira

 

Pátio sao pedro.jpg

 

 

Pátio de São Pedro, Recife, que concentra uma das mais majestosas represaentações da Arquitetura Colonial brasileira e onde os revolucionários, acreditavam estar a salvo do inimigo.

Nos terríveis anos da ditadura mantive correspondência com alguns dos mais notórios presos políticos do Presídio Tiradentes, em São Paulo. Todos eles gloriosos militantes da Ala Vermelha do PCdoB. Tanto com meu irmão #Sonsonho, de quem guardo muitas cartas com o abominável sêlo do DOPS, liberando a correspondência, quanto com Hélio Cabral de Souza e, Alípio Raimundo Viana Freire. Com meu irmão, conversas familiares, rumos do país e, principalente conselhos para que eu não me desviasse na profissão de jornalista. Foi meu irmão, Antonio de Neiva Moreira Neto quem me fez fincar pé na causa indígena. Ele dizia que todas as trincheiras contra a ditadura eram valiosas. Com Hélio Cabral falávamos da guerra do Vietnam, com a certeza absoluta que a História daria vitória aos guerrilheiros #viets E de música. Foi ele quem desenvolveu em mim o gosto pela música do mais profundo Goiás.
Com Alípio, conversávamos sobre os mais diversos assuntos. Cinema, Pintura, Guerra do Vietnam (nós dois construímos um mapa na parte debaixo do estrado de nossas camas. Eu, em Brasíilia e ele no presídio, avançávamos “nossas tropas” e sabíamos que faltava pouco para ocuparmos o Vale do Mekong. Já havíamos vencido a guerra politicamente, mas nós dois sabíamos que as pequenas e importantes vitórias militares eram necessárias.
Mas as mais longas cartas entre nós dois aconteciam quando o assunto era Literatura. E um dia, conversando sobre Gustave Flaubert (que estou relendo pela terceira vez), Alípio escreveu, “On mange bien chez Flaubert”.
Sim, Alípio on a bien mangé avec Flaubert. Et surtout avec Proust et ces “madeleines”, toujours à la recherche du temps perdu.

E agora, Alípio, meu querido baiano, passados quase 50 anos daqueles tempos horríveis, estou diante de um livro onde ao contrário de Flaubert, on ne mange pas de tout. On crève de faim. A fome se distribui nas 320 páginas. Estou te falando de “A mais Longa Duração da Juventude”, de Urariano Mota, colega nosso, jornalista mas, sobretudo, um escritor, um filósofo, uma pessoa sábia que em em uma página te faz viver passado-presente-futuro como se não houvesse hiatos.

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A fome daqueles jovens, personagens reais da longa duração de nossa juventude, não se limitava a franguinhos assados ou polpudos filés deixados na mesa de um bar. Eles tinham fome revolucionária. De transformar o mundo, de eliminar as injustiças sociais, de evitar que nossa sociedade caísse no abismo da barbárie. E essa fome revolucionária lhes inibia ao ponto de lhes deixar com fome de paixões. Elas eram interditas, clandestinas, quase criminosas porque na moral revolucionária vigente, deixar que a paixão explodisse significava “desvio ideológico”.
Era o tempo dos amores interrompidos, proibidos, dos beijos roubados porque a moral ideológico-sexual era rígida. E eu me pergunto, como se pode fazer uma revolução em que o amor, a paixão deve ser jogada para um segundo plano, uma revolução que nos massacrava permitindo apenas a tortura dos amores platônicos.
E enquanto nossos mais belos sentimentos amorosos eram aniquilados pela moral revolucionária, “eles” acreditavam que vivíamos em total promiscuidade. E nós, perseguidos pelo inimigo externo, não vencíamos os dragões ideológicos. Éramos, ou tentávamos ser “puros”. Aqueles meninos, loucos de paixão, sufocavam uma exigência da natureza animal que é assegurar a manutenção da espécie. E preservavam a virgindade das namoradas. De todas as formas possíveis. Estratégias para saciar o desejo sem que isso implicasse na perda do hímen, essa película responsável por carnificinas em muitas culturas.
A tradução das estratégias vem de forma resumida e elegante num diálogo que fariam os jovens de hoje gargalhar.
O narrador e o personagem Luiz do Carmo circularam pelos bordéis à procura de prostitutas. Cheios de culpa pelo comportamento que entendiam como “exploração” da mulher.

“Que depressão miserável, mesquinha, caiu sobre nós. Enquanto caminhávamos sobre os paralelepipedos da Vigário Tenório, eu lhe perguntei, sem poder olhá-lo:

– Você não pegou nenhuma?

E ele, a contragosto:

-Não, é contra os meus princípios.
……………………………………………..
Como você faz? Não sente necessidade?
– Eu tenho namorada
…………………………….
– E você faz sexo com ela?
…………………………………..
-Sim…Não.
-Sim ou Não?
-É sim…sim,sim. Mas não é um sexo completo.
-Hum…Mas completo até onde?
……………………………………………
….Eu respeito a virgindade dela, entende? Eu respeito”

O diálogo é uma rvidência explícita de o quanto minha geração que fazia resistência se negou. O quanto controlou emoções que são essência da natureza humana e que deveriam fluir com a mesma naturalidade com a qual o sangue navega em nossas veias.
Perdemos? Hoje, quando vejo minha terra esfarrapada, acredito que sim. Perdemos. Mas, penso sempre no meu mestre maior, no mestre Darcy Rbeiro com quem tive o privilégio de conviver todas as quartas-feiras à noite, num grupo que ele selecionou para pensar Brasil. Bebíamos whisky e discutíamos nossa terra, esse amor sem retorno. E, ao pensar em Darcy, relembro uma de suas mais poderosas frases. Elas são o mapa de uma vitória. A vitória de nós, os derrotados pela História.

“Fracassei em tudo que tentei na vida. Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui. Tentei salvar os índios, não consegui. Tentei fazer uma universidade séria e fracassei. Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei.
Mas os fracassos são minhas vitórias. Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu”.

Darcy, meu amigo, esse resumo da tua vida em sete frases é o que me ilumina quando vejo os caminhos apresentando momentos sombrios.
Bom, para analisar “A Mais Longa Duração da Juventude” livro de Urariano Mota, esse jornalista, escritor e filósofo pernambucano a quem não conheço e com quem converso muito (obrigada Mark Zuckerberge, ou, “Tio Zucka”, como diz Renata Lins, pessoa a quem muito admiro) dividi a escrita de Urariano em dois eixos. Caso contrário eu me perderia em sofrências pelas cenas que agrediram nossa geração e, pelo amor à luta que se espalha em todas as páginas. São mais de 300. Li duas vêzes as mais de 300 páginas. A segunda leitura doeu ainda mais porque eu já sabia qual cena se seguiria. E sabia também o quanto ela me daria punhaladas.
O livro é um suceder de paixões. Paixão na sua essência do apaixonar-se. Paixão que se desdobra no sentido mais amplo, o do amor. O amor das imensidões. Amor ao povo, e aos infinitos brasis com os quais convivemos mesmo que nos pareça invisível. Da paixão, vou ao segundo eixo. O da fome. Fome pela transformação de uma sociedade injusta; fome da comida que era pouca e assim mesmo dividida e, principalmente, a fome de viver toda uma vida em um momento. Entre a Fome e a paixão, incluo a alma de um poeta. Urariano Mota é poeta. Mesmo na descrição dos momentos mais trágicos a poesia está presente. O seu “Eu” profundo de poesia, um eu que também se nega quando ele tenta ignorar os mistérios da vida, entre eles, os pressentimentos que o perseguem até na mesa de um bar do pátio de São Pedro naquela cidade do Recife palco das resistências narradas em “A Mais Longa Duração da Juventu”. Um eu que filosofa e que se aproximando dos 70 anos, é aquele mesmo menino magro, que se considerava feio no passado, mas que agora descobre ser uma vida intensa dedicada à luta a fonte de sua a beleza.
Conversei com o autor algumas vêzes e lhe disse que se tivesse capital criaria um roteiro turístico em Recife percorrendo as ruas, restaurantes, bordéis, pensões, a praia da Boas Viagem, Porto de Galinhas e outros logradouros que em em vários momentos foram cenários daqueles meninos que carregavam no peito o ardor revolucionário; daqueles pós-adolescentes que eram feridos de morte quando cada companheiro caía nas mãos dos nossos implacáveis inimigos, entre eles Cabo Anselmo e o delegado Sérgio Fleury. E mais, que produziria um filme com inspirações de Jean-Luc Godard dos anos 60/70 e Fellini. A viagem daqueles combatentes a Porto de Galinhas é felliniana. Mais especificamente, uma “Dolce Vita” de uma juventude, que criava situações que poderiam subverter a perversa ordem social vigente e cujas armas eram o sonho, a palavra, uma arma talvez enferrujada e, um simples mimeográfio guardado sob cuidados. Um dos mais revolucionários instrumentos da nossa geração.
Todo leitor, do ocasional aos totalmente viciados, escolhe, no livro que lê os momentos mais marcantes, os parágrafos mais intensos, e também, elege seus personagens favoritos. Os favoritos do leitor nem sempre coincidem com os preferidos de quem escreveu o livro.
No meu caso, os personagens para sempre inesquecíveis são “Vargas” (leia com um “R” carregado como pronunciam os de língua espanhola), “Gordo”, uma verdadeira enciclopédia musical e Luis do Carmo. Há muitos outros. Zacarelli, por exemplo, Selene, direção da UBES (União Brasileira de Estudantes Secundaristas), Torquato de Moura, “guardião das virtudes subversivas”, Narinha, Marx, sim, Marx e Engels, filhos de um pai comunista, já velho e o primeiro a sentir o cheiro da infâmia que exalava do Cabo Anselmo, Zé Batráquio e, ela. Refiro-me a Soledad Barret, uma quase-menina que, dentre todos que sucumbriram naqueles anos tristes foi a mais traída. Traida pela paixão. A mulher bonita, forte, marcada em lutas pelo nosso continente, musa do poeta Mário Benedetti, apaixonou-se por um homem abjeto chamado “cabo anselmo” (com letra minúscula mesmo porque os infames não merecem ser maísculos em nenhum momento). Se em “Soledad no Recife” ele apenas abra a cortina da paixão por Soledad, nesse segundo de sua quase-autobiografia, ele a escancara. Soledad foi e será sempre, o grande amor de Urariano. Amor confessado com todas as letras quase no final de “A mais Longa Duração da Juventude”, quando diz, “A mulher que em legítimo platonismo eu amei”. Amo.”. O legítimo platonismo se transformou no amor eterno, porque agora Soledad vive na eternidade, na imortalidade.

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Há grandes e inesquecíveis momentos. Muitos, principalmente aqueles nos quais os jovens revolucionários, militantes de organizações armadas de esquerda se reuniam num bar e discutiam Música, Literatura e o lindo horizonte pelo qual lutam, a pátria socialista. Os dois momentos que mais me emocionaram foram a viagem dos revolucionários de Recife a Porto de Galinha, dentro de uma Vemaguete, às quatro da manhã de um sábado, sem sequer conhecer o caminho entre as duas cidades e passando riscos reais de morrerem num acidente porque João Alberto, o único que dirigia dormiu várias vêzes ao volante e, tudo porque, “Pasárgada não podia esperar…”
O outro momento que me marcou e, aqui, pela tragédia, é também uma viagem. Talvez a última antes de ser atingida pelas balas da ditadura. A viagem de Vargas no ônibus que embarcou depois de dizer à advogada Gardênia que era um homem morto, que já estava sendo caçado pelos homens de ouro do delegado Fleury e pelo infame cabo Anselmo. Ela o aconselha a fugir, mas ele rechaça a idéia para não abandonar “Nelinha”, sua mulher que já era mãe da menina Krupskaia. Ah, quanta paixão existe na alma revolucionária!. Entra no ônibus no ponto da ponte Duarte Coelho e segue pela Avenida Guararapes, Capibaribe, Largo da Paz, Afogados, Ponte do Motocolombó num monólogo com sua consciência, com a certeza da morte, com o desespero de não poder salvar sua pequena família. Esse talvez seja o mais dramático momento do lovro. “Vargas” foi preso, morto e carregado para a Chácara São Bento onde os torturadores de Fleury o posicionaram ao lado de Soledad, alterando a cena do crime. Nenhum dos mortos da Chacina da Chácara São Bento, em janeiro de 1973, morreu naquele lugar.
Os fatos são todos reais, mas os nomes são fictícios. Ou, como diríamos na época, todos codinomes.
Convido a quem me lê nesse momento a ligar um aparelho que toque música.Youtube, Ipod, CDPlayer, o que for, até mesmo uma vitrola, toca-discos ou um gravador com as já jurássicas fitas K-7. Não precisa por o som no último volume. Deixe apenas o suficiente para não interromper a leitura do livro. E, do começo ao fim das 320 páginas de “A Longa Duração da Juventude” ouça Ella Fitzgerald. Sugiro que “I Wonder Why” seja a primeira música. E, se pensarem em mim, ouçam “Dream, a Little Dream of Me”. Vamos, me dê sua mão e vamos passear por Recife, aquela linda cidade do Recife que se espelha sobre um rio cruzado pelas pontes que, de tantas, fazem inveja a Veneza. Recife, cidade que ao lado de Belém e Porto Alegre simbolizam, para mim, a rebeldia do nosso povo, é protege uma pérola. Olinda. E é lá onde Urarinao Mota, esse poeta, escritor, guerreiro a quem admiro sem nunca tê-lo encontrado vive hoje. Morar em Olinda não deixa de ser uma recompensa por uma vida entregua à resistência.

“Quando reflito o que vi, noto que nossa vida começa a partir de um instante fora do nascimento. Ela começa naquele minuto que define nossos dias, que ilumina o passado, presente e futuro. O instante definidor como a linha da vida, na palma da mão lida por uma cartomante que não esperávamos”.

Essas são as três primeiras frases do livro do jornalista e escreitor (mais que isso, poeta) Urariano Mota, pernambucano, E a partir dessa frase pode-se dizer que a vida desse homem começou no instante em que ele inicia sua luta revolucionária para derrubar a ditadura que se instalara no Brasil quando ele atingia a puberdade. E dá seus primeiros passos de consciência um pouco mais tarde.
Quantos anos tinham Urariano, ou Júlio, quando aconteceu a primeira paixão. Exatos 19. E também, foi sua primeira paixão platônica. Houve outras. Urariano apaixounou-se por Ella Fitzgerald. Comprou um LP com suas músicas. Amor platônico, irrealizável porque Urariano não tinha dinheiro para comprar uma “vitrola”. A compra provocou protestos de Luís do Carmo, um sonhador de pés no chão. E Urariano, naquela miserável pensão “Treze de Maio”, na Avenida Princesa Isabel, em Recife, sob um calor intenso do verão nos trópicos, sem vitrola, acariciava a capa do LP como se acariciasse o corpo de uma mulher. O corpo de Ella, talvez. Ou o corpo da mulher que viria. A capa é quase a pele da cantora, da mulher que não podia ter.
E ele solta aquela dor antiga dizendo, “quero ter Ella, acariciar sua capa (que pobreza, meu Deus, dói até a lembrança neste instante. Quero antegozar a suz voz, a doçura que apenas ouvi por segundos e me derrubou num encanto…”
I wonder why. Urariano ainda busca as respostas para essa pergunta sussurada na voz de mel de Ella Fitzgerald.
Urariano foi de muitas paixões. Não sei quantas. Mas em seu leque, apenas uma das peças não estava integrada à resistência brasileira e é justamente a figura de Ella Fitzgerald. Porque Selene, a quase-menina, dirigente da UBES cujos joelhos e parte das pernas foram queimadas por ácido jogado pelos estudante de direita da Universidade Mackenzie, na “Batalha da Maria Antonia” em São Paulo, estava na resistência. Com fome, pedia uma sopa, depois de exibir o quadro da pauperidade com a qual convivia o movimento da oposição armada. Ela estava com fome. E sem cigarros. Rígida nos códigos da conduta revolucionária, ela atraíu a paixão dos que a cercavam. Exibia belas coxas. exibia as coxas na minissaia para que não percebessem as cicatrizes do ácido que a mutilou. E Soledad, a paixão maior e eterna, bom, Soledad era uma revolucionária latino-americana que já circulara por outros países do nosso pedaço americano dedicando-se à luta. Essas três paixões foram todas vividas platonicamente, em segredo, silenciadas. Em Soledad ele deu um beijo roubado no rosto e pediu desculpas. Não resistiu, recolheu as desculpas e passou as mãos nos lábios daquela mulher discreta e forte cujo nome deveria ser sinônimo de “revolucionária”.
Mas se as paixões eram platônicas, a fome era real. E Urariano, o único entre os demais a ter um emprego. Ele datilografava (E percebo, nesse momento que há as gerações que hoje estão na faixa dos 30, 40, jamais conjugará o verbo datilografar”) guias de transporte de material elétrico, num galpão coberto com telhas de zinco, pagava a sopa da dirigente estudantil. Datilografava guias e era “suspeito de gostar de poesia”. Sim, gostar de poesia sempre nos colocou entre os suspeitos. Não havia dinheiro nos bolsos ou nas contas bancárias dos heróis da resistência. E a fome os perseguia.

“Em 1970 o almoço era pouco, dividi-lo era o mesmo que ficar com meia-fome . E meia-fome ainda é fome”. Apesar dessa penúria, Julio/Urariano e seus companheiros mesmo com o estômago vazio tinha consciência de que “quem possui o que sonha não é pobre. Nós nos alimentávamos do sonho uns aos outros”.
E o sonho era tão sonhado, tão vivido, que a ‘companheira Selene”, das pernas queimadas com ácido, ao expor a situação do movimento, com a firmeza de quem guarda a convicção da vitória pela luta diz,
“Companheiros, temos sérias dificulddes de sobrevivênciaFísica, grana, alimentação, tudo…Mas o que são as dificuldades do Socialismo, companheiro? O que são as dificuldades diante do heróismo do vietcong?”.
O heróismo não era apenas do povo Viet. O heróismo era daqueles brasileiros pessoas que se encontravam na faixa cinzenta entre o fim da adolescência e o início da idade da adulta que entregaram sua juventude para a construção de uma sociedade menos injusta. Quem sabe, socialista. E aí penso nos meus irmãos #Sonsonho e #Gagocha que, sem passar por essas necessidades também, sonharam, também entregaram sua juventude porque sonharam.
Os trechos de “A Mais Longa Duração da Juventude” onde se expõem as carências do mínimo derrubam um mito. A Direita na sua incansável campanha para desqualificar a luta que nos concederia um mínimo de Democracia espalhava a idéia de que os guerrilheiros do Brasil eram todos “fihinhos de papai”, filhotes da burguesia. NÃO e NÃO. Havia pessoas pobres, operários, desempregados, professores mal-pagos, mas incansáveis, trabalhadores de um barracão coberto de zinco que estavam imersos na luta política e na luta pela sobrevivência.
E essa verdade aprendida no livro de Urariano Mota teve para mim, não um gosto de vingança contra os ditadores e seus capatazes, mas uma esperança de que um dia, num futuro que talvez eu não alcance, os pobres, os miseráveis, tomem, retomem as rédeas de um mundo com a qual ainda sonho.
Mas mesmo real, não cinematográfica à Charles Chaplin no magistral “Em Busca do Ouro”, onde querido “Vagabundo”, delirando de fome degusta sola de sapato como se fosse um prato apetitoso, o fato acontecido no “Restaurante Coqueirinho”, nos faz rir e chorar. A churrascaria me remete a Carlitos.
Aqueles jovens que discutiam T.S. Elliot, Balzac, Proust, Dostoievski, Kafka, que ouviam Milton Nascimento, frevos clássicos, frevos anônimos, que liam e discutiam Marx, Engels e outros filósofos, voltando do Cine Coliseu, tinham fome. Ou dividiam uma cerveja ou comiam. Mas cerveja provoca fome. Nesse momento, um casal na mesa vizinha, come um churrasco. Comem um pouco e deixam a mesa. E os revolucionários criam uma pequena dissidência entre a dignidade e a fome. A comida já estava paga. A fome impagável. A agilidade era fundamental. Pegar a comida deixada e paga antes que “Topo Gigio”, o garçon conhecido, chegasse. Venceu a fome. Quase saciados, o choque seguido da vergonha. . O casal retornou à mesa. Um pedido de desculpas. E o homem do casal, sentencia, “Podem ficar”.
“Estava escrito e não sabíamos. É do gênero da felicidade durar menos do que esperamos”, reflete consigo o poeta-guerrilheiro.
Eles eram assim, os guerrilheiros, aqueles pós-adolescentes que se preparavam com ardor para o momento de pegar nas armas, de sacrificar até à morte pela derrubada de uma ditadura e construir a pátria socialistaque.
Os fatos estão narrados como se fossem um jorro, um desabafo. Não falta no livro observações com característica de auto-crítica. Não falta também um tanto de desengano com o comportamento de quem ainda estampa o rótulo de “esquerda” enquanto exercita práticas da direita.
Além dos fatos da triste História de um país que entrou em decadência antes de chegar à maturidade, Urariano Mota nos concede reflexões de quem já encontrou as respostas exigidas, mas sabe que ainda a mais a questionar e responder. De todas as reflexões, transcrevo aquela que também me responde alguns questionamentos.
“A vida lembra a intensidadede uma canção. Na reconstrução pela minha memória, a vida é intensa, profunda e breve. Mais próximo do que desejo dizer: a memória da vida é uma brevidade que não termina. Há um ponto e uma repetição indefinida. Melhor, não um ponto, são retincências…”
Mas vamos em frente companheiro porque, diria meu mestre Darcy Ribeiro,
“Só há duas opções nesta vida: se resignar ou se indignar. E eu não vou me resignar nunca”.
Nós também não, amigo.
Obrigada pelas lições aprendidas nessa nossa longa duração da juventude.

16
Ago17

O País dos privilégios

Talis Andrade

Quem são os servidores públicos que ostentam supersalários e aposentadorias milionárias e custam ao País R$ 20 bilhões por ano


por Ary Filgueira, Igor Costa Gomes e Raul Montenegro


A dentista Márcia Maria Brandão Couto, de 55 anos, leva uma vida confortável no Rio de Janeiro. Independentemente do que possa faturar com sua profissão, ela recebe dos cofres púbicos uma remuneração fixa de R$ 43 mil mensais, mesmo sem nunca ter trabalhado no governo. Trata-se de uma pensão a que tem direito simplesmente porque é filha de um desembargador, falecido em 1982. Como Márcia não se casou, ela passou a receber o pecúlio que era de seu pai. Não constituiu matrimônio apenas no papel. Na prática, a dentista comemorou núpcias com direito a véu e grinalda em uma festa na Urca para 200 pessoas. Ou seja, ela pode ter marido, viver na mesma casa que o companheiro e constituir família, desde que não registre a união em cartório. Como ela, encontram-se no Brasil outras 20 mil mulheres já identificadas pelo TCU, isso apenas no Judiciário, sem contar os casos em que a benesse favorece filhas e até neta de militares, que também têm direito a pensão vitalícia se não se casarem de papel passado. No caso de um militar que tenha uma filha em 2016, por exemplo, o País pode ter de pagar a ela esse benefício até 2091, caso ela viva 75 anos – a expectativa de vida média dos brasileiros.

 

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São casos como esse que ameaçam o futuro das aposentadorias dos milhões de brasileiros que acordam às 5h da madrugada, passam três horas no ônibus superlotado para chegar ao trabalho, ralam mais de 8 horas por dia e ganha uma média salarial de R$ 2,2 mil, embora 60% da população recebam menos do que o salário mínimo (R$ 880). Esses depois de trabalharem por quase quatro décadas terão direito a uma remuneração mensal de máximo R$ 5 mil. Isso com a regra atual. A tendência é que a realidade se torne ainda mais perversa.

 

Além das aposentadorias e pensões nababescas, no Brasil dos privilégios, chama a atenção os supersalários pagos a integrantes do Legislativo, Executivo e Judiciário. O salário médio dos 18 mil magistrados do País já é bastante generoso e se sobrepõe ao teto constitucional de R$ 33.763 estabelecido para funcionalismo público: R$ 46 mil. Ou seja, é irregular. Mesmo assim, há desembargadores que recebem mais de R$ 200 mil num único mês. Um verdadeiro escárnio. O salário do atual ministro do Superior Tribunal de Justiça, Marco Aurélio Bellizze Oliveira, se situa no limite do teto. Bellizze ganha R$ 32.958, fora os benefícios. Em setembro de 2011, ao deixar o Tribunal de Justiça do Rio, embolsou quase R$ 1 milhão, em valores atualizados. Numa tacada só. Para a maioria dos brasileiros é como acertar os seis números da loteria.

 

Os supersalários custam ao País R$ 20 bilhões por ano. Compõem os vencimentos de integrantes da primeira classe do Judiciário penduricalhos injustificáveis como auxílio-moradia para quem inclusive já possui imóvel próprio, carro com motorista, cota de gasolina, auxílio alimentação, de transporte, plano de saúde, pagamento da escola particular para o filho, dinheiro para a compra de livros e computadores, pagamento de até 5 salários mínimos para quem adota uma criança, extras para quem dá aulas, além de aposentadorias vultosas e mais uma infinidade de benesses inalcançáveis ao cidadão comum. Com a incorporação de mordomias como essas ao salário, os desembargadores Osvaldo Moacir Alvarez e José Morschbacher, Tribunal Regional Federal, da 4ª Região (TRF-4), receberam mais de R$ 200 mil em abril de 2015.

 

Muitos magistrados não escondem a boa vida que levam. O desembargador Nagib Slaibi Filho, que ganhou R$ 66 mil em agosto, é casado com a juíza Maria Cristina Barros Slaibi, ambos do Rio, que em agosto recebeu R$ 46.055. Ou seja, os dois têm vencimentos acima do teto do funcionalismo. No Facebook, há registros de fotos de viagens do casal para Praga e Nova York. Por essa e por outras é que, apenas em 2017, o quebrado Estado do Rio vai gastar com privilégios para os membros do Tribunal de Justiça, do Ministério Público, do TCE e do Executivo, um total de R$ 2,1 bilhões. O TJ do Rio é o que oferece as mais inacreditáveis benesses. Há auxílio-creche de R$ 854 por filho até 6 anos e auxílio-educação de R$ 953 por filho até 24 anos (na faculdade), 180 dias de licença-maternidade (padrão) mais 90 de aleitamento e de três a cinco salários mínimos por adoção até o filho ter 24 anos. Os benefícios oferecidos com dinheiro público são como se os Orçamentos estaduais e da União fossem um manancial inesgotável de recursos. No TJ de Mato Grosso está em vigor um dos melhores planos de saúde do mundo, com gastos sem limites. Há ressarcimento para consultas particulares e até passagens de avião para custear tratamento de magistrados e dependentes em hospitais fora do Estado.

 

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Ninguém acha ou defende que juiz ou desembargador deva ganhar mal. A questão é a comparação da renda deles com a dos demais brasileiros. No Brasil, a média dos vencimentos de magistrados é 20 vezes maior do que a de cidadãos comuns, enquanto que em Países europeus é pouco mais do que o dobro. Já quando o comparativo é com os salários de professores, a proporção é outra. Os docentes brasileiros recebem em média R$ 3 mil por mês, um dos salários mais baixos do mundo e bem próximo dos R$ 2,2 mil que correspondem a maioria dos brasileiros.

 

Apenas R$ 800. Isso não impede distorções no meio acadêmico. O renomado professor Boris Fausto, por exemplo, recebe uma aposentadoria de R$ 50 mil da USP, que paga salários exorbitantes para quase 2 mil professores da ativa e inativos. É quase o mesmo valor que a ex-governadora do Maranhão Roseana Sarney recebe por mês, desde 2013: R$ 48,8 mil. Ela acumula as aposentadorias de ex-governadora do Maranhão e senadora. Transcrevi trechos

 

Vide artigos sobre gigolôs e parasitas do Brasil das elites. De defensores da tradição e família, que vivem no concubinato para uma vida de luxo e luxúria aqui 

 

16
Ago17

Rita Maria Kalinovski

Talis Andrade

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DESTROÇOS DE NÓS

 

guerras são sazonais
como tangerinas.
descansam seus ódios
por um tempo
depois explodem
suas ganas
em destroços de pólen
em olhos de terror.
dores insaciáveis
mortesindevidas.
não entendo a guerra.
não entendo a paz.
para haver paz
é feita a guerra?
paz em tardes de grama
e sombra de árvore.
pios de pássaro
e cigarras insanas.
guerras quebram silêncios
movimentos lentos
xícaras sobre a mesa
mãos em agulhas de crochê.
guerras quebram
diálogos de mãos quentes.
guerras sujam
crianças com o pó da ira
a testa dos velhos
o regaço das jovens.
quem decide as guerras
não vai pra guerra.
somos resultado
de todas as guerras.

 

15
Ago17

O Caminho para Assis

Talis Andrade

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Preciso fugir       

do presídio       

que construí       

neste enfermo       

mundo:

O suplício       

de um suicídio       

lesmo e doloroso       

nos ermos campos       

do abandono       

e do medo

        

Preciso encontrar a paz       

o amor       

Sentir quanta alegria       

no irmão Sol       

quanta poesia       

na irmã Lua

        

Andarilho descalço       

seguir pelos caminhos       

da irmã Pobreza

Na poeira das estradas       

nos pedregulhos       

no adusto chão       

descobrir a beleza       

da natureza       

a beleza intrínseca       

às coisas simples 

       

Sentar na beira de um regato      

 e ouvir o silêncio dos peixes       

Quedar extático       

ante a presença de Deus       

no quebradiço arbusto       

e na fúria dos raios         

 

Descalço andarilho       

pelos apertados caminhos       

da irmã Pobreza       

a esperança de possuir       

a leveza dos pássaros       

a fiel mansidão       

de um boi de cambão       

amar o próximo como um irmão

seguindo o exemplo       

de São Francisco de Assis       

despojado das vestes de seda       

foi mais feliz que um rei 
 
 
 


 

 

 

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Ilustração: "O Êxtase de São Francisco", por Stefano di Giovanni (ou Sasseta),
período gótico italiano (1392-1450)

 

A desconhecida poesia de Talis Andrade aqui

 

 

 

 

 

15
Ago17

Karine Kelly Pereira

Talis Andrade

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Meu corpo não tem cor, idade, sexo ou pátria
restaram os pés ansiando pela dança
a mão trêmula que não cessa de escrever enquanto a poesia me berra por todos os poros e não deixa dormir
: eu obedeço.

 

 

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Álbum Por que as poetisas são lindas?

15
Ago17

"Por que não pergunta como foi meu dia na escola?"

Talis Andrade

 

Na carta suicida, Thalia Mendes Meireles, 15 anos, escreveu:

 

"As pessoas passam a vida inteira julgando tudo que vêem. Jogam palavras que não voltam, olhares que machucam, rejeitam, maltratam, usam. Isso dói, tá legal? O ser humano vai guardando isso dentro de si até formar uma grande bola prestes a explodir. Você pode ver uma pessoa sorrindo, parecendo feliz, mas não se engane, sempre há coisas além. Por isso somos cegos. Nunca vemos além.

 

(...) Que sociedade maldita. Como se tristeza fosse algo irrelevante, que nao precisa de atenção. Idiotas. Quando é tarde eles se perguntam o que tinha de errado.

 

Pais que não vêem seus filhos se cortando, se drogando, se destruindo. Escolas que não vêem o bulling debaixo do seu nariz.

Pais que estrupam os filhos, mães que humilham, irmãos que rejeitam.

Malditos. Malditos.

 

(...) Eu tenho inúmeros motivos para ter feito o que fiz.
Meu próprio pai me abusou e foi por isso que eu morri por dentro. Eu fui morrendo durante dois anos. Fui vendo minha morte sem poder fazer nada a respeito.

 

(...) Minha mãe me tirou minha rotina e passou a assistir tudo em total inconsciência. Eu sei que ela via, mas quem disse que ela percebia?
Ela era uma mãe tão atenciosa, o que aconteceu? Porque ela ficou tão alheia?

 

(...) Porque ela não pergunta como foi meu dia na escola?"

 

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                                                        Foto: Thalia Mendes Meireles

 

 

A poetisa Karine Kelly, terapeuta corporal, transcreve o seguinte questionário:

 

Nem todas as crianças gostam de contar como foi o dia na escola, e nem sempre a pergunta clássica é capaz de iniciar uma conversa legal.

 

Aqui vão 40 ideias de perguntas para você começar um papo-cabeça com a prole.

 

O que fez você sorrir hoje?


Você foi bom com alguém hoje? Ou você viu alguém sendo bom com outra pessoa?


Você viu alguém fazendo uma coisa que não era legal com outra pessoa?


Todos os amiguinhos tinham com quem brincar na hora do recreio?


Sobre o que era o livro que a sua professora leu hoje?


Alguém fez alguma coisa engraçada na escola, que fez você rir?


Alguém chorou hoje na escola?


Você fez alguma coisa criativa hoje?


Qual é a coisa que todo mundo está adorando brincar no recreio?


Qual foi a melhor coisa que aconteceu no seu dia?


Você ajudou alguém hoje?


Alguém te ajudou? Você falou obrigado?


Com quem você sentou na hora do almoço/merenda?


Houve algo na escola que você não entendeu muito bem?


Quem te inspirou hoje? Alguém fez algo que te causou admiração?


Qual foi a melhor e a pior coisa do seu dia hoje?


Alguém se meteu em confusão na escola hoje?


Alguém levou bronca da professora?


Dê uma nota para o seu dia de 1 a 10.


Houve algum momento hoje que você precisou de muita coragem?


Você gostou da comida na hora do almoço?


Quais perguntas você fez para a professora hoje?


Tem alguma coisa que você está querendo que aconteça amanhã?


Qual foi a regra mais difícil de obedecer hoje a escola?


Me ensina/mostra alguma coisa que eu não sei.


Se você pudesse mudar uma coisa no seu dia, o que seria?


Tem alguma coisa te preocupando que você gostaria de conversar comigo?


(para crianças mais velhas) Você acha que está preparado para a prova de história amanhã?


Você dividiu seu lanche com alguém, ou alguém dividiu o lanche com você?


O que fez sua professora sorrir hoje?


O que fez sua professora ficar brava hoje?


O que fez você se sentir feliz?


O que fez você se sentir orgulhoso de si mesmo?


O que fez você se sentir querido?


Você aprendeu alguma palavra nova hoje/essa semana?


Se você pudesse mudar de lugar com alguém na escola, com quem seria e por que?


Qual é o lugar da escola que você mais gosta e menos gosta?


Se você pudesse ser a professora por um dia, o que você gostaria de ensinar os alunos?


Você acha que tem algo na escola que poderia ser melhorado?


Com que você mais gosta de conversar na escola?


Esse post é uma adaptação livre do post "50 questions to ask your kids instead of how was your day". Para ver o post original clique aqui.

 

 

 

 

 

15
Ago17

Afinidades de Eunice Boreal

Talis Andrade

 

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Eu prefiro os libertários.

Os que reinventam a vida.

Os que superam a si mesmo.

Os que escolhem a ironia no lugar da agressão.

Eu prefiro aqueles que preferem o amor.

Aqueles que se permitem a surpresa perante os seus próprios desejos, mas não se reprimem.

Aqueles que rompem com a hipocrisia e desintegram os seus próprios pré-conceitos.

Eu prefiro aqueles que valorizam a diversidade, que respeitam todas as cores da humanidade, que

aprendem com as mitologias, que acreditam no que querem, mas não querem mandar no mundo.

Eu prefiro as potências criativas.

A dança sagrada do cosmo.

A vida que prefere a vida.

13
Ago17

Natasha Felix

Talis Andrade

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meus peitos teus peitos
um cover do cash na playlist
de agora em diante as
músicas não existem.
somo um bilhete rasurado
na geladeira
hoje tá lá, amanhã um
ímã de pinguim.
todas as metáforas todas as
cartas de amor são ridículas
pra caralho
mas é que você assim
assumidamente
esparramada em mim mais
parece a visão duma tribo inteira queimando
os panos as espinhas dos peixes
as crianças
e o fogo é o fogo.

 

 

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Álbum Por que as poetisas são lindas? 

13
Ago17

Com bases militares no Brasil Trump invadiria a Venezuela

Talis Andrade

Trump continua com sua campanha terrorista de guerra nuclear com a Coréia do Norte e invasão da Venezuela pela cobiça do petróleo.

 

Uma guerra convencional com a Venezuela envolve os países fronteiriços Brasil (2 199 km), Colômbia (2 219 km) e Guiana (em disputa).

 

Certamente que o governo vassalo de Michel Temer permitiria que os Estados Unidos ocupassem os estados da Amazonas e Roraima, para sediar bases militares e invadir a Venezuela.

 

Parece que a imprensa internacional começa a acordar para o perigo que representa Trump para a paz mundial.

 

Nas capas dos jornais hoje

 

FRANÇA 

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 ESPANHA

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Cuidado! Um bufão comanda o Império

 

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 Ilustração Marian Kamensky

 

 

por Emir Sader

 

Os Estados Unidos sempre tiveram o temor de não conseguir manter duas guerras ao mesmo tempo. No embalo do consenso logrado para invadir e destruir o Afeganistão – bode expiatório dos atentados das Torres Gêmeas, para livrar de responsabilidades a Arábia Saudita, seu aliado carnal –, o governo norte-americano se lançou, esta vez só com a Grã- Bretanha, a invadir e destruir o país da mais antiga civilização do mundo – o Iraque.

 

Década e meia depois, ainda estão por lá. Não conseguiram sair de nenhum dos dois países, mesmo tendo os destruído (no Afeganistão, ao que parece, a única coisa que funciona é o Distritão).

 

Agora, no intervalo de poucos dias, Donald Trump, que dirige a maior potência militar do mundo por Twitter, deu duas declarações bombásticas, bem ao seu estilo. Disse que a Coreia do Norte seria vítima do mais fenomenal ataque que o mundo já conheceu e, não contente com isso, de que encarava uma solução militar de invasão da Venezuela.

 

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Ilustração Tjeerd Royaards

 

 

A agência Reuters disse que há uma comunicação direta, secreta, entre a Coreia do Norte e os EUA, uma espécie de telefone vermelho. O New York Times alinhou as razões pelas quais os EUA não se meteriam com a Venezuela: perda de lucros das empresas norte-mericanas de petróleo, custo caro de importar petróleo de outros países, além das reações que dariam mais apoio ao governo venezuelano.

 

Mas Trump já brincou de apertar o botão da guerra, bombardeando a Síria e o Afeganistão, gostou e teve apoios dentro e fora do país, depois da operação de mídia de crueldades que o governo de Bashar Al Assad teria cometido, sem que fosse necessário nada disso para jogar no Afeganistão a maior bomba até agora atirado em algum lado.

 

Racionalmente ninguém levaria a sério os EUA, metido ainda no Afeganistão e no Iraque, além da Síria, se metendo a destruir a Coreia do Norte e a invadir a Venezuela, tudo ao mesmo tempo. Mas o fato de ser o presidente norte-americano com menor apoio nos primeiros seis meses do mandato, pode incitar a Trump a montar operações de mídia – como a que fez na Síria, exibindo-se escandalizado com crueldades cometidas por outros governos –, para justificar alguma operação que, acredita ele, possa elevar seu apoio interno e mostrar ao mundo que ainda está no comando da ordem no mundo.

 

Depois das tantas barbaridades que Trump já cometeu e disse, já há setores que não duvidam que ele possa se meter numa aventura nuclear contra a Coreia do Norte. E que possa querer "dar uma lição" na Venezuela, aproveitando o clima favorável no continente, antes que possa mudar, por exemplo, com o retorno de um governo hostil no Brasil.

 

O certo é que um bufão, um boquirroto, está no comando do Império e tem o botão nuclear ao alcance de seu dedo e de seu Twitter. Essa é a contribuição dos EUA hoje ao restabelecimento da paz mundial. Solução que já não deu certo na Síria e nem conseguiu ser colocada em prática contra o Irã. A Rússia saiu fortalecida, como a grande adversária do chamado Estado Islâmico, e promotora de soluções que superem a crise na Síria. Deu tudo errado para os EUA por lá. Além de que a incomodidade das relações estreitas com a Arábia Saudita implicam e desgaste, por ser o país promotor de apoio ao Estado Islâmico, agente maior do terrorismo no Oriente Médio e até mesmo em outros lugares do mundo.

 

A Venezuela não é aqui, mas pode vir a ser. Não porque um governo bolivariano se instale, espantalho que Macri usa para tentar evitar uma grande derrota nas eleições parlamentares na Argentina. Mas porque uma loucura do governo Trump na Venezuela vai se alastrar ao Brasil. Agora mesmo, estivéssemos um governo minimamente digno, teria protestado pelas ameaças de intervenção militar direta dos EUA na Venezuela. Até o conservador Vicente Fox, ex-presidente do México, protestou.

 

Uma loucura dessas de Trump na Coreia do Norte pode ter efeitos graves, com o país usando os armamentos que tem para causar o maior dano possível, pelo menos na Coreia do Sul, e o país – ou o que restar dele – se tornará mais um lugar ingovernável. Na Venezuela então, vai promover, de novo, um isolamento grave dos EUA na América Latina.

 

Mesmo a OEA – o Ministério das Colônias dos EUA, segundo a expressão de Fidel Castro – vai ser incendiada, por uma dura resistência, por manifestações de apoio em muitos países do continente. E já não é nem mais certo que os norte-americanos ainda apoiem loucuras desse tipo, depois dos fracassos e dos desgastes no Afeganistão, no Iraque e na Síria.

 

Mas é bom saber que um bufão está no comando do Império e tudo de ruim pode ocorrer a partir dali. Inclusive uma crise final da hegemonia imperial norte-americanano mundo.

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 Ilustração Marian Kamensky

 

 

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